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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Opinião: Rainha do Ar e das Trevas (Os Artifícios Negros #3)

Título Original: Queen of Air and Darkness (2018)
Autor: Cassandra Clare
ISBN:  9789897772221
Editora: Planeta (2019)

Sinopse:
Sangue inocente foi derramado nos degraus do Conselho, a fortaleza sagrada dos Caçadores de Sombras. Na esteira da trágica morte de Livia Blackthorn, a Clave está à beira da guerra civil. Uma parte da família foge para Los Angeles com o intuito de descobrir a origem da doença que está a destruir os feiticeiros.

Julian e Emma tomam medidas desesperadas para empreenderem uma perigosa missão a Faerie para recuperar o Livro Negro dos Mortos. Mas o que encontram é um segredo que pode dilacerar o Mundo das Sombras e abrir um caminho demasiado sombrio.

Numa corrida contra o tempo Emma e Julian têm de salvar o Mundo dos Caçadores de Sombras antes que o poder mortal dos parabatai os destrua e a todos os que amam.

Opinião:

Quem acompanha o blogue sabe que adora os livros relacionados com Caçadores de Sombras Cassandra Clare. Como tal, claro que estava ansiosa por ler o último volume da trilogia "Os Artifícios Negros". Rainha do Ar e das Trevas surge numa edição que enche logo os olhos. É que além da capa lindíssima, as mais de 700 páginas dão-nos a entender que vem aí mais uma história envolvente e muitas novas informações. Talvez as minhas expectativas estivessem demasiado elevadas...

As primeiras páginas foram algo confusas. Li a volume anterior desta historia, Senhor das Sombras, em 2017, ou seja, quase há dois anos. Por isso mesmo, sentia necessidade de uma leve recordações dos últimos acontecimentos e das personagens. É que esta nova parte da história retoma o desfecho do livro anterior, o que faz com que a narrativa inicia logo a um ritmo rápido. E com muitas figuras intervenientes. Deu para lembrar o ponto da situação, mas procurei um anexo com descrição rápida das personagens de modo a conseguir voltar a ligar os nomes à ideia que tinha de cada uma. Demorei um pouco neste processo e senti-me algo perdida em alguns momentos.

Passados os primeiros capítulos, senti-me bem encaminhada para uma leitura rápida e interessada. Vemos os nossos heróis envoltos em diferentes problemáticas. Por um lado, Julian e Emma estão devastados com o que aconteceu a Livvy e procuram vingança. Ao mesmo tempo, percebem que a Clave está a seguir um caminho perigoso que poderá ameaçar Caçadores de Sombras e outros seres e ainda têm de lidar com a doença misteriosa que está a afetar os feiticeiros. Isto tudo enquanto tentam escapar à maldição dos parabatai que se apaixonam.

Mas as 700 páginas não são apenas focadas nas aventuras e problemas do casal protagonista. Outras personagens voltam a ter destaque e a terem capítulos que lhes são completamente dedicados. Isto sendo que cada núcleo tem também os seus desafios próprios. Como podem ver, sim, o livro é grande mas tem muitos assuntos a serem abordados. Portanto esta é uma leitura que ocupa tempo, mas que não é aborrecida. Há sempre muito a acontecer.

A trama central passa por momentos muito distintos e reviravoltas. Algumas delas são bem interessantes, tal como a visita de a uma realidade paralela ou a reflexão sobre o que nós seríamos se eliminássemos o amor da nossa vida. Contudo, gostaria de ter visto uma maior consistência em tudo o que é relatado, uma vez que alguns momentos parece que nada acrescentaram ao plano geral dos acontecimentos. Quando aos enredos secundários, apreciei a forma como Ty lidou com o seu luto e a forma como a dor foi exposta de uma forma tão diferente, tendo em conta o seu transtorno.

Era uma grande fã do triângulo Cristina, Mark e Kieran, mas não fiquei convencida com os desenvolvimentos feitos neste núcleo. Os capítulos que lhes são dedicados pouco acrescentam ao geral da situação. Além disso, o desfecho que lhes é dado pareceu-me algo forçado na necessidade da autora de tornar a sua história o mais inclusiva possível. Senti o mesmo com o caso de Diana, que era uma figura que parecia mais revelante para a trama, mas que, no final, pareceu servir apenas para servir um propósito de inclusão. É claro que Cassandra Clare se sentiu impelida a criar um mundo onde abordava várias questões relacionadas com sexualidade e identidade de género. Tudo certo em alguns casos, que pareceram naturais, mas houve outros que mais parecem uma obrigação.

A minha parte preferida de Rainha do Ar e das Trevas é a analogia que a autora faz entre os acontecimentos centrais na Clave e a nossa realidade. Ultimamente, temos registado o aumento de casos extremistas, onde a não aceitação do outro por ser diferente de alguma forma gera um ódio que afeta a sociedade de forma profunda. Cassandra Clare fez uma ótima comparação. Desde os verdadeiros motivos do ódio à alimentação deste sistema por questões económicas e de poder, a autora faz-nos pensar. Ao mesmo tempo, alerta para a importância de resistências unidas e que entendam que o respeito e a cooperação podem ser a solução.

Gostei muito de ler este livro, apesar de, admito, estava à espera de sentir um encanto diferente. Ainda assim, gostei da mensagem geral de amor e união. E, claro, é sempre bom sentir que Cassandra Clare constói um mundo que não termina por aqui, mesmo que este arco de história tenha encontrado o seu desfecho. Fico entusiasmada por perceber que há outras personagens que poderão dar origem a novas aventuras. Agora é ficar a aguardar.


terça-feira, 30 de julho de 2019

Opinião: Annabelle

Título Original: Annabelle (2017)
Autor: Lina Bengtsdotter
ISBN:  9789897772221
Editora: Planeta (2019)

Sinopse:

Onde foi infeliz, não devia voltar.

Charlie Lager é detective em Estocolmo quando chega um pedido de ajuda para investigar uma adolescente desaparecida em Gullspång. o problema é que ela é dessa localidade, de onde saiu aos catorze anos e não quer regressar.

À medida que tenta descobrir quem era Annabelle e o que lhe aconteceu, acabará por fazer descobertas surpreendentes sobre o seu passado...

Opinião:

A sinopse de Annabelle chamou-me a atenção. Numa época em que os thrillers fazem tanto sucesso na literatura, achei que este livro poderia ser refrescante dentro do género. A ideia de um desaparecimento numa localidade de onde a detetive é natural e de onde fugiu intrigou-me. É que logo à partida existiam dois mistérios: o que aconteceu a Annabelle e o que aconteceu à agente Charlie Lager durante a infância e juventude para ter ficado tão perturbada.

Este livro de Lina Bengtsdotter é o primeiro de uma série que terá Charlie como protagonista. Apesar de serem prometidos mais volumes, aviso desde já que esta história pode ser lida sem que seja necessário esperar pelo próximo livro. O mistério de Annabelle e a verdade sobre o passado de Charlie são factos que nos são apresentados durante estas páginas.

Começamos por conhecer a protagonista desta obra e a relação que tem com o seu colega de trabalho. Percebemos que se trata de uma mulher emocionalmente instável, que vive para o trabalho. O facto de ser uma mulher numa área onde existem mais homens faz-nos perceber que Charlie luta para se destacar pelos valores profissionais que tem. Dentro deste assunto, é curioso ver como a autora conseguiu, de forma subtil, mostrar como a presença de uma mulher neste meio pode afetar colegas e até respetivas companheiras. Isto é visto pela ligação de Charlie a Hugo e pela forma como o parceiro dela, Anders Bratt, se relaciona com ela de modo a evitar os ciúmes da própria mulher.

Charlie poderá não ser a amiga que queremos ter, mas é uma figura muito curiosa de desvendar. A forma como se entrega ao caso faz-nos ficar ainda mais interessados, ainda que muitas vezes nos vejamos a condená-la por algumas atitudes. O facto de Charlie ter um passado em Gullspång leva-a a criar empatia com a desaparecida Annabelle, mas também com outros jovens. Ainda assim, gostaria que a protagonista fizesse sentir maior empatia.

É através de Charlie que percebemos as carências, isolamento e pobreza desta localidade. Ela vê para lá das aparências, porque conhece o lado mais obscuro daquela população. Através disto, a autora faz-nos refletir sobre discrepâncias sociais entre as grandes cidades e as zonas mais remotas. este facto faz com que este livro se torna mais do que um thriller, mas como uma chamada de atenção social conseguida através de uma análise pertinente. Neste caso estamos a falar da Suécia, mas facilmente identificamos o nosso país nesta situação.

Os desenvolvimentos da investigação sobre o desaparecimento de Annabelle fazem-nos entender melhor esta localidade. Acabamos por ganhar carinho por esta jovem promissora que é limitada pela família e pelo local onde vive. Os segredos de Annabelle conferem profundidade a esta figura misteriosa que acaba por se revelar na totalidade. Faz-nos pensar que existem pessoas que são realmente vítimas de circunstâncias que não podem controlar. Ainda assim, gostariamos de a ver a lutar mais por ser melhor e por fugir da decadência a que parece se socorrer.

Lina Bengtsdotter apresenta esta história através de quatro pontos de vista que vão alternando. Ao início, alguns destes focos parecem bem distantes da história principal, mas com o desenrolar da narrativa tudo se vai ligando. Ao início poderá existir alguma dificuldade em entender o motivo de um ponto de vista em concreto, que parece não ter qualquer relevância para a história principal. Contudo, mais para o fim do livro, tudo faz sentido.

 Annabelle tem um desfecho imprevisível. Confesso que gostaria de algo um pouco diferente, mas percebo que esta escolha vem dar força a uma mensagem que a autora quis passar ao longo de toda a obra. Lina Bengtsdotter revela-se uma escritora talentosa, capaz de falar de personagens humanas e de construir histórias fortes e com enredos cativantes.


sábado, 27 de julho de 2019

Opinião: Almas Gémeas

Título Original: The One (2018)
Autor: John Marrs
Tradução: Fernanda Semedo
ISBN:  9789898864895
Editora: TopSeller (2019)

Sinopse:

Basta um simples teste de ADN para se encontrar o amor. Esta é a promessa da aplicação Match Your DNA, que apresenta aos seus utilizadores o parceiro que a genética lhes destinou. Desde que este novo sistema surgiu, milhões de pessoas em todo o mundo já encontraram a sua cara-metade. Mas as consequências não se fizeram esperar: os resultados da aplicação ditaram o fim de inúmeros relacionamentos e muitos casais começaram a pôr em causa as ideias tradicionais de amor, romance e compromisso.

Christopher, Jade, Mandy, Nick e Ellie acabaram de saber os resultados dos seus testes e estão prestes a descobrir, nesta demanda pelo amor, que nem sempre o final feliz está garantido… mesmo quando encontram o seu par ideal. Afinal, até as almas gémeas escondem segredos, uns mais chocantes do que outros.

Opinião:

A premissa deste livro faz imediatamente imaginar as possibilidades. Afinal, o amor é um dos temas que mais angústia o ser humano, quer seja pela sua procura ou pelas dúvidas que pode suscitar nas mais diferentes fases de uma relação. Todos querem encontrar um par e todo querem encontrar um par perfeito, certo, digno de uma das mais belas histórias. E se, para tal, bastasse apenas um simples teste de ADN? Através de Almas Gémeas John Marr apresenta diversos protagonistas, cada um com a sua história de amor.

Num mundo em que este teste de compatibilidade existe, Christopher, Jade, Mandy, Nick e Ellie são unidos ao ser par perfeito. Através de capítulos intercalados, que surgem sempre pela mesma ordem, descobrimos de que forma esta descoberta afetou cada uma destas personagens com personalidades e vivências tão diferentes. É curioso ver como cada um encarou o match e como a vida mudou após descobrirem o resultado deste teste.

Por termos cinco figuras centrais, é natural o leitor sentir maior empatia por algumas das figuras, em detrimento de outras. E esta ligação pode mesmo mudar ao longo da trama! Ao início, gostei muito de Mandy, uma mulher madura que sofreu um grande desgosto. A reviravolta que a história dela dá é impressionante, colocando à prova a sua vontade e também o facto de ser uma pessoa frágil e facilmente manipulável. A certa altura, as decisões dela começaram a incomodar-me, mas louvo-lhe a coragem final.

Nick revelou-se uma das minhas personagens preferidas. O que lhe acontece é bastante improvável e o seu caso é o que mais nos faz pensar na obsessão pela perfeição numa relação, e em como isto é nocivo. Gostei da forma como ele lidou com o resultado do seu teste e de como, através dele, o autor nos falou que o amor pode estar onde é menos esperado.

Jade parece uma miúda igual a tantas outras, sendo que ao início não se destaca particularmente das outras personagens. Contudo, o seu desenvolvimento é muito intrigante, torna-a mais interessante, faz pensar em abnegação e em amores proibidos. O final que lhe foi dado foi, provavelmente, o mais romântico.

Christopher foi a figura que menos me agradou. Afinal, trata-se de um assassino sociopata, um homem altamente perigoso e doentio. Ainda assim, a forma como a dupla vida dele é apresentada está bem conseguida, e o match que lhe calha não poderia ter sido mais irónico. Apesar de não o apreciar, admito que revela uma visão diferente de amor.

Ellie, ao início, é algo desinteressante, mas revela-se o ponto de ligação entre todas as histórias. É através dela que percebemos em como o amor é sempre procurado, mesmo quando tal não é admitido. Também é através dela que somos levados a pensar em como simplificar algo tão especial pode tirar-lhe o encanto e prejudicar terceiros. Não esperava os desenvolvimentos que foram apresentados nos capítulos dela, mas foram estes acontecimentos que tornaram a história das cinco personagens ainda mais fortes.

Talvez devido ao intercalar de capítulos com vivências tão diferentes, talvez devido à proximidade transmitida pelo autor, Almas Gémeas revelou-se um livro que se lê com vontade e rapidez. Terminado um capítulo, surge imediatamente a vontade de continuar para outro, sendo que há sempre algo entusiasmante a descobrir em qualquer uma das personagens centrais.

John Marr conseguiu espelhar bem vários tipos de personalidades e diferentes vivências do amor. Com Almas Gémeas, vemos este sentimento nobre de forma ampla, desde o seu lado mais belo até ao quanto pode fazer sofrer e ser devastador. Um livro que se revelou uma grande surpresa.


sexta-feira, 5 de julho de 2019

Opinião: 1793

Título Original: 1793 (2017)
Autor: Niklas Natt och Dag
Tradução: Rita Figueiredo
ISBN:  9789896657925
Editora: Suma de Letras (2019)

Sinopse:

1793, Estocolmo. Quatro anos após da tomada da Bastilha e mais de um ano depois da morte de Gustavo III da Suécia, as guerras estrangeiras esvaziaram os tesouros e a nação é governada com mão de ferro pelo senhor do reino. Na esteira do falecimento do velho rei, a confiança transformou-se num bem escasso. A paranóia e as conspirações sussurradas abundam em todos os cantos. Uma promessa de violência estala no ar enquanto os cidadãos comuns se sentem cada vez mais vulneráveis aos caprichos dos que estão no poder.

Quando Mickel Cardell, um ex-soldado aleijado e ex-guarda noturno, encontra um corpo mutilado flutuando no lago malcheiroso da cidade, sente-se compelido a dar ao homem não identificado um enterro condigno. Para Cecil Winge, um brilhante advogado que é também detetive consultor na Polícia de Estocolmo, um corpo sem braços, pernas ou olhos é um enigma formidável e uma última oportunidade de acertar as coisas antes de perder a sua batalha com a morte. Juntos, Winge e Cardell vasculham Estocolmo para descobrir a identidade do corpo, encontrando o lado sórdido da elite da cidade.

1793 retrata a capacidade de se ser cruel em nome da sobrevivência ou da ganância - mas também a capacidade para o amor, a amizade e o desejo de um mundo melhor.

Opinião:

Já há muito tempo que não me deparava com uma leitura que me causasse um impacto tão forte. 1793 é um thriller histórico que nos apresenta uma Estocolmo pouco conhecida e personagens que prometem deixar uma marca no leitor. O aparecimento de um corpo mutilado num rio despoleta a ação e dá-nos a conhecer uma história que se destaca de todas as outras que li até ao momento.

Niklas Natt och Dag, o autor, dividiu a narrativa em vários momentos, sendo que em cada fase da história acompanhamos uma ou mais personagens mais relevantes. Numa primeira fase o leitor é apresentado a Mickel Cardell e Cecil Winge. O primeiro é um guarda que ficou sem um braço numa guerra e que, dentro de uma grande revolta, tenta sobreviver num mundo marcado pela probreza. O segundo é um académico que possui uma mente analítica e coloca a justiça e razão à frente de tudo. Gostei muito destas personagens, especialmente de Winge. Os dois fazem um contraste entre a força bruta e o intelecto, sendo que ambos partilham uma noção de compaixão semelhante e acabam por criar uma ligação forte e, inicialmente, improvável. Uma dupla que funciona bem.

Existem outras fases da obra que remetem para fases anteriores à da ação principal. Aqui, conhecemos outras personagens de relevo e temos acesso a informações cruciais para entender o crime, mas também para melhor entrar nesta sociedade e época. Estes capítulos podem, ao início, parecerem algo deslocados do enredo base, mas a verdade é que acabam por agarrar e revelar-se muitos pertinentes. Esta escolha foi um risco para o autor, mas fez todo o sentido. Mas fica o meu aplauso para a construção de cada uma destas figuras e pela forma como evoluíram ao longo da narrativa.

O desenrolar está bem conseguido, mesmo com a paragem da ação principal para dar espaço a capítulos dedicados a outras personagens e a um outro tempo. A leitura começa com curiosidade, mas com o decorrer das páginas dei por mim cada vez mais curiosa com a história e ansiosa para saber o que vinha a seguir. A forma como este crime foi construído e resolvido faz sentido e faz acreditar que provavelmente poderia ter acontecido. E apesar de ter sido um assassinato muito macabro, devo dizer que aquilo que mais me chocou foi mesmo a apresentação desta sociedade.

O autor focou-se mesmo no que de mais negro podemos encontrar na humanidade para a construção desta história. Percebe-se facilmente que houve uma grande investigação relativa à vida e costumes do século XVIII, sendo tudo apresentado através de uma escrita direta e crua, onde o objetivo era mostrar a realidade, por mais chocante que pudesse parecer. Não foi a pobreza que me perturbou, mas sim o desprezo pelo outro. O autor apresenta esta cidade como uma selva onde os mais poderosos, ricos e oportunistas vencem, sendo que todos os outros são maltratados sem qualquer pingo de compaixão. Existem diferentes cenários que não me saem da cabeça.

Fico impressionada por 1793 ser o livro de estreia de Niklas Natt och Dag. O autor tem um estilo muito próprio, que mistura o realismo com a obscuridade dos temas que mais podem perturbar o leitor. Ao mesmo tempo, apresenta personagens profundas, humanas e empáticas que se encontram numa história cativante e credível. Gostei muito deste livro e fico curiosa para saber que mais poderá vir das mãos deste escritor.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Opinião: A Medida do Homem

Título Original: La misura dell'uomo (2018)
Autor: Marco Malvaldi
Tradução: Marta Pinho
ISBN:  9789896657956
Editora: Suma de Letras (2019)

Sinopse:

Um caderno secreto. Uma morte por explicar. Um génio que, depois de cinco séculos, joga com a nossa inteligência e enche-nos de admiração.

Outubro de 1493. Florença continua de luto pela morte de Lorenzo, o Magnífico. Os navios de Colombo só recentemente chegaram ao Novo Mundo. Enquanto isso, Milão experimenta um renascimento sob a liderança de Ludovico, o Mouro.

Aqueles que vagueiam pelos pátios do Castelo de Milão ou ao longo dos canais Navigli encontram, frequentemente, um estranho homem, vestido com uma longa túnica rosa. Tem uma expressão calma, como alguém que está perdido nos seus próprios pensamentos. O homem, cujo nome é LEONARDO DA VINCI, vive por cima da sua oficina, com a mãe e um rapaz travesso que adora; não come carne, escreve da direita para a esquerda e luta para que os seus empregadores lhe paguem um salário. A sua fama estende-se para além dos Alpes, até à corte francesa de Carlos VIII, cujos enviados receberam uma missão secreta que diz respeito ao próprio Leonardo. Há quem diga que o inventor italiano mantém os seus desenhos mais ousados — incluindo talvez o projeto de um cavaleiro mecânico invencível — num caderno que traz escondido sob as vestes, perto do coração.

Quando um homem é encontrado morto no pátio do castelo, o Mouro pede ajuda a Da Vinci. Embora o cadáver não mostre sinais de violência, a morte é altamente suspeita: rumores de uma praga ou explicações supersticiosas precisam ser refutados rapidamente. Leonardo não está em posição de recusar o pedido do seu mestre para investigar.

Opinião:

Leonardo da Vinci é uma das figuras históricas que mais me intriga. Homem visionário e de muitos talentos, marcou profundamente o conhecimento nas mais diferentes e continua a dar que falar por excentricidades que o colocavam à frente do seu tempo. No ano que se marca os 500 anos da sua morte, a Suma de Letras apresente A Medida do Homem, livro de Marco Malvaldi que recorda esta figura ao mesmo tempo que encaminho o leitor para um thriller divertido e repleto de mistérios.

Logo nas primeiras páginas sente-se que esta é uma narrativa original. É que, apesar de se tratar de coteúdo histórico, o narrador não resiste em brincar com o leitor, integrando elementos atuais de modo a explicar algos dados. Esta opção não só ajuda a uma percepção mais imediata de alguns temas, como ainda incute um tom humorístico de que não esperava e muito me surpreendeu. Este foi um dos meus pontos preferidos.

Uma morte misteriosa é o motor desta narrativa que tem uma forte componente de intriga política. Contudo, parece que tudo demorou algo tempo para finalmente avançar. A apresentação das personagens e introdução a alguns esquemas demoram a ser apresentados, sendo que depois tudo parece mover-se demasiado rápido. Ainda assim, é curioso conhecer a corte milanesa, a forma como se deu a sucessão e algumas artimanhas necessárias para se manter o poder.

O autor conseguiu transmitir bem o poder de Ludovico, sendo sempre possível sentir o seu domínio e influência. Trata-se de um governante astuto e que retrata bem o homem da sua época. Leonardo da Vinci surge como o protegido e é curioso ver o paralelismo feito entre patrono e protegido. O autor não deixou passar ao lado algumas características mais conhecidas do artista, tais como o facto de ser vegetariano ou de não lhe ser conhecido um interesse romântico concreto, e procurou desta forma construir-lhe uma personalidade credível.

Gostava de ter visto a figura de Leonardo da Vinci explorada com maior profundidade. Estava à espera de o ver  mais no centro da narrativa e, apesar de ser uma figura muito importante, foram diversas as ocasiões em que outra personagem roubou o foco. Leonardo manteve-se misterioso, o que não é propriamente negativo, mas ficou um pouco aquém do lhe esperava dele. Tinha expectativas de que ele tivesse maior protagonismo.

O desenrolar da narrativa dá a entender que houve pesquisa histórica e preocupação em explicar ao leitor certos momentos e conceitos. Ainda assim, por vezes tive alguma dificuldade em sentir-me presa à leitura, talvez por não haver concretamente um ponto forte que fizesse tudo à volta mover. O aparecimento do corpo poderia ter essa função para a trama, mas acabava por ser um tema algo esquecido em detrimento de outros aspetos.

A Medida do Homem é um livro que proporciona bons momentos, apesar de alguns pontos menos fortes. Marco Malvaldi prova ser um escritor original, com um sentido de humor muito peculiar e com um grande interesse por esta época histórica em concreto. Ainda que não tenha concretizado o desejo de conhecer um outro lado de Leonardo da Vinci, tenho a certeza que aprendi novos aspectos sobre esta época.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Opinião: O Destino do Assassino

Título Original: Assassin's Fate (2017)
Autor: Robin Hobb
Tradução: Jorge Candeias
ISBN: 9789897731556
Editora: Saída de Emergência (2019)

Sinopse:

Fitz Cavalaria deixou para trás a pele de assassino, mas nem assim encontrou paz. Depois do rapto de Abelha, e acreditando que ela está morta, Fitz e o Bobo partem em busca de vingança. Nenhum Servo estará a salvo. A missão revela-se surpreendente, com o reencontro com velhos amigos e a descoberta de novos aliados Fitz ainda é um homem temido, e o Bobo continua a ter segredos por desvendar.
O destino dos dois amigos ficará para sempre selado à medida que as respostas aos mistérios antigos são reveladas, num final épico, intenso e empolgante.

Opinião:

É uma sensação agridoce a despedida de uma série que acompanhamos há muitos anos e que agora chega ao fim. Claro que é fantástico perceber o destino dado a cada personagem que acarinhados ao longo deste tempo, mas ler as últimas páginas é uma tarefa feita já com saudosismo e nostalgia. Foi o que aconteceu com a saga "Assassino e o Bobo", a última sobre estas personagens de Robin Hobb.

Por muito que desejasse pegar logo neste livro quando ele foi publicado, não o fiz. Queria adiar a despedida, sentir que ainda tinha tempo para viver acompanhar Fitz e o Bobo pela última vez. Mas não consegui adiar mais e a leitura começou. Primeiro com alguma lentidão, mas passados os capítulos iniciais a velocidade já começava a aumentar, tal era a curiosidade em saber tudo o que ia acontecer.

Robin Hobb vai intercalando a perspetiva de Fitz com a de Abelha. Esta decisão fornece ao leitor uma visão mais ampla da história e proporciona um ritmo mais rápido. Nos capítulos de Fitz, sentimos o desespero por vingança e por fazer algo para recuperar a filha. É curioso perceber como a personagem evoluiu ao longo da sua vida, mas conseguiu manter a essência inalterada. Percebe-se que Fitz é um homem cansado que dá a ideia de que está a guardar forças para uma derradeira demanda. Sente-se o peso que ele carrega provocado pelo anos de provações, tristezas, arrependimentos e incertezas. Contudo, também há nele um grande amor e carinho por aqueles que sempre estiveram ao seu lado. Nos capítulos de Fitz, continuamos a assistir a um Bobo misterioso que alterna entre estados. Esta continua a ser uma personagem intrigante, que parece agir pelo desespero de corrigir erros e de cumprir algo em que acredita com toda a sua fé.

Já tinha dito em opiniões anteriores que fiquei rendida a Abelha, e agora volto a repetir: que personagem incrível! Abelha passou de menina que tenta passar despercebida e que vive num mundo próprio para uma jovem que é forte e capaz de tudo para se manter viva. Há nela um espírito guerreiro que não se adivinhava à partida, mas que torna as páginas que lhe são dedicadas hipnotizantes. Arrepiei-me com o que ela sofreu, graças a descrições diretas e sem censura da autora. Nestes capítulos, Robin Hobb mostra o que de pior podemos encontrar na humanidade e faz-nos temer o que podemos fazer uns aos outros. Ainda assim, Abelha torna-se símbolo de resistência e de espírito inquebrável.

O desenrolar da história está bem conseguido, com um encadeamento orgânico e que nos faz acreditar que tudo o que é narrado poderia mesmo ter acontecido. Adorei que os navios vivos fossem introduzidos na fase final desta saga, uma vez que fiquei muito curiosa com este conceito quando Robin Hobb esteve em Portugal e falou sobre eles no Fórum Fantástico. A presença mais forte dos dragões também gera curiosidade por toda a mística, respeito e até terror a ele associados.

O desfecho fez todo o sentido. Pode não ser aquele que mais desejei, mas é o que tem maior fundamento. As últimas páginas deste livros apresentam uma despedida que honra as personagens de Fitz e do Bobo e que honra a história de ambos. A forma como isso é encarado por todos os outros intervenientes da ação é muito bonita e emotiva. Sim, as lágrimas espreitaram, mas o sorriso nos lábios também esteve presente. Assim faz sentido.

O Destino do Assassino superou as expetativas e encerrou com chave de ouro uma história que merecia terminar assim. Despedi-me de Fitz, do Bobo e de todas as outras personagens que acompanhei nesta aventura. Despedi-me, mas acredito que não os vou esquecer. É fantástico quando personagens da ficção se tornam tão marcantes, não é? Os meus parabéns a Robin Hobb.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Opinião: Acredita em Mim

Título Original: Believe Me (2018)
Autor: JP Delaney
Tradução: Ester Cortegano
ISBN: 9789896657901
Editora: Suma de Letras (2019)

Sinopse:

Claire Wright gosta de se pôr na pele de outras pessoas. Mas quem é o isco… e quem é a presa? Claire é uma inglesa estudante de teatro em Nova Iorque. Sem o green card, não tem outra saída senão aceitar o único emprego que consegue: trabalhar para uma firma de advogados especializados em casos de divórcio.

A sua missão é fingir que é uma rapariga fácil, em bares de hotel, para desmascarar maridos infiéis. Quando um dos seus alvos se transforma no objecto de uma investigação por assassinato, a Polícia pede a Claire que use todas as suas habilidades para ajudar a atrair o suspeito para uma confissão.

Opinião:

Este é o segundo livro que li de JP Delaney. Já tinha ficado impressionada com A Rapariga de Antes, por isso as expectativas para este Acredita em Mim estavam altas. Começar a ler um livro já há espera de uma grande história pode ser frustrante, pois estamos mais sensíveis para as fraquezas da trama. Felizmente, as minhas expectativas foram superadas e posso desde já dizer que fiquei mais cativada a esta história do que a primeira que li do autor. Acredita em Mim tem dois pontos muito fortes: as personagens bem construídas e o enredo complexo.

O leitor pode não simpatizar com a protagonista nem aceitar bem as suas escolhas, mas uma coisa é certa: Claire não deixa ninguém indiferente. Vamos descobrindo as várias camadas de personalidade desta figura ao longo da trama. É ainda impressionante que, com o decorrer da história, apareçam muitas dúvidas quanto ao que é real sobre Claire e ao que é pura criação da sua mente. Afinal, ela é apresentada como uma atriz que se entrega por completo aos papéis que representa, muitas vezes tendo dificuldade em distinguir a linha que separa a sua pessoa daquela que está a representar. Perceber quem é a verdadeira Claire é um exercício curioso.

Logo ao início entendemos que Claire é alguém que faz tudo para atingir os seus objetivos, alguém que é carente de afetos e precisa de reconhecimento e atenção. Estes seus traços de personalidade levam-na a uma situação em que tem de ajudar a polícia. A sua missão é tentar perceber se o suspeito de um crime é ou não o responsável pela morte da mulher. Esta premissa parece algo simples, mas com o passar das páginas torna-se cada vez mais intrigante e complexa. É que chagamos a um ponto em que já nem nós sabemos o que é missão e o que é real.

A trama é sempre acompanhada do ponto de vista de Claire e pode ser dividida em vários momentos distintos. Em cada um deles, vemos um novo traço da personalidade desta protagonista e somos levados a pensar sobre quem ela realmente é, quem foi na verdade o autor do crime, para onde tudo se está a encaminhar. Existem diversas reviravoltas inesperadas, e confesso que não estava à espera da conclusão desta obra. Ainda assim, fiquei muito satisfeita com a forma como tudo culminou. Faz sentido.

Existem detalhes maravilhosos nas escrita. Sendo Claire uma atriz apaixonada e dedicada, são vários os episódios que ela relata através do esquema de um guião. Esta incorporação ao longo da história contribui para um ritmo rápido da leitura e aumenta no leitor a ideia da dedicação da protagonista à representação. Uma ideia bem pensada e conseguida com sucesso. A inclusão de temas de Charles Baudelaire também acentua a parte artística e ajuda na construção do criminoso e da sua mente.

Acredita em Mim é um livro que agarra desde a primeira página. A história está muito bem conseguida e as personagens apresentadas fazem-nos acreditar que as pessoas não são aquilo que aparentam e que realmente não se deve confiar totalmente em ninguém. Uma conclusão irónica, tendo em conta o título. Uma leitura imperdível para todos os que gostam de um bom thriller psicológico e de uma história que está sempre a surpreender.

domingo, 28 de abril de 2019

Opinião: Uma Gaiola de Ouro

Título Original: En bur av guld (2019)
Autor: Camilla Läckberg  
Tradução: Elin Baginha
ISBN: 9789896657420
Editora: Suma de Letras (2019)

Sinopse:

Aparentemente, Faye parece ter tudo. Um marido perfeito, uma filha que muito ama e um apartamento de luxo na melhor zona de Estocolmo. No entanto, algumas memórias sombrias da sua infância em Fjällbacka assombram-na e ela sente-se cada vez mais como se estivesse presa numa gaiola de ouro. Antes de desistir de tudo pelo marido, Jack, era uma mulher forte e ambiciosa. Quando ele a engana, o mundo de Faye desmorona-se e ela tudo perde, ficando completamente devastada. É então que decide retaliar e levar a cabo uma cruel vingança…

"Uma Gaiola de Ouro" é um romance destemido sobre uma mulher que foi usada e traída, até tomar conta do próprio destino. Uma história dramática sobre fraude, redenção e vingança.

Opinião:

Este foi um dos livros mais cativantes e envolventes que li nos últimos tempos.  Uma Gaiola de Ouro é um thriller psicológico que, mais do que contar uma boa história, parece procurar chamar a atenção para as fragilidades e forças femininas. É um grito feminista. Através da história de Faye, Camilla Läckberg deixa o leitor agarrado a este livro até à última página. É difícil parar de ler.

Desde a primeira página que me senti cativada com esta leitura. As páginas iniciais dão-nos uma visão terrível do futuro, sendo que logo a seguir começamos a narrativa no tempo da história. É aí que conhecemos a protagonista. Faye é uma mulher da classe alta que é completamente devota à família, mais concretamente ao marido, mas que se anula perante as suas fragilidades. Os seus pensamentos e ações são sempre voltados para o que poderá agradar Jack, o homem com quem se casou. Em contraste, o leitor percebe que o marido é negligente e que já perdeu o interesse em Faye. Logo aqui surge uma forte empatia por esta mulher que deseja ser amada e valoriza.

Mas Faye não se resume às suas inseguranças e à abnegação. Ao longo da leitura, percebemos que se trata de uma mulher de grande inteligência, mas que se colocou sempre em segundo plano em detrimento dos outros. Anos de cedências e de pressão psicológica acabaram por a quebrar e toldar o próprio discernimento, levando-a a um ponto de pura fragilidade. Aquilo que o leitor já adivinhava acontece e é aí que assistimos à queda e reerguer de Faye. Ela renasce das próprias cinzas com um objetivo em mente: vingança. É aqui que entramos na segunda parte desta obra.

Ao longo da narrativa, a autora vai-nos apresentando a outras figuras femininas que representam mulheres que também tiveram que lutar pela sua identidade, voz e felicidade. Estas personagens reforçam muitas das ideias gerais da obra e fazem o leitor pensar na coragem necessária para se lutar por uma vida mais plena. Destaco Chris, cuja irreverência e independência não impedem um lado mais romântico e sonhadora, e Kerstin, que é dona de uma vida de sofrimento e angústia mas que conseguiu encontrar o seu caminho.

O enredo está construído de forma a ser difícil parar de ler. A história em si é interessante e tem uma série de reviravoltas que estimulam a leitura. Quero ainda salientar o facto de a autora levar o leitor a ter sempre dúvidas quanto ao verdadeiro fundo da protagonista. Afinal, Faye tem um passado obscuro, o que nos deixa sempre a pensar sobre até que ponto ela é capaz de ir para atingir os seus objetivos. No final, temos a certeza que ela é uma mulher de quem não gostaríamos de ser inimigos.

Uma Gaiola de Ouro é o thriller do momento. Com uma história forte e personagens que nos parecem reais, faz o leitor ficar agarrado a cada página na expectativa de saber o que vem a seguir. Faye não será facilmente esquecida, disso vos garanto. Um livro que recomendo.


 

quinta-feira, 21 de março de 2019

Opinião: Sangue & Fogo (A História dos Reis Targaryen # 1 - partes 1 e 2)

Título Original: Fire and Blood (2018)
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
ISBN: 9789897731365 e 9789897731464
Editora: Edições Saída de Emergência (2018 e 2019)

Sinopse:

Séculos antes dos acontecimentos de A Guerra dos Tronos, a Casa Targaryen – a única família de senhores dos dragões a sobreviver à Perdição de Valíria – fez de Pedra do Dragão a sua residência. Sangue e Fogo inicia a sua narração com a história do lendário Aegon, o Conquistador, criador do Trono de Ferro, e prossegue com o relato das gerações de Targaryen que lutaram para manter o icónico trono, até à guerra civil que praticamente destruiu esta dinastia.

Porque foi a Dança dos Dragões tão devastadora para os Sete Reinos? Quem é o legítimo herdeiro do Dragão? E que papel desempenhou a Casa Stark nesta luta de poder? Estas são algumas das questões a este livro dá resposta pela mão de um reconhecido meistre da Cidadela.

Opinião:

George R. R. Martin decidiu revisitar a história de uma das famílias mais intrigantes de "As Crónicas de Gelo e Fogo": os Targaryen. Enquanto os fãs aguardam (im)pacientemente pela continuação da saga de sucesso, o ator apresenta "A História dos Reis Targaryen", uma obra que apresenta todos os monarcar que subiram ao Trono de Ferro desde Aegon, o Conquistador, primeiro desta dinastia.

Tal ideia pode fazer parecer que Sangue & Fogo poderá resultar numa obra monótoma, aborrecida e com pouco a acrescentar a este universo. Quem pensa assim não poderia estar mais enganado. É que o resultado é o oposto desta ideia preconcebida. George R. R. Martin volta a provar que é um verdadeiro mestre. O autor não só apresenta um mundo complexo, como ainda nos deixa cativados com as personagens e intrigas que as envolvem.

É muito interessante atribuir uma personalidade vincada a cada um dos nomes de que já tínhamos ouvido falar. Agora, estas figuras surgem à nossa frente, são dotadas de características distintas, fazem-nos acreditar que realmente poderiam ter existido. Este continua a ser um dos pontos fortes do autor: construir personagens bem humanas, com as suas qualidades, defeitos e peculariedades. Desta forma, é fácil distinguir cada personagem e perceber de que forma influenciaram o tempo em que viveram e como modificaram os Sete Reinos.

Ao fazer esta leitura, fiquei com a sensação de que estava a ler um livro de História, de um ponto de vista mais íntimo. Isto porque a forma como os factos são apresentados estão tão bem fundamentados que quase fazem acreditar que tudo aquilo poderia ter acontecido. Isto é fantástico, uma vez que estamos a falar de um mundo imaginário no qual existem dragões. Pode-se dizer que esta sensação resulta de uma narrativa credível, fortemente inspirada na realidade, sem receios de chocar ou de mostrar o pior e melhor da humanidade.

Ao observar diferentes reinados, é impossível não comparar os reis, os trabalhos feitos e eleger os nossos favoritos. Confesso que gostei de Aegon, o Conquistador, mais pelo seu lado pioneiro e pelo papel desempenhado por cada irmã do que propriamente pela personalidade do rei. Jaehaerys I e Alysanne facilmente conquistam a simpatia dos leitores por terem sido os mais próximos do povo e das suas necessidades. Aegon III pode ter sido o que menos me agradou, talvez por nunca ter entendido bem quem ele era devido à personalidade reservada e pouco luminosa.

Fica ainda a ideia de que um bom rei poderá sempre deixar uma mancha ou algo mal resolvido que vai prejudicar o reinado do seu sucessor. Como tal, é ingrato avaliar o trabalho de cada monarca pela estabilidade conseguida, uma vez que, muitas vezes, os problemas são herdados de questões mal resolvidas de governos anteriores. Ainda assim, torna-se interessante observar a fama com que cada um fica em comparação com as verdadeiras preocupações e trabalhos feitos.

Terminado o volume 1 de Sangue & Fogo, surge a vontade de ler a segunda parte desta obra que apresenta toda a disnatia Targaryen. É uma obra muito bem conseguida e que vem acrescentar bases e profundidade às "Crónicas de Gelo e Fogo". Estou curiosa para conhecer os antepassados de Daenerys e, claro, para ler o Winds of Winter.



terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Opinião: O Garfo, a Bruxa e o Dragão (Histórias de Alagaesia #1)

Título Original: The Fork, The Witch and The Worm (2018)
Autor: Christopher Paolini
Tradução: Sofia Ribeiro
ISBN: 9892344111
Editora: Asa (2019)

Sinopse:

Bem-vindo novamente ao mundo de Alagaësia. Já passou um ano desde que Eragon partiu em busca do lugar perfeito para treinar uma nova geração de Cavaleiros do Dragão. Agora, debate-se com as inúmeras tarefas que tem pela frente: construir a Fortaleza do Dragão, entender-se com os fornecedores, cuidar dos ovos de dragão e lidar com os aguerridos Urgals e os arrogantes elfos. Isto até ao momento em que uma visão dos Eldunarí, visitantes inesperados, e uma lenda Urgal trazem uma necessária distração e um novo desafio…

Neste volume encontrarás três histórias originais que decorrem em Alagaësia, a par com o desenrolar da aventura de Eragon. E ainda um excerto das Memórias da inesquecível bruxa e adivinha Ângela, a herbalista, escrito por Ângela Paolini, irmã do autor e a mulher que serviu de inspiração à personagem!

Opinião:

Já passaram bons anos desde que Christopher Paolini apresentou o livro final de "O Ciclo da Herança". Na altura, o autor era bem jovem, e isso refletia-se na sua escrita. Lembro de achei os livros pouco originais, ingénuos e previsíveis. Recentemente, o autor decidiu voltar a este mundo, o que resultou na publicação de O Garfo, a Bruxa e o Dragão. Peguei neste livro, com vontade de perceber como Paolini tinha evoluído e que surpresas relacionadas com Alagaesia ainda poderia trazer. Confesso, desde já, que não fiquei impressionada.

O Garfo, a Bruxa e o Dragão é a reunião de três contos que se passam no mundo de Eragon e Saphira. Estas duas personagens surgem ao longo da obra, mas estão muito longe de serem os elementos fulcrais dos contos. Surgem apenas como uma visita repentina, só para o leitor não se esquecer que ainda estão lá e que ainda podem viver novas aventuras. Contudo, estas ainda não chegaram. Nesta fase, parecem apenas ser os ouvintes de outras três histórias, cada uma com uma lição que os poderá ajudar nesta fase de preparação e mudança.

Em "O Garfo", voltamos a encontrar Murtagh. Percebemos o que esta personagem mais sombria anda a fazer, ao mesmo tempo somos levados a pensar que uma fuga não afasta os problemas e que é preciso ter coragem para reparar erros cometidos. Segue-se "A Bruxa", que tem Angela e Elva como figuras centrais. Aqui, percebemos como as duas se tornaram unidas e percebemos como é possível viver com dor. "O Dragão" pareceu-me ser a história mais forte, uma vez que surge quase como uma lenda. É fácil comparar esta narrativa com a destruição provocada por Smaug em O Hobbit, mas Christopher Paolini preferiu explorar a convivência diária com o que nos pode destruir e como isso nos afeta e nos molda.

Apesar de apreciar que cada conto encerre uma lição importante para Eragon nesta fase que está a atravessar, gostaria que as narrativas tivessem maior ligação. A forma como estão expostas faz parecer que se tratam de textos que o autor escreveu de forma independente e que depois decidiu juntar para fazer mais um livro. Além disso, senti que esta obra não apresenta grande evolução em termos de escrita, intriga e construção de personagens. Tudo parece algo ingénuo, característica que fica ainda mais em evidência em certos diálogos pouco naturais e algo constrangedores.

Recordo que, quando Eragon foi publicado, Paolini foi acusado de não se conseguir afastar de outras grandes obras da literatura fantástica, sendo fácil perceber onde se inspirou. Curiosamente, voltei a sentir o mesmo nestes três contos. Admito que seja cada vez mais difícil criar algo completamente original, mas ao ler estes contos consegui fazer, facilmente, associações com outros livros que já li. Gostaria de ter ficado surpreendida, mas tal nunca aconteceu.

Tinha esperança que O Garfo, a Bruxa e o Dragão surgisse como uma evolução positiva quando comparado com os livros de "O Ciclo da Herança", mas tal não aconteceu. Trata-se de um livro que é lido num instante e que não acrescenta quase nada de novo a este universo. Parece-me surgir como um experimento e não como uma obra mais relevante e que marque o leitor. Depois disto, não sei se vou ter grande curiosidade relativamente a trabalhos do autor que ainda possam surgir.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Opinião: Silêncio de Gelo

Título Original: Rof (2012)
Autor: Ragnar Jónasson
Tradução: Maria da Fé Peres
ISBN: 9789898917256
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

Em 1955, dois jovens casais mudam-se para o fiorde desabitado e isolado de Hedinsfjördur, na Islândia. A sua estadia termina quando uma das mulheres morre de forma misteriosa. O caso nunca é resolvido. Cinquenta anos mais tarde, surge uma fotografia antiga que mostra que, afinal, os dois casais não se encontravam sozinhos no fiorde.

Em Siglufjördur, uma pequena cidade próxima, o jovem polícia Ari Thór tenta perceber o que realmente aconteceu naquela noite fatídica, após ter sido procurado por um familiar da vítima. Numa altura em que a cidade se encontra de quarentena devido a um vírus mortal, Ari conta apenas com a ajuda de Ísrún, uma jornalista de Reiquiavique, para desvendar o caso. Porém, Ísrún encontra-se também a investigar um outro caso sinistro, que envolve o rapto de um bebé e o atropelamento mortal do filho de um ex-político.

Conseguirão eles resolver dois casos que só encontram explicação num passado mergulhado no silêncio?

Opinião:

Ragnar Jónasson é apresentado como um autor de destaque dentro do thriller nórdico. Ainda não tinha lido nenhuma das suas obras, e decidi estrear-me com Silêncio de Gelo. É certo que se trata de um livro que se encontra inserido no meio de uma série, mas isso não impede uma leitura clara e atenta. Além disso, foi um prazer voltar à Islândia, país que se destaca pela beleza natural, invernos rigorosos e concentração populacional em poucos pontos do território, deixando espaço para o isolamento.

Vi este livro quase como dividido em duas histórias. Num lado temos um casal jovem que parece estar ameaçado por uma figura misteriosa, sendo que do outro temos um homem que encontrou uma fotografia de família antiga e pediu ajuda à polícia para saber a identidade de uma figura que desconhece. Em ambos os casos, o que parece ser algo simples torna-se complicado e acaba por trazer revelações inesperadas e mais complexas do que se esperava. E os novos dados que vão surgindo nas duas situações vão aumentando a curiosidade do leitor quanto ao que ainda está para chegar.

O agente de autoridade Ari Thór e a jornalista Ísrún são as figuras responsáveis pela resolução dos dois casos. Talvez por este ser o quarto livro de uma série, senti que ambas as personagens foram colocadas na trama como se eu já as conhecesse, o que não corresponde à verdade. Não é que sinta que existiam informações subentendidas que eu deveria entender, mas faltou espaço para a apresentação de cada uma, de modo a que não consegui criar empatia com estas duas figuras. Fiquei com a ideia de que se tratam de personagens reservadas, retrospectivas e completamente dedicas ao seu trabalho. Não posso dizer que me tenham marcado.

Apreciei a resolução dos casos e a forma como o autor conseguiu explorar a natureza humana de cada um dos envolvidos. Numa das situações, fica a ideia de que não conseguimos fugir dos erros que cometemos no passado e que o castigo acaba sempre por chegar, ainda que não seja bem aquele que era esperado. Na outra, somos levados a pensar em segredos de família e na forma como certas pessoas acabam por ser manipuladas por quem acredita estar a ser protegido. A ideia de vingança é também bastante presente, com o autor a alertar para os perigos da execução da mesma, uma vez que muitas vezes pode afectar inocentes e trazer um peso ainda maior à vida de quem já foi magoado. A dificuldade da aceitação da verdade é também uma componente que marca esta leitura.

Ao longo da narrativa, é impossível não reparar num ambiente distinto. Ao longo da obra, sente-se o peso da solidão, do afastamento, do silêncio dos lugares inóspitos e do afastamento premeditado dos outros. Consegui sentir a atmosfera da Islândia, tanto na descrição dos locais como na introspecção e reflexão das personagens. O autor surpreendeu-me com esta habilidade, tanto como com a capacidade de criar intrigas sólidas, inesperadas e coerentes.

Silêncio de Gelo revelou-se uma leitura agradável. A história parece que é acompanhada por uma sombra que nos faz recordar que todos os seres humanos escondem um lado mais negro. Apesar de alguns momentos mais parados e até irrelevantes, o resultado final acaba por ser muito positivo. Fiquei com vontade de continuar a acompanhar este autor.



domingo, 24 de fevereiro de 2019

Opinião: Que Sombra Te Acompanha

Autor: Tiago Gonçalves
ISBN: 9789898921000
Editora: Mosaico (2018)

Sinopse:

Todos somos emigrantes, nem que seja só uma vez. Todos deixámos o nosso lugar de origem para vivermos noutro lugar, nem que seja só por algum tempo. Pouco importa se vamos de uma cidade para outra, de um país para outro, ou se apenas de um lugar para outro. Talvez só abandonemos as raízes em que nascemos por outras completamente diferente. Talvez só emigremos profissionalmente. Pouco importa, as dúvidas acompanham-nos, as questões que colocámos também.
Neste livro acompanhamos um sonhador que partiu na procura do mundo que lá não tinha. Agora ele é uma sombra do que foi, sem a alma de outrora, vivendo confortado com pouco conforto. Nesta tarde, contudo, encontra mais do que procura e do que pediu. Nunca quis mas hoje revisita a sua vida numa conversa que é mais que um fortuito reencontro.

Opinião:

Este é um livro pequeno que convida o leitor a fazer uma pausa. Que Sombra te Acompanha não só nos faz parar na nossa rotina para uma curta leitura, como ainda nos leva a refletir sobre o que nos trouxe ao momento em que nos encontramos e faz pensar sobre o que desejamos daqui para a frente. Desta forma, Tiago Gonçalves prova que pequenas narrativas podem deixar a sua marca no leitor.

Logo no início conhecemos Alfredo, o protagonista desta obra. Percebemos que se trata de um homem que já passou por muito e que encontra conforto no movimentos e caos da cidade. Está conformado com esta existência, surgindo, no entanto, mais como um observador. Pelo menos é nesta fase que o encontramos, mais introspectivo e pouco activo. Tal é aceite com calma, até que existe um elemento que abala esta serenidade e o leva a questionar-se.

Em oposição com a cidade, surge a aldeia onde viveu na infância. Alfredo é levado a confrontar o movimento, novidade, esperança e sonho que ambicionava encontrar no espaço urbano com a calmaria, estagnação, previsibilidade e declínio do que é rural. Contudo, é interessante constatar que nem tudo o que podia ter sido assim se tornou, e nem tudo do que se queria escapar era realmente nefasto. Alfredo reconhece que o conjunto das suas experiências fazem dele quem é e que não deve desprezar as suas origens.

O título desta obra remete para o lado mais negro da vida. Afinal, o autor recorda que todos nós guardamos mágoas, dúvidas, arrependimentos, desilusões e tristezas, sendo que a sucessão destas nos transformam em quem somos. A luz está lá, com todas as qualidades inerentes, mas nunca devemos esquecer a sombra nem ignorá-la. Por vezes temos que a confrontar para continuar a evoluir. Temos que a reconhecer.

A leitura é feita com prazer, sendo fácil reparar no gosto do autor pela escrita. Existem algumas repetições ou ideias expostas de forma pouco directa, mas tal serve para, talvez, conferir um aspecto mais poético à obra. No final, percebemos que é fácil sentir empatia por este homem, que por um breve momento colocou o seu percurso em perspectiva, ao mesmo tempo que imagina o que será do seu futuro. E tal como ele, também o leitor é convidado a parar e a ser melhor do que aquilo que está actualmente a ser. A continuar a sonhar e a lutar por isso.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Opinião: O Homem das Castanhas

Título Original: Kastanjemanden (2018)
Autor: Soren Sveistrup
Tradução: Rita Figueiredo
ISBN: 9789896657390
Editora: Suma de Letras (2018)

Sinopse:

Uma tempestuosa manhã de Outubro. Num tranquilo subúrbio de Copenhaga, a Polícia faz uma descoberta terrível. No recreio de um colégio, uma jovem é encontrada brutalmente assassinada, e falta-lhe uma das mãos. Pendurado por cima dela, um pequeno boneco feito com castanhas.

A jovem e ambiciosa detective Naia Thulin é designada para desvendar o caso. Com o seu colega Mark Hess, um investigador que acabou de ser expulso da Europol, descobre uma misteriosa prova sobre «o homem das castanhas», nome com que os media baptizaram o assassino.

Existem evidências que o ligam a uma menina que desapareceu um ano antes e foi dada como morta: a filha da ministra Rosa Hartung. Mas o homem que confessou o assassínio da menina, um jovem que sofre de uma doença mental, já está atrás das grades e o caso há muito encerrado.

Quando uma segunda mulher é encontrada morta e, junto dela, mais um boneco de castanhas,

Thulin e Hess suspeitam de que possa haver uma ligação entre o caso Hartung e as mulheres assassinadas. Mas qual…? Thulin e Hess entram numa corrida contra o tempo. O assassino tem uma missão… e está longe de a terminar.

Opinião:

Numa época em que os thrillers estão entre os livros mais procurados, por vezes torna-se complicado escolher um que ainda consiga surpreender e marcar pela diferença. Quando comecei a ler O Homem das Castanhas, estava curiosa com o que esta obra poderia trazer de novo ao género. Apesar de alguns pontos que podem ser encontrados noutras histórias deste estilo, uma coisa vos garanto: este é um livro que marca pela intensidade, personagens cativantes, reviravoltas e dificuldade em desvendar o grande mistério da narrativa.

Thulin e Hess são os dois agentes de forças policiais que acompanhamos na resolução de um crime. São duas figuras diferentes, que têm em comum o facto de estarem desiludidas com a situação profissional atual. Ainda assim, as suas mentes são desafiadas por este mistério e, apesar de tudo, eles empenham-se ao máximo para o resolver. É curioso que, ao início, sentia-me cativada com a independência feminina de Thulin, mas no final estava rendida ao misterioso Hess. Estas duas figuras são a prova de que as primeiras impressões podem trazer conclusões erradas e que as pessoas são muito mais do que aquilo que aparentam e do que os rumores que correm sobre elas.

 A construção deste enredo está incrível. Ao início, Soren Sveistrup parece estar a contar diferentes histórias dentro do mesmo livro, sem que nada faça adivinhar em como elas se tocam. Contudo, com o avançar da leitura, torna-se impressionante constatar todas as ligações que existem, ficando provando que esta é uma narrativa que foi bem pensada. O leitor fica sempre intrigado com o que está a acontecer e quer continuar a ler para saber o que vem a seguir, na ânsia de perceber o cruzamento entre os diferentes dados disponibilizados. No final, é impossível não ficar impressionado com a mestria do autor em ligar tudo de forma tão natural e credível.

Os crimes em questão são descritos de uma forma que choca o leitor. Não estamos lá a ver o que se passou, mas é impossível não sentir arrepios e até aversão com algumas das descrições. Nestes casos, o ponto que sempre mais me intriga é a motivação do assassino ou assassinos. Devo dizer que nesta obra esse factor está muito bem conseguido. Tanto que, ao longo da leitura, somos levados a questionar, por diversas vezes, os limites mais extremos da natureza humana. Custa acreditar que tal maldade e sadismo possa existir, especialmente quando o seu perpetuador acredita piamente na verdade dos seus atos.

Quando estou a ler este tipo de histórias, há algo que é inevitável fazer: tentar a tudo custo adivinhar quem cometeu o crime, como e porquê. Fico orgulhosa quando chego a estas conclusões antes do susposto, mas também fico com a sensação que o autor não se esforçou para esconder estes mistérios. Sobre  O Homem das Castanhas, posso dizer-vos: não estive nem lá perto! Fiquei muito surpreendida com as revelações. O autor teve a excelente capacidade de nos fazer sempre olhar para outro lado enquanto escondia a verdade. No final, tudo é exposto de uma forma que nos deixa impressionados e sem perder a coerência e força da história. Aplaudo esta capacidade.

O Homem das Castanhas revela-se um livro que se destaca dentro do seu género. Com um ambiente negro, personagens reais, uma história bem construída, crimes impressionantes e reviravoltas impressionantes, esta obra tem tudo para agarrar o leitor da primeira à última página. Trata-se do primeiro romance de Soren Sveistrup, guionista de vários sucessos de televisão. Só espero que o autor não fique por aqui nas obras literárias e que os próximas tenham a mesma qualidade desta. Recomendo.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Opinião: Vox

Título Original: Vox (2018)
Autor: Christina Dalcher
Tradução: Renato Carreira
ISBN: 9789898917584
Editora: TopSeller (2019)

Sinopse:

Estados Unidos da América. Um país orgulhoso de ser a pátria da liberdade e que faz disso bandeira. É por isso que tantas mulheres, como a Dra. Jean McClellan, nunca acreditaram que essas liberdades lhes pudessem ser retiradas. Nem as palavras dos políticos nem os avisos dos críticos as preparavam para isso. Pensavam: «Não. Isso aqui não pode acontecer.»
Mas aconteceu. Os americanos foram às urnas e escolheram um demagogo. Um homem que, à frente do governo, decretou que as mulheres não podem dizer mais do que 100 palavras por dia. Até as crianças. Até a filha de Jean, Sonia. Cada palavra a mais é recompensada com um choque elétrico, cortesia de uma pulseira obrigatória.
E isto é apenas o início.

Opinião:

Fiquei com vontade de ler este livro assim que vi a capa. "E se cada mulher só tivesse direito a 100 palavras por dia?" Esta questão incomoda. Perturba. Enquanto mulher, estou grata pelo trabalho das que vieram antes de mim e lutaram pelos direitos que atualmente tenho. Também eu luto e preocupo-me com a igualdade de género, sabendo que, apesar de diferentes, homens e mulhres têm de ter em mãos as mesmas possibilidades e oportunidades para fazerem das suas vidas o que bem entenderem. Contudo, o mundo em que vivemos está a passar por mudanças. Apesar de vivermos de forma aparentemente tranquila, percebemos que existem movimentos com visões extremistas a ganharem força. É inevitável pensar nos perigos que podem surgir enquanto todos temos por garantindo que nada poderá piorar. Mas, e se houver um retrocesso? E se as mulheres passarem a ser vistas como figuras submissas à vontade dos homens? E se lhes tirarem a voz? E se cada uma apenas tiver direito a 100 palavras por dia?

Christina Dalcher faz-nos pensar e temer, ao mesmo tempo que lança o aviso para estarmos atentos e não permitirmos que o retrocesso aconteça. Através de Vox, a autora apresenta uma sociedade em que os primeiros sinais de mudança foram ignorados pela maior parte da população, sendo que a ameaça apenas se tornou real quando era impossível contorná-la. Através da protagonista desta história, Jean, somos levados a entender o que uma mulher educada e formada sentiu quando a sua voz lhe foi tirada. É que, aqui, a voz não é apenas o som que cada um produz para comunicar. É fundamentalmente a própria pessoa, com todos os seus sonhos, esperanças, desejos, ambições e pensamentos.

Jean passa de um extremo para o outro. A mulher que conciliava família e carreira passou a ser relegada para um papel submisso em que não é valorizada. Apesar de não ter simpatizado com esta personagem, devido à sua personalidade, a verdade é que consegui sentir empatia devido à situação em que se encontra. Percebi a revolta contra o marido e a linha ténue que existe entre amor e ódio. Entendi a forma como encarava cada filho, sendo mais protetora com a  filha e tendo um certo ressentimento pelo mais velho. Compreendi o desprezo sentido pelas mulheres que se entregaram completamente a esta condição e o ressentimento por não ter tido a coragem de ter lutado mais pelos seus direitos.

Se esta vivência perturbada, é ainda mais chocante perceber como as mulheres são capazes de prejudicar as suas congénres. Estes momentos fazem pensar no que é a maldade pura. Além disso, ao longo da história, ficava impressionada pela forma como os homens viviam este novo modelo de sociedade, uma vez que uns o faziam pela crença cega de estarem a seguir o que acreditavam ser certo, enquanto outros o faziam pelo poder. Ao mesmo tempo, é com esperança que percebemos leves sinais de rebeldia sugeridos por diferentes figuras. É nestes momentos que somos levados a acreditar na bondade e na possibilidade de mudança e melhoria.

Ao longo desta narrativa, somos levados por situações diferentes que vão culminar num momento crucial. O facto de haver sempre algo a acontecer faz com que a leitura seja rápida e feita com vontade. Fiquei mais impressionada pela forma como a protagonista nos dava a conhecer a sua experiência nesta sociedade do que com a história de amor que acaba por se desenrolar. Percebo o que a motivou, mas pareceu-me algo fraca, até pela forma como a autora decidiu concluir o assunto. Esta componente faz distrair da força da mensagem que pretende ser transmitida.

Vox é um livro pertinente hoje e sempre. Tem uma mensagem que deve ser sempre recordada, mesmo quando damos por garantido que estamos numa situação de igualdade. A autora faz-nos dar valor pelos direitos conquistados ao longo dos anos, fazendo-nos estar atentos às ameaças que podem surgir. Mais do que entretenimento, é uma verdadeira chamada de atenção. Recomendo.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Opinião: O Dia em que Perdemos a Cabeça

Título Original: El dia que se perdió la cordura (2017)
Autor: Javier Castillo
Tradução: Jorge Pereirinha Pires
ISBN: 9789896657376
Editora: Suma de Letras (2019)

Sinopse:

Centro de Boston, 24 de Dezembro, um homem caminha nu, trazendo nas mãos a cabeça decapitada de uma jovem mulher.
O Dr. Jenkins, director do centro psiquiátrico da cidade, e Stella Hyden, agente do FBI, vão entrar numa investigação que colocará em risco as suas vidas e a sua concepção de sanidade. Que acontecimentos fortuitos ocorreram na misteriosa Salt Lake City há dezassete anos? E por que estão todos a perder a cabeça agora?

Opinião:

Fico sempre impressionada com a capacidade que alguns autores têm em trocarem as voltas ao leitor ao longo de uma história. Javier Castillo faz isso em O Dia em Que Perdemos a Cabeça. O primeiro capítulo deixa uma ideia quase clara do que poderá ter acontecido. Um homem surge na rua nu, coberto de sangue e a segurar a cabeça de uma mulher. Esta ideia leva-nos a uma série de ideias preconcebidas e que condicionam a nossa percepção do rumo da trama. Mas será esta a linha de pensamento correta?

Este é um thriller que não deixa de surpreender. Apesar das 450 páginas, trata-se de um livro que se lê com rapidez e vontade, tal é a ânsia de desvendar o que vem a seguir neste mistério. Existe sempre algo inesperado no enredo, e as próprias personagens revelam-se de formas diferentes ao longo da leitura. Começamos ao lado do dr. Jenkins e de Stella Hyden na tentativa de perceber quem é aquele homem que surgiu com uma cabeça nas mãos, o que ele fez e os motivos para o fazer. Nada é claro, e, com o passar das páginas, começamos até a duvidar das figuras que tínhamos como centrais e de maior moralidade.

Paralelamente, existem capítulos que relatam acontecimentos de há 17 anos. Ao príncipio pode parecer que estes relatos nada têm a ver com a trama principal, mas com o tempo começamos por perceber as ligações. E estas tornam-se cada vez mais fortes. Acompanhamos a adolescente Amada numas férias de família que começam com sinais estranhos mas macabros. Só com o tempo percebemos como tal está relacionado com a atualidade e com o crime hediondo relato no início da trama. E estas ligações estão muito bem feitas. Algumas acabam por serem fáceis de adivinhar, mas outras nem tanto.

O desenrolar da ação é rápido e impele para uma leitura ritmada e interessada. Os capítulos pequenos e que apresentam sempre pontos de vista diferentes ajudam a manter a vontade de ler e de desvendar os segredos escondidos nesta trama que parece estar a ser contada do início para o fim. As personagens podem carecer de maior estrutura, mas a força da narrativa faz-nos conseguir perdoar isso e levar-nos a concentrar no enredo intrincado.

A conclusão acaba por ser aquela que adivinhamos já perto do final, mas, ainda assim, o autor consegue manter um segredo. Resta saber se tal revelação é suficiente para a criação de um segundo volume ou se tal serve apenas para manter o leitor em suspense e arrebatado já mesmo quando está a fechar o livro. Sinceramente, tinha interesse em saber o que ainda poderia vir por aí, até de forma a conhecer melhor algumas personagens que aqui foram apresentadas.

O Dia em Que Perdemos a Cabeça foi o primeiro livro que li este ano e pode-se dizer que me fez iniciar bem 2019 no que toca a leituras. Não estava à espera das muitas reviravoltas nem da capacidade do autor de me levar sempre a imaginar as possibilidades para a resolução final. Intenso, misterioso, intrigante e viciante. Recomendo a leitura.

sábado, 17 de novembro de 2018

Opinião: Três Coroas Negras

Título Original: Three Dark Crowns (2016)
Autor: Kendara Blake
Tradução: Alexandra Guimarães
ISBN: 9789720030368
Editora: Porto Editora (2018)

Sinopse:

Três rainhas negras,
Fruto da mesma terra.
Três gémeas meigas,
Agora entrarão em guerra.

Três irmãs negras –
Quais delas não se adivinha –
Mas duas terão de morrer:
Só uma será rainha.

A CADA GERAÇÃO, NA OBSCURA ILHA DE FENNBIRN, NASCEM TRÊS IRMÃS GÉMEAS.

Três rainhas herdeiras de um só trono, cada uma possuindo um poder mágico muito cobiçado. Mirabella é capaz de inflamar o incêndio mais violento ou a tempestade mais terrível. Katharine consegue ingerir um veneno mortal sem sentir os seus efeitos. De Arsinoe diz-se capaz de fazer florir a rosa mais vermelha e controlar o leão mais feroz.

Mas para uma delas ser coroada rainha, não basta ter a linhagem certa. As trigémeas terão de conquistar o seu direito à coroa, lutando por ele… até à morte.

Na noite em que as irmãs completam 16 anos, a batalha começa. E a rainha que sobreviver, conquistará a coroa!

Opinião:

A luta pelo poder entre três irmãs detentoras de capacidades mágicas foi o que me atraiu ao ler a sinopse de Três Coroas Negras. Como fã de fantasia, fiquei com expectativas em relação a este livro, que prometia uma história diferente, negra e aliciante. Assim sendo, não hesitei muito em iniciar esta leitura e em descobrir estas três herdeiras que têm de matar para conquistar uma coroa e para não serem mortas.

A leitura é intercalada por capítulos dedicados a cada uma das irmãs. Desta forma, ficamos a conhecê-las melhor de forma individual. É curioso constatar as semelhanças e diferenças que existem entre Katharina, Arsinoe e Mirabella. Elas têm personalidades muito distintas, mas partilham o receio que sentem umas pelas outras e pelo que vai acontecer a partir do momento em que fizerem 16 anos. Foi com interesse que analisei a forma como cada uma foi educada e preparada para derrotar as outras irmãs, sendo tal relevante para moldar quem elas são, mas incapaz de lhes modificar a natureza.

Perante estas três jovens diferentes, é normal o leitor sentir preferência por uma em detrimento das outras. Confesso que senti maior ligação a Arsinoe neste primeiro livro da saga, talvez por ela ser apresentada como o elo mais fraco desta conpetição. Katharina acabou por ser aquela pela qual senti menor empatia, talvez por me parecer a que foi mais manipulada. Contudo, a minha personagem preferida desta obra não foi uma das irmãs protagonistas, mas sim Jules, a melhor amiga de Arsinoe. Esta jovem pareceu-me ser a personagem mais forte e intrigante da história, quer pela forma como se dedica e acredita na amiga mais fraca, quer pela intriga que lhe está associada.

O desenrolar da ação é fácil de acompanhar e proporciona uma leitura rápida. Isto deve-se aos acontecimentos rápidas e ao facto de haver sempre alguma novidade e interesse nos capítulos das três rainhas. Ainda assim, confesso que esperava mais desta leitura. Talvez por as personagens principais serem tão novas, o tom deste livro acaba por perder a negritude esperada para ir para um lado mais adolescente. Existem muitas paixões entre as personagens, e isso, em certos momentos, acaba por ser o foco da trama. Teria preferido que a autora se entregasse mais às intrigas entre e dentro de cada facção e à luta pelo poder.

Apreciei a forma como a magia foi apresentada nesta obra. Kendara Blake dividiu estas capacidades em vários campos, sendo que cada uma das irmãs nasceu com habilidades para uma vertente. Como tal, Katharina é envenadora, o que quer dizer que tem uma forte resistência e dom para venenos. Arsinoe é uma naturalista, o que a liga à fauna e flora. Mirabella é uma elemental, descrita como a mais talentosa, e tem a capacidade de controlar os elementos atmosféricos. É curioso como cada uma, através destes dons, tenta destruir as outras e dar provas do seu poder.

A leitura não é tão inovadora quanto esperava, mas proporciona bons momentos.O final está bem conseguido e apresenta uma reviravolta que nos leva a querer ler o segundo livro da saga. Três Coroas Negras pode não se ido ao encontro das minhas expectativas, mas conseguiu agarrar a minha curiosidade e querer saber mais sobre estas três irmãs e o seu mundo. Espero que o próximo livro seja, então, mais negro e desafiante.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Opinião: A Jaula do Rei (#3)

Título Original: King's Cage (2017)
Autor: Victoria Aveyard
Tradução: Teresa Martins Carvalho
ISBN: 9789897731280
Editora: Saída de Emergência (2018)

Sinopse:

Mare Barrow foi capturada e está impotente sem o seu poder, vivendo atormentada pelos erros do passado. Ela está à mercê do rapaz por quem um dia se apaixonou, um jovem dissimulado que a enganou e traiu. Agora rei, Maven continua com os planos da sua mãe, fazendo de tudo para manter o controlo de Norta — e de sua prisioneira.

Enquanto Mare tenta aguentar o peso sufocante da Pedra Silenciosa, a Guarda Escarlate organiza-se, deixando de agir nas sombras e preparando-se para a guerra. Entre os guerreiros está Cal, o príncipe exilado, que no meio das dúvidas tem apenas uma certeza: ele não vai descansar enquanto não trouxer Mare de volta. Sangue vermelho e prateado correrá pelas ruas. A guerra está a chegar…

Opinião:

Terminados os acontecimentos de Espada de Vidro, a autora deixou a certeza de que o próximo volume desta série iria ser diferentes. Como tal, quando A Jaula do Rei foi publicado, foi com curiosidade que iniciei a leitura, tal era a vontade de descobrir o que ia acontecer a Mare e como isso iria afetar a Guarda Escarlate. Este terceiro livro inicia-se com rapidez e fornece logo algumas respostas.

É fácil perceber a escolha deste título. A jaula refere-se claramente ao facto de Mare passar uma boa parte deste livro aprisionada a mando de Maven. Contudo, também pode ser uma referência ao facto de este novo rei também ele estar preso aos deveres do trono, às expetativas que existem à volta dele, às ligações necessárias para a manutenção do poder. Confesso que esta segunda parte foi a minha preferida, pois permitiu que ficasse mais próxima de Maven, uma das personagens mais intrigantes desta série.

Se Mare não me conquistou no primeiro e no segundo livro, lamento dizer que o mesmo se passou neste terceiro volume. Interesso-me por ela pelas situações que a envolvem, mas não tanto pela personalidade dela. O sarcasmo e ironia característicos desta personagem não são suficientes para a construírem como uma personagem complexa e credível. É que em tudo o resto ela é demasiado série, intensa e moral, e isso não me deixa particularmente interessada. Contudo, as circunstâncias em que ela se encontra é que me fazem olhar para ela com curiosidade, não por ela mas pela vontade de descobrir o que vai acontecer a seguir.

O facto de, neste livro, Mare estar próxima do rei e da corte devido ao seu aprisionamento, permite-nos conhecer melhor este lado. Foi bom voltar a este meio e ver o que mudou desde a ascensão da Guarda Escarlate. Gostei da tensão constante, mesmo quando se tenta rebaixar os Vermelhos e aclamar a superioridade dos Prateados. A autora fez algumas reviravoltas interessantes ao longo da narrativa, fazendo-nos pensar sobre os estratagemas políticos que acontecem nos bastidores para que um objetivo seja alcançado. Também é curioso ver a diferença entre o que é real e o que é apresentado ao povo, levando-nos a pensar sobre o poder da comunicação das campanhas e como tal manipula o pensamento, mesmo quando acreditamos estar a  pensar pela nossa própria cabeça e sem influências.

Este livro pode ser dividido em duas partes, sendo que a segunda retoma o lado mais revolucionário da ação. A primeira foi a minha preferida por ser a que está mais ligada a Maven, que é, para mim, a figura mais interessante desta obra. Existiam alguns capítulos paralelos que nos levam a conhecer o que se passa do lado dos rebeldes, mas confesso que os achei desnecessários e, em certos aspectos, aborrecidos. Quando retomamos por completo o lado revolucionário, não existe, propriamente uma grande novidade. As decisões finais é que nos fazem adivinhar que vêm aí novas reviravoltas no último volume da saga, deixando adivinhar que uma figura já nossa conhecida se vai revelar surpreendente.

Este não foi o livro que mais me agradou da saga iniciada com Rainha Vermelha. Victoria Aveyard parece ter enrolado um pouco nesta parte da narrativa, sendo pouca a nova informação que surge. Além disso, a personagem principal não ajudou propriamente, mantendo-se estática no que toca a construção. Contudo, a autora mantém a curiosidade para o que está reservado para o final. Quero muito saber como tudo isto vai terminar e acredito que ainda há surpresas guardadas para o derradeiro livro.

Opiniões a outros livros de Victoria Aveyard:
Rainha Vermelha (#1)
Espada de Vidro (#2)