Título Original: De Verwarde Cavia (2016)
Autor: Paulien Cornelisse
Tradução: Susana Canhoto
ISBN: 9789897023521
Editora: Guerra e Paz Editores (2018)
Sinopse:
Esta é a vida da Cobaia. E quem é a Cobaia? É uma porquinha-da-índia, especialista em comunicação. Hipocondríaca, também. Afunda-se na rotina, trabalhando sem paixão. Todos os seus colegas são humanos, dá-se bem com eles, mas sente-se sozinha, acompanhada pela sempre leal máquina de café.
Vê a vida a passar, mera observadora. O seu antigo namorado vai casar-se e convida-a para o casamento. O novo chefe é o rufia de serviço: produtividade e inovação – acima de tudo! Stella, a tenebrosa responsável pelos Recursos Humanos, espera pelo mais pequeno deslize. Atormentada pelo trabalho, falhada nos amores, a Cobaia desespera.
A Cobaia é uma porquinha, já o dissemos, mas é também muito humana. Com depressões e tristezas, com dificuldades e falhanços, mas também com alegria e muitas amizades, a Cobaia somos todos nós. Poderá ela ser feliz? Poderemos nós ser felizes?
Opinião:
Um livro com sentido de humor que brinca com as rotinas de qualquer trabalhador e com as dificuldades que encontra em ambiente laboral. Paulien Cornelisse apresenta-nos Cobaia, uma porquinha-da-índia que trabalha num escritório. Esta ideia pode causar alguma estranheza, afinal quem de nós pensou em alguma vez trabalhar lado a lado com uma porquinha-da-índia? Contudo, a autora coloca esta personagem em situações comuns, sem que as pessoas que a rodeiam se mostrem intrigadas ou desagradadas com este facto. Basicamente, Cobaia pode ser vista como uma representação de qualquer trabalhador que, apesar de tudo, não consegue sentir-se totalmente integrado numa equipa e num ambiente.
Cobaia é uma figura que tenta passar à margem enquanto faz o seu trabalho. Não gosta de criar intrigas, sente-se incomodada com os colegas mais agressivos, é amorosa com aqueles que a tratam bem, preocupa-se com os que parecem infelizes e não tem grande vida social para além daquela que acontece com as figuras ligadas ao escritório. Tem uma personalidade calma, ponderada, gosta de passar despercebida e não tem grandes ambições. Está conformada e só quer não causar problemas e não ter desavenças. As circunstâncias em que se encontra em certos momentos e o facto de não ser uma figura humana é que captam a nossa atenção.
Como seria de esperar, o escritório onde Cobaia trabalha tem várias pessoas, cada uma com uma personalidade própria. Existem a fiel companheira, o colega divertido, o estranho e misterioso, a superior hierárquica perigosa e o chefe inconveniente e que causa desconforto. Estas figuras acabam por gerar circunstâncias que podem parecer semelhantes às de qualquer trabalhador, mas marcadas por algum exagero e humor subtil. É divertido ver Cobaia muitas vezes perdida nas suas próprias funções ou a defender propostas que nem ela entende.
A narrativa transmite a todo o momento uma sensação de que algo está a mudar. Não se trata de uma alteração repentina, mas algo lento e que poderá mudar para sempre a vida de Cobaia e dos seus colegas. A protagonista começa por encarar os pequenos indícios com temor, mas depois começa a surgir a ideia de que nada acaba ali. A autora parece que nos quer provar que um emprego, apesar de muito importante, não nos define enquanto pessoas. Trata-se de algo que deve ser tomado como uma parte da vida e não a vida em si. Como tal, o conformismo não é aceitável e é preciso ter uma visão mais ampla do que ainda pode ser feito.
Este é um livro que é lido com rapidez, graças aos capítulos muito pequenos e à curiosidade para descobrir o que vai acontecer a seguir. Contudo, gostaria de ter assistido a uma maior fluidez da narrativa, que muitas vezes pareceu ser apresentada por momentos e não por continuidade. Existem questões que podiam merecer maior desenvolvimento e o final, apesar de ser bastante apropriado, faz desejar mais explicações do que aquelas que são dadas.
Terminada a leitura, ficamos com a sensação que estamos perante um livro divertido que, de forma única, retrata a realidade de muitos de nós. Paulien Cornelisse apresentou o ambiente laboral num escritório de forma única e Cobaia foi uma personagem inesperada mas que nos levou a pensar sobre a nossa própria visão sobre a forma como encaramos e vivemos a nossa vida profissional. Uma história que, apesar de não ser perfeita, é facilmente transportada para a realidade e que nos faz avaliar a própria vida.
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domingo, 18 de fevereiro de 2018
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
Opinião: Mulherzinhas
Título Original: Little Women - Or Meg, Jo, Beth and Amy (1868)
Autor: Louisa May Alcott
Tradução: Rita Carvalho e Guerra
ISBN: 9789897022227
Editora: Guerra e Paz (2016)
Sinopse:
Mulherzinhas é um grande clássico juvenil. Transcende as fronteiras do tempo e da idade, e a tensão entre as obrigações sociais e as liberdades artísticas e pessoais faz festa obra um marco na literatura. A família Marsh passa tempos difíceis, com a partida do pai para a guera e o surgimento de dificuldades económicas. As jovens irmãs Meg, Jo, Beth e Amy ficam com a mãe, revelando-se mais fortes do que qualquer adversidade. Esta é uma história de amor, coragem e união, inspirada nas experiências da autora e das suas irmãs. A vida continua em tempos de guerra, e as quatro irmãs brincam, fazem novos amigos, discutem, lidam com os seus defeitos, aprendem com os erros, ajudam-se perante as dificuldades, sonham e crescem. Afinal, são já umas mulherzinhas. Esta edição inclui as ilustrações originais, de May Alcott, irmã da autora, para além de uma cronologia biobibliográfica, uma caracterização das personagens e excertos do diário de Louisa May Alcott.
Opinião:
Este era um livro que queria ler há muito e quando vi esta bonita edição não resiste e decidi que não podia deixar passar mais tempo. Já sabia algumas pormenores de Mulherzinhas, de séries e desenhos animados que vi na infância, mas não conhecia verdadeiramente a história desta obra de Louisa May Alcott. Agradou-me que esta edição tivesse notas que enquadram o livro na vida da autora e explicam de que forma a trama está relacionada com a sua própria experiência.
Iniciada a leitura, percebe-se que se trata de um livro de uma época muito diferente da nossa. Existe uma outra sensibilidade para certos temas, o papel da mulher é completamente diferente e certas circunstâncias, como a guerra, são abordadas com uma certa ingenuidade. Podemos tentar fazer um retrato do século XIX dos EUA, mas julgo que o mais importante são as relações entre personagens as lições que estas aprendem através dos seus erros e experiências.
Cada capítulo encerra uma pequena moral. Desta forma, ficamos a conhecer a formação destas quatro irmãs tão distintas ao mesmo tempo que se tenta transmitir uma lição à leitora de tenra idade. Através de peripécias, algumas mais engraçadas e outras mais sérias, a autora parece querer ensinar alguns valores a quem está a acompanhar estas aventuras, sendo os principais relacionados com a família, o trabalho, a amizade, a humildade, a gratidão e o altruísmo.
Esta ideia de transmissão de valores parece-me interessante, mas, infelizmente, penso que não peguei nesta obra na altura certa. Era fácil adivinhar o que ia acontecer em cada circunstância e que lição cada irmã iria aprender. Além disso, penso que tudo isto poderá interessar mais aos leitores mais jovens, que poderão ter maior facilidade em identificarem-se com alguma das irmãs. Eu não consegui ligar-me particularmente a uma das meninas March, apesar de Jo ser aquele que mais se destaca e cuja personalidade melhor se liga aos dias de hoje.
Nesta edição, destaco os excertos do diário da autora, que nos aproximaram dos seus motivos para este livro. Também gostei das notas finais, que melhor nos relacionam com Louisa May Alcott, com a sua família, e que fazem relacionar a realidade com a ficção. No final, fiquei a perguntar-me sobre o que seria verdade e o que seria ficção, querendo acreditar que tudo aquilo tinha mesmo acontecido.
Ao ler Mulherzinhas, é preciso ter noção da época em que foi escrito e o público para o qual o livro se dirige. Tendo em conta estes aspetos, é fácil perceber o motivo do seu sucesso e a razão pela qual continua a ser um livro falado e editado. Trata-se de uma leitura que os leitores mais jovens não devem perder e que os mais experientes vão gostar de recordar.
Autor: Louisa May Alcott
Tradução: Rita Carvalho e Guerra
ISBN: 9789897022227
Editora: Guerra e Paz (2016)
Sinopse:
Mulherzinhas é um grande clássico juvenil. Transcende as fronteiras do tempo e da idade, e a tensão entre as obrigações sociais e as liberdades artísticas e pessoais faz festa obra um marco na literatura. A família Marsh passa tempos difíceis, com a partida do pai para a guera e o surgimento de dificuldades económicas. As jovens irmãs Meg, Jo, Beth e Amy ficam com a mãe, revelando-se mais fortes do que qualquer adversidade. Esta é uma história de amor, coragem e união, inspirada nas experiências da autora e das suas irmãs. A vida continua em tempos de guerra, e as quatro irmãs brincam, fazem novos amigos, discutem, lidam com os seus defeitos, aprendem com os erros, ajudam-se perante as dificuldades, sonham e crescem. Afinal, são já umas mulherzinhas. Esta edição inclui as ilustrações originais, de May Alcott, irmã da autora, para além de uma cronologia biobibliográfica, uma caracterização das personagens e excertos do diário de Louisa May Alcott.
Opinião:
Este era um livro que queria ler há muito e quando vi esta bonita edição não resiste e decidi que não podia deixar passar mais tempo. Já sabia algumas pormenores de Mulherzinhas, de séries e desenhos animados que vi na infância, mas não conhecia verdadeiramente a história desta obra de Louisa May Alcott. Agradou-me que esta edição tivesse notas que enquadram o livro na vida da autora e explicam de que forma a trama está relacionada com a sua própria experiência.
Iniciada a leitura, percebe-se que se trata de um livro de uma época muito diferente da nossa. Existe uma outra sensibilidade para certos temas, o papel da mulher é completamente diferente e certas circunstâncias, como a guerra, são abordadas com uma certa ingenuidade. Podemos tentar fazer um retrato do século XIX dos EUA, mas julgo que o mais importante são as relações entre personagens as lições que estas aprendem através dos seus erros e experiências.
Cada capítulo encerra uma pequena moral. Desta forma, ficamos a conhecer a formação destas quatro irmãs tão distintas ao mesmo tempo que se tenta transmitir uma lição à leitora de tenra idade. Através de peripécias, algumas mais engraçadas e outras mais sérias, a autora parece querer ensinar alguns valores a quem está a acompanhar estas aventuras, sendo os principais relacionados com a família, o trabalho, a amizade, a humildade, a gratidão e o altruísmo.
Esta ideia de transmissão de valores parece-me interessante, mas, infelizmente, penso que não peguei nesta obra na altura certa. Era fácil adivinhar o que ia acontecer em cada circunstância e que lição cada irmã iria aprender. Além disso, penso que tudo isto poderá interessar mais aos leitores mais jovens, que poderão ter maior facilidade em identificarem-se com alguma das irmãs. Eu não consegui ligar-me particularmente a uma das meninas March, apesar de Jo ser aquele que mais se destaca e cuja personalidade melhor se liga aos dias de hoje.
Nesta edição, destaco os excertos do diário da autora, que nos aproximaram dos seus motivos para este livro. Também gostei das notas finais, que melhor nos relacionam com Louisa May Alcott, com a sua família, e que fazem relacionar a realidade com a ficção. No final, fiquei a perguntar-me sobre o que seria verdade e o que seria ficção, querendo acreditar que tudo aquilo tinha mesmo acontecido.
Ao ler Mulherzinhas, é preciso ter noção da época em que foi escrito e o público para o qual o livro se dirige. Tendo em conta estes aspetos, é fácil perceber o motivo do seu sucesso e a razão pela qual continua a ser um livro falado e editado. Trata-se de uma leitura que os leitores mais jovens não devem perder e que os mais experientes vão gostar de recordar.
domingo, 7 de setembro de 2014
Opinião: Viagem ao Fim do Coração
Autor: Ana Casaca
ISBN: 9789897021152
Editora: Guerra & Paz (2014)
Sinopse:
Num romance toda a nossa vida: como a queremos, como às vezes não a queremos.
Luísa ainda era uma adolescente. Tiago já era um jovem adulto. Conheceram-se na solidão de uma pequena praia, na margem de um rio. Tinham em comum uma relação familiar traumática. Num caso, o trauma do amor dos pais. No outro, o trauma do ódio dos pais. Conheceram-se num dia que pareceu conter uma vida inteira. Mas teriam ficado separados para sempre, se a invisível linha de uma doença que rói o corpo e anuncia a morte não os tivesse voltado a ligar, dezasseis anos depois. Luísa e Tiago podem até redescobrir o amor, mas apenas se a silenciosa presença das metástases não se alastrar aos seus corações.
"Viagem ao Fim do Coração" é mais do que uma comovente história de amor. É a recriação de um admirável mundo de pais e mães, filhos e irmãos, ódios e amores. Revela os pesadelos de um cancro injusto, mas não abdica do que é humano e essencial, o sonho.
Opinião:
Viagem ao Fim do Coração foi um livro que me incomodou. E isso é ótimo, pois quer dizer que Ana Casaca fez bem o seu trabalho. A autora pegou num tema muito sensível e apresentou-o sem artifícios, fazendo desta história uma lição de vida dura e revoltante.
Logo no início é impossível não ficar indiferente à história de Luísa. Começamos a acompanhá-la quando ela é ainda criança. A descrição e apresentação da sua vida familiar fizeram-me admirar, logo ao início, esta protagonista. É verdade que existem realidades mais trágicas, mas o que mais me chocou nesta história foi perceber que existem tantas infâncias como a que foi apresentada. Crianças a quem não lhes é permitido ser crianças. Crianças que vivem debaixo de sentimentos de culpa e de medo por causa dos seus progenitores. Esta é uma realidade que existe em larga escala no nosso país, mais próxima do que aquilo que julgamos possível e, por isso, acaba por ser uma chamada de atenção. Faz reflectir sobre o que é de facto um pai e uma mãe.
Mais tarde, Luísa parece ter conseguido agarrar as rédeas da sua vida, mas o destino reserva-lhe mais um terrível obstáculo. Sim, caso ainda não tenham percebido, este é um livro sobre cancro. Ana Casaca inspirou-se numa experiência real para relatar como esta doença afecta o doente e todos aqueles que o rodeiam. E fez isto sem tentar ser poética ou sem tentar embelezar o caso. É um assunto que não tem espaço para isso. Desta forma, a autora fez com que a sua protagonista enfrentasse este problema de frente, com determinação e força. Tentou fazer-nos chegar o que pensa e sente alguém com estas características e que está a lutar contra esta doença maldita.
Paralelamente, vemos como a doença afecta os outros. Achei interessante que a autora apostasse também nas pessoas que rodeiam o doente de cancro. Ana Casaca expôs diferentes reacções, de forma a nos aproximar desta realidade. Existem os que sofrem em silêncio, os que não perdem a esperança, os que se afastam por não saber lidar com isso, os que se entregam a quem sofre, entre outros. A autora pretende mostrar, desta forma, que o cancro afecta muito mais pessoas para além daquelas que são diagnosticadas.
Gostei de Luísa. Gostei do facto de ela ser uma lutadora desde muito jovem. As circunstâncias da vida fizeram com que ela transmitisse sempre força, mesmo quando por dentro está fragilizada, com medo e dúvidas. Gostei da forma directa com que ela abordava os temas mais sensíveis e admirei a sua coragem ao longo de todo o livro. Também gostei de Pedro, o irmão de Luísa. A devoção e amor que sente pela irmã são bem perceptíveis. Ele é um rapaz que foi muito amado, mas que se sente incompleto devido a problemas com o passado. Admirei-o quando cumpriu as vontades da irmã, mesmo aquelas que o faziam sentir angustiado. Já Tiago foi uma personagem que não me cativou por completo. Gostei do facto de ele representar os empreendedores do país que tentam arranjar alternativas em tempos de crise, mas achei-o demasiado perfeito para o papel que foi representar. Isso fez com que nele não existissem surpresas.
A relação entre Luísa e Tiago não me cativou por completo. Isto porque tudo me parece ter desenvolvido demasiado depressa e de forma instantânea, especialmente dentro das circunstâncias em que aconteceu. Preferia ter visto uma maior desenvolvimento no início desta relação, mas tudo pareceu ter funcionado com um clique. Em contrapartida, a união entre os dois revelou-se enternecedora. Tiago tornou-se num agente de libertação para Luísa e levou-a a tornar-se numa mulher mais completa.
A narração é feita através do intercalar de capítulos dedicados a cada uma destas três personagens. Isto faz com que o leitor tenha uma visão mais geral da história. Contudo, não percebi a razão para os capítulos de Luísa e de Pedro estarem na primeira pessoa do singular e os de Tiago estarem na terceira pessoa do singular. Talvez a intenção fosse aproximar mais o leitor dos dois irmãos, mas a verdade é que não me pareceu coerente.
No final da leitura, não fiquei indiferente a tudo o que li, mas senti-me incomodada. Gostei da história, apesar de tratar de um tema sobre o qual não gosto de ler. Tal como já vos disse, incomoda-me. O último capítulo é, sem dúvida, muito forte e faz surgir um misto de sentimentos. Ana Casaca cumpriu bem o objectivo a que se propôs.
ISBN: 9789897021152
Editora: Guerra & Paz (2014)
Sinopse:
Num romance toda a nossa vida: como a queremos, como às vezes não a queremos.
Luísa ainda era uma adolescente. Tiago já era um jovem adulto. Conheceram-se na solidão de uma pequena praia, na margem de um rio. Tinham em comum uma relação familiar traumática. Num caso, o trauma do amor dos pais. No outro, o trauma do ódio dos pais. Conheceram-se num dia que pareceu conter uma vida inteira. Mas teriam ficado separados para sempre, se a invisível linha de uma doença que rói o corpo e anuncia a morte não os tivesse voltado a ligar, dezasseis anos depois. Luísa e Tiago podem até redescobrir o amor, mas apenas se a silenciosa presença das metástases não se alastrar aos seus corações.
"Viagem ao Fim do Coração" é mais do que uma comovente história de amor. É a recriação de um admirável mundo de pais e mães, filhos e irmãos, ódios e amores. Revela os pesadelos de um cancro injusto, mas não abdica do que é humano e essencial, o sonho.
Opinião:
Viagem ao Fim do Coração foi um livro que me incomodou. E isso é ótimo, pois quer dizer que Ana Casaca fez bem o seu trabalho. A autora pegou num tema muito sensível e apresentou-o sem artifícios, fazendo desta história uma lição de vida dura e revoltante.
Logo no início é impossível não ficar indiferente à história de Luísa. Começamos a acompanhá-la quando ela é ainda criança. A descrição e apresentação da sua vida familiar fizeram-me admirar, logo ao início, esta protagonista. É verdade que existem realidades mais trágicas, mas o que mais me chocou nesta história foi perceber que existem tantas infâncias como a que foi apresentada. Crianças a quem não lhes é permitido ser crianças. Crianças que vivem debaixo de sentimentos de culpa e de medo por causa dos seus progenitores. Esta é uma realidade que existe em larga escala no nosso país, mais próxima do que aquilo que julgamos possível e, por isso, acaba por ser uma chamada de atenção. Faz reflectir sobre o que é de facto um pai e uma mãe.
Mais tarde, Luísa parece ter conseguido agarrar as rédeas da sua vida, mas o destino reserva-lhe mais um terrível obstáculo. Sim, caso ainda não tenham percebido, este é um livro sobre cancro. Ana Casaca inspirou-se numa experiência real para relatar como esta doença afecta o doente e todos aqueles que o rodeiam. E fez isto sem tentar ser poética ou sem tentar embelezar o caso. É um assunto que não tem espaço para isso. Desta forma, a autora fez com que a sua protagonista enfrentasse este problema de frente, com determinação e força. Tentou fazer-nos chegar o que pensa e sente alguém com estas características e que está a lutar contra esta doença maldita.
Paralelamente, vemos como a doença afecta os outros. Achei interessante que a autora apostasse também nas pessoas que rodeiam o doente de cancro. Ana Casaca expôs diferentes reacções, de forma a nos aproximar desta realidade. Existem os que sofrem em silêncio, os que não perdem a esperança, os que se afastam por não saber lidar com isso, os que se entregam a quem sofre, entre outros. A autora pretende mostrar, desta forma, que o cancro afecta muito mais pessoas para além daquelas que são diagnosticadas.
Gostei de Luísa. Gostei do facto de ela ser uma lutadora desde muito jovem. As circunstâncias da vida fizeram com que ela transmitisse sempre força, mesmo quando por dentro está fragilizada, com medo e dúvidas. Gostei da forma directa com que ela abordava os temas mais sensíveis e admirei a sua coragem ao longo de todo o livro. Também gostei de Pedro, o irmão de Luísa. A devoção e amor que sente pela irmã são bem perceptíveis. Ele é um rapaz que foi muito amado, mas que se sente incompleto devido a problemas com o passado. Admirei-o quando cumpriu as vontades da irmã, mesmo aquelas que o faziam sentir angustiado. Já Tiago foi uma personagem que não me cativou por completo. Gostei do facto de ele representar os empreendedores do país que tentam arranjar alternativas em tempos de crise, mas achei-o demasiado perfeito para o papel que foi representar. Isso fez com que nele não existissem surpresas.
A relação entre Luísa e Tiago não me cativou por completo. Isto porque tudo me parece ter desenvolvido demasiado depressa e de forma instantânea, especialmente dentro das circunstâncias em que aconteceu. Preferia ter visto uma maior desenvolvimento no início desta relação, mas tudo pareceu ter funcionado com um clique. Em contrapartida, a união entre os dois revelou-se enternecedora. Tiago tornou-se num agente de libertação para Luísa e levou-a a tornar-se numa mulher mais completa.
A narração é feita através do intercalar de capítulos dedicados a cada uma destas três personagens. Isto faz com que o leitor tenha uma visão mais geral da história. Contudo, não percebi a razão para os capítulos de Luísa e de Pedro estarem na primeira pessoa do singular e os de Tiago estarem na terceira pessoa do singular. Talvez a intenção fosse aproximar mais o leitor dos dois irmãos, mas a verdade é que não me pareceu coerente.
No final da leitura, não fiquei indiferente a tudo o que li, mas senti-me incomodada. Gostei da história, apesar de tratar de um tema sobre o qual não gosto de ler. Tal como já vos disse, incomoda-me. O último capítulo é, sem dúvida, muito forte e faz surgir um misto de sentimentos. Ana Casaca cumpriu bem o objectivo a que se propôs.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Opinião: As Pessoas Felizes Lêem e Bebem Café
Título original: Les Gens Heureux Lisent et Boivent du Café (2012)
Autor: Agnès Martin-Lugand
Tradutor: Rui Santana Brito
ISBN: 9789897021077
Editora: Guerra e Paz (2014)
Sinopse:
Depois da morte do marido e da filha num brutal acidente de automóvel, Diane fecha-se em casa durante um ano, imersa em recordações, incapaz de reagir. Mas, quando já nada parece poder mudar, é precisamente uma dessas recordações que a faz escolher Mulranny, uma pequeníssima aldeia na Irlanda, como destino.
Instalada numa casa em frente ao mar, Diane é gentilmente recebida por todos os habitantes - todos menos um. Será Edward, o bruto e antipático vizinho, a resgatar Diane da apatia em que parece estar novamente a mergulhar. Primeiro, pela ira e pelo ódio. Mas depois, contra todas as expectativas, pela atracção. Como enfrentar este turbilhão de sentimentos? O que fazer com eles?
Opinião:
As Pessoas Felizes Lêem e Bebem Café é uma história sobre luto. A autora, Agnès Martin-Lugand, é psicóloga clínica e decidiu explorar através deste livro as diferentes fases pelas quais alguém passa quando perde quem mais ama. A dor, a revolta e a procura de razões para continuar são alguns dos temas abordados.
O início do livro provoca choque no leitor. A autora escolheu o momento da perda para começar a relatar a triste história de Diane, o que faz com que seja fácil sentir empatia por esta mulher. Ao assistir à forma como Diane reage à morte de quem mais ama, é inevitável pensarmos no que faríamos no seu lugar.Também existe um certo sentimento de frustração ao vê-la a não agir e a punir-se por algo do qual não tem culpa.
Apesar do tema principal ser pesado, a verdade é que este é tratado com alguma leveza. Isto acontece devido a certas personagens secundárias, nomeadamente os divertidos Félix e Judith. Curiosamente são também estas as duas figuras que começam por puxar por Diana e, assim, afastá-la da espiral de decadência.
A grande alteração no estado do Diane dá-se graças ao vizinho que encontro na Irlanda. A protagonista escolheu tal país como refúgio, uma forma de fugir do que lhe era conhecido e assim afastar-se com a sua dor para um local que, de certa forma, a deixava ligada aos entes queridos que perdeu. Contudo, não esperava deparar-se com Edward, um homem fechado, bruto, antipático e rude. O contacto entre os dois faz com que Diane entre em confronto. Isso faz com que o seu pensamento e as suas forças sejam direcionadas num sentido diferente do luto. Desta forma, ela volta a encontrar-se.
O confronto que existe entre Diane e Edward acaba dar origem à componente romântica da história. Aqui, é interessante ver Diana em conflito com ela própria, pois se por um lado percebe que pode voltar a encontrar a felicidade, por outro sente que está a trair a vida anterior e as pessoas que perdeu. A autora conseguiu transmitir bem estas dúvidas.
Apesar de Edward ser uma figura fulcral na trama, a verdade é que passa por fases e transformações que podem não agradar. Ao início, parece demasiado bruto, violento e até perigoso, o que me fez desejar que Diane se afasta-se dele. Depois, de um momento para o outro, muda completamente a sua forma de ser, sendo que a justificação dada para tal não me convenceu completamente.
Ao ler o final, percebi que a conclusão dada pela autora foi um risco e que não iria gerar consenso, afinal, não possui os clichés habituais. Eu fiquei um pouco reticente, mas a verdade é que percebo que esta era a melhor opção. Afinal, vai ao encontro do principal tema, que é superar o luto e refazer a vida. Aquilo que acabou por mais me desagradar foi a forma abrupta como a história terminou, pois parece que ficou alguma coisa por dizer ou por explicar.
Par além de ser um livro bem escrito e que se lê num ritmo rápido, acaba também por funcionar como livro de autoajuda. É um exemplo de que as maiores dores podem ser ultrapassadas, mas que tal não acontece rapidamente, é preciso passar por um processo. As Pessoas Felizes Lêem e Bebem Café é uma leitura rápida e que deixa uma lição.
Autor: Agnès Martin-Lugand
Tradutor: Rui Santana Brito
ISBN: 9789897021077
Editora: Guerra e Paz (2014)
Sinopse:
Depois da morte do marido e da filha num brutal acidente de automóvel, Diane fecha-se em casa durante um ano, imersa em recordações, incapaz de reagir. Mas, quando já nada parece poder mudar, é precisamente uma dessas recordações que a faz escolher Mulranny, uma pequeníssima aldeia na Irlanda, como destino.
Instalada numa casa em frente ao mar, Diane é gentilmente recebida por todos os habitantes - todos menos um. Será Edward, o bruto e antipático vizinho, a resgatar Diane da apatia em que parece estar novamente a mergulhar. Primeiro, pela ira e pelo ódio. Mas depois, contra todas as expectativas, pela atracção. Como enfrentar este turbilhão de sentimentos? O que fazer com eles?
Opinião:
As Pessoas Felizes Lêem e Bebem Café é uma história sobre luto. A autora, Agnès Martin-Lugand, é psicóloga clínica e decidiu explorar através deste livro as diferentes fases pelas quais alguém passa quando perde quem mais ama. A dor, a revolta e a procura de razões para continuar são alguns dos temas abordados.
O início do livro provoca choque no leitor. A autora escolheu o momento da perda para começar a relatar a triste história de Diane, o que faz com que seja fácil sentir empatia por esta mulher. Ao assistir à forma como Diane reage à morte de quem mais ama, é inevitável pensarmos no que faríamos no seu lugar.Também existe um certo sentimento de frustração ao vê-la a não agir e a punir-se por algo do qual não tem culpa.
Apesar do tema principal ser pesado, a verdade é que este é tratado com alguma leveza. Isto acontece devido a certas personagens secundárias, nomeadamente os divertidos Félix e Judith. Curiosamente são também estas as duas figuras que começam por puxar por Diana e, assim, afastá-la da espiral de decadência.
A grande alteração no estado do Diane dá-se graças ao vizinho que encontro na Irlanda. A protagonista escolheu tal país como refúgio, uma forma de fugir do que lhe era conhecido e assim afastar-se com a sua dor para um local que, de certa forma, a deixava ligada aos entes queridos que perdeu. Contudo, não esperava deparar-se com Edward, um homem fechado, bruto, antipático e rude. O contacto entre os dois faz com que Diane entre em confronto. Isso faz com que o seu pensamento e as suas forças sejam direcionadas num sentido diferente do luto. Desta forma, ela volta a encontrar-se.
O confronto que existe entre Diane e Edward acaba dar origem à componente romântica da história. Aqui, é interessante ver Diana em conflito com ela própria, pois se por um lado percebe que pode voltar a encontrar a felicidade, por outro sente que está a trair a vida anterior e as pessoas que perdeu. A autora conseguiu transmitir bem estas dúvidas.
Apesar de Edward ser uma figura fulcral na trama, a verdade é que passa por fases e transformações que podem não agradar. Ao início, parece demasiado bruto, violento e até perigoso, o que me fez desejar que Diane se afasta-se dele. Depois, de um momento para o outro, muda completamente a sua forma de ser, sendo que a justificação dada para tal não me convenceu completamente.
Ao ler o final, percebi que a conclusão dada pela autora foi um risco e que não iria gerar consenso, afinal, não possui os clichés habituais. Eu fiquei um pouco reticente, mas a verdade é que percebo que esta era a melhor opção. Afinal, vai ao encontro do principal tema, que é superar o luto e refazer a vida. Aquilo que acabou por mais me desagradar foi a forma abrupta como a história terminou, pois parece que ficou alguma coisa por dizer ou por explicar.
Par além de ser um livro bem escrito e que se lê num ritmo rápido, acaba também por funcionar como livro de autoajuda. É um exemplo de que as maiores dores podem ser ultrapassadas, mas que tal não acontece rapidamente, é preciso passar por um processo. As Pessoas Felizes Lêem e Bebem Café é uma leitura rápida e que deixa uma lição.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Opinião: Inferno no Vaticano
Autor: Flávio Capuleto
ISBN: 9789897020926
Editora: Guerra & Paz (2014)
Sinopse:
«Inferno no Vaticano» junta os melhores ingredientes num romance que ecoa muitas das tensões que têm atravessado o Vaticano nos últimos anos. O protagonista é o inspector Luís Borges, um português que priva com o Papa, e a acção centra-se na Basílica de S. Pedro, no Vaticano. Tudo começa com a morte macabra e misteriosa de Francesco Barocci, curador do Tesouro. Um assassinato cujos contornos apontam para uma conspiração maior que tem o Papa por alvo e que deixa padres e bispos em pânico.
Uma história de traições e segredos, entrecortada com o encanto sedutor e sensual da escaldante Valeria Del Bosque, simbologista que ajuda o inspector português a desvendar os segredos e maquinações de uma sociedade secreta que está a semear as igrejas de cadáveres. Em «Inferno no Vaticano», o leitor vai deparar-se com uma batalha cruel, florentina, com mais ouro e sexo do que incenso e mirra.
Opinião:
Flávio Capuleto inspirou-se nos mistérios da sede da Igreja Católica para cria "Inferno no Vaticano". Com uma linguagem acessível, capítulos curtos e uma ação rápida, consegue captar o leitor.
Luís Borges é apresentado como o protagonista desta obra, mas acaba por dividir o foco de atenção com outras personagens. O autor optou por dar a conhecer o ponto de vista de diversas figuras, o que dá uma maior visão sobre os acontecimentos, já que o leitor passa a conhecer o lado dos que investigam os crimes e o lado dos autores destes delitos. Esta foi uma boa opção, mas existem momentos que me levaram a questionar a razão de Luís ser a figura central desta obra.
Gostei da exploração das ideias de conservadorismo e espiritualismo dentro do seio da Igreja católica. É um assunto que não me é totalmente desconhecido, mas é sempre bom assistir a uma outra visão sobre as muitas interpretações que podem ser feitas de textos bíblicos e até mesmo de dogmas. Também o tema referente à riqueza desta religião não é novo, apesar de parecer ser apresentado como tal.
A inspiração do autor vai, sem dúvida, ao encontro da situação social e económica atual, o que causa proximidade com o leitor. Contudo, existem certos momentos que podem causar dúvidas, especialmente no foco da situação europeia. No final, existe uma reviravolta que apenas foi ao encontro do que pensei desde o início da leitura, o que não me causou surpresa mas sim alguma estranheza por não ter sido algo abordado mais cedo.
É possível verificar que o autor pensou na construção das suas personagens, mas existem diversos momentos em que estas parecem forçadas. Refiro-me nomeadamente aos diálogos, que não parecem naturais, muito pela forma de tratamento, e que, ao início, parecem servir como forma de fornecer informações que funcionariam melhor dentro do espaço narrativo e descritivo.
Também as relações entre personagens nem sempre foram convincentes, nomeadamente a de Luís Borges com Valeria Del Bosque. A ideia de incluir erotismo numa trama com teor religioso é atraente e as descrições do autor neste campo estão bem conseguidas sem ser necessário recorrer a uma abordagem direta. Contudo, não consegui acreditar na química deste casal, muito por causa dos diálogos e na rapidez com que tudo aconteceu.
O tema pode ser controverso, mas a abordagem de Flávio Capuleto é acessível e perceptível. Este é um livro que carecia de maior desenvolvimento e de certas melhorias, mas que apela a reflexão sobre as diversas formas de encarar a religião, o que só por si é interessante.
ISBN: 9789897020926
Editora: Guerra & Paz (2014)
Sinopse:
«Inferno no Vaticano» junta os melhores ingredientes num romance que ecoa muitas das tensões que têm atravessado o Vaticano nos últimos anos. O protagonista é o inspector Luís Borges, um português que priva com o Papa, e a acção centra-se na Basílica de S. Pedro, no Vaticano. Tudo começa com a morte macabra e misteriosa de Francesco Barocci, curador do Tesouro. Um assassinato cujos contornos apontam para uma conspiração maior que tem o Papa por alvo e que deixa padres e bispos em pânico.
Uma história de traições e segredos, entrecortada com o encanto sedutor e sensual da escaldante Valeria Del Bosque, simbologista que ajuda o inspector português a desvendar os segredos e maquinações de uma sociedade secreta que está a semear as igrejas de cadáveres. Em «Inferno no Vaticano», o leitor vai deparar-se com uma batalha cruel, florentina, com mais ouro e sexo do que incenso e mirra.
Opinião:
Flávio Capuleto inspirou-se nos mistérios da sede da Igreja Católica para cria "Inferno no Vaticano". Com uma linguagem acessível, capítulos curtos e uma ação rápida, consegue captar o leitor.
Luís Borges é apresentado como o protagonista desta obra, mas acaba por dividir o foco de atenção com outras personagens. O autor optou por dar a conhecer o ponto de vista de diversas figuras, o que dá uma maior visão sobre os acontecimentos, já que o leitor passa a conhecer o lado dos que investigam os crimes e o lado dos autores destes delitos. Esta foi uma boa opção, mas existem momentos que me levaram a questionar a razão de Luís ser a figura central desta obra.
Gostei da exploração das ideias de conservadorismo e espiritualismo dentro do seio da Igreja católica. É um assunto que não me é totalmente desconhecido, mas é sempre bom assistir a uma outra visão sobre as muitas interpretações que podem ser feitas de textos bíblicos e até mesmo de dogmas. Também o tema referente à riqueza desta religião não é novo, apesar de parecer ser apresentado como tal.
A inspiração do autor vai, sem dúvida, ao encontro da situação social e económica atual, o que causa proximidade com o leitor. Contudo, existem certos momentos que podem causar dúvidas, especialmente no foco da situação europeia. No final, existe uma reviravolta que apenas foi ao encontro do que pensei desde o início da leitura, o que não me causou surpresa mas sim alguma estranheza por não ter sido algo abordado mais cedo.
É possível verificar que o autor pensou na construção das suas personagens, mas existem diversos momentos em que estas parecem forçadas. Refiro-me nomeadamente aos diálogos, que não parecem naturais, muito pela forma de tratamento, e que, ao início, parecem servir como forma de fornecer informações que funcionariam melhor dentro do espaço narrativo e descritivo.
Também as relações entre personagens nem sempre foram convincentes, nomeadamente a de Luís Borges com Valeria Del Bosque. A ideia de incluir erotismo numa trama com teor religioso é atraente e as descrições do autor neste campo estão bem conseguidas sem ser necessário recorrer a uma abordagem direta. Contudo, não consegui acreditar na química deste casal, muito por causa dos diálogos e na rapidez com que tudo aconteceu.
O tema pode ser controverso, mas a abordagem de Flávio Capuleto é acessível e perceptível. Este é um livro que carecia de maior desenvolvimento e de certas melhorias, mas que apela a reflexão sobre as diversas formas de encarar a religião, o que só por si é interessante.
domingo, 19 de maio de 2013
Opinião: A Loja dos Suicídios
Autor: Jean Teulé
Título Original: Le Magasin des Suicides (2007)
Tradução: Susana Serrão
ISBN: 9789897020650Tradução: Susana Serrão
Editora: Guerra & Paz (2013)
Sinopse:
Imagine um negócio de família que envolve a venda de todos os ingredientes possíveis para a prática do suicídio, nas suas mais diversas formas. Corda, pistolas, facas, venenos e toda uma panóplia de produtos mortíferos. São cinco as personagens que compõem esta família atípica que gere a loja há várias gerações: os pais, profissionais, comerciantes; o filho primogénito, deprimido crónico mas extremamente criativo no seu domínio; a irmã, exemplo típico da adolescente inadaptada; e finalmente o irmão mais novo, verdadeiro grão de areia na engrenagem deste comércio lúgubre: é que ele se atreve a sorrir e a ser... optimista. Com uma ambiência digna de um filme de Tim Burton, A Loja dos Suicídios é uma comédia negra futurista que invoca o grande adversário da família Tuvache e do seu sinistro empreendimento: a alegria de viver.
Opinião:
A Loja dos Suicídios é um livro que dificilmente deixa o leitor indiferente. Recheado de humor negro e de situações caricatas, tem como ponto principal uma questão sensível e que divide opiniões: o suicídio.
Ao início, o autor dá-nos a conhecer o estabelecimento que dá o nome ao título. Os proprietários desta loja familiar orgulham-se da qualidade dos produtos que possuem. Orgulho e entrega a este negócio de grande sucesso parecem mesmo ser os únicos pontos considerandos normais desta família. Desde cedo, percebemos o clima negro, negativo, pessimista e sem esperança que rodeia lojistas e clientes. Com o desenrolar da trama, percebe-se que este ambiente afecta todo um mundo futuro, onde o desenvolvimento humano. O autor faz, assim, refletir sobre que futuro será gerado pelas ações e valores atuais.
Narrada na terceira pessoa, o leitor tem acesso aos acontecimentos no ponto de vista das personagens que compõe a família proprietária da loja. De todas menos de Alan, um rapaz que difere deste mundo pela sua atitude positiva, pelo sorriso constante, pelas gargalhadas, pela tentativa de fazer com que os outros encontrem beleza e alegria na vida, mesma nas situações mais angustiantes. Alan surge como um raio de luz no meio da escuridão, sendo que a sua diferença o leve a ser visto com desprezo e incompreensão pelos outros.
"-Alan!... Quantas vezes será preciso dizer! Não se diz «Até à vista» aos fregueses que saem daqui. Diz-se «Adeus», pois nunca mais voltam. Quando é que vais perceber isso?"
O papel de Alan é fundamental para o leitor perceber uma das mensagens mais evidentes do autor. Jean Teulé explora o poder das atitudes positivas para a mudança e talvez, por isso mesmo, escolher escrever esta bonita história com um tom humorístico.
Ao longo da narrativa, são várias as personagens que visitam esta loja. Passagens fugazes mas repletas de significado, uma vez que são testemunho do desespero humano nas mais variadas condições, apesar de tal nem sempre ser observado de uma forma direta. Deste modo, o autor explora o tema do suicídio. De uma forma leve, leva-nos a pensar sobre esta problemática, sobre as condições psicológicas e as circunstâncias da vida que levam a alguém optar por esta via e de que modo. É ainda interessante a apresentação de figuras históricas que optaram por esta via para colocar termo à vida.
A escrita é viciante e muito fácil de acompanhar. A leitura é feita com rapidez, muito graças ao tom utilizado mas também às descrições mórbidas que são feitas e que, de certo modo, acabam por roubar atenções.
O final revela-se surpreendente e um choque. Dá-nos a perceber que, num tom de brincadeira, o autor pretendia chamar a atenção para realidades muito sérias. Faz-nos pensar em máscaras e na ideia de que aquilo que as pessoas transmitem nem sempre corresponde à verdade. Ver uma leitura tão divertida terminar de uma forma tão impressionante apela às emoções e leva-nos a revisitar toda a trama.
Este é um livro que se revela um mimo. De fácil leitura, propicia momentos animados e que nos fazem sorrir, aos mesmo tempo que levam a importantes reflexões de foro social e pessoal. Recomendo.
sábado, 23 de março de 2013
Opinião: História Política do Diabo
Título original: The
Political History of the Devil (1726)
Defoe sentiu a necessidade de explicar quem é o diabo, entendido como identidade singular ou como referência plural: de que forma influenciou a humanidade e de que actos é acusado injustamente, porquê é que Deus o enviou para a terra, mesmo com poderes limitados, pois passa a ter fácil acesso à humanidade que é frágil e facilmente se corrompida. Para melhor compreender esta entidade, o autor explora as suas origens (pelo menos até onde é humanamente possível ir), ou seja, desde que era um dos mais gloriosos serafins. Questiona o motivo da queda de Satã e de como foi possível a um ser celeste e puro começar a desenvolver intentos maldosos.
O leitor é levado a reflectir sobre alguns dos passos mais relevantes do demo na terra, que coincidem com a história da humanidade, enquanto são apresentados os seus vários nomes assim como é feita uma crítica a quem aceita cada nome como uma entidade. Para Defoe o Diabo reúne em si todas as identidades, apresentadas como individuais por outros autores.
A existência de um Deus é vista como um dado adquirido, o que leva, inevitavelmente para o autor, à crença da existência do Diabo, uma vez que um só existe por oposição ao outro. A relação entre as duas entidades é tema de reflexão ao longo de todo o livro, sendo de salientar as razões que levaram o demo à expulsão e as formas como coexistem.
É feita uma análise bastante detalhada sobre diversos aspectos, tais como os motivos do diabo, a sua aparência, a sua forma de agir e de persuadir, a sua passagem pela história da humanidade, entre outros.
É possível encontrar diversas críticas ao Paraíso Perdido, de John Milton, que apresenta a guerra dos céus que levou à queda de Lúcifer. O autor contrapõe diversos argumentos numa tentativa de refutar algumas das premissas de Milton e de provar falhas e contradições na sua obra.
É necessário que o leitor tenha em consideração a data em que a obra foi escrita, pois as ideias do século XVIII estão bastante presentes. Sendo assim:
História Política do Diabo possui uma linguagem bastante mordaz, sarcástica humorística e inteligente. A tradução (a primeira feita em português), está maravilhosa, uma vez que é possível constatar um enorme trabalho e esforço para fazer adequar a linguagem do século XVIII e fazê-la parecer actual, o que torna a leitura mais fácil e acessível.
Este é um livro bastante interessante, que vai agradar a quem se interessa por questões religiosas ou sobrenaturais e que queira reflectir ou conhecer melhor uma das figuras mais presentes na história da humanidade.
Autor: Daniel Defoe
Tradutor: Maria João Medeiros
ISBN: 9789898174901
Editora: Guerra & Paz (2010)
Sinopse:
Originalmente publicado em 1726, e agora pela primeira vez traduzido em Portugal, a História Política do Diabo, de Daniel Defoe, é um texto que combina a visão bíblica e o senso comum, oferecendo uma panorâmica abrangente do papel do Diabo na sociedade ao longo dos tempos. No seu estilo vigoroso e exótico, o feroz crítico de Milton e do seu Paraíso Perdido apresenta o Diabo como um Robinson Crusoe na sua ilha deserta, condenado ao destino de se ver rodeado de hipocrisia e cupidez por todos os lados humanos. Satã – como anjo caído ou cavalheiro de levantada condição – revela-se-nos nas duas partes bastante diferentes que compõem o livro e que fascinam pela sua irreverência mordaz, cuidado histórico e... actualidade.
Opinião:
Daniel Defoe divide História Política do Diabo em duas partes com um método que faz lembrar a Bíblia,
sendo que numa primeira parte está patente a origem do Diabo e o seu percurso
até à data do nascimento de Jesus, enquanto na segunda está presente uma
reflexão sobre o impacto do aparecimento do filho de Deus entre os homens e das
várias formas de operar do Diabo.Tradutor: Maria João Medeiros
ISBN: 9789898174901
Editora: Guerra & Paz (2010)
Sinopse:
Originalmente publicado em 1726, e agora pela primeira vez traduzido em Portugal, a História Política do Diabo, de Daniel Defoe, é um texto que combina a visão bíblica e o senso comum, oferecendo uma panorâmica abrangente do papel do Diabo na sociedade ao longo dos tempos. No seu estilo vigoroso e exótico, o feroz crítico de Milton e do seu Paraíso Perdido apresenta o Diabo como um Robinson Crusoe na sua ilha deserta, condenado ao destino de se ver rodeado de hipocrisia e cupidez por todos os lados humanos. Satã – como anjo caído ou cavalheiro de levantada condição – revela-se-nos nas duas partes bastante diferentes que compõem o livro e que fascinam pela sua irreverência mordaz, cuidado histórico e... actualidade.
Opinião:
Defoe sentiu a necessidade de explicar quem é o diabo, entendido como identidade singular ou como referência plural: de que forma influenciou a humanidade e de que actos é acusado injustamente, porquê é que Deus o enviou para a terra, mesmo com poderes limitados, pois passa a ter fácil acesso à humanidade que é frágil e facilmente se corrompida. Para melhor compreender esta entidade, o autor explora as suas origens (pelo menos até onde é humanamente possível ir), ou seja, desde que era um dos mais gloriosos serafins. Questiona o motivo da queda de Satã e de como foi possível a um ser celeste e puro começar a desenvolver intentos maldosos.
O leitor é levado a reflectir sobre alguns dos passos mais relevantes do demo na terra, que coincidem com a história da humanidade, enquanto são apresentados os seus vários nomes assim como é feita uma crítica a quem aceita cada nome como uma entidade. Para Defoe o Diabo reúne em si todas as identidades, apresentadas como individuais por outros autores.
A existência de um Deus é vista como um dado adquirido, o que leva, inevitavelmente para o autor, à crença da existência do Diabo, uma vez que um só existe por oposição ao outro. A relação entre as duas entidades é tema de reflexão ao longo de todo o livro, sendo de salientar as razões que levaram o demo à expulsão e as formas como coexistem.
É feita uma análise bastante detalhada sobre diversos aspectos, tais como os motivos do diabo, a sua aparência, a sua forma de agir e de persuadir, a sua passagem pela história da humanidade, entre outros.
É possível encontrar diversas críticas ao Paraíso Perdido, de John Milton, que apresenta a guerra dos céus que levou à queda de Lúcifer. O autor contrapõe diversos argumentos numa tentativa de refutar algumas das premissas de Milton e de provar falhas e contradições na sua obra.
É necessário que o leitor tenha em consideração a data em que a obra foi escrita, pois as ideias do século XVIII estão bastante presentes. Sendo assim:
- Para Defoe, as culturas pagãs, tais como as dos índios da América ou das tribos africanas, são consideradas como venerações do diabo. Este aspecto faz retomar a ideia extremista de que o que é diferente é necessariamente maligno.
- Outra questão prende-se com a condição feminina, uma vez que se sente, ao longo da leitura, que as mulheres são consideradas mais susceptíveis a entrar no jogo maléfico do que os homens.
- É ainda possível ver a ideia de que o que é feio é mau, enquanto o belo é sinónimo de bom, na medida em que o autor defende que a maldade rouba a beleza, sendo, desta forma, mais fácil reconhecer a presença do maldito entre nós.
História Política do Diabo possui uma linguagem bastante mordaz, sarcástica humorística e inteligente. A tradução (a primeira feita em português), está maravilhosa, uma vez que é possível constatar um enorme trabalho e esforço para fazer adequar a linguagem do século XVIII e fazê-la parecer actual, o que torna a leitura mais fácil e acessível.
Este é um livro bastante interessante, que vai agradar a quem se interessa por questões religiosas ou sobrenaturais e que queira reflectir ou conhecer melhor uma das figuras mais presentes na história da humanidade.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Opinião: Todas as Palavras de Amor
ISBN: 9789897020605
Editora: Guerra & Paz
Sinopse:
Numa viagem em busca de si mesma, Alice escreve a primeira de muitas cartas a um grande amor. Não imagina que, na morada para onde envia as cartas, vive António, um homem que nunca viu. O homem recebe a primeira carta e as palavras daquela mulher que também não conhece, confrontam-no com aquilo de que sempre fugira.
Alice é uma mulher divorciada à procura do seu próprio rumo. António
é um padre que, nunca ousou trilhar o caminho do amor. Todas as Palavras
de Amor é um romance que começa com a surpresa de um engano. Depois, em páginas
de uma escrita fulgurante, aprendemos que um engano talvez seja a melhor forma
de modificar duas vidas para sempre.
Opinião:
O amor é complexo, abrangente e pode ser vivido
de diferentes formas. Em Todas as Palavras de Amor, Ana Casaca explora o
sentimento sublime através de diferentes personagens. Inicialmente o texto é
apresentado essencialmente sobre a forma de carta, e mais tarde temos um maior acesso a um discurso
narrativo na terceira pessoa.
Alice, a protagonista da trama, é uma mulher
cansada de viver numa ilusão. Decicida a alcançar a felicidade plena, deixa
tudo para trás e parte numa viagem onde julga ter descoberto o homem dos seus sonhos.
Apaixonada, aproveita a intimidade que a palavra escrita transmite para enviar
uma série de cartas ao homem que a fez descobrir o amor durante uma semana
intensa. Nestas cartas, podemos ver que Alice quebrou barreiras e desafiou
limites impostos pela sua família para iniciar aquela viagem. Percebemos a
pressão psicológica de que foi alvo ao longo da vida através das respostas da
sua mãe e vemos que esta protagonista é uma mulher emotiva, forte, profunda e que tem esperança de
vir a encontrar um futuro melhor.
Mas as cartas que Alice escreveu para aquele
homem apaixonante não chegam ao seu destinatário. Por algum motivo, a correspondência vai parar a casa de um padre que partilha o nome do destinatário original.
António fica perplexo quando lê a primeira carta pois sente uma
ligação forte com aquela mulher desconhecida para além de ser interpelado para a sua existência. Através destas cartas, António
revisita o passado, tenta perceber o que realmente levou a assumir aquela
missão, questiona a sua vocação e descobre o que realmente pretende para si.
Ao ler este livro relembrei, por diversas vezes,
a frase "não existem coincidências". Em Todas as Palavras de Amor,
tudo começa como fruto de um engano, de um erro. O leitor percebe facilmente
que diversos acontecimentos que à partida, não deveriam ter qualquer relação
aqui têm. Destaco o facto de tanto o homem por quem Alice se apaixonou em
Londres como o padre que recebe as suas cartas possuírem o mesmo nome. Com o
desenrolar da leitura, percebe-se a intenção desta escolha.
É uma história agradável, leve e que é lida num
instante, Contudo, a certo momento, achei que formato de carta já
surgia de modo exagerado. É certo que a autora tentou explicar que tal
acontecia por esta ser uma forma mais íntima de comunicação, mas tal pode não
ser facilmente aceite por todos os leitores, especialmente quando se transforma
na única forma de um casal, que está junto há vários anos, conseguir falar dos
seus sentimentos. É bonito e até poético, mas não inteiramente convincente.
Ainda sobre as cartas, por vezes senti que o
estilo de escrita utilizado por diferentes personagens era demasiado
semelhante. Gostava de ter percebido instantaneamente quem escrevia o quê, em
vez de ter de procurar a assinatura no final de cada carta para ter a certeza
de qual era a personagem que estava a falar.
Relativamente à narrativa, pareceu-me que seguiu
de uma forma linear e apelativa. A autora não se apressou com desenvolvimentos
e fez o leitor sentir as dúvidas e angústias das personagens que iam surgindo,
mesmo com aquelas por quem não foi criada empatia. Porém, não existiram grandes
surpresas. É fácil perceber a direção que está a ser tomada, a autora deixa
adivinhar quando tragédias vão acontecer e o final era o esperado.
Gostaria ainda de acrescentar que achei muito
curioso a autora ter-se baseado numa experiência pessoal para elaborar a base
deste livro. Afinal, Ana Casaca confessa que, em certo momento da sua vida,
recebeu diversos postais que lhe eram remetidos por uma estranha que,
aparentemente, viajava pelo mundo. A autora nunca percebeu o porquê de tal ter
acontecido, mas confessa que isso a fez refletir na sua vida.
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