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sábado, 27 de julho de 2019

Opinião: Almas Gémeas

Título Original: The One (2018)
Autor: John Marrs
Tradução: Fernanda Semedo
ISBN:  9789898864895
Editora: TopSeller (2019)

Sinopse:

Basta um simples teste de ADN para se encontrar o amor. Esta é a promessa da aplicação Match Your DNA, que apresenta aos seus utilizadores o parceiro que a genética lhes destinou. Desde que este novo sistema surgiu, milhões de pessoas em todo o mundo já encontraram a sua cara-metade. Mas as consequências não se fizeram esperar: os resultados da aplicação ditaram o fim de inúmeros relacionamentos e muitos casais começaram a pôr em causa as ideias tradicionais de amor, romance e compromisso.

Christopher, Jade, Mandy, Nick e Ellie acabaram de saber os resultados dos seus testes e estão prestes a descobrir, nesta demanda pelo amor, que nem sempre o final feliz está garantido… mesmo quando encontram o seu par ideal. Afinal, até as almas gémeas escondem segredos, uns mais chocantes do que outros.

Opinião:

A premissa deste livro faz imediatamente imaginar as possibilidades. Afinal, o amor é um dos temas que mais angústia o ser humano, quer seja pela sua procura ou pelas dúvidas que pode suscitar nas mais diferentes fases de uma relação. Todos querem encontrar um par e todo querem encontrar um par perfeito, certo, digno de uma das mais belas histórias. E se, para tal, bastasse apenas um simples teste de ADN? Através de Almas Gémeas John Marr apresenta diversos protagonistas, cada um com a sua história de amor.

Num mundo em que este teste de compatibilidade existe, Christopher, Jade, Mandy, Nick e Ellie são unidos ao ser par perfeito. Através de capítulos intercalados, que surgem sempre pela mesma ordem, descobrimos de que forma esta descoberta afetou cada uma destas personagens com personalidades e vivências tão diferentes. É curioso ver como cada um encarou o match e como a vida mudou após descobrirem o resultado deste teste.

Por termos cinco figuras centrais, é natural o leitor sentir maior empatia por algumas das figuras, em detrimento de outras. E esta ligação pode mesmo mudar ao longo da trama! Ao início, gostei muito de Mandy, uma mulher madura que sofreu um grande desgosto. A reviravolta que a história dela dá é impressionante, colocando à prova a sua vontade e também o facto de ser uma pessoa frágil e facilmente manipulável. A certa altura, as decisões dela começaram a incomodar-me, mas louvo-lhe a coragem final.

Nick revelou-se uma das minhas personagens preferidas. O que lhe acontece é bastante improvável e o seu caso é o que mais nos faz pensar na obsessão pela perfeição numa relação, e em como isto é nocivo. Gostei da forma como ele lidou com o resultado do seu teste e de como, através dele, o autor nos falou que o amor pode estar onde é menos esperado.

Jade parece uma miúda igual a tantas outras, sendo que ao início não se destaca particularmente das outras personagens. Contudo, o seu desenvolvimento é muito intrigante, torna-a mais interessante, faz pensar em abnegação e em amores proibidos. O final que lhe foi dado foi, provavelmente, o mais romântico.

Christopher foi a figura que menos me agradou. Afinal, trata-se de um assassino sociopata, um homem altamente perigoso e doentio. Ainda assim, a forma como a dupla vida dele é apresentada está bem conseguida, e o match que lhe calha não poderia ter sido mais irónico. Apesar de não o apreciar, admito que revela uma visão diferente de amor.

Ellie, ao início, é algo desinteressante, mas revela-se o ponto de ligação entre todas as histórias. É através dela que percebemos em como o amor é sempre procurado, mesmo quando tal não é admitido. Também é através dela que somos levados a pensar em como simplificar algo tão especial pode tirar-lhe o encanto e prejudicar terceiros. Não esperava os desenvolvimentos que foram apresentados nos capítulos dela, mas foram estes acontecimentos que tornaram a história das cinco personagens ainda mais fortes.

Talvez devido ao intercalar de capítulos com vivências tão diferentes, talvez devido à proximidade transmitida pelo autor, Almas Gémeas revelou-se um livro que se lê com vontade e rapidez. Terminado um capítulo, surge imediatamente a vontade de continuar para outro, sendo que há sempre algo entusiasmante a descobrir em qualquer uma das personagens centrais.

John Marr conseguiu espelhar bem vários tipos de personalidades e diferentes vivências do amor. Com Almas Gémeas, vemos este sentimento nobre de forma ampla, desde o seu lado mais belo até ao quanto pode fazer sofrer e ser devastador. Um livro que se revelou uma grande surpresa.


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Opinião: Silêncio de Gelo

Título Original: Rof (2012)
Autor: Ragnar Jónasson
Tradução: Maria da Fé Peres
ISBN: 9789898917256
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

Em 1955, dois jovens casais mudam-se para o fiorde desabitado e isolado de Hedinsfjördur, na Islândia. A sua estadia termina quando uma das mulheres morre de forma misteriosa. O caso nunca é resolvido. Cinquenta anos mais tarde, surge uma fotografia antiga que mostra que, afinal, os dois casais não se encontravam sozinhos no fiorde.

Em Siglufjördur, uma pequena cidade próxima, o jovem polícia Ari Thór tenta perceber o que realmente aconteceu naquela noite fatídica, após ter sido procurado por um familiar da vítima. Numa altura em que a cidade se encontra de quarentena devido a um vírus mortal, Ari conta apenas com a ajuda de Ísrún, uma jornalista de Reiquiavique, para desvendar o caso. Porém, Ísrún encontra-se também a investigar um outro caso sinistro, que envolve o rapto de um bebé e o atropelamento mortal do filho de um ex-político.

Conseguirão eles resolver dois casos que só encontram explicação num passado mergulhado no silêncio?

Opinião:

Ragnar Jónasson é apresentado como um autor de destaque dentro do thriller nórdico. Ainda não tinha lido nenhuma das suas obras, e decidi estrear-me com Silêncio de Gelo. É certo que se trata de um livro que se encontra inserido no meio de uma série, mas isso não impede uma leitura clara e atenta. Além disso, foi um prazer voltar à Islândia, país que se destaca pela beleza natural, invernos rigorosos e concentração populacional em poucos pontos do território, deixando espaço para o isolamento.

Vi este livro quase como dividido em duas histórias. Num lado temos um casal jovem que parece estar ameaçado por uma figura misteriosa, sendo que do outro temos um homem que encontrou uma fotografia de família antiga e pediu ajuda à polícia para saber a identidade de uma figura que desconhece. Em ambos os casos, o que parece ser algo simples torna-se complicado e acaba por trazer revelações inesperadas e mais complexas do que se esperava. E os novos dados que vão surgindo nas duas situações vão aumentando a curiosidade do leitor quanto ao que ainda está para chegar.

O agente de autoridade Ari Thór e a jornalista Ísrún são as figuras responsáveis pela resolução dos dois casos. Talvez por este ser o quarto livro de uma série, senti que ambas as personagens foram colocadas na trama como se eu já as conhecesse, o que não corresponde à verdade. Não é que sinta que existiam informações subentendidas que eu deveria entender, mas faltou espaço para a apresentação de cada uma, de modo a que não consegui criar empatia com estas duas figuras. Fiquei com a ideia de que se tratam de personagens reservadas, retrospectivas e completamente dedicas ao seu trabalho. Não posso dizer que me tenham marcado.

Apreciei a resolução dos casos e a forma como o autor conseguiu explorar a natureza humana de cada um dos envolvidos. Numa das situações, fica a ideia de que não conseguimos fugir dos erros que cometemos no passado e que o castigo acaba sempre por chegar, ainda que não seja bem aquele que era esperado. Na outra, somos levados a pensar em segredos de família e na forma como certas pessoas acabam por ser manipuladas por quem acredita estar a ser protegido. A ideia de vingança é também bastante presente, com o autor a alertar para os perigos da execução da mesma, uma vez que muitas vezes pode afectar inocentes e trazer um peso ainda maior à vida de quem já foi magoado. A dificuldade da aceitação da verdade é também uma componente que marca esta leitura.

Ao longo da narrativa, é impossível não reparar num ambiente distinto. Ao longo da obra, sente-se o peso da solidão, do afastamento, do silêncio dos lugares inóspitos e do afastamento premeditado dos outros. Consegui sentir a atmosfera da Islândia, tanto na descrição dos locais como na introspecção e reflexão das personagens. O autor surpreendeu-me com esta habilidade, tanto como com a capacidade de criar intrigas sólidas, inesperadas e coerentes.

Silêncio de Gelo revelou-se uma leitura agradável. A história parece que é acompanhada por uma sombra que nos faz recordar que todos os seres humanos escondem um lado mais negro. Apesar de alguns momentos mais parados e até irrelevantes, o resultado final acaba por ser muito positivo. Fiquei com vontade de continuar a acompanhar este autor.



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Opinião: Vox

Título Original: Vox (2018)
Autor: Christina Dalcher
Tradução: Renato Carreira
ISBN: 9789898917584
Editora: TopSeller (2019)

Sinopse:

Estados Unidos da América. Um país orgulhoso de ser a pátria da liberdade e que faz disso bandeira. É por isso que tantas mulheres, como a Dra. Jean McClellan, nunca acreditaram que essas liberdades lhes pudessem ser retiradas. Nem as palavras dos políticos nem os avisos dos críticos as preparavam para isso. Pensavam: «Não. Isso aqui não pode acontecer.»
Mas aconteceu. Os americanos foram às urnas e escolheram um demagogo. Um homem que, à frente do governo, decretou que as mulheres não podem dizer mais do que 100 palavras por dia. Até as crianças. Até a filha de Jean, Sonia. Cada palavra a mais é recompensada com um choque elétrico, cortesia de uma pulseira obrigatória.
E isto é apenas o início.

Opinião:

Fiquei com vontade de ler este livro assim que vi a capa. "E se cada mulher só tivesse direito a 100 palavras por dia?" Esta questão incomoda. Perturba. Enquanto mulher, estou grata pelo trabalho das que vieram antes de mim e lutaram pelos direitos que atualmente tenho. Também eu luto e preocupo-me com a igualdade de género, sabendo que, apesar de diferentes, homens e mulhres têm de ter em mãos as mesmas possibilidades e oportunidades para fazerem das suas vidas o que bem entenderem. Contudo, o mundo em que vivemos está a passar por mudanças. Apesar de vivermos de forma aparentemente tranquila, percebemos que existem movimentos com visões extremistas a ganharem força. É inevitável pensar nos perigos que podem surgir enquanto todos temos por garantindo que nada poderá piorar. Mas, e se houver um retrocesso? E se as mulheres passarem a ser vistas como figuras submissas à vontade dos homens? E se lhes tirarem a voz? E se cada uma apenas tiver direito a 100 palavras por dia?

Christina Dalcher faz-nos pensar e temer, ao mesmo tempo que lança o aviso para estarmos atentos e não permitirmos que o retrocesso aconteça. Através de Vox, a autora apresenta uma sociedade em que os primeiros sinais de mudança foram ignorados pela maior parte da população, sendo que a ameaça apenas se tornou real quando era impossível contorná-la. Através da protagonista desta história, Jean, somos levados a entender o que uma mulher educada e formada sentiu quando a sua voz lhe foi tirada. É que, aqui, a voz não é apenas o som que cada um produz para comunicar. É fundamentalmente a própria pessoa, com todos os seus sonhos, esperanças, desejos, ambições e pensamentos.

Jean passa de um extremo para o outro. A mulher que conciliava família e carreira passou a ser relegada para um papel submisso em que não é valorizada. Apesar de não ter simpatizado com esta personagem, devido à sua personalidade, a verdade é que consegui sentir empatia devido à situação em que se encontra. Percebi a revolta contra o marido e a linha ténue que existe entre amor e ódio. Entendi a forma como encarava cada filho, sendo mais protetora com a  filha e tendo um certo ressentimento pelo mais velho. Compreendi o desprezo sentido pelas mulheres que se entregaram completamente a esta condição e o ressentimento por não ter tido a coragem de ter lutado mais pelos seus direitos.

Se esta vivência perturbada, é ainda mais chocante perceber como as mulheres são capazes de prejudicar as suas congénres. Estes momentos fazem pensar no que é a maldade pura. Além disso, ao longo da história, ficava impressionada pela forma como os homens viviam este novo modelo de sociedade, uma vez que uns o faziam pela crença cega de estarem a seguir o que acreditavam ser certo, enquanto outros o faziam pelo poder. Ao mesmo tempo, é com esperança que percebemos leves sinais de rebeldia sugeridos por diferentes figuras. É nestes momentos que somos levados a acreditar na bondade e na possibilidade de mudança e melhoria.

Ao longo desta narrativa, somos levados por situações diferentes que vão culminar num momento crucial. O facto de haver sempre algo a acontecer faz com que a leitura seja rápida e feita com vontade. Fiquei mais impressionada pela forma como a protagonista nos dava a conhecer a sua experiência nesta sociedade do que com a história de amor que acaba por se desenrolar. Percebo o que a motivou, mas pareceu-me algo fraca, até pela forma como a autora decidiu concluir o assunto. Esta componente faz distrair da força da mensagem que pretende ser transmitida.

Vox é um livro pertinente hoje e sempre. Tem uma mensagem que deve ser sempre recordada, mesmo quando damos por garantido que estamos numa situação de igualdade. A autora faz-nos dar valor pelos direitos conquistados ao longo dos anos, fazendo-nos estar atentos às ameaças que podem surgir. Mais do que entretenimento, é uma verdadeira chamada de atenção. Recomendo.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Opinião: Uma Coisa Absolutamente Incrível

Título Original: An Absolutely Remarkable Thing (2018)
Autor: Hank Green
Tradução: Rita Canas Mendes
ISBN: 9789898917454
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

Um misterioso robot aparece em Nova Iorque...
... e em São Paulo...
... e em Buenos Aires...
O que se está a passar?

São 3 horas da manhã e April May tropeça numa escultura GIGANTE; uma espécie de robot com três metros de altura e aspeto de samurai. Perante a descoberta, April faz a primeira coisa de que se lembra: filma a bizarra estátua. O vídeo é publicado no YouTube e, da noite para o dia, April torna-se famosa por ter sido a primeira no mundo a registar a existência da estátua — aquela que viria a ser parte de um conjunto de mais de 60, espalhadas por várias cidades do mundo. Pouco habituada ao estrelato e às consequências da fama viral, April torna-se internacionalmente famosa e fica associada aos robots.

Um movimento emergente desperta. As pessoas querem saber: O que são estes robots e porque existem? Quem os terá criado? E mais importante ainda: serão perigosos? April começa a sua investigação e, reunindo um grupo improvável de pessoas, tenta perceber a origem destes robots e o seu sentido neste mundo. Hank Green explora de modo magistral a forma como lidamos com o medo e o desconhecido, e como as redes sociais transformaram aquilo que entendemos por fama.

No seu fantástico romance de estreia, Hank Green revela-nos a história de uma jovem que se torna acidentalmente famosa — para logo se encontrar no epicentro de um mistério muito maior do que poderia imaginar.

Opinião:

Ainda este livro não tinha chegado às livrarias e a expetativa já era elevada. Já se ouvia falar de Uma Coisa Absolutamente Incrível, mas sem se saber muito bem o que vinha aí. Como tal, quando tive este livro nas mãos, tive de o ler rapidamente, tal era a curiosidade de perceber o frenesim gerado à volta dele. Rapidamente percebi que John Green não é o único da família com talento para a escrita, sendo que Hank Green também se destaca e poderá vir a roubar o protagonistamo ao irmão.

April May, a protagonista desta aventura, é uma personagem curiosa. Confesso que não foi sempre a sua maior fã, mas gostei que o autor a tivesse criado com qualidades e defeitos, expondo-a em todas as suas vertentes e mostrando-a como humana. É fácil de acreditar que ela pode ser real, mas nem sempre é simples gostar dela. Não concordei com muitas das decisões tomadas, apesar de lhe elogiar a coragem em certos momentos. É, claramente, uma figura inteligente e que sabe tirar o mais proveito das situações. Tem um sentido de humor peculiar e que dá à leitura uma aura mais leve e fresca. Contudo, as relações que estabele com as outras personagens parecem sempre oportunistas e nem sempre aceitei bem os objetivos que tinha e a forma como procurava alcançá-los.

O desenvolvimento da narrativa não me pareceu ter sempre o mesmo ritmo. O início é muito curioso, avança depressa e agarra para a leitura, mas a certo ponto senti tudo a abrandar. Existem muitos mistérios a serem resolvidos e que envolvem estes robots que surgiram de um momento para o outro, sendo que alguns destes enigmas não nos prendem tanto a atenção como outros. Ao mesmo tempo, a vida da protagonista passa por uma mudança contínua, mas sempre tudo em volta ao que aos robots diz respeito. Nas últimas páginas, o ritmo começa a aumentar de forma crescente, o que nos leva para uma conclusão inesperada mas satisfatória.

A essência humana é exposta ao longo destas páginas. Perante a presença de figuras misteriosas um pouco por todo o mundo, assiste-se a uma variedade de reações. É interessante verificar que o desconhecido é, inicialmente, ignorado. Contudo, quando notado, causa sensações diferentes, desde a curiosidade obsessiva ao medo que leva ao ataque. Achei que os vários espectros destas reações foram bem explorados. Gostei da mensagem de união transmitida ao longo do livro, ficando a ideia de que uma massa de anónimos pode fazer a diferença no desenrolar de um acontecimento ou, até mesmo, na influência provocada em alguém. Parece que o autor se baseou na frase "a soma do todo é maior que as partes", de Aristóteles, mesmo que algumas personagens possam agir por conta própria na busca do reconhecimento pelas suas ações.

Ao ler este livro, é impossível não refletir sobre o poder dos novos meios de comunicação. A rapidez da informação disponibilizada pela internet provoca um grande impacto. As redes sociais vieram unir as pessoas de uma forma completamente nova, além de que concedem fama a figuras que se destacam pelos mais diversos motivos. Surge aqui o termo "influenciador" ainda não muito bem compreendido. Contudo, é também atrás de um ecrã que surge a ideia de que se pode dizer o que bem se entende sem que haja consequências: afinal, o objeto de ofensa não nos está a ver, nem sabe quem nós somos, não nos pode atacar diretamente. Tudo isto, e muito mais, surge nesta obra e leva-nos a uma análise sobre a atualidade.

Uma Coisa Absolutamente Incrível é um livro divertido, mas que parece ter como objetivo principal passar uma mensagem moral. Tem momentos de tensão, aliviados pelo humor peculiar de uma protagonista de que está bem construída, mesmo que a sua personalidade possa não agradar a todos. No final, damos por nós a imaginar o que teríamos feito naquela situação e a tentar perceber de que forma estamos dependentes ou somos influenciados pelas redes sociais e seus influenciadores. E será essa informação mais relevante do que a oficial? Que cuidados devemos ter na internet para nos desviarmos dos perigos e aproveitarmos aquilo que tem de melhor? Questões que ficam connosco após a leitura deste livro curioso e que merece ser tido em conta.


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Opinião: Anassa (Erthe #2)

Título Original: Anassa (2018)
Autor: Josh Martin
Tradução: Ana Mendes Lopes
ISBN: 9789898917232
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

Etain é a Anassa, a jovem líder da única ilha que resta na Terra. A profecia diz que o seu destino é unir os dois povos da ilha e liderá-los. Mas as profetisas não a preparam para as dificuldades - as pessias continuam divididas e começam a questionar a liderança.

Inesperadamente, a ilha é invadida por homens nunca antes vistos, guerreiros hostis, e os seus habitantes descobrem que afinal não estão sozinhos no mundo. Os recém-chegados trazem consigo violência, destruição e revelações sobre o passado que vão abalar as crenças da sociedade.

Para fazer frente à magia desconhecida e poderosa dos ocupantes e conseguir salvar a sua ilha, a Anassa terá de pôr em perigo a sua vida e a de todas as pessoas de quem gosta.

Opinião:

Anassa relata o que aconteceu após Ariadnis, primeiro livro desta saga de fantasia que nos apresentou uma ilha dividida por dois povos. Desta vez, o foco passa de Joomia e Aula para outras duas personagens já nossas conhecidas: Etain e Taurus. É através dos relatos destas duas figuras que conhecemos os desafios que surgem com a união dos povos e os obstáculos que têm de ser ultrapassados quando guerreiros desconhecidos invadem a ilha, escravizam o povo e provam que muitas verdades que todos tinham como absolutas estão erradas.

A história que este livro apresenta é mais apelativa do que a do primeiro. Existem muitos momentos de ação, sendo que o desenrolar dos acontecimentos convida à leitura ao mesmo tempo que nos fornece novas informações sobre este mundo. As primeiras páginas podem ser mais paradas, uma vez que o autor precisou de explicar o novo sistema de liderança e as dúvidas que assaltam a mente de Etain. Contudo, quando os invasores chegam, o ritmo começa a tornar-se mais rápido, sendo que os momentos descritos nas derradeiras páginas são alucinantes.

Apreciei a construção do enredo, mas admito que as personagens ficaram aquém das expetativas. As dúvidas e receios de Etain e Taurus relativamente ao que lhes é esperado fazem sentido, assim como a demonstração das suas falhas. Continuo sem sentir empatia por Joomia e Aula, que neste livro ficaram num papel secundário da ação. As novas personagens que surgem, porém apenas acrescentaram informação à história, ficando a faltar um caráter mais humano e denso.

Achei interessante a forma como o autor explorou a sexualidade das suas personagens. Josh Martin procurou mostrar que cada pessoa é livre de se expressar e assumir como bem entende, sendo que tal deverá apenas ser respeitado pelos outros. No que toca às relações, o autor dá a entender que o amor vale por si mesmo, quebrando com os traços mais conservadores. Foi relevante assistir ao choque de mentalidades que acontece quando os invasores chegam, especialmente no que toca ao quanto isso afeta quem é considerado diferente.

De forma implícita, o autor faz um alerta sobre os cuidados que são necessários a ter com o planeta de forma a conseguirmos preservar a nossa casa e o futuro das gerações. Ao mesmo tempo, usa o choque cultural para apresentar diferentes formas de encarar o mesmo problema. É curioso perceber que a sociedade patriarcal acaba por ser mais bélica enquanto a matriarcal ambiciona o equilíbrio. Não sei se tal foi propositado ou não, mas o certo é que esta obra tem uma forte mensagem feminista.

Anassa é um livro que entretém ao mesmo tempo que passa uma mensagem de aceitação e união. O final faz tudo o sentido ao trazer uma mensagem de esperança e de cooperação. Não sei se Josh Martin vai continuar a explorar este mundo, mas a verdade é que com este livro consegue terminar bem a aventura que começou com Ariadnis. Se gostaram do primeiro, então devem apostar neste segundo volume.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Opinião: A Guerra Que Salvou a Minha Vida

Título Original: The War That Saved My Life (2015)
Autor: Kimberly Brubaker Bradley
Tradução: Dina Antunes
ISBN: 9789898917225
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

Tudo o que Ada conhece do mundo é o pouco que consegue ver a partir da janela. Sempre viveu com a mãe e o irmão mais novo num apartamento minúsculo, de onde está proibida de sair. Ada apenas teve a infelicidade de nascer com um pé aleijado, mas isso é mais do que motivo para a mãe se envergonhar dela, maltratando-a e escondendo-a.

Com a aproximação da guerra, todas as crianças de Londres são enviadas para um campo fora da cidade, e Ada aproveita a oportunidade para fugir com o irmão. Os dois são acolhidos por uma família que os ama incondicionalmente, sem distinções nem preconceitos, e Ada pode finalmente aprender a ler, a escrever e a montar a cavalo.

Pela primeira vez na vida, faz amigos e percebe o verdadeiro significado da palavra felicidade. Mas tudo pode ser posto em causa quando o passado volta para pôr Ada novamente à prova.

Opinião:

Este é um daqueles livros que aquece o coração. A Guerra Que Salvou a Minha Vida, de Kimberly Braubaker Bradley apresenta-nos uma nova visão sobre a Segunda Guerra Mundial, contada do ponto de vista de uma criança enfraquecida a nível físico e psicológico que abandona Londres para se refugiar com o irmão mais novo num aldeia no campo.

É impossível não sentir empatia por Ada, a protagonista desta aventura. Personagem rica e muito bem construída, apresenta uma evolução impressionante com o avançar da leitura. Ao início, fiquei em choque com as circunstâncias em que vivia. Poderia esperar a pobreza e miséria, mas nunca a negligência e os maus-tratos.É fácil perceber o motivo para Ada se sentir inferior a todas as outras pessoas e sentimos o que sofre nos castigos a que é submetida. O mais impressionante acaba mesmo por ser o facto de a protagonista encarar tal como normal, uma vez que nunca teve acesso a outra realidade. Nota-se uma grande insegurança, revolta, mesquinhez, ignorância e necessidade de afirmação da parte de quem devia cuidar dela.

Com a mudança de Ada e do irmão da cidade para o campo, inicia-se um processo de transformação em três personagens. A protagonista descobre o mundo, percebe que o pé deformado não a impede de descobrir o que a faz feliz. Ainda assim, o passado não é esquecido, acabando por se refletir em sentimentos de culpa, recusa em ser amado e incapacidade em acreditar que pode ser mais e melhor. O irmão de Ada, Jamie também passa por provações, ainda que distintas das da irmã. A imposição de regras é uma novidade para ele, que expressa o seu descontentamento e receios de uma forma diferente. Existe ainda uma outra figura de relevo: Susan Smith. Esta mulher é encontrada num estado de depressivo e acaba por encontrar uma missão pela qual lutar e recuperar, mesmo que por vezes tenha recaídas.

A narração é feita da primeira pessoa, sendo possível acompanhar sempre o ponto de vista de Ada sobre os acontecimentos. Como tal, temos uma visão de como a guerra foi vivida aos olhos de uma criança, que não tem verdadeira noção do que realmente está a acontecer. Sente-se o receio de um inimigo generalizado, mas também uma certa incompreensão sobre o que realmente está a acontecer. Existe um momento em que Ada realmente vê como a guerra afeta os homens que estiveram no campo de batalha, mas até aí o foco está na sua nova vivência no campo.

A ação parece avançar lentamente, mas isso não impede uma leitura interessada. Li este livro com vontade e em menos de 24 horas deparei-me com as derradeiras páginas. Apreciei bastante a construção das personagens e senti-me em todos os ambientes que Ada descrevia tão bem. Ainda assim, achei que a conclusão foi demasiado abrupta, tendo sentido necessidade de um epílogo que explicasse o que acontecia às personagens após os eventos finais.

A Guerra Que Salvou a Minha Vida é um livro de emoções. Uma história que nos mostra as consequências de abusos na primeira infância e que nos faz acreditar em superação através de amor e de dedicação. A Segunda Guerra Mundial surge apenas como pano de fundo para a história incrível de Ada e de como passou a criança negligenciada para uma verdadeira lutadora e até heroína. Uma leitura que fiz com prazer.


domingo, 2 de setembro de 2018

Opinião: Mulheres da Noite

Título Original: Aldrig Mere Fri (2008)
Autor: Sara Blaedel
Tradução: Maria João Vieira
ISBN: 9789898869999
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

Ninguém sabe exatamente quem é a mulher que aparece degolada numa das zonas mais mal frequentadas de Copenhaga. Quando a inspetora Louise Rick chega ao local, rapidamente percebe que se trata de uma prostituta. Na Dinamarca, no entanto, a prostituição é legal e não anda de mãos dadas com o crime. Quem estará, então, por detrás desta morte? Isso é o que a imprensa quer saber, e o caso torna-se rapidamente mediático.

Quando Louise recebe um telefonema da sua amiga jornalista Camilla Lind, pensa que ela quer informações acerca do crime. Mas o que Camilla lhe quer contar é que encontrou um bebé embrulhado numa toalha, no interior da igreja que frequenta. E o bebé não tinha um dos dedos do pé.

Estarão ambos os casos relacionados? Conseguirá Louise resolvê-los aos dois? E será que o que está a acontecer em Copenhaga tem ramificações ainda maiores?

Opinião:

Apesar de já ter visto comentários muito positivos à escrita e às histórias de Sara Blaedel, nunca tinha lido nada desta autora. Como tal, quando Mulheres da Noite me chegou às mãos, fiquei com vontade imediata de o ler, de forma a perceber o motivo para tantos elogios. As primeiras páginas conseguiram logo agarrar-me devido às duas figuras centrais femininas e aos mistérios que dão o mote a esta narrativa.

Apesar de ter noção que este livro faz parte de uma série, não me senti perdida na história nem na apresentação das personagens. Dá para perceber que existem algumas leves referências a informações que parecem estar relacionadas com livros anteriores a este, mas nada disso torna esta trama confuso em momento algum, o que foi muito importante para mim.

A história é apresentada no ponto de vista de duas personagens: Louise e Camilla. Desde logo achei interessante o facto de serem duas mulheres que fazem a diferença num mundo muitas vezes orientado por homens. Uma é polícia e a outra jornalista. Das duas, acabei por criar maior ligação com Camilla, talvez pela forma como ela acabou envolvida neste mistério, mas também pelo facto de me parecer mais empática e, por isso, real. Louise, apesar da sua relevância, manteve-se sempre algo distante. Tem uma mente impressionante, mas sinto que não a conheci como pretendia. O mesmo aconteceu com a maior parte das personagens desta obra.

O desenrolar da narrativa é o ponto forte deste livro. Gostei muito de ver como a autora deu início à obra com dois mistérios diferentes, que, numa primeira análise parecem não estar relacionaidos, para mais tarde os cruzar e nos surpreender. Existem muitas reviravoltas ao longo destas páginas, o que nos leva a duvidar de todas as figuras que vão surgindo. Como tal, não é fácil adivinhar a resolução obtida no final, o que provoca uma surpresa no leitor.

Além de haver um mistério que entretém, a autora fala ainda de temas sérios e que nos remetem para a realidade. O principal ponto é a prostituição e o tráfico humano. Ao longo deste livro, Sara Blaedel mostra-nos que, mesmos em sociedades consideradas de primeiro mundo existe a exploração do ser humano para a obtenção de riqueza e poder de terceiros. Como se isso já não fosse suficientemente mau, a autora leva-nos ainda a pensar em casos ilegais que muitas vezes são velados pelas próprias autoridades e governos, que preferem fechar os olhos e mascarar os problemas em vez de os resolverem.

Também existe a incorporação de um facto histórico, o que acaba por dar maior profundidade aos temas centrais que são aqui tratados. Mais uma vez, a utilização do outro em proveito próprio acaba por vir ao de cima, ainda de que de uma forma inesperada. Isto fez-me pensar em como acontecimentos do passado podem moldar toda uma vida e em como as consequências, muitas vezes, são mais pesadas do que se pode inicialmente imaginar.

Mulheres da Noite proporcionou uma leitura agradável. Apesar de não ter conseguido estabelecer uma ligação com todas as personagens, gostei muito do desenvolvimento da narrativa. As reviravoltas prendem para a leitura, e as revelações finais são bastante credíveis. Fica a certeza de que esta é uma autora para manter debaixo de olho.


terça-feira, 31 de julho de 2018

Opinião: Artemis

Título Original: Artemis (2017)
Autor: Andy Weir
Tradução: Miguel Martins
ISBN: 9789898917102
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

Para viver na Lua, Jazz Bashara faria qualquer coisa. Bom, mais ou menos. A vida em Artemis, a primeira e, até ver, única cidade da Lua, é difícil. Só turistas ricos ou milionários excêntricos que vivem a sua reforma dourada fora do planeta Terra é que conseguem usufruir em pleno do Mar da Tranquilidade. Um pouco de contrabando aqui e ali não é grave, certo?
É por isso que quando surge a oportunidade de, com um grande golpe, decidir o seu futuro, Jazz não hesita. Tem apenas de conseguir o impossível, e de o fazer fora da colónia, onde não só a gravidade é seis vezes inferior à da Terra como o Sol queima e o ar não existe.
Mas isso será apenas o começo de uma série de eventos que vai pôr em causa a existência da própria colónia. Jazz era apenas uma contrabandista a tentar ganhar a vida. Será que está preparada para pôr tudo em risco para salvar o único lugar onde alguma vez se sentiu em casa?

Opinião:

Assim que soube que Artemis ia ser publicado que soube que tinha de ler este livro. O motivo? Adorei O Marciano e não podia perder a nova obra de Andy Weir. Sabia que se tratava de uma aventura diferente, com nova história, foco e personagens, mas queria muito conhecer as novas ideias do autor. O resultado é uma nova obra de ficção científica que marca pela diferença e que proporciona uma boa leitura.

Desta vez somos levados para a lua, onde existe uma colónia humana chamada Artemis. Neste local, o autor dá-nos a conhecer as possibilidades de construção de uma cidade fora da Terra, ideia que até pode ser considerada comum. Contudo, Andy Weir destaca-se pela forma como faz, procurando sempre justificar tudo através da ciência e explicando de uma forma acessível ao leitor. Assim, o leitor é levado a pensar no efeito da gravidade no desenvolvimento de um ser humano, produção de oxigénio, perigos do solo lunar, como poderia ser feito o turismo na lua, a produção de alimentos neste planeta secundário, entre outros assuntos. Perante tudo isto, sentimos que aquela realidade poderá acontecer em breve.

Este ambiente é-nos apresentado por Jazz Bashara, a heroína desta aventura. Gostei muito de conhecer esta personagem, apesar de admitir que inicialmente não simpatizei com ela. É que Jazz não é propriamente uma protagonista típica onde os valores mais nobres são destacados. Ela tem um fundo generoso e altruísta, mas isso é mascarado por toda uma personalidade rebelde e onde as más decisões parecem prevalecer. Certas atitudes iniciais podem levar-nos a torcer o nariz, uma vez que não compreendemos o motivo para tal, mas é impressionante ver como isso muda ao longo da leitura.

É que esta aventura de Jazz acaba por justificar a sua maneira de ser e a levá-la a redimir-se. Quando ela aceita fazer um trabalho arriscado em troca de uma fortuna, somos levados a acreditar que existe ali apenas um desejo de riqueza rápida movida por ganância. Mas há mais do que isso. É aqui que percebemos que o autor não se preocupa apenas em criar um mundo que seja cientificamente plausível, como ainda procura construir personagens complexas e que consigam atribuir ainda maior credibilidade à trama.

Achei graça ao facto de as personagens secundárias terem sido apresentadas segundo certos estereótipos, sendo que no final todas estas ideias acabam por ser quebradas. Parece que o autor queria mostrar que a primeira impressão de uma pessoa nem sempre é a mais acertada, sendo que cada um de nós tem uma história, valores e objetivos que justificam aquilo que podemos parecer, mas que não nos definem por completo, havendo sempre espaço para a mudança e evolução. 

O início desta leitura foi mais lento do que estava à espera. Demorei a conhecer Artemis e conhecer as bases desta cidade. Senti que a narrativa em si levou algum tempo a avançar, o que ao início me fez duvidar sobre o resto da obra. Contudo, quando a ação começa realmente a acontecer, o ritmo cresce gradualmente até chegar a um ponto quase alucinante que não me permitiu largar o livro enquanto não chegasse à última página.

Gostei muito de Artemis. A história é bem fundamentada, a ação prende, as personagens cativam e o mundo parece real. Andy Weir volta a provar que tem um grande talento para a escrita e que consegue construir histórias de ficção científica diferentes, que divertem e ainda conseguem ensinar. Adorei conhecer Jazz e mal posso esperar pelas novas ideias do autor. Para esta personagem ou para outras novas.

Outras opiniões a livros de Andy Weir: 
O Marciano

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Opinião: The Call - A Invasão (#2)

Título Original: The Invasion (2017)
Autor: Peadar O'Guilin
Tradução: Renato Carreira
ISBN: 9789898869845
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

Nessa e Anto foram dos poucos jovens que conseguiram sair vivos da Terra Cinzenta. Agora, longe da crueldade dos Sídhe, sonham com um futuro feliz a dois.
Mas um inesperado ataque à escola dá início a uma caça às bruxas. As autoridades não acreditam ser possível sobreviver ao Chamamento e, alegando que os sobreviventes fizeram um pacto com o inimigo, rotulam-nos de traidores. Como punição, Nessa é
reenviada para a Terra Cinzenta naquela que parece ser uma viagem sem retorno.
Entretanto, os bárbaros Sídhe dão início a um ataque mortal, com um exército de horror nunca antes visto. Numa autêntica luta contra o tempo, Anto e os últimos alunos da sua escola enfrentam um inimigo sedento de sangue, procurando uma forma de defender o país e de salvar a vida de todos.

Opinião:

Depois de ter lido The Call, acreditei estar preparada para uma continuação igualmente brutal e repleta de adrenalidade nesta sequela. Ainda assim, The Call - A Invasão conseguiu surpreender e deixar-me arrepiada. Peadar O'Guilin prova que o mundo que criou tem um grande potencial e merece continuar a ser explorado. Ao mesmo tempo, trabalha a evolução das personagens que já conhecemos e faz o leitor pensar em como nem tudo é "preto e branco", apesar de muitas vezes assim parecer.

Com o encerrar do primeiro volume, acreditámos que o pior tinha passado para Nessa e Anto. Contudo, o autor decidiu não largar estas personagens e mostrou-nos que não é simples ultrapassar eventos traumáticos nem retomar uma vida normal depois disso. Ao início sentimos as esperanças comedidas destas personagens e desejamos que conquistem rapidamente a paz que tanto desejam. Contudo, cedo surgem novos desafios que colocam tudo em causa: o futuro, a confiança, as relações, a humanidade.

A história é feita em capítulos intercalados, sendo possível desta forma perceber o que está a acontecer a Nessa e a Anto. Através dos pontos de vista destas duas personagens temos acesso a diferentes pontos desta guerra contra os Sídhe. De um lado o sofrimento humano, os campos devastados, a destruição de cidades, as perdas e os soldados sem esperança de saírem deste conflito com vida. Do outro temos os traidores, a desconfiança, o maior conhecimento dos Sídhe, o desejo crescente de vingança, a tortura. É normal que um destes pontos de vista seja mais atrativo, sendo que, no meu caso, Nessa foi a personagem que mais gostei de acompanhar.

Nessa mantém aquele determinação e coragem silenciosa que impressiona. Sabemos quais são as suas limitações físicas, mas é impressionante perceber como isso não quebra o seu espírito forte nem a faz desistir em momento algo. Um figura feminina pouco exuberante mas que marca. Por seu lado, Anto não conseguiu agradar-me tanto. Percebo que ele está a lidar com o que lhe aconteceu na Terra Cinzenta, com a deformidade e com a perda e falta de confiança, mas o seu espírito pareceu-me mais fraco, influenciável e pouco cativante. Gostaria que ele tivesse surgido com maior força e impacto.

Achei curioso que, apesar de estarmos a falar de uma força invasora e impiedosa, o autor consegue levar-nos a entender os motivos dos Sídhe. Não que seja possível desculpar os atos deste povo, mas é interessante que tudo tem como base a vingança destes seres aos humanos por os terem expulsado das suas terras. Assim, percebe-se que o que os Sídhe estão agora a fazer já lhes foi feito. Cabe à consciência de cada um refletir se isso é justificação plausível. Além disso, faz-nos pensar sobre quão perigosa é a vingança.

Os momentos que mais gostei de ler estavam sempre relacionados diretamente com os Sídhe e a Terra Cinzenta. As descrições eram impressionantes e provavam a capacidade imaginativa incrível do autor. Consegui sentir o terror provocado nestes ambientes hostis e o desespero da fuga e da perseguição. Estas passagens contrastavam com vividas no mundo humano, uma vez que por vezes pareciam carecer de algo mais atrativo ou forte para se tornarem igualmente marcantes.

The Call - A Invasão é uma conclusão bem conseguida. Peadar O'Guilin volta a reunir os ingredientes apresentados no primeiro volume, e ainda assim consegue mostrar que ainda tem alguns truques na manga. O desfecho escolhido é o mais adequado a esta obra: agridoce, brutal e com toques de esperança e compaixão. Não consigo dizer qual dos dois livros desta saga prefiro, mas garanto que se completam muito bem.

domingo, 3 de junho de 2018

Opinião: O Pântano dos Sacrifícios

Título Original: Offermossen (2017)
Autor: Susanne Jansson
Tradução: João Reis
ISBN: 9789898917003
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

Crê-se que antigamente os pântanos eram usados como locais onde se realizavam sacrifícios humanos. Por serem pobres em oxigénio, estes terrenos atrasavam o processo de decomposição dos corpos, levando à sua preservação. Há por isso quem acredite que as almas lá enterradas não conseguem encontrar descanso, atraindo até si novas vítimas.
Nathalie Nordström é uma jovem bióloga que se desloca até a um pântano no norte da Suécia para realizar uma experiência de campo. Nathalie cresceu naquela zona, mas partiu quando uma terrível tragédia se abateu sobre a sua família.
Numa noite de tempestade, um mau pressentimento leva-a até ao pântano. Lá encontra um homem inconsciente, prestes a afundar-se. A polícia começa a investigar o caso e acaba por encontrar cadáveres ali enterrados.
Estará o pântano a reclamar mais sacrifícios, como alguns habitantes locais acreditam?

Opinião:

A resolução de um crime aliada à superstição e história. Esta é a base de O Pântano dos Sacrifícios, livro de Susanne Jansson que me deixou intrigada desde a primeira página. A autora volta a provar que os policiais nórdicos realmente se destacam, inspirando-se nas paisagens pantanosas da Suécia e na forma como a história antiga podem continuar a influenciar uma comunidade. O resultado é uma história que marca pela diferença.

A narrativa é dada ao conhecer ao leitor através de duas personagens femininas fortes. Por um lado temos Nathalie, uma jovem que chega ao pântano de Fengerskog para concluir um estudo. A autora não esconde que esta personagem tem uma ligação a este local, mas mantém o mistério sobre os motivos que a obrigaram a deixar a casa onde passou a infância. Percebe-se que Nathalie viveu um evento traumático e que este continua a afectá-la. Contudo, é também curioso perceber como, ao longo destas páginas, esta figura consegue derrubar os muros que levantou para se proteger. Nathalie é a nossa ligação à última vítima e também a esta terra que parece envolta numa aura de misticismo.

Maya é a outra personagem com maior destaque nesta obra. Artista e fotógrafa, ela é uma mulher madura que trabalha pontualmente com a polícia. Através dela temos um lado mais racional dos acontecimentos, uma vez que nos permite acompanhar as investigações que estão a ser feitas. É curioso verificar como a razão pode ser afectada pela superstição. Paralelamente, esta personagem dá-nos ainda uma visão diferente de como se deve viver e sobre como devem ser estabelecidas as prioridades. Uma figura que nos prova que nunca é tarde para nada e que devemos sempre puxar pelo melhor de nós.

O desenrolar da acção está muito bem conseguido. O início apresenta logo alguns dos pontos fundamentais sobre os quais a autora se vai debruçar, levantando imediatamente alguns enigmas. Ainda assim, a leitura decorre de uma forma mais pausada, de modo a que tudo isto seja apreendido. Com o passar das páginas, o nosso ritmo aumenta, tal como o interesse, estimulado pelos desenvolvimentos e pelas pequenas pistas que vão sendo fornecidas e que nos ajudam a desvendar todas as personagens e o que realmente aconteceu e tem acontecido naquele pântano.

As descrições não são excessivas, mas deixam-nos sentir que também estamos naquele pântano. A autora consegue transmitir-nos a beleza e, ao mesmo tempo, o respeito e receio pelo local. Queremos estar lá, mas parece que não somos capazes de realmente entrar, com medo do que poderá estar escondido nos campos alagados e no nevoeiro que se levanta. Este é o ambiente constante, perfeito para um bom thriller.

A autora tem ainda a capacidade de nos indicar a linha de pensamento das personagens, levar-nos a seguir outra, para no final surpreender com uma inesperada resolução. Fiquei muito satisfeita por esta não ser uma história evidente. Gostaria apenas que, ao longo da narrativa, existissem momentos mais intensos. Ainda assim, a autora consegue fazer com que o leitor se sinta preso.

O Pântano dos Sacrifícios é um livro que marca pela diferença. Num mercado onde existem muitos thrillers, é sempre bom quando pegamos num que nos transporta para um mistério inesperado, que nos envolve, consegue brincar com receios íntimos, apresentar boas personagens e ainda apresentar uma conclusão surpreendente. Este livro de Susanne Jansson consegue tudo isso.

 

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Opinião: Os Humanos

Título Original: Humans (2013)
Autor:Matt Haig
Tradução: Eugénia Antunes
ISBN: 9789898869821
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

E se a terra fosse o planeta mais absurdo do universo?
O professor Andrew Martin, génio matemático, acaba de descobrir a chave para os maiores mistérios do Universo. Ninguém sabe do salto que isto representará para a Humanidade? exceto seres evoluídos de outro planeta.
 Determinados a impedir que esta revelação caia nas mãos de uma espécie tão primitiva quanto os humanos, estes seres enviam um emissário para destruir as provas. E é assim que um alien intruso, completamente alheio aos costumes, chega à Terra. Rapidamente, ele descobre que os humanos são horrendos e têm hábitos ridículos ? comida dentro de embalagens, corpos dentro de roupas e indiferença por trás de sorrisos? Esta espécie não faz sentido!
Durante a sua missão, sob a pele e identidade de Andrew Martin, este alien sente-se perdido e odeia todos os terráqueos. Exceto, talvez, Newton, um cão. Contudo, quanto mais se envolve com os que o rodeiam mais fica a perceber de amor, perda, família; e de repente está contagiado: será que afinal há qualquer coisa de extraordinário na imperfeição humana?

Opinião:

Este é um livro muito peculiar e que marca. Começa por parecer uma comédia meio absurda, mas com o deserolar da trama a carga dramática aumenta até que, nas últimas páginas, estamos completamente sensibilizados com as lições partilhadas. Com Os Humanos, Matt Haig parece mesmo estar a avisar-nos que nem sempre encaramos a vida como deveríamos e que, muitas vezes, as nossas prioridades não estão correctas. E tudo isso faz com que a humanidade acabe por parecer ridícula.

Qual a melhor forma de observar e analisar a vida humana do que colocar um ser extraterrestre a tentar comportar-se como um homem? Completamente alheio à vida na Terra, esta criatura tem de assumir a pele de Andrew Martin, um génio matemático. É divertido assistir ao primeiro impacto deste ser no nosso planeta, a forma como comunica com os outros humanos, como reage aos nossos hábitos e à nossa forma de viver. Isto dá origem a momentos hilariantes, mas que ao mesmo tempo nos levam a interrogar muito do que tomamos como certo.

Com o avançar da narrativa, começamos a assistir a uma profunda crítica à nossa sociedade. Este ser questiona tudo e começa a perceber que a vida humana só tem sentido pelo amor aos outros, pela liberdade, pelo facto de sabermos que tudo é éfemero e, por isso mesmo, dever ser aproveitado ao máximo. A mudança de pensamento protagonista acontece de forma gradual, o que, ao mesmo tempo, provocanda uma alteração no tom da escrita, que acaba por se tornar mais séria, chegando-nos ao coração.

Ver um ser analítico e extremanente racional a desenvolver sentimentos conforme vai estabelecendo relações é enternecedor. A devoção que desenvolve pela mulher do verdadeiro Andrew e o carinho e companheirismo que estabelece com o filho deste recordam-nos que a família é realmente o pilar fundamental da nossa sociedade. É aí que encontramos a nossa base e a partir daí que conseguimos estabelecer todas as outras relações, quer seja com pessoas como com o mundo.

Nas páginas finais, existe um capítulo que merece ser relido vezes sem conta. Trata-se de uma lista com 97 pontos de todos os conselhos que este alien tem para dar a um ser humano. Alguns pontos são engraçados e refletem alguns momentos engraçados das primeiras páginas, sendo que todos os outros nos levam a fazer um exame de consciência sobre as nossas escolhas, prioridades, valores e forma como estamos a viver. Um lembrete magnifício sobre o que é realmente importante e sobre o facto de não devermos deixar a felicidade para ser vivida mais tarde. Tudo deve acontecer agora.

Matt Haig explica que escreveu Os Humanos num período muito conturbado na sua vida. O resultado final é merecedor de um forte aplauso. Se esta obra ajudou o autor a ultrapassar essa fase difícil, de certo poderá ser uma ajuda preciosa para quem se encontra perdido ou sem encontrar um sentido para o qual se virar. Para todos os leitores, este livro não só propociona um bom momento como nos faz ter vontade de parar de adiar sonhos e ser feliz. E não é isso que importa na nossa existência? Recomendo.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Opinião: Às Cegas

Título Original: Bird Box (2014)
Autor: Josh Malerman
Tradução: Rita Figueiredo
ISBN: 9789898869746
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

Não abra os olhos. Há algo terrível lá fora.
Num mundo pós-apocalítico tenso e aterrorizante que explora a essência do medo, uma mulher, com duas crianças, decide fugir, sonhando com uma vida em segurança. Mas durante a viagem, o perigo está à espreita: basta uma decisão errada e eles morrerão. Cinco anos depois de a epidemia ter começado, os sobreviventes ainda se escondem em abrigos, protegidos atrás de portas trancadas e janelas tapadas.
Malorie e os seus filhos conseguiram sobreviver, mas agora que eles têm 4 anos chegou o momento de abandonar o refúgio. Procurar uma vida melhor, em segurança e sem medos.
Num barco a remos e de olhos vendados, os três embarcam numa viagem rio acima. Apenas podem confiar no instinto e na audição apurada das crianças para se guiarem. De repente, sentem que são seguidos. Nas margens abandonadas, alguém observa. Será animal, humano ou monstro?

Opinião:

Quem tem medo do escuro? Quem fica em pânico ao sentir movimentos na penumbra? Agora imaginem o que é viverem sempre de olhos fechados para não serem mortos por algo desconhecido e que enlouquece todos os que o veem. Eram capazes de viver na escuridão para preservarem a vida? Encurralados e com praticamente nenhum contacto com o exterior? Manteriam a sanidade nestas condições? É nestas condições que se encontra o mundo criado por Josh Malerman neste livro.

Às Cegas apresenta uma história intensa, arrepiante e que, em muitas ocasiões, deixa o nosso coração mais acelerado. Num mundo igual ao nosso, as pessoas começam a enlouquecer e a matarem todos os que as rodeiam, terminando por também tirarem a própria vida. Ninguém sabe ao certo porque isto acontece, mas todos já perceberam que tal é despoletado pela visão de algo. Uma criatura, um monstro, um ser misterioso que surge no campo de visão e provoca insanidade. A única forma de sobreviver é encontrar um refúgio, tapar todas as portas e janelas e viver na escuridão. Na rua, só se pode andar de olhos fechados, mas isso é estar exposto a perigos e sem hipótese de defesa.

Vivemos esta aventura ao lado de Malorie. Trata-se de uma mulher jovem que se transforma à nossa frente ao longo da narrativa. Conhecemos esta personagem numa fase já avançada da história, numa situação extrema em que a luta pela sobrevivência prevalece sobre tudo o resto. Contudo, em capítulos intercalados, assistimos ainda aos acontecimentos que vão desde o início deste fenómeno crítico até ao ponto actual da situação. Desta forma, o autor deixa-nos perceber o que aconteceu a Malorie e a todos os que a certa altura a rodearam, mas sem revelar tudo e deixando-nos sempre com vontade de descobrir mais.

A transformação da protagonista é impressionante. De uma jovem que acredita que o seu maior problema é uma gravidez indesejada ela torna-se uma mulher capaz de tudo para sobreviver. A forma como tal acontece é gradual e faz todo o sentido. Moldada pela dor da perda e pelo terror, ela acaba por ser exemplo de coragem, preservação e força. É impressionante observar algumas das decisões que toma, nomeadamente numa fase mais avançada, quando fica responsável por dois bebés. Podemos ficar arrepiados com alguns dos seus pensamentos e opções quanto às crianças, mas não a conseguimos julgar.

Tanto Malorie como as pessoas que ele contacta transmitem as diferentes formas de se lidar com situações de perigo e sobrevivência. Acredito que podemos imaginar o que faríamos nesta situação, mas sem ter a certeza de quais seriam as nossas reacções. Por isso mesmo, acaba por ser difícil criticar as figuras com quem, aparentemente, não deveríamos simpatizar. Ainda assim, é de louvar sentir que o optimismo e esperança conseguem prevalecer em algumas personagens, mesmo quando passaram por tanto e perderam tudo. Ao observarmos estas figuras, analisamos a natureza humana e fazemos um exame de consciência. Afinal, qual destas figuras nos representa?

O ambiente tenso consegue envolver-nos e afetar-nos conforme a leitura vai avançando. As descrições transportam-nos com facilidade para esta realidade, sendo imediato e fácil perceber o pavor em que vivem as personagens e o pânico vivido nas situações mais extremas. Muitas vezes, parece que somos nós que ali estamos, fechados num casa e com medo do que pode estar lá fora ou mesmo na rua com uma venda nos olhos e a sentir a presença de algo desconhecido mesmo ao nosso lado. Acreditem, estes momentos incomodam, mas também nos fazem querer não largar o livro.

É engraçado pensar que, quando comecei a leitura, perguntei-me se não seria aborrecido acompanhar uma história passada dentro de uma casa ou em que as personagens tivessem sempre os olhos fechados. Acreditem, esta dúvida revelou-se infundada pois em momento algum senti desinteresse ou aborrecimento. A narrativa agarra-se a nós e faz-nos desejar entender o que ali aconteceu, o que fez com que Malorie se encontrasse naquela situação, até onde vão aquelas personagens e o que está, afinal, a causar esta chacina.

Às Cegas é um livro impressionante. Devorei-o com vontade e fiquei muito satisfeita com o rumo que a história tomou. O final faz sentido, apesar de, admito, sentir falta de algumas informações. Contudo, entendo a opção do autor para não as fornecer, pois isso faz com que o medo vivido nestas páginas não nos abandone facilmente. E apesar de tal ideia poder perturbar, pensem no quão bom é quando um livro nos afecta desta forma. Claro que recomendo.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Opinião: Batman: Vigilante Noturno (DC Icons #2)

Título Original: Batman: Nightwalker (2018)
Autor: Marie Lu
Tradução: Rui Azeredo
ISBN: 9789898869784
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

Antes de ser Batman, ele era Bruce Wayne: um rapaz impetuoso e disposto a tudo por uma rapariga que pode ser o seu pior inimigo.

Os noturnos aterrorizam Gotham City
Alguns milionários da cidade foram assassinados dentro das suas mansões, e as suas fortunas simplesmente desapareceram. Os responsáveis formam uma organização muito bem preparada que diz lutar contra a injustiça e a corrupção dos poderosos. Deles só se conhece o nome, Noturnos.

Bruce Wayne é o próximo da lista
Enquanto isso, Bruce está prestes a fazer dezoito anos e a herdar a fortuna da família, bem como as chaves das Indústrias Wayne e todos os seus fantásticos dispositivos tecnológicos. Mas, na noite do seu aniversário, um ato impulsivo condena-o a prestar serviço comunitário no Asilo Arkham, a infame prisão onde se encontram os piores criminosos da cidade.

Madeleine, uma assassina letal
O prisioneiro mais interessante de Arkham é Madeleine, uma rapariga brilhante com ligações aos Noturnos. Para chegar até eles e evitar ser o próximo alvo, Bruce tem de convencê-la a falar. Mas será que Madeleine confia mesmo em Bruce? Estará ela a divulgar os seus segredos ou a recolher dele a informação de que precisa para destruir Gotham City?

Opinião:

O Batman é um dos meus heróis preferidos do universo DC, por isso claro que tinha de ler a história que lhe foi dedicada nesta colecção. Para quem não sabe, vários autores conhecidos foram convidados a recriarem o início das aventuras de alguns protagonistas bastante populares e o resultado está a ser a série DC Icons. A primeira heroína a ser retratada foi a Mulher-Maravilha, cujo livro já tive a oportunidade de ler (opinião aqui). Segue-se agora uma nova versão sobre o que levou Bruce Wayne a criar o Batman.

Marie Lu foi a autora convidada a tomar em mãos este desafio. Fiquei satisfeita por não perder muito tempo a explicar a base da história de Bruce Wayne, por se tratar de algo que é do conhecimento de todos os que conhecem o mínimo do seu passado. A autora preferiu focar-se no início da idade adulta desta personagem, mostrando que ao celebrar 18 anos, Bruce não só atinge a maioridade como ainda toma em mãos toda a fortuna e responsabilidade das empresas dos seus pais. E no meio de tudo isto, Marie Lu ainda cria uma justificação nova e diferente para o que terá levado este jovem a tornar-se um herói para Gotham City.

A personalidade de Bruce Wayne foi adaptada a esta idade. Apesar de mais jovem e até ingénuo, percebe-se nele os traços que vão ficar mais vincados na idade adulta. Aliás, o desenrolar desta narrativa tenta mesmo fornecer mais um motivo para ele se ter tornado no justiceiro misterioso de Gotham. Percebe-se que é um jovem magoado, mas leal, atento ao que o rodeia e crítico no que toca à sociedade em que vive. Não se pode dizer que surpreenda, mas faz o seu papel e não desilude.

À volta de Bruce estão outras personagens nossas conhecidas. Cada uma ocupa o seu lugar devido, sendo divertido saber à partida o que lhes vai acontecer num futuro mais longínquo. Desta forma, somos levados a pensar na complexidade das relações e na forma como o tempo as pode alterar. Entre este grupo, destaco Alfred e Harvey Dent. Contudo, também existem figuras novas que fornecem perspectivas diferentes e nos deixam na dúvida sobre os seus verdadeiros objectivos e valores morais. Neste grupo, incluo Madeleine, como não poderia deixar de ser, mas também Draccon.

A narrativa apresenta ritmo e faz-nos ter vontade de ler o que vem a seguir. Os momentos de acção não são exagerados, havendo maior foco para o mistério e relacionamento das personagens. Confesso que existem certas circunstâncias que podem parecer forçadas, nomeadamente o motivo que leva Bruce, um bilionário de 18 anos, a cumprir serviço comunitário em Arkham, prisão onde estão os criminosos mais perigosos da cidade. Contudo, este espaço é essencial para o desenrolar da acção e para que Bruce conheça Madeleine, uma figura que o intriga a ele e ao leitor.

Num livro destinado ao público jovem-adulto existe o risco de haver um certo exagero no que toca às relações amorosas. Felizmente, tal não aconteceu nesta aventura, apesar de se sentir logo ao início uma forte atracção entre Bruce e outra personagem. Para o leitor, pode não ser fácil entender inicialmente como tal é possível, mas gostei do desfecho que a autora conseguiu dar a esta questão. As personagens não ficam loucas de amor e acabam por se manterem fiéis ao que acreditam, o que é muito importante para a história.

Batman: Vigilante Noturno proporcionou-me uma leitura interessada, divertida e descontraída. Marie Lu respeitou a personagem mas também conseguiu dar o seu cunho pessoal a esta aventura. O final é satisfatório, não só pela história agradável como também pelas reflexões que provoca em temas como a justiça e as desigualdades sociais. Estou a gostar do rumo da colecção e expectante com a obra que se segue, que será escrita por Sarah J. Maas (autora da série de sucesso "Trono de Vidro") e dedicada a Catwoman. Venha ela!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Opinião: Anatomia de um Escândalo

Título Original: Anatomy of a Scandal (2017)
Autor: Sarah Vaughan
Tradução: Dina Antunes
ISBN: 9789898869647
Editora: TopSeller (2018)

Sinopse:

A verdade é um conceito complexo!
James Whitehouse é um bom pai, um marido dedicado e uma figura pública carismática e bem-sucedida. Um dia, é acusado de violação por uma colaboradora próxima. Sophie, a sua esposa, está convencida de que ele é inocente e procura desesperadamente proteger a sua família das mentiras que ameaçam arruinar-lhes a vida.
Será que é sempre interpretada da mesma forma?
Kate Woodcroft é a advogada de acusação. Ela sabe que no tribunal vence quem apresentar os melhores argumentos, e não necessariamente quem é inocente. Ainda assim, está certa de que James é culpado e tudo fará para o condenar.
De que lado estará a verdade?
Será James vítima de um infeliz mal-entendido ou o autor de um sórdido crime? E estará a razão do lado de Sophie ou de Kate? Este escândalo — que irá forçar Sophie a reavaliar o seu casamento e Kate a enfrentar os seus demónios — deixará marcas na vida de todos eles.

Opinião:

Quando duas pessoas contam versões completamente opostas de uma mesma história, como saber quem está a dizer a verdade? É esta a dúvida que nos assalta assim que começamos a ler Anatomia de um Escândalo. Sarah Vaughan apresenta-nos uma história contada sobre diferentes pontos de vista, provocando a dúvida sobre o que é verdade, o que é mentira, o que é manipulação, o que é crime e o que não é.

Kate e Sophie estão em lados distintos desta trama. A primeira surge como uma advogada dedicada, que vive verdadeirmente os casos que lhe são incumbidos, mesmo quando parece impossível fazer valer os seus argumentos. Sophie é uma esposa dedicada que deixou tudo para tomar conta da família e é capaz de aguentar o sofrimento pelo bem da estabilidade familiar. Duas mulheres muito diferentes, mas que conseguem criar empatia pela forma sincera como se revelam, pela vulnerabilidade que expõe e pela força que acabam por encontrar. É ainda curioso ver a forma como estas figuras evoluem ao longo da narrativa.

James Whitehouse é a figura que se vê no centro de um julgamento que opõe estas duas mulheres. Ele é um homem de poder, um pai de família, um marido que admitiu não ter conseguido resistir à tentação. Contudo, em boa parte da obra o leitor duvida sempre das intenções desta figura. Será ele culpado do crime de que é acusado ou tudo não se tratará de uma vingança arquitectada por uma amante rancorosa? Numa altura em que tanto se fala em assédio sexual, este acaba por ser um tema bastante pertinente e sempre atual. A autora faz-nos pensar sobre os limites de uma relação e como estes devem ser estabelecidos de forma a ser possível distinguir consentimento de abuso.

A forma como esta história se desenvolve é muito cativante. A vontade de obter mais informações de forma a se descobrir o que realmente aconteceu e como tudo vai terminar impele para uma leitura interessada. Admito que li o livro em pouco tempo, apesar de reconhecer que o ritmo da acção é algo lento. O facto de a autora ter optado por incluir capítulos que relatavam momentos do passado acabou por resultar muito bem e por trazer uma nova visão do que estava a acontecer no tempo presente da acção. É nestas páginas que conhecemos o passado de Sophie e de James, assim como o de uma outra figura que aparenta nada ter a ver com o presente deste casal. Mas que tem.

Gostaria que o ambiente de mistério durasse mais tempo. Penso que, apesar das dúvidas, acabamos por ser levados para analisar estas personagens de uma certa forma que nos facilita a descoberta do que realmente aconteceu. Ainda assim, gostei da forma como tudo culminou, não sendo uma resolução fácil ou evidente, mas que facilmente pode ser transporta para a vida real. Felizmente a autora ainda conseguiu encontrar maneira de dar à volta a tudo e mostrar que é possível encontrar a felicidade apesar dos eventos traumáticos apresentados.

Anatomia de um Escândalo é um thriller apelativo que nos leva a pensar em manipulação, assédio e vingança. Além de nos entreter com uma história que poderia ser real, Sarah Vaughan desvenda ainda como funciona o sistema judicial britânico, especialmente no que toca a julgamentos. Um livro que incide num crime real que desenterra situações passadas que foram ocultadas e que prova que todos temos segredos que não queremos ver expostos. Uma boa leitura.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Opinião: A Livraria dos Destinos

Título Original: How to Find Love in a Bookshop (2016)
Autor: Veronica Henry
Tradução: Dina Antunes
ISBN: 9789898869432
Editora: TopSeller (2017)

Sinopse:

No mundo da Nightingale Books serve-se romance e a cura para um coração partido. Este é o sítio onde as melhores histórias não se encontram apenas nas páginas dos livros, mas nas vidas dos que por lá passam.

Depois da morte do pai, Emilia regressa a Peasebrook para gerir a velha livraria da família, Nightingale Books - o sonho de qualquer bibliófilo e um refúgio para os moradores desta pequena vila. Mas agora que está responsável pelo seu futuro, Emilia terá de afastar potenciais compradores, ao mesmo tempo que tenta cumprir o último desejo do pai.

Uma livraria extraordinária com pessoas extraordinárias...

Desde a mulher que a visita há anos, ao recém-divorciado que tenta reaproximar-se do filho, e ainda a tímida chef de cozinha que se apaixona na secção de culinária... há algo de magnético neste sítio. Até Emilia sente as forças da livraria a conspirarem por si quando se cruza com um homem a quem não consegue ficar indiferente.

Com todos a depender dela, conseguirá Emilia encontrar um destino feliz para a livraria e os seus leitores? No mundo da Nightingale Books serve-se romance e a cura para um coração partido. Este é o sítio onde as melhores histórias não se encontram apenas nas páginas dos livros, mas nas vidas dos que por lá passam.

Opinião:

Uma carta de amor aos livros e aos leitores. A Livraria dos Destinos é um verdadeiro mimo para todos os que gostam de se perder numa boa história. Com referência a inúmeras obras, apresenta a história de uma livraria e mostra como esta está ligada a diversos dramas pessoais. Como tal, é praticamente impossível não sentir ligação com pelo menos uma destas personagens, tão diversificadas e com vivências tão distintas.

O enredo começa a desenrolar-se com a morte do dono de uma livraria regional e da passagem do estabelecimento para a sua filha. Emilia é o foco da trama por ser nela que todas as outras histórias se cruzam. Emilia não foi a personagem que mais me atraiu, mas o seu papel de unir todos as outras figuras está bem conseguido. Ela é uma jovem que aceita bem a sua responsabilidade apesar de ainda não se sentir preparada para tal. Ao vê-la a lidar com o negócio do pai, foi inevitável pensar no respeito pelos nos criaram e pelo que conseguiram construir. Além disso, fica também a ideia de que essas pessoas podem desaparecer fisicamente, mas a memória é forte e os sonhos dos outros podem vir a ser concretizados postumamente.

As histórias de todas as personagens são curtas, pois são várias e o livro não tem as páginas necessárias para se debruçar afincadamente em cada uma. Gostei muito da história de Julius, que vai sendo desvendada e que nos faz refletir sobre paixão e amor. Sarah prova ser uma mulher de grande força no que toca a ajudar os outros mas receosa de fazer o que é preciso pela própria felicidade. Jackson prova que as aparências iludem e que as novas oportunidades podem ser uma realidade se lutarmos por elas. Dillon representa as pessoas que pensam não serem merecedoras dos seus sonhos, mas cujo valor as leva a alcançá-los. Bea e Bill provam que quebrar esterótipos não faz mal, principalmente quando o que está em causa é a estabilidade e felicidade da família.


Interessei-me por estas pessoas e, no final, desejei conhecê-las ainda melhor e passar mais tempo com elas. Isso pode ser sinal de que o livro tinha mais potencial do que aquilo que apresentou, mas também significa que a leitura foi proveitosa e proporcionou bons momentos. O ritmo não teve quebras, motivado pelas personagens e suas peripécias. Não esperava tudo o que aconteceu para que cada uma destas figuras encontrasse o seu caminho, mas o final foi ao encontro daquilo que imaginava. 

Uma narrativa leve e que aquece o coração. Com A Livraria dos Destinos, Veronica Henry deixa-nos encantados e com a ideia de que a esperança nunca dever ser perdida, pois um final feliz é possível para quem luta por ele. Ao longo destas páginas fica ainda provado que existe um livro para cada pessoa, tal é a diversidade de opções disponíveis. E quem diz que não gosta de ler apenas o faz por ainda não ter encontrado a sua história ou tema de eleição. Fica a vontade de ter uma livraria e de inspirar os outros com livros. Felizmente um blogue também serve para esse efeito.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Opinião: Mulher-Maravilha: Dama da Guerra

Título Original: Wonder Woman: Warbringer (2017)
Autor:  Leigh Bardugo
Tradução: Rui Azeredo
ISBN: 9789898869265
Editora: TopSeller (2017)

Sinopse:

Todas as lendas têm um início. Diana tornar-se-á uma lenda, mas primeiro deverá enfrentar uma jornada (i)mortal!

DIANA: FILHA DE IMORTAIS
Da ilha das imortais Amazonas, a princesa Diana apenas pode observar o Mundo dos Homens, sem interferir. Mas no momento em que assiste a um naufrágio, e a vida de uma rapariga corre perigo, o instinto da princesa fala mais alto. Ao socorrer e trazer uma mortal para a ilha, viola uma das regras sagradas e arrisca-se a ser exilada. Pior ainda, esta não é uma rapariga qualquer e, ao salvá-la, Diana pode ter condenado o mundo.

ALIA: FILHA DA MORTE
Depois de o barco explodir, Alia Keralis luta pela vida. Não sabe que a tentam matar. Não sabe quem é aquela jovem misteriosa e
incrivelmente forte que aparece em seu auxílio. E não sabe que ela própria é uma Dama da Guerra, descendente direta de Helena de Troia, uma linhagem condenada a trazer a guerra ao mundo.

IRMÃS DE ARMAS
Enquanto todos procuram assassinar Alia, a Dama da Guerra, para evitar que o mundo tenha um fim trágico, a princesa Diana sabe
que há outra solução. Mas para isso terá de abandonar a sua ilha, entrar no Mundo dos Homens e enfrentar perigos inimagináveis.
Uma verdadeira demanda que exigirá a confiança e a coragem de ambas para, como irmãs, enfrentarem as forças da guerra.

Opinião:

Muita ação, um enredo rápido, perigo e diversão marcam Mulher Maravilha: Dama da Guerra.  Este é o primeiro volume de uma série de livros com histórias dos heróis da DC Comics destinadas a um público mais jovem. Cada livro centra-se numa destas personagens e tem como autor um escritor reconhecido dentro do meio. Leigh Bardugo, que conhecemos da série "Grisha",  foi a autora convidada para recontar as aventuras de uma das figuras femininas deste universo mais aclamadas de sempre.

Esta história inspira-se no que já é conhecido, mas apresenta uma aventura diferente que nos traz novas personagens. Diana, mais conhecida como Mulher-Maravilha, surge como uma jovem que pretende provar o seu valor, encontrando tal oportunidade ao ajudar uma adolescente que parece ter uma vida marcada pela pouca sorte. A união entre as duas é inevitável, sendo divertido assistir ao primeiro choque entre uma guerreira amazona e uma adolescente dos tempos modernos.

As personagens, mais jovens, apresentam características que apelam à diversidade. Esta é uma forma de a autora mostrar que os heróis ser encontrados em qualquer pessoa, não importanta a origem, o físico, o género ou a orientação sexual. A coragem, a lealdade, o altruísmo e a bondade são valorizados, sendo estas as características que fazem a diferença e tornam o mundo num lugar melhor. Uma mensagem que é bem transmitida ao longo da trama e que deixa a ideia de que Diana não é a única heroína desta aventura.

Os diálogos são um dos pontos fortes desta obra. Cativantes, divertidos, com ritmo, tornam as personagens mais interessantes e reais, ao mesmo tempo que a leitura fica ainda mais apelativa e fresca. Os primeiros confrontos entre Diana e Alia são cativantes, pois provam que se tratam de duas figuras de origens bem distintas mas que têm tudo para se darem bem. Os comentários de Nim e Theo ao longo da narrativa também tornam a história mais fresca e acabam por aligeirar momentos de maior tensão. Leigh Bardugo conseguiu trazer um bom equilíbrio à narrativa graças aos diálogos, sem dúvida.

O enredo pode parecer previsível e não guardar surpresas, mas na verdade não é bem isso que acontece. Sim, numa primeira fase tudo segue um rumo esperado, mas o clima de desconfiança permanente termina numa reviravolta inesperada e bem conseguida. Gostei do desfecho dado à obra, apesar de em momento algum ter sentido que Diana, Alia ou qualquer outra personagem estava realmente em perigo.

Mulher Maravilha: Dama da Guerra é uma interpretação livre sobre o aparecimento desta heroína no nosso mundo. Destinado aos jovens, este livro acaba por criar identificação com o seu público por abordar temas como a pertença, o reconhecimento pelos outros, a procura de rumo, a amizade e o primeiro amor. Uma leitura leve que vai divertir todos os que têm curiosidade quanto a este universo e estão dispostos a conhecer novas versões da história de uma personagem que já é conhecida.

Outras opiniões e a livros de Leigh Bardugo:
Luz e Sombra (Grisha #1)

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Opinião: Os Pássaros no Fim do Mundo

Título Original: All the Birds in the Sky (2016)
Autor: Charlie Jane Anders
Tradução: Raquel Pinheiro
ISBN: 9789898869319
Editora: TopSeller (2017)

Sinopse:

Um romance original sobre o fim do mundo… e o princípio do nosso futuro.

Patricia e Laurence tornaram-se amigos quando o resto da escola decidiu marginalizá-los: Laurence, por ser um geek dos computadores, e Patricia, por ser uma suposta bruxa que fala com animais. Mas a interferência das famílias e a ocorrência de circunstâncias muito invulgares acabam por ditar o fim da amizade.

Quando chegam à idade adulta, os dois têm vidas muito diferentes, mas um objetivo em comum: Laurence tornou-se um génio da engenharia e está envolvido na criação de uma máquina de viagens intergalácticas, para salvar os humanos do colapso do planeta; e Patricia, formada na academia secreta de magia, trabalha para reparar os eternos problemas da Terra e dos seus habitantes.

Inevitavelmente, os dois amigos voltam a reunir-se, graças a uma força maior do que eles: algo gigantesco e imperial que trará o Apocalipse.
E Patricia e Laurence nem imaginam que serão as suas escolhas a determinar o destino do planeta e de toda a Humanidade.

Opinião:

Este é um livro muito diferente de todos os outros que li até aqui. Tão diferente que se torna difícil definir o seu género. Os Pássaros no Fim do Mundo tem elementos de fantasia, ficção científica, distopia, romance paranormal, entre outros. Não que seja importante rotular uma obra, mas saliento este aspecto só para que também  consigam perceber o motivo de eu dizer que esta leitura dificilmente pode ser comparada.

Patricia e Laurence são os protagonistas desta obra. É curioso ver como eles se aproximam tão naturalmente apesar de terem personalidades e vocações completamente distintas. Ela é uma bruxa amante da natureza, ele um aspirante a cientista que venera a evolução tecnológica. Contudo, os dois vivem situações semelhantes no que toca às relações com os outros. As peculiaridades de cada um são, além de características que os tornam especiais, fonte de grande problemas dentro das respectivas famílias e até mesmo na escola. Assim, ficamos felizes por eles encontrarem um no outro um apoio nos momentos mais negros.

A autora mostra-nos que a forma como vivemos a nossa infância afecta a idade adulta. Tanto Patricia comi Laurence passaram por grandes obstáculos e momentos traumatizantes. Vítimas de bullying, às vezes mesmo dentro do próprio lar, tornaram-se em pessoas com problemas de auto-estima apesar de muito terem lutado para encontrarem uma vida melhor. É possível sentir empatia pelas duas personagens e queremos muito vê-las a ultrapassar obstáculos, alguns deles colocados por Patricia e Laurence, de modo a encontrarem a estabilidade e sucesso.

O livro pode ser dividido em duas fases, sendo que a primeira se passa durante a infância dos protagonistas e a segunda na idade adulta destes. Senti maior ligação à primeira parte, talvez pela sensação de descoberta e pela forma como o ambiente familiar e escolar foi explorado. A segunda também tem aspectos originais e interessantes, mas por vezes senti-me a distrair-me da história por achar a narração pouco apelativa.

A questão do fim do mundo é convincente. A autora inspirou-se em problemas ambientais actuais causados pela actividade humana e mostrou-nos as consequência que daí podem advir. As descrições são chocantes e observar estes acontecimentos como reais e, talvez, mais próximos do que queremos acreditar, é bastante assustador. Como tal, facilmente sentimos a tensão, terror e desespero que se vive nestas páginas. E mais importante, somos alertados para o facto de podermos fazer a diferença no nosso destino.

Não há dúvida de que Os Pássaros no Fim do Mundo é um livro original e que marca a diferença. Tem sentido de humor apesar de alertar para assuntos sérios e actuais. Proporciona uma leitura que interessante, apesar de certos momentos precisarem de elementos mais cativantes. No geral, é uma boa obra que nos faz querer continuar atentos a esta autora.