Autor: Ana Casaca
ISBN: 9789897021152
Editora: Guerra & Paz (2014)
Sinopse:
Num romance toda a nossa vida: como a queremos, como às vezes não a queremos.
Luísa ainda era uma adolescente. Tiago já era um jovem adulto. Conheceram-se na solidão de uma pequena praia, na margem de um rio. Tinham em comum uma relação familiar traumática. Num caso, o trauma do amor dos pais. No outro, o trauma do ódio dos pais. Conheceram-se num dia que pareceu conter uma vida inteira. Mas teriam ficado separados para sempre, se a invisível linha de uma doença que rói o corpo e anuncia a morte não os tivesse voltado a ligar, dezasseis anos depois. Luísa e Tiago podem até redescobrir o amor, mas apenas se a silenciosa presença das metástases não se alastrar aos seus corações.
"Viagem ao Fim do Coração" é mais do que uma comovente história de amor. É a recriação de um admirável mundo de pais e mães, filhos e irmãos, ódios e amores. Revela os pesadelos de um cancro injusto, mas não abdica do que é humano e essencial, o sonho.
Opinião:
Viagem ao Fim do Coração foi um livro que me incomodou. E isso é ótimo, pois quer dizer que Ana Casaca fez bem o seu trabalho. A autora pegou num tema muito sensível e apresentou-o sem artifícios, fazendo desta história uma lição de vida dura e revoltante.
Logo no início é impossível não ficar indiferente à história de Luísa. Começamos a acompanhá-la quando ela é ainda criança. A descrição e apresentação da sua vida familiar fizeram-me admirar, logo ao início, esta protagonista. É verdade que existem realidades mais trágicas, mas o que mais me chocou nesta história foi perceber que existem tantas infâncias como a que foi apresentada. Crianças a quem não lhes é permitido ser crianças. Crianças que vivem debaixo de sentimentos de culpa e de medo por causa dos seus progenitores. Esta é uma realidade que existe em larga escala no nosso país, mais próxima do que aquilo que julgamos possível e, por isso, acaba por ser uma chamada de atenção. Faz reflectir sobre o que é de facto um pai e uma mãe.
Mais tarde, Luísa parece ter conseguido agarrar as rédeas da sua vida, mas o destino reserva-lhe mais um terrível obstáculo. Sim, caso ainda não tenham percebido, este é um livro sobre cancro. Ana Casaca inspirou-se numa experiência real para relatar como esta doença afecta o doente e todos aqueles que o rodeiam. E fez isto sem tentar ser poética ou sem tentar embelezar o caso. É um assunto que não tem espaço para isso. Desta forma, a autora fez com que a sua protagonista enfrentasse este problema de frente, com determinação e força. Tentou fazer-nos chegar o que pensa e sente alguém com estas características e que está a lutar contra esta doença maldita.
Paralelamente, vemos como a doença afecta os outros. Achei interessante que a autora apostasse também nas pessoas que rodeiam o doente de cancro. Ana Casaca expôs diferentes reacções, de forma a nos aproximar desta realidade. Existem os que sofrem em silêncio, os que não perdem a esperança, os que se afastam por não saber lidar com isso, os que se entregam a quem sofre, entre outros. A autora pretende mostrar, desta forma, que o cancro afecta muito mais pessoas para além daquelas que são diagnosticadas.
Gostei de Luísa. Gostei do facto de ela ser uma lutadora desde muito jovem. As circunstâncias da vida fizeram com que ela transmitisse sempre força, mesmo quando por dentro está fragilizada, com medo e dúvidas. Gostei da forma directa com que ela abordava os temas mais sensíveis e admirei a sua coragem ao longo de todo o livro. Também gostei de Pedro, o irmão de Luísa. A devoção e amor que sente pela irmã são bem perceptíveis. Ele é um rapaz que foi muito amado, mas que se sente incompleto devido a problemas com o passado. Admirei-o quando cumpriu as vontades da irmã, mesmo aquelas que o faziam sentir angustiado. Já Tiago foi uma personagem que não me cativou por completo. Gostei do facto de ele representar os empreendedores do país que tentam arranjar alternativas em tempos de crise, mas achei-o demasiado perfeito para o papel que foi representar. Isso fez com que nele não existissem surpresas.
A relação entre Luísa e Tiago não me cativou por completo. Isto porque tudo me parece ter desenvolvido demasiado depressa e de forma instantânea, especialmente dentro das circunstâncias em que aconteceu. Preferia ter visto uma maior desenvolvimento no início desta relação, mas tudo pareceu ter funcionado com um clique. Em contrapartida, a união entre os dois revelou-se enternecedora. Tiago tornou-se num agente de libertação para Luísa e levou-a a tornar-se numa mulher mais completa.
A narração é feita através do intercalar de capítulos dedicados a cada uma destas três personagens. Isto faz com que o leitor tenha uma visão mais geral da história. Contudo, não percebi a razão para os capítulos de Luísa e de Pedro estarem na primeira pessoa do singular e os de Tiago estarem na terceira pessoa do singular. Talvez a intenção fosse aproximar mais o leitor dos dois irmãos, mas a verdade é que não me pareceu coerente.
No final da leitura, não fiquei indiferente a tudo o que li, mas senti-me incomodada. Gostei da história, apesar de tratar de um tema sobre o qual não gosto de ler. Tal como já vos disse, incomoda-me. O último capítulo é, sem dúvida, muito forte e faz surgir um misto de sentimentos. Ana Casaca cumpriu bem o objectivo a que se propôs.
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domingo, 7 de setembro de 2014
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Opinião: Todas as Palavras de Amor
ISBN: 9789897020605
Editora: Guerra & Paz
Sinopse:
Numa viagem em busca de si mesma, Alice escreve a primeira de muitas cartas a um grande amor. Não imagina que, na morada para onde envia as cartas, vive António, um homem que nunca viu. O homem recebe a primeira carta e as palavras daquela mulher que também não conhece, confrontam-no com aquilo de que sempre fugira.
Alice é uma mulher divorciada à procura do seu próprio rumo. António
é um padre que, nunca ousou trilhar o caminho do amor. Todas as Palavras
de Amor é um romance que começa com a surpresa de um engano. Depois, em páginas
de uma escrita fulgurante, aprendemos que um engano talvez seja a melhor forma
de modificar duas vidas para sempre.
Opinião:
O amor é complexo, abrangente e pode ser vivido
de diferentes formas. Em Todas as Palavras de Amor, Ana Casaca explora o
sentimento sublime através de diferentes personagens. Inicialmente o texto é
apresentado essencialmente sobre a forma de carta, e mais tarde temos um maior acesso a um discurso
narrativo na terceira pessoa.
Alice, a protagonista da trama, é uma mulher
cansada de viver numa ilusão. Decicida a alcançar a felicidade plena, deixa
tudo para trás e parte numa viagem onde julga ter descoberto o homem dos seus sonhos.
Apaixonada, aproveita a intimidade que a palavra escrita transmite para enviar
uma série de cartas ao homem que a fez descobrir o amor durante uma semana
intensa. Nestas cartas, podemos ver que Alice quebrou barreiras e desafiou
limites impostos pela sua família para iniciar aquela viagem. Percebemos a
pressão psicológica de que foi alvo ao longo da vida através das respostas da
sua mãe e vemos que esta protagonista é uma mulher emotiva, forte, profunda e que tem esperança de
vir a encontrar um futuro melhor.
Mas as cartas que Alice escreveu para aquele
homem apaixonante não chegam ao seu destinatário. Por algum motivo, a correspondência vai parar a casa de um padre que partilha o nome do destinatário original.
António fica perplexo quando lê a primeira carta pois sente uma
ligação forte com aquela mulher desconhecida para além de ser interpelado para a sua existência. Através destas cartas, António
revisita o passado, tenta perceber o que realmente levou a assumir aquela
missão, questiona a sua vocação e descobre o que realmente pretende para si.
Ao ler este livro relembrei, por diversas vezes,
a frase "não existem coincidências". Em Todas as Palavras de Amor,
tudo começa como fruto de um engano, de um erro. O leitor percebe facilmente
que diversos acontecimentos que à partida, não deveriam ter qualquer relação
aqui têm. Destaco o facto de tanto o homem por quem Alice se apaixonou em
Londres como o padre que recebe as suas cartas possuírem o mesmo nome. Com o
desenrolar da leitura, percebe-se a intenção desta escolha.
É uma história agradável, leve e que é lida num
instante, Contudo, a certo momento, achei que formato de carta já
surgia de modo exagerado. É certo que a autora tentou explicar que tal
acontecia por esta ser uma forma mais íntima de comunicação, mas tal pode não
ser facilmente aceite por todos os leitores, especialmente quando se transforma
na única forma de um casal, que está junto há vários anos, conseguir falar dos
seus sentimentos. É bonito e até poético, mas não inteiramente convincente.
Ainda sobre as cartas, por vezes senti que o
estilo de escrita utilizado por diferentes personagens era demasiado
semelhante. Gostava de ter percebido instantaneamente quem escrevia o quê, em
vez de ter de procurar a assinatura no final de cada carta para ter a certeza
de qual era a personagem que estava a falar.
Relativamente à narrativa, pareceu-me que seguiu
de uma forma linear e apelativa. A autora não se apressou com desenvolvimentos
e fez o leitor sentir as dúvidas e angústias das personagens que iam surgindo,
mesmo com aquelas por quem não foi criada empatia. Porém, não existiram grandes
surpresas. É fácil perceber a direção que está a ser tomada, a autora deixa
adivinhar quando tragédias vão acontecer e o final era o esperado.
Gostaria ainda de acrescentar que achei muito
curioso a autora ter-se baseado numa experiência pessoal para elaborar a base
deste livro. Afinal, Ana Casaca confessa que, em certo momento da sua vida,
recebeu diversos postais que lhe eram remetidos por uma estranha que,
aparentemente, viajava pelo mundo. A autora nunca percebeu o porquê de tal ter
acontecido, mas confessa que isso a fez refletir na sua vida.
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