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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Opinião: Paranoia

Título Original: Paranoid (2019)
Autor:
Lisa Jackson
ISBN: 
9789897544538
Editora: Marcador (2020)

Sinopse:

Em Edgewater, Oregon, alguns residentes pensam que, vinte anos antes, Rachel Gaston se safou depois de assassinar uma pessoa. Rachel ainda não faz ideia de como um simples jogo de adolescentes se tornou mortal – nem de quem trocou a sua pistola de ar comprimido por uma arma verdadeira. Quando um vulto se aproximou, vindo da escuridão, ela disparou sem pensar. Demasiado tarde, reconheceu o meio-irmão, Luke, e viu sangue a jorrar do seu peito.

Apesar do acompanhamento psicológico, os sonhos horríveis de Rachel sobre aquela noite persistem. a ansiedade levou ao seu divórcio do detetive Cade Ryder, embora também ele se sinta culpado pelo sucedido. Quando a reunião com os colegas do secundário se aproxima, Rachel sente a imaginação a pregar-lhe partidas, convencendo-a de que os objetos em sua casa se deslocaram. Que há perfume desconhecido no ar. Que alguém está a seguir o seu carro.

A observá-la em casa. Tem razão em sentir medo. E à medida que surgem ligações entre uma nova série de homicídios e a morte de Luke, Rachel percebe que não é possível escapar ao passado e que a verdade pode ser mais sombria do que os seus piores medos…

Opinião:

Paranoia, de Lisa Jackson, é um thriller publicado pela Marcador que se foca num mistério, mas também num drama familiar e nas intrigas de uma pequena cidade onde todos os residentes se conhecem. Logo ao início somos apresentados a uma situação do passado marcante que moldou as personagens mais importantes desta narrativa e que agora se defrontam com culpas e erros cometidos associados a essa situação.

A trama gira em torno de Rachel, uma mulher com dois filhos adolescentes e que se separou recentemente do marido. Rachel lida com a culpa de ter causado a morte do irmão mais velho, facto que a tornou numa mulher obcecada pelo controlo. Acredito que é isto que me tenha feito sentir dificuldade de gostar realmente da personagem. Percebo de onde vêm as preocupações dela, mas é algo tão excessivo que dificulta a empatia. Curiosamente, senti maior ligação ao marido e filhos de Rachael. São personagens mais humanas, que cometem muitos erros, mas que são mais fáceis de entender e de simpatizar.

O desenrolar da ação está bem conseguido. Apesar de só o núcleo principal da trama ter personalidades mais desenvolvidas, é interessante ver a interação com as outras figuras desta cidade. A forma como os crimes vai acontecendo é estimulante para o leitor, que está sempre a tentar adivinhar qual será a verdade destes crimes e o que terá realmente acontecido no passado de Rachel. O ritmo dos acontecimentos vai aumentando com o passar das páginas, assim como o interesse pela leitura.

Apreciei a forma como esta história foi construída, repleta de reviravoltas que prendiam a leitura. A conclusão pode não ser completamente inesperada, mas faz sentido e está bem conseguida. Faz pensar sobre como muitas vezes mantemos segredos a pensar na segurança dos outros, mas como tal pode funcionar de forma contrária e ser ainda mais prejudicial. Paranoia é um thriller psicológico que proporciona uma leitura rápida e curiosa.

domingo, 9 de setembro de 2018

Opinião: Mentes Poderosas

Título Original: The Darkest Minds (2012)
Autor: Alexandra Bracken
Tradução: Ana Mendes Lopes
ISBN: 9789897543675
Editora: Marcador (2018)

Sinopse:

Quando Ruby acorda no seu décimo aniversário, algo nela mudou. Algo suficientemente alarmante para os pais a trancarem na garagem e chamarem de imediato a polícia.

Um fenómeno inexplicável arrancou-a à vida que sempre conheceu e mandou-a para Thurmond, o assustador campo de reabilitação do governo destinado aos sobreviventes.

Ruby não sucumbiu à doença misteriosa que aniquilou a maioria das crianças nos Estados Unidos, mas ela e os outros prisioneiros tornaram-se algo muito pior, porque desenvolveram habilidades mentais poderosas que não conseguem controlar.

Opinião:

Quando ouvi falar pela primeira vez de Mentes Poderosas, fiquei logo interessada em ler o livro. A obra foi lançada em Portugal quase ao mesmo tempo que a adaptação cinematográfica chegou aos grandes ecrãs, mas eu tinha a certeza que queria ler antes de ver o filme. Fiquei com a certeza de ter ali uma visão mais completa sobre este novo mundo marcado por uma evolução inesperada e pelo medo, quer do desconhecido quer do castigo por se ser quem é.

O que mais gostei deste livro foi o conceito geral da história e a forma como a autora construiu este mundo. A ideia de haver uma geração que surge com uma evolução inesperada está bem conseguida pelo facto de Alexandra Bracken ter explorado o receio que isso provoca nos outros. Temos um evidente distanciamento entre adultos e jovens, sendo que os primeiros não compreendem e temem os mais novos, enquanto estes são reprimidos e não entendem o que lhes está a acontecer.

A criação de campos de controlo faz sentido, tendo em conta que estes nem sempre são apresentados por aquilo que são realmente. A forma como o tratamento nestes espaços afecta os jovens faz sentido e deixa adivinhar a necessidade de rebelião. Afinal, estamos a falar de um grupo de pessoas que está numa faixa etária definida pela busca de autoconhecimento e procura do seu lugar no mundo, sendo que a repressão intensifica estas problemáticas. Também foi curioso que a autora tivesse explorado as diferentes reações dos pais à nova condição dos seus filhos, percebendo-se que o amor e compreensão promovem ligações mais saudáveis e jovens mentalmente mais estáveis.

As diferentes capacidades destes jovens são muito curiosas, e a divisão que lhes é feita faz sentido. Achei curiosa a forma como Ruby conseguiu esconder durante tanto tempo os seus verdadeiros poderes. Contudo, o que aqui mais apreciei foi a resolução da autora para os casos mais poderosos por parte das figuras de poder. Trata-se de algo que faz sentido num mundo em que dinheiro e poder parecem governar tudo e todos, mesmo quando tal tenta ser disfarçado com altruísmo.

O desenrolar dos acontecimento é algo lento. Esperava uma leitura mais rápida, mas, ainda assim, senti que o meu interesse foi aumentando com o passar das páginas. O encadeamento da ação faz sentido e está bem conseguido, mas senti falta de personagens mais apelativas, profundas ou reais. À exceção de Chubs, a minha figura preferida, todos os outros pareceram algo insípidos. Ruby, a protagonista precisava de outras características para se tornar marcante.

Confesso que não fiquei totalmente agradada com a tradução. Não que note grandes falhas em termos de português, mas algumas referências bem conhecidas não passaram bem para a nossa língua. A certa altura existe uma referência ao conto do "João e Maria", o que me causou estranheza. Sei que este é o nome que no Brasil dão ao conto que em Portugal é conhecido por "Hansel e Gretel" e só percebi que era a esse que se referia na obra pela comparação de elementos. Este não foi caso único, sendo que nota-se que o trabalho de pesquisa não foi feito com referências do nosso país.

Mentes Poderosas é o início de uma série que nos faz pensar sobre crescimento, o medo do desconhecido, a coragem que é preciso ter para confiar nos outros, sentido de pertença e a dor do afastamento e/ou rejeição da família. Um livro que que vai agradar aos fãs de distopias e que, apesar dos pontos mais fracos, mantém a curiosidade sobre o que virá num volume a seguir.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Opinião: Os Viajantes (#2)

Título Original: Wayfarer (2017)
Autor: Alexandra Bracken
Tradução: Hugo Gonçalves
ISBN: 9789897543449
Editora: Marcador (2018)

Sinopse:

 Etta Spencer não sabia que era uma viajante até ao dia em que emergiu a quilómetros e a anos da sua casa. Agora que lhe roubaram o objeto poderoso que era a sua única esperança de salvar a mãe, Etta encontra-se presa mais uma vez, longe do seu tempo e de Nichola, corsário do século XVIII por quem se apaixonou.

Quando se vê no coração do inimigo, promete terminar o que começou e destruí-lo de uma vez por todas. Mas é surpreendida com uma revelação bombástica sobre quem é o seu pai. De repente, questionando tudo pelo que lutou, Etta tem de escolher um caminho que poderá transformar o seu futuro.

Opinião:

Fiquei tão bem surpreendida com Os Passageiros do Tempo que tive de ler a sequela dessa história. Alexandra Bracken continua a aventura de Etta e Nichola em Os Viajantes, livro que acaba por ser mais cativante do que o primeiro. Já conhecemos a maior parte das personagens importantes desta aventura e já sabemos como funcionam as viagens no tempo, por isso, agora é o momento para explorar as intrigas e viver novas aventuras.

Este volume começa no momento em que o primeiro terminou. Como tal, tempos as duas personagens principais separadas não só no espaço como no tempo, ligadas apenas pelos sentimentos que nutrem uma pela outra. Devido a esta separação, a autora vai intercalando capítulos para nos contar o que está a acontecer a Etta e depois a Nicholas. Senti-me sempre agarrada ao livro, pois assim que terminava um capítulo de Etta queria saber mais sobre o que viria a seguir, mas primeiro teria de ler páginas dedicadas a Nicholas. E depois acontecia-me o contrário! Conclusão, estava sempre entusiasmada com a história.

É verdade que ao longo da narrativa existem alguns momentos mais parados ou até não tão apelativos, mas o facto de saber que a outra personagem estava a viver um momento intenso não me fazia sentir desmotivada pela leitura. Alexandra Bracken conseguiu intercalar bem estes momentos, de forma a não acontecerem em simultâneo a Etta e a Nicholas. Assim sendo, a leitura acabou sempre por fluir com um bom ritmo, não fazendo perder o interesse.

Confesso que Etta e Nicholas não foram as personagens que mais me cativaram. Eles são aqueles típicos protagonistas de grandes valores e que tentam sempre fazer tudo pelo bem comum. Isso é bom, mas acaba por ser desinteressante em certos momentos. Felizmente eles estavam sempre envolvidos em situações intensas ou rodeados por figuras mais carismáticas e capazes de marcar pela diferença. O carisma e galanteio de Julian, tal como a impulsividade e força de Sophia acabaram por me conquistar e fazer destas personagens as minhas preferidas. Li Min foi uma figura que surgiu de novo e que acabou por nos revelar um outro lado dos viajantes do tempo, o que se tornou muito curioso.

É curioso que, com tantas viagens no tempo e com a descoberta de novas figuras a percepção dos nossos heróis sobre outras pessoas acaba por ser alterada. Gostei especialmente que os pais de Etta, Henry e Rose, não nos serem sempre apresentados da mesma forma. Estamos sempre a duvidar do verdadeiro carácter e dos objectivos de cada um, o que aumenta o mistério da obra e aguça a curiosidade.

As viagens voltam a ser impressionantes e a dar-nos pontos de vista diferentes sobre os locais e as épocas visitadas pelos nossos protagonistas. É engraçado assistir ao contraste entre períodos mais modernos com outros mais antigos, tal como entre culturas completamente distintas. As descrições da autora transportam-nos para cada um destes lugares de forma exemplar, sendo fácil captar os diferentes ambientes.

É sempre fantástico quando um livro não fica abaixo das nossas expectativas. Os Viajantes não decepciona os fãs do primeiro volume, muito pelo contrário. Um livro original, com muita intriga, onde nem tudo o que parece é. As personagens são fantásticas de descobrir e a aventura é maravilhosa, levando-nos a viajar pelo mundo e por épocas. Uma obra a não perder por quem gosta de intriga, mistério e, claro, viagens no tempo.


Outras opiniões a livros de Alexandra Bracken:
Os Passageiros do Tempo

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Opinião: A Coroa (A Seleção #5)

Título Original: The Crown (2016)
Autor: Kiera Cass
Tradução: Alexandra Cardoso
ISBN: 9789897543401
Editora: Marcador (2017)

Sinopse:

Este é o volume final da saga «A Seleção», que apaixonou milhares de leitores por todo o mundo! Em A Herdeira, o universo de A Seleção entrou numa nova era. Vinte anos se passaram desde que America Singer e o príncipe Maxon se apaixonaram, e a filha do casal é a primeira a passar pela sua própria seleção. Eadlyn não acreditava que encontraria um companheiro entre os trinta e cinco pretendentes do concurso, muito menos o amor verdadeiro. Mas às vezes o coração tem uma maneira estranha de surpreender-nos... E agora Eadlyn precisa fazer uma escolha muito mais difícil - e importante - do que esperava.

Opinião:

Está encerrada a série "A Seleção". Em A Coroa, Kiera Cass coloca um fim a esta história e se já antes afirmava que preferia Eadlyn a America como protagonista, agora enalteço isso. A heroína desta aventura cresceu imenso, sendo muito mais fácil sentir empatia com ela do que aconteceu no momento em que foi apresentada no volume anterior, A Herdeira. Uma personagem principal e uma narrativa mais rápida e cativante torna este livro o meu preferido da série.

Assim que a leitura começa, a autora prova-nos que Eadlyn deixou de ser a menina rica privilegiada que não tem noção da realidade do seu povo. Os rapazes que compõe a Seleção mudaram esta herdeira ao trono, conseguiram levá-la a parar para pensar no que existe além do palácio. A partir desse momento, é possível observar a mudança de prioridades desta protagonista e, consequentemente, também a sua forma de se mostrar aos outros.

Eadlyn revela-se uma jovem inteligente, sensível, trabalhadora, dedicada e altruísta. Contudo, não é essa a primeira impressão que passa aos outros. É curioso como a autora nos leva a pensar na dificuldade que muitas vezes sentimentos em revelar-nos tal como somos, sendo que muitas vezes não somos bem interpretados e, por isso, compreendidos. Para esta heroína é essencial ser vista como é na verdade, pois só assim conseguirá cumprir o seu dever. Talvez a nossa verdade também faça com que seja mais fácil alcançar os objetivos que temos.

A ideia geral da Seleção continua a não me deixar propriamente entusiasmada. A protagonista é forçada a desenvolver vários interesses amorosos, uma vez que tem de analisar a sua ligação com cada candidato. Isto ocupa uma grande parte da narrativa, tal como acontece nos volumes anteriores da saga. Contudo, a novidade aqui é que algumas personagens conseguem surpreender, revelando-se mais complexas do que aconteceu com a Seleção dos primeiros três livros, que tinham America como protagonista. Confesso que já esperava a escolha que Eadlyn iria fazer. Fiquei satisfeita com este desfecho, apesar de ter achado demasiado dramática a forma como foi alcançado.

Um outro ponto forte deste livro é a preocupação de Eadlyn com o seu papel de herdeira do rei. Isto faz com que não existe apenas romance na trama, mas também um contexto de maior interesse. É verdade que continuo a lamentar o facto de Kiera Cass não desenvolver mais este mundo, mas desta vez apreciei os problemas sociais que foram apresentados, a forma como a opinião pública se revela essencial para as massas e ainda mais as soluções finais que a protagonista encontrou e colocou em prática.

O desenrolar da acção é mais rápido do que aconteceu no livro anterior. Existem mais momentos de interesse, o que torna a leitura bastante rápida. Terminado este volume, é possível constatar a evolução da autora. A história vai de encontro ao que os fãs, de certo, desejam encontrar, mas as personagens estão mais ricas e humanas enquanto os motivos que provocam o desenrolar dos acontecimentos são também mais cativantes. Kiera Cass conseguiu concluir muito bem esta saga. Fiquei bastante satisfeita e com vontade que, apesar de tudo, a autora volte a este mundo, através de um ponto de vista diferente, para mostrar de que forma a sociedade foi alterada graças às novas ideiais de Eadlyn. Posso ter esperança, não posso?

Outras opiniões a livros de Kiera Kass:
A Seleção (A Seleção #1)
A Elite (A Seleção #2)
A Escolha (A Seleção #3)
A Herdeira (A Seleção #4)
A Sereia

terça-feira, 27 de junho de 2017

Opinião: Os Passageiros do Tempo (#1)

Título Original: Passenger (2016)
Autor: Alexandra Bracken
Tradução: Hugo Gonçalves
ISBN: 9789897543166
Editora: Marcador (2017)

Sinopse:

Numa noite devastadora, em Nova Iorque, Etta Spencer, uma violinista prodígio, perde tudo o que conhece e ama. Enganada por uma mulher estranha e misteriosa, Etta vê-se subitamente a viajar, não apenas milhares de quilómetros, mas centenas de anos, descobrindo assim um dom herdado de uma família que ela nem sequer conhecia.
Nicholas Carter, ex-escravo, está feliz com a sua vida no mar, a bordo de um navio pirata, após se livrar da poderosa família Ironwood, nas colónias inglesas da América do Norte. Mas, com a chegada de uma passageira invulgar ao seu navio, o passado volta a agarrá-lo e Nicholas vê-se de novo nas garras da família que o subjugou.
Juntos, Etta, uma miúda nova-iorquina do século XXI, e Nicholas, um marinheiro negro do século XVIII, embarcam numa viagem perigosa através dos séculos e de vários continentes, da Revolução Americana à Segunda Guerra Mundial, das Caraíbas a Paris, seguindo e interpretando pistas deixadas por um viajante do tempo que fez tudo para esconder dos poderosos Ironwood o objeto misterioso

Opinião:

A ideia de viajar no tempo sempre me atraiu. Portanto, assim que soube que Os Passageiro do Tempo ia ser publicado em Portugal, soube que tinha de ler este livro assim que possível. A premissa principal desta obra de Alexandra Bracken é original. Apesar de tratar de um tema que já foi apresentado vezes sem conta, gostei que a autora tivesse abordado com maior ênfase a questão do poder e ainda das diferenças de mentalidades e culturais que foram sendo registadas ao longo das épocas.

Etta é uma jovem reprimida do nosso tempo, que tem muito para dar mas que concentra todas as suas atenções e forças numa atividade. Por isso, quando falha na única coisa em que sempre se concentrou, Etta sente-se devastada e começa a colocar em causa tudo o que perdeu e até mesmo o papel da sua mãe. Ela acaba por se ver numa situação impensável e descobre um segredo que sempre lhe foi escondido. É aqui que a magia acontece e começa uma grande aventura. Gostaria que tivesse existido um choque maior, mas gostei que ela, aos poucos, se acabasse por revelar corajosa e determinada em fazer o melhor por um bem maior.

Nicholas é o outro protagonista. Ele vem de uma época anterior e é aos poucos que percebemos a sua história e em como esta o moldou. A sua angústia e luta não é percebida imediatamente, mas faz todo o sentido. Entendo o motivo pelo qual ele se retrai, mas gostava que, mais à frente na leitura, tivesse mostrado com mais facilidade as sua intenções e verdades. Apesar de se encontrar numa situação dúbia, acaba por ser o guia de Etta nesta aventura, sendo também ele quem acaba por explicar ao leitor as problemáticas das viagens do tempo, assim como as suas possibilidades.

As personagens secundárias estão muito bem conseguidas e dão à história novas camadas e tornam tudo muito mais interessante. Gostei do lado dos Ironwood, pois, apesar de eprovar as suas atitudes, aumentaram o meu interesse sobre a história dos viajantes do tempo. Esta família justifica as aventuras que Etta e Nicholas têm de viver e, assim, dão sentido à trama. Quero saber mais sobre o patriarca deste clã e sobre a forma como consegue dominar várias épocas com a sua influência. O papel da mãe de Etta e da sua guardiã também está muito bem conseguido e fez-me pensar sobre os sacrifícios que outros fazem sem nunca os revelarem.

A componente do romance acabou por ser a parte que menos me agradou. Tal como se percebe logo ao início, as duas personagens principais desenvolvem sentimentos uma pela outra, mas não achei que estes estivessem bem justificados. Era preciso mais do que a atração imediata e a adrenalidade da situação para fazer o leitor acreditar na veracidade dos seus sentimentos. Afinal, as circunstâncias dão motivos para esta forte ligação, mas seria preciso algo mais para me fazer acreditar no amor.

É curioso que, apesar de estudarmos História e sabermos que as mulheres e todas as pessoas que não fossem caucasianas foram, até há bem pouco tempo, vistas como inferiores, é sempre um choque constatar essa realidade. Etta sente revolta quando vê este tipo de discriminação e tem dificuldade em entender o motivo de esta existir, apesar de reconhecer que não está a viver na sua época. Acredito que, mesmo com todo o conhecimento sobre o passado, iria reagir da mesma forma perante as situações que os dois protagonistas encontraram no seu caminho. Saber não é o mesmo que aceitar.

Com personagens fortes, um novo olhar sobre a História, um enredo que cativa e uma aventura original, Os Passageiros do Tempo torna-se uma leitura que marca pela diferença e que nos faz pensar sobre como a humanidade evoluiu. O início de uma saga que promete continuar a surpreender e que espero ter a oportunidade de acompanhar.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Opinião: A Sereia

Título Original: The Siren (2016)
Autor: Kiera Cass
Tradução: Alexandra Cardoso
ISBN: 9789897543081
Editora: Marcador (2017)

Sinopse:

O mesmo discurso foi feito centenas de vezes a centenas de lindas raparigas que entram na irmandade das sereias. Há anos que Kahlen segue as regras, esperando pacientemente pela vida que poderá considerar sua.
Mas quando Akinli, um ser humano, entra no seu mundo, ela não consegue continuar a viver segundo as regras, De repente, a vida pela qual tem esperado não parece tão importante como a que está a viver agora,

Opinião:

A Sereia é um livro que me chamou a atenção. Primeiro, por causa do título, associado a uma figura mitológica que tanto me fez sonhar durante a infância. Segundo, por causa da capa que é maravilhosa e dá vontade de ser aquela jovem à beira-mar com um lindo vestido (sim, eu sei, não devia ligar tanto à capa, mas...). Terceiro, porque a autora é Kiera Cass, da saga "A Seleção" e queria muito ver que outras histórias ela tinha para apresentar aos seus leitores. Tendo isto em conta, claro que comecei a leitura assim que este livro me chegou às mãos.

Kiera Cass inspirou-se na mitologia ligada às sereias e principalmente no conto de Hans Christian Andersen, mas não ficou presa a estas ideias e concepções.  E ainda bem que assim foi. Afinal, desta forma conseguiu criar uma história original, adaptada aos nossos dias e com uma nova mística. As referências ao que já é conhecido vão surgindo aos poucos e poucos, o que nos dá uma noção de familiaridade, mas não de repetição.

Kahlen é a protagonista da obra, uma jovem nascido no início do século XX que está presa a um contrato com Oceano. A verdade é que não se trata de uma figura memorável, uma vez que a sua personalidade se encontra dentro de um padrão de heroína básica. O mais interessante nela é tudo o que a envolve, quer seja a mística das sereias ou os dramas e aventuras em que se encontra. A autora tentou torná-la mais humana e próxima através da forma como ela encarava as suas obrigações para com Oceano, mas poderia ter explorado melhor as noções de revolta e tristeza, algo que apenas acontece mais à frente da leitura, o que impede uma empatia inicial.

Apesar da passagem do tempo, Kahlen e as suas irmãs sereias mantêm-se com um espírito jovem, quase adolescente. Pensado nesta questão, faria sentido que certos comportamentos, escolhas e atitudes destas sereias fossem ligeiramente diferentes. Afinal, elas habitam sempre entre humanos, assistem à evolução dos tempos, amadurecem psicologicamente. Penso que esta ideia só ficou realizada numa sereia, Aisling, curiosamente aquela de quem me senti mais próxima, ainda que não fosse a mais presente. Percebo que a autora optasse por manter o teor mais jovem, afinal esta é uma história sobre um primeiro amor, muito ingénuo, puro e melodramático.

A autora explora a relação de Kahlen com ela própria, com Oceano e com um rapaz, Akinlin. No primeiro campo somos remetidos para a adolescência, de quando procuramos o nosso lugar no mundo, o sentido da existência. No segundo, existe uma ligação quase entre mãe e filha, uma vez que se aborda um amor profundo mútuo e seguro que, eventualmente, precisa ser quebrado. O último é o mote para o desenrolar dos acontecimentos. Akinlin é divertido e amoroso, os momentos em que aparece prendem sempre a atenção. O amor entre este jovem e Kahlen é imediato e forte, um verdadeiro caso de vida ou morte. Parece exagerado, especialmente nos momentos finais, mas também leva os leitores mais românticos a suspirar.

Gostei muito da figura de Oceano e dos seus tratados com raparigas jovens. Esta é uma entidade que traz mistério e mística à trama, que nos faz pensar em como a própria natureza concede e tira com a mesma facilidade e em como a devemos respeitar. A dificuldade que Oceano tem em compreender por inteiro as suas sereias e a solidão inerente fazem sentido e criam uma distância entre o que é humano e o que é quase divino. Contudo, gostaria que esta entidade tivesse sido mais explorada, que fosse explicado o motivo para ter fome de vidas humanas e em como poucas podiam salvar muitas. Neste campo, também gostaria de uma visita aos primórdios do contrato entre Oceano e as sereias, para entender o início de tudo.

Os fãs de Kiera Cass não vão ficar desiludidos com A Sereia. Este livro leva para um ambiente de grande beleza e que nos faz suspirar. Fiquei feliz por, desta vez, não existirem descrições exagerados sobre vestuário. Por seu lado, os sentimentos da protagonista são bastante explorados e a trama avança num sentido muito romântico, com todos os dramas que tal acarreta. Gostei da forma original com que a autora tratou estas criaturas místicas, sendo capaz de mostrar o melhor e o pior de tal condição. É um livro que faz sonhar em criaturas belas e histórias de amor eterno.

Outras opiniões a livros de Kiera Kass:
A Seleção (A Seleção #1)
A Elite (A Seleção #2)
A Escolha (A Seleção #3)
A Herdeira (A Seleção #4)

quarta-feira, 22 de março de 2017

Opinião: Em Fuga

Título Original: Runaway (2015)
Autor: Peter May
Tradução: Ana Mendes Lopes
ISBN: 9789897542985
Editora: Marcador (2017)

Sinopse: 

Em 1965, cinco amigos, todos adolescentes, cansados da rotina e temerosos de uma vida previsível, fogem de Glasgow com destino a Londres e o sonho de serem estrelas e de transformar a sua banda de música num sucesso.

No entanto, antes do final do primeiro ano, três deles regressam á sua cidade natal na Escócia - e voltam diferentes, danificados, sem que ninguém perceba a razão para tal.

Cinquenta anos mais tarde, em 2015, um brutal homicídio na capital inglesa obriga esses três homens, agora com quase 70 anos, a regressar a Londres e a confrontar, por fim, a mancha escura do seu passado da qual tentaram fugir durante toda a vida.

Opinião:

Em Fuga foi o primeiro livro que li de Peter May e digo já que fiquei bem impressionada com o autor. A história reúne vários ingredientes que muito me agradaram e prendeu-me desde o primeiro momento. Adorei a forma como os dois tempos foram relatados, sendo cada um deles adequado à idade do protagonista.

Neste livro, acompanhamos Jack em duas aventuras: uma quando tem 17 anos e outra aos 67. Adorei o contraste que existe entre a mesma pessoa em duas épocas tão distintas da sua vida. O Jack mais novo é intrépido, não tem tanta noção dos riscos e nem mede as consequências das suas ações, o que tanto diverte como nos faz ter vontade de o chamar à razão e até puxar uma orelha. Já o Jack mais velho é um homem que conseguiu encontrar uma melhor versão de si mesmo, alguém que queremos ver feliz. É curioso que os capítulos das duas épocas são narrados de forma diferente. Se em 2015 a história é contada na terceira pessoa, em 1965 tal acontece na primeira, se calhar para dar mais evidência ao egocentrismo da juventude.

É curioso que, apesar das épocas distintas, Jack e os seus amigos vivem aventuras muito semelhantes. Têm o mesmo ponto de partida e de chegada, além de que passam por locais semelhantes. É curioso ver como encaram as dificuldades de forma distinta, mas sem nunca perderem o espírito aventureiro. Também é interessante ver a evolução de cada membro deste grupo, sendo que tal nos faz pensar sobre o como as nossas decisões são importantes para o rumo da nossa vida. Destaco ainda a evolução do neto de Jack ao longo da narrativa, assim como da relação entre avô e neto.

Existem elementos de policial neste livro, mas numa quantidade menor da que estava à espera. Afinal, o motor da trama é a concretização de um último desejo, sendo que, no meio disso, um mistério acaba por ser resolvido. Contudo, o leitor só percebe do que está à procura só mais perto do fim, o que faz com que a procura por um culpado e um motivo não aconteça desde o início. Mas existem outros elementos que despertam interesse e nos cativam para a leitura.

O desenrolar da narrativa começa de forma algo lenta, mas assim que os grupos inicia viagem que o ritmo se torna cada vez mais rápido, até ser quase impossível parar de ler. Os obstáculos tanto divertem como demonstram perigo, o que nos leva a pensar nas armadilhas da sociedade. Contudo, a certa altura, existem imensas referências à cultura pop que são uma verdadeira delícia.

Este livro dá uma boa lição aos mais jovens. Mostra que as pessoas de mais idade também já foram novas, mas não o faz com um recordação, mas sim com momentos verdadeiros e com os quais é fácil sentir identificação. Além disso, mostra a quem tem mais idade que nunca é tarde para viver uma aventura, ter novas experiências, arrepender e começar tudo de novo.

Gostei muito da leitura de Em Fuga, apesar de não ser bem aquilo que estava à espera. Este livro não deve ser encarado tanto como um policial, apesar do crime que é resolvido, mas mais como uma aventura que traz auto-descoberta e nos faz pensar tanto no rumo que estamos a tomar como a dar mais importância aos ensinamentos dos que são mais velhos. Afinal, um dia seremos nós no lugar deles, e também teremos, com toda a certeza, muito para contar. E para viver.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Opinião: Amor em Minúsculas

Título Original: Amor en Minúsculas (2015)
Autor: Francesc Miralles
Tradução: Liliana Sousa
ISBN: 9789897542954
Editora: Marcador (2017)

Sinopse: 

Ao acordar no dia 1 de janeiro, Samuel, um professor de Linguística solitário, está convencido de que o ano que se inicia só lhe trará verbos no passivo e poucos momentos em itálico, até que um visitante inesperado se esgueira para dentro do seu apartamento e se recusa a sair. Mishima, um gato vadio, torna-se o catalisador que faz Samuel abandonar a comodidade dos seus livros favoritos, dos seus filmes estrangeiros e da sua música clássica, para ir a lugares onde nunca esteve - como a casa do vizinho - e conhecer pessoas que jamais pensaria conhecer - um velho com o qual nunca trocaria uma palavra.
Mas há mais: o gato fará com que ele reencontre Gabriela, uma misteriosa mulher do seu passado, que ele já não tinha esperança de voltar a ver. Uma história inteligente, divertida e doce que nos comove e revela que os pequenos detalhes são o grande segredo da felicidade. Amor em Minúsculas é uma pequena preciosidade e está a causar furor internacional. Um livro adorável que conjuga referências literárias e filosóficas com a magia única das pequenas coisas.

Opinião:

Francesc Miralles apresenta uma história amorosa em Amor em Minúsculas, ao mesmo tempo que nos recorda que não devemos deixar de valorizar tudo o que nos rodeia. Afinal, e como a está escrito na capa "O segredo da felicidade está nas pequenas coisas". Ao ler este livro é impossível não pensar na beleza que nos rodeia e nas inúmeras possibilidades que a vida nos oferece.

Samuel é o protagonista desta obra. Inicialmente, surge como um homem solitário e resignado à sua condição, alguém que quase nem se atreve a sonhos e que parece não ver o que está à sua volta. Os pensamento deste homem chegam a ser opressivos, quase como se o autor nos estivesse a alertar que, neste estado, a felicidade nunca poderá ser encontrada. Contudo, Francesc Miralles também nos mostra que as alegrias da vida podem ser alcançadas se estivermos dispostos a fazer por isso. Afinal, a ação vale sempre mais do que a intenção.

É engraçado que, uma pequena mudança, faz com que a vida do Samuel entre numa sequência de acontecimentos que o transformam. O aparecimento de um gato, algo tão simples, leva este homem a agir, a ter vontade de sair da sua rotina e, deste modo, a perceber que as mudanças ainda são possíveis. É ainda curioso o quanto uma tarefa que lhe é entrega tenha uma ligação tão forte com este novo percurso. Assim, entendemos que nunca é tarde para lutar por um sonho e conseguir algo muito desejado.

Nesta nova aventura, Samuel descobre-se, encontra um objetivo e ainda nos apresenta personagens caricatas e com muito para nos ensinar. Adorei o velho Titus, homem claramente sábio e que impressiona através das suas palavras. Estranhei Valdemar, mas fiquei curiosa com as suas histórias, alegóricas, talvez, e com tanto de sonho como de realidade. Fiquei intimidade por Gabriela, mas quis desvendar-lhe os mistérios e perceber o que passou. Sorri com Meritxell e fiquei com pena de ver a forma como destino acabava por a empurrar para outro lado. Admirei o papel de Mishima, que me fez pensar em como um simples gato pode ser tão importante na vida do seu dono.

A narrativa é cativante e tem momentos muito bonitos. As reflexões de Samuel são conselhos ou gatilhos de pensamento para os leitores e levam-nos a questionar o que estamos a fazer com estas 650 000 horas de vida que, aparentemente, nos foram concedidas. O autor mostra que as nossas escolhas condicionam o futuro e que a nossa atitude é crucial para o sucesso. É curioso ver como, na história, existem tantas coincidências que levam Samuel a encontrar o seu destino. Faz-nos pensar sobre o que o futuro, esse que parece ser tão bom ao ponto de geral uma nova espécie de nostalgia, nos reserva.

No final da leitura, admirei a história, mas também senti necessidade de que alguns momentos tivessem mais desenvolvimento. Existem muitas explicações a dar, quer seja no destino de algumas personagens quer em teorias que foram apresentadas, o que faz com que fique a sensação de que poderia haver muito mais. Talvez a intenção do autor fosse mesmo deixar alguns pontos em aberto, mas seria bom ter existido um maior desenvolvimento.

Ao ler este romance, percebe-se perfeitamente que Francesc Miralles tem uma forte ligação com temáticas de espiritualidade e autoajuda. Afinal, o autor trabalhou durante muitos anos no mercado literários de tais obras. Felizmente conseguiu transmitir as suas ideias neste formato, apresentado uma história tão envolvente. Se gostam de histórias de amor que exaltam a simplicidade e beleza da vida, então deem uma oportunidade a este Amor em Minúsculas. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Opinião: Coroa da Meia-noite (Trono de Vidro #2)

Título Original: Crown of Midnight (2013)
Autor: Sarah J. Mass
Tradução: Liliana Lavado
ISBN: 9789897542527
Editora: Marcador (2016)

Sinopse:

 Ela é a maior assassina que o seu mundo algum dia conheceu. Mas onde a conduzirão a sua consciência e o seu coração?
Num trono de vidro, governa um rei com punho de ferro e alma tão negra como o breu. Celaena Sardothien, a Assassina de Adarian, venceu uma competição violenta e tornou-se no seu campeão. No entanto, Celaena está longe de ser leal à Coroa. Ela faz a sua vigilância em segredo; sabe que o homem a quem serve está vergado ao mal.
Manter esta encenação mortífera torna-se cada vez mais difícil quando Celaena se apercebe de que não é a única que está à procura de justiça. Ao tentar desvendar os mistérios enterrados no coração do castelo de vidro, a sua relação com as pessoas que lhe são mais próximas sofre com isso. Aparentemente, todos questionam a sua lealdade — Dorian, o príncipe herdeiro; Chaol, o capitão da Guarda; e até mesmo Nehemia, a sua melhor amiga, princesa de um reino distante e com um coração rebelde. Mas numa terrível noite, os segredos que todos eles têm guardado conduzem-nos a uma tragédia indescritível. O mundo de Celaena é destruído e ela é forçada a abdicar daquilo que considera mais precioso e a decidir de uma vez por todas onde está assente a sua verdadeira lealdade... e por quem está disposta a lutar.

Opinião:

Era um livro que aguardava há muito e tive de o ler assim que me chegou às mãos. Coroa da Meia-Noite dá seguimento a Trono de Vidro (opinião aqui) e prova que esta série tem tudo para continuar a impressionar. Uma heroína cativante, mistério, romance, perigo, aventura e desenvolvimentos imprevistos são os ingredientes chave desta história de autoria de Sarah J. Maas.

No primeiro livro, vimos Calaena a travar uma competição para se tornar campeão do rei. Agora, é possível vê-la a assumir as funções desse cargo. É curioso constatar os diferentes lados deste cargo. Por um lado, ser campeão do rei é algo que faz a nossa heroína pensar em liberdade, mas por outro também é algo que a coloca em choque contra alguns dos seus princípios. Numa outra vertente, esta função poderá ainda dissimular um outro objectivo maior. Todas estas visões surgem a certo momento na obra, e isso faz pensar sobre as camadas que compõe Calaena.

Esta é uma protagonista que esconde bem quem realmente é. Numa primeira análise é tida como uma assassina fria e cruel disposta a tudo, mas quando a conheci fiquei impressionada com o seu grande coração e sentido de humor. Percebe-se que o ofício pelo qual é conhecida surgiu devido a circunstâncias adversas. E se neste livro fica patente que ela é capaz de tudo por um bem maior, também se descobre que é detentora de um lado ainda mais negro do que aquilo que inicialmente se poderia imaginar. Além disso, uma revelação sobre o seu passado acaba por dar consistência à sua personalidade e a torná-la ainda mais impressionante e cativante.

Se no livro anterior fiquei interessada na lenda que Calaena era, desta vez gostei muito de conhecer melhor algumas das acções que a levaram a ser tão famosa e temida em Erilea. Ao longo da narrativa, são explorados pedaços do passado da protagonista, tanto momentos de maior acção como questões mais sentimentais. Percebe-se que o seu sarcasmo, muitas vezes, é uma ferramenta de defesa e que ela não deixa de ser uma jovem mulher que sonha com uma vida pacífica e tranquila. Mas isso parece impossível.

A trama consegue agarrar desde a primeira página, graças a momentos de grande ação e a outros de revelações inesperadas. Por mais que Calaena tente com que as suas novas funções provoquem o mínimo de dano possível ao mesmo tempo que deixam o governante satisfeito, existe sempre algo que se intromete no seu caminho e a leva a deixar ao de cima o que tem de pior. Neste livro existe mesmo um momento de grande desespero que a leva a não ter noção das suas ações que faz ter pena por aqueles que sofreram as consequências.

O príncipe Dorian e capitão Chaol continuam a ser outras figuras bastante fortes nesta história. E é engraçada verificar o quanto ambos estão a mudar ao longo desta aventura. Se Dorian parecia um herdeiro mimado, desta vez deu maior força à ideia de que pode ser o principal opositor do seu pai. Além disso, uma mudança relativa ao príncipe dados pistas sobre o real poder do rei e torna tudo o que se passa à volta de Dorian ainda mais interessante. Chaol, por seu lado, foi o que, desta vez, menos me impressionou dos dois. Penso que tal aconteceu por, talvez, as suas decisões serem mais previsíveis e por, a certo ponto, ter colocado Calaena numa posição bastante vulnerável.

Se já tinha gostado do primeiro volume desta série, agora fiquei com a certeza e que quero mesmo continuar a acompanhá-la. Coroa da Meia-noite deixou-me com vontade de ter a continuação das aventuras de Calaena já nas minhas mãos. As personagens cativaram-me, a ação deixou-me a ansiar por mais e todo o ambiente, repleto de perigo, magia e romance, fizeram-me ficar rendida. Uma série que marca pela diferença e que me deixou fã.

Opiniões a outros livros de Sarah J. Maas:
Trono de Vidro (Trono de Vidro #1)

domingo, 19 de junho de 2016

Opinião: A Herdeira (A Seleção #4)

Título Original: The Heir (2015)
Autor: Kiera Cass
Tradução: Alexandra Cardoso
ISBN: 9789897542381
Editora: Marcador (2016)

Sinopse:

A Princesa Eadlyn cresceu a ouvir histórias intermináveis de como a sua mãe e o seu pai se conheceram. Vinte anos antes, America Singer entrou na Seleção e conquistou o coração do Príncipe Maxon – e viveram felizes para sempre. Eadlyn sempre achou romântica esta história de encantar, mas não tem qualquer interesse em tentar repeti-la. Por si, adiaria o casamento tanto tempo quanto possível.Mas a vida de uma princesa não é inteiramente sua e Eadlyn não pode escapar à sua própria Seleção – por mais fervorosamente que proteste. Eadlyn não espera que a sua história acabe em romance. Mas com o início da competição, um candidato poderá acabar por conquistar o coração da princesa, mostrando-lhe todas as possibilidades que se encontram à sua frente… E provando-lhe que viver feliz para sempre não é tão impossível como ela pensou.

Opinião:

Este é o livro que mais gostei da ler da série "A Seleção". Em "A Herdeira", Kiera Cass apresenta-nos uma protagonista mais complexa, uma história mais apelativa e mensagens atuais. Além disso, ver o outro lado da Seleção faz com que voltemos a este universo e observemos tudo com outros olhos. É então possível perceber que a evolução da evolução da autora.

Eadlyn, a protagonista, é muito diferente de America. E ainda bem! É verdade que, ao início, pode não ser fácil sentir grande empatia por ela, afinal, trata-se de uma jovem arrogante e mimada que foi criada num grande palácio, rodeada pelos maiores luxos, e que sempre soube que iria ser rainha. "Não há ninguém mais poderoso do que eu" é o seu mote, o que tanto pode ser visto como uma demonstração do seu ego elevado, mas também como um mecanismo de defesa. É que Eadlyn tenta manter uma postura régia e forte para esconder as suas fragilidades e medos. E são as camadas desta figura que a tornam tão interessante.

É uma protagonista que, ao longo do livro, vai descobrindo as suas imperfeições. Isto torna-a mais humana e fez-me gostar ainda mais dela. Comete muitos erros e vê as suas ações a surtirem efeitos contrários ao que esperava. Consegui perceber o receio desta heroína de revelar aos outros quem realmente é por acreditar que, se o fizer, estará a expor algo que não será apreciado. É algo com que é fácil identificar e que está muito bem explorado ao longo desta trama.

Foi muito divertido ver selecionados rapazes. Eles formam um grupo muito diferente do de raparigas que surgiu nos três primeiros volumes desta saga. Porém, são poucos os que são devidamente explorados, o que por vezes fazia com que me custasse a recordar que se tratava de um grupo maior. Eles têm personalidades muito diferentes e teria gostado que houvesse mais espaço para os explorar. É que, de certa forma, parecem um pouco estereotipados. Contudo, percebo que tal seria muito difícil de fazer além de que poderia prejudicar o desenrolar da narrativa.

E se no primeiro livro da série era logo possível perceber quem iria ser a eleita do príncipe Maxon, agora tal não é assim tão evidente. A visão de Eadlyn sobre a Seleção é diferente da do pai, e, além disso, ela não é uma jovem que tenha necessidade de encontrar um namorado ou que passe o tempo a divagar sobre rapazes. Dá para perceber que a autora está a tentar mostrar que tem uma certa intenção, mas existem outras hipóteses que não se encontram completamente descartadas. É bom existir esta dúvida! Confesso que tenho um preferido, mas temo que a minha escolha não seja a mesma de Eadlyn.

O desenrolar da narrativa começa um pouco mais lento, mas assim que uma decisão é tomada, torna-se difícil parar a leitura. Tal como nos livros anteriores, é possível encontrar momentos muito femininos, tais como a descrição de certos vestidos ou de certos momentos mais românticos, tais como festas e encontros. Neste ponto, apenas gostava que alguns acontecimentos não parecessem tão forçados.

Se nos livros anteriores ficava desagradada com o pouco espaço que Kiera Cass dava à situação social deste mundo, agora estou mais satisfeita. Talvez por a protagonista ter um cargo de poder, este livro apresenta-nos uma maior preocupação em falar do povo e das dificuldades que atravessa. Achei muito inteligente da parte da autora mostrar que a solução encontrada no final do terceiro livro não foi perfeita. Isto mostra que as crises são cíclicas e que o que funciona numa época pode não resultar numa outra. Além disso, revela que as mudanças nem sempre são bem aceites e que o ser humano tem dificuldade em colocar em prática a noção de igualdade.

Tenho imensa vontade de ler o volume final desta série.  "A Herdeira" termina com uma grande reviravolta e faz-me ter dificuldades em adivinhar o que Kiera Cass está a preparar. Além de desejar conhecer a decisão de Eadlyn quanto à Seleção, quero perceber de que forma ela vai ultrapassar os obstáculos que já reconheceu e conseguir tornar-se numa governante amada que traz boas reformas para o seu povo. Se gostaram dos três livros anteriores, então não podem perder este!

Outras opiniões a livros de Kiera Kass:
A Seleção (A Seleção #1)
A Elite (A Seleção #2)
A Escolha (A Seleção #3)

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Opinião: A Escolha (A Seleção #3)

Título Original: The One (2014)
Autor: Kiera Cass
Tradução: Alexandra Cardoso
ISBN: 9789897541643
Editora: Marcador (2015)

Sinopse:

Chegou a altura de coroar a vencedora.  Quando foi escolhida para competir na  Seleção America nunca imaginou chegar  perto da coroa – ou do coração do Príncipe Maxon. Mas à medida que o fim da competição se aproxima e as ameaças fora dos muros do palácio se tornam mais cruéis, America descobre o quanto tem a perder – e o quanto terá de lutar pelo futuro que deseja.

Opinião:

Depois de me ter divertido com A Seleção e de ter fica dececionada com A Elite, devo dizer que A Escolha é o melhor volume desta saga de Kiera Cass. Contudo, também é verdade que ficou muito aquém das expetativas. Com isto quer dizer que estes livros foram mais fracos do que estava à espera. Afinal, a história é apresentada como fosse uma distopia, mas tanto podia ser passada na época medieval, nos dias de hoje ou num futuro completamente diferente daquele que é sugerido que a autora apenas teria de fazer pequenas alterações. Afinal, Kiera Cass continua a focar-se no coração de America e não na sociedade e mundo envolvente.

Nos dois primeiros livros, America não sabia se devia escolher Aspen, o rapaz com quem cresceu e a sua primeira paixão, ou Maxon, o galante príncipe. Agora ela tomou uma decisão, porém, o alvo do seu interesse começou a ter dúvidas. Sendo assim, este volume centra-se nos esforços de America em provar a verdade dos seus sentimentos. Mais uma vez, um conceito sem grande interesse que acaba por dominar toda a trama.

Felizmente, este livro ficou a ganhar com uma maior exposição dos rebeldes. Finalmente ficamos a saber quem eles são e o que pretendem! É lamentável que tal só aconteça na conclusão desta fase da história que tem America como protagonista (os próximos livros da saga vão ter uma figura principal), afinal os rebeldes são a principal figura de oposição e deveriam ter tido um maior destaque ao longo de todos os livros. Gostei de conhecer algumas das figuras ligadas a estes grupos, mas, mais uma vez, tiveram pouco destaque. Além disso, ficou muito por explicar e uma proposta de associação que acaba por surgir pareceu-me demasiado fácil.

Existem breves passagens que acontecem fora do palácio que recordam o sofrimento que existe entre as classes menos privilegiadas. Para mim, elas deveriam funcionar como um "regresso à realidade" para America, mas foi com surpresa e desagrado que li ela dizer que já não pertencia àqueles lugares, mas sim ao palácio. Ora bem, tendo em conta que ela tem origem de uma meio pobre e que supostamente desempenha o papel de quem quer o melhor para todos, tal afirmação não me pareceu nada bem. Mais uma vez, acredito que America se tornou numa jovem mimada e iludida pelo luxo.

Mais uma vez, a autora apresentou de forma extensa momentos que não têm grande relevância para a trama, tais como as descrições de vestidos ou certos convívios com as candidatas, para depois expor com rapidez e pouca explicação circunstâncias que mereciam maior atenção, como ataques dos rebeldes ou encontros furtivos que podem ser fulcrais para o futuro de todos. Além disso, achei que a reviravolta que aconteceu quanto à relação das últimas candidatas foi demasiado forçada e pouco consistente, o que provocou cenas sem sentido e que pareciam sair de uma mente adolescente.

O final não me agradou nem um pouco. Já não vou falar sobre o facto de ter acontecido algo que foi previsível desde o primeiro livros, pois aquilo que realmente me aborreceu foi tudo ter terminado sem uma solução concreta para o problema social existente. Uma personagem diz meia dúzia de palavras e parece que fica tudo bem, o que faz tudo parecer vazio. E além disso, a conclusão faz com que algo pelo qual America supostamente se debateu perca toda a relevância e força. Tal só reforça a minha ideia de que esta saga é apresentada como distópica porque tal género é, hoje em dia, uma tendência, pois o tema central é muito semelhante ao conto da Cinderela (sem madrastas e fadas madrinhas, mas a base está lá).

Queria muito ter gostado desta conclusão. Queria mesmo. Não é que a ideia da seleção me tenha desagradado, mas gostaria de ter visto mais sobre cada uma das classes sociais do que apenas meras menções, queria que os rebeldes fossem uma ameaça muito mais temível e presente, queria este mundo fosse melhor estruturado com referências ao passado que é nosso presente, com inovações impressionantes apesar do teor mais clássico, queria que as personagens vissem além de um casamento... mas nada disto aconteceu.

Ao pensar no que aconteceu nos três livros, acredito que Kiera Cass poderia ter escrito esta história em apenas um volume e concentrar-se apenas na ideia do romance, já que não conseguiu desenvolver as outras componentes. Penso que, dessa forma, muitos momentos pouco relevantes teriam sido eliminados e, talvez, a história de amor poderia soar mais a conto de fadas. Não é que estes três livros sejam maus, porque acabam por entreter, mas também não são fortes. Esta saga irá continuar por mais duas volumes, sendo que desta vez o protagonismo é entregue a uma nova figura. Espero que não aconteça a repetição de toda esta história que até aqui foi contada.

Outras opiniões a livros de Kiera Cass:
A Seleção (A Seleção #1)
A Elite (A Seleção #2)

sábado, 7 de novembro de 2015

Opinião: A Elite (A Seleção #2)

Título Original: The Elite (2013)
Autor: Kiera Cass
Tradução: Alexandra Cardoso
ISBN: 9789897541445
Editora: Marcador (2015)

Sinopse:

A Seleção iniciou-se com 35 raparigas. Agora, com ogrupo reduzido a 6, a Elite, a competição para conquistar o amor do Príncipe Maxon é mais feroz do que nunca. Quanto mais perto America se encontra da coroa, mais se debate para perceber onde está verdadeiramente o seu coração. Cada momento que passa com Maxon é como um conto de fadas, instantes cheios de romantismo avassalador e muito glamour. Mas sempre que vê Aspen, o seu primeiro amor, é assaltada pelo desejo da vida que tinha planeado partilhar com ele.America anseia por mais tempo. Mas enquanto se sente dividida entre dois futuros, o resto da Elite sabe exatamente o que quer e a oportunidade de America para escolher está prestes a desaparecer.

Opinião:

A Elite é o segundo livro da saga "A Seleção". Depois de ter gostado de ler o primeiro livro desta trama criada por Kiera Cass, estava curiosa para saber como esta história se iria desenrolar. Afinal, acreditei que o A Seleção era um volume introdutório e que o peso do mundo distópico e as personagens só seriam agora verdadeiramente exploradas. Ansiava, por isso, deparar-me com um universo mais rico e complexo, já que acreditava que as ideias apresentadas anteriormente tinham potencial para tal.  Deixem já que vos diga que fiquei desiludida.

O mundo distópico voltou a ter um peso mínimo em toda a narrativa. Sabemos que estamos perante uma sociedade estratificada, a situação política é abordada de forma muito ténue, apesar de sempre presente, e os grupos rebeldes voltam a surgir apenas quando convém e não são devidamente apresentados. Quer isto dizer que praticamente todo o livro aborda um dilema de America: qual dos dois rapazes escolher.

Os triângulos amorosos são clichés, mas por vezes até resultam bem. Quando bem explicados, explorados, quando as personalidades das personagens justificam tal e quando servem como mais um elementos de uma história maior, até que não me importo de ler sobre tal assunto, mas ter um livro inteiro é algo que não me agrada. Além disso, é frustrante pensar que a autora podia ter seguido por um rumo mais dinâmico, surpreendente e diferenciados e optar por algo tão básico.

Como tal, se no primeiro volume eu até tinha gostado de America, agora já a vejo com outros olhos. A rapariga que parecia não querer saber da opinião dos outros sobre si e preocupar-se mais com os desafortunados do que consigo mesma sugere agora ser uma menina mimada e egocêntrica. As constantes dúvidas sobre qual dos dois rapazes escolher enervaram-me e fizeram-me pensar que ela não gostava realmente de nenhum, mas sim da sensação de segurança que tal devoção lhe transmitia.

A autora quer fazer parecer que ela é uma jovem que se move pelo coração, mas eu acabei por ficar com a ideia de que ela é impulsiva, egoísta e que não tem noção das consequências dos seus atos. Afinal, uma certa atitude dela que, supostamente, deveria parecer muito corajosa fez-me sentir vergonha alheia pelo rídiculo da situação. Além disso, e tendo em conta que ela está tão indecisa entre Maxon e Aspen, não achei de bom tom algumas das cenas de ciúmes que fez.

Achei que Maxon ganhou uma nova dimensão neste volume e revelou ser um rapaz mais real. Afinal, em A Seleção ele parecia demasiado devoto de America, apesar de mal a conhecer e de ser um príncipe que tem uma série de raparigas desejosas de o conquistar. Agora sim, ele já parece o jovem que parece intrigado por uma rapariga mas que não fecha os olhos às outras. Ele também tem dúvidas, também erra, também se deixa levar pelos desejos mas, no fundo, tem bom coração e nunca se esquece a responsabilidade que ganhou com o seu nascimento.

Já Aspen parece uma figura um pouco mais perdida. Ele parece estar lá só porque era necessário mais um elemento para este triângulo. Em certo ponto, nem parece que America mantenha nele um interesse tão sério quanto quer fazer parecer. É um elemento que só está lá para gerar discórdia, mas não é suficientemente forte para fazer acreditar que é uma hipótese concreta. Afinal, desde o primeiro volume que tenho a ideia que America vai ficar com o príncipe, ou esta saga não seria tão fortemente inspirada nos contos de fada (atenção: não sei o que vai acontecer, este é apenas o meu palpite!).

Se até gostei de A Seleção, já A Elite revelou-se uma desilusão. Preferia que Kiera Cass tivesse passado menos tempo a falar de um triângulo amoroso, em vestidos ou em festas para se concentrar na sociedade distópica, com destaque para os rebeldes e para o perigo que eles representam. Tendo em conta que não fez tal em dois livros, duvido que o próximo não passe pelas mesmas falhas. Ainda assim, tenciono ler A Escolha, o volume que encerra esta parte da história deste universo e que tem America como protagonista.

Outras opiniões a livros de Kiera Cass:
A Seleção (A Seleção #1)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Opinião: Trono de Vidro (Trono de Vidro #1)

Título Original: Throne of Glass (2012)
Autor: Sarah J. Mass
Tradução: Liliana Lavado
ISBN: 9789897541773
Editora: Marcador (2015)

Sinopse:

Numa terra em que a magia foi banida e em que o rei governa com mão de ferro, uma assassina é chamada ao castelo. Ela vai, não para matar o rei, mas para conquistara sua própria liberdade. Se derrotar os vinte e três oponentes em competição, será libertada da prisão para servir a Coroa com o estatuto de campeão do rei –o assassino do rei. O seu nome é Celaena Sardothien.O príncipe herdeiro vai provocá-la. O capitão da Guarda vai protegê-la. Mas um halo maléfico vagueia no castelo de vidro – e está lá para matar. Quando os seus concorrentes começam a morrer um a um, a luta de Celaena pela liberdade torna-se numa luta pela sobrevivência e numa jornada inesperada para expor um malantes de que este destrua o seu mundo.

Opinião:

Este era um livro que suscitava a minha curiosidade há muito. A sinopse ganhou o meu interesse de forma imediata e as boas críticas que surgiam em sites internacionais aumentaram a minha expetativa. Como tal, adquiri a versão portuguesa assim que ela surgiu no mercado e, claro, comecei a ler assim que a oportunidade surgiu.

Confesso que o início da leitura foi um pouco lento. Penso que tal aconteceu pela minha vontade de compreender bem este mundo e as suas personagens, mas tudo parecer começar numa fase intermédia. Afinal, Celaena, a protagonista, é alguém com um passado lendário e que está a pagar por ele, o que me fez ter a sensação de que havia muito que não compreendia. Percebe-se que existe muito por compreender, não apenas no que toca a intriga, polícia e sociedade, mas também na vertente mais mística. Contudo, assim que me senti confortável neste universo, a leitura começou a fluir até ao ponto de ser difícil parar, tal era a necessidade de saber mais e mais.

Gostei muito que a autora não desvendasse as personagens imediatamente. Como tal, é com o desenrolar da ação que se vai percebendo quem são estas pessoas, quais são os seus valores, motivações, sonhos e características. Além disso, os vislumbres que começam a surgir sobre o passado de algumas figuras aumenta o interesse e faz desejar saber mais. Por exemplo, adorava conhecer melhor a infância da protagonista, o seu treino e de que forma se tornou uma assassina tão temida.

 Claro que fiquei rendida a Celaena. Era impossível não ficar! Ela não é nada do que estivesse à espera, não é a assassina dura e sem coração. Apesar da atividade que lhe deu a fama, percebe-se que ela é, na verdade, uma jovem que anseia por paz e liberdade para si, mas também para os outros que sofrem com injustiças. É engraçado ver o choque que há entre os dois lados desta figura, uma vez que no campo de combate é implacável, mas que em momentos de lazer revela um grande sentido de humor, compaixão e interesses intelectuais. E até a sua arrogância nos faz rir! Além disso, tem ainda um toque de menina sonhadora.

As personagens que inicialmente surgem mais próximas de Celeana são o príncipe herdeiro, Dorian, e o capitão da Guarda, Chaol. São eles que a vão buscar às minas de sal onde ela deveria trabalhar até morrer e a levam para o torneio do campeão do rei. Inicialmente, o príncipe parece um jovem mimado, interesseiro e pomposo que quer provocar o pai. Já o capitão sugere ser rude, rígido e dado a poucas confianças. E que bom foi ver as suas verdadeiras personalidades a virem ao de cima e mostrarem ser tão opostas a todas estas ideias! O primeiro, afinal, procura mostrar a sua revolta contra ações que desaprova por não terem em consideração a vida humana. O segundo é um amigo fiel que procura agir consoante um código de valores nobres. E os dois são homens de paixões intensas! Apesar de gostar de ambos, confesso senti um carinho especial por Chaol.

O desenrolar da ação conta com o torneio, onde as provas não pareceram tão duras como ao início imaginei, e com a vida no castelo. Gostei de como estas duas vertentes foram interligadas, mas houve momentos onde senti que o torneio era colocado um pouco de lado. A componente romântica também começou a ganhar maior destaque, e, apesar de ser entusiasmante, também teve alguns exageros. A autora bem tentou fazer com que o leitor pensasse numa direção diferente para o poder surpreender no fim, mas as pistas eram tantas que não foi difícil desvendar o grande mistério.

O lado místico da trama não surgiu logo. É verdade que são mencionadas algumas lendas nas primeiras páginas, mas apenas isso. Só mais lá para a frente é que se começa a perceber onde está a magia e, no final, esta componente ganha uma grande dimensão. Mas não é revelada na sua plenitude! Fica-se a perceber que a autora criou um mitologia complexa, com uma forte oposição entre bem e mal e com muito para explorar.

Trono de Vidro é um livro muito emocionante e que termina de forma satisfatória e coerente. Apesar de este ser o primeiro volume de uma saga onde estão previstos mais cinco livros, além de algumas prequelas, sente-se que esta fase da trama terminou. É verdade que esperaca que a intriga política e da corte fosse maior, mas a verdade é que gostei muito desta leitura. Agora, só espero que os próximos livros sejam publicados com rapidez, pois quero muito voltar a acompanhar as aventuras de Celeana!

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Opinião: A Seleção (A Seleção #1)

Título Original: The Selection (2012)
Autor: Kiera Cass
Tradução: Alexandra Cardoso
ISBN: 9789897541230
Editora: Marcador (2014)

Sinopse: 

Para trinta e cinco raparigas, A Seleção é a oportunidade de uma vida. É a possibilidade de escaparem de um destino que lhes está traçado desde o nascimento, de se perderem num mundo de vestidos cintilantes e joias de valor inestimável e de viverem num palácio e competirem pelo coração do belo Príncipe Maxon.

No entanto, para America Singer, ser selecionada é um pesadelo. Terá de virar as costas ao seu amor secreto por Aspen, que pertence a uma casta abaixo da sua, deixar a sua família para entrar numa competição feroz por uma coroa que não deseja, e viver num palácio constantemente ameaçado pelos ataques violentos dos rebeldes. Mas é então que America conhece o Príncipe Maxon. Pouco a pouco, começa a questionar todos os planos que definiu para si mesma e percebe que a vida com que sempre sonhou pode não ter comparação com o futuro que nunca imaginou.

Opinião:

Já há muito que andava curiosa com este livro. A Seleção chamou-me a atenção antes de chegar ao mercado nacional pela Marcador, muito devido à capa apelativa (eu sei que não se julga um livro pela capa, mas há coisas que são mais fortes do que nós. Vestidos de princesa aliados a um conceito distópico é algo que me afecta!) como pela reação de leitores além-fronteiras. Quando soube que o livro iria ser publicado em Portugal tive que o ler para perceber se toda a euforia a que assistia tinha fundamento.

Terminada a leitura, posso dizer-vos que este foi um livro que gostei muito de ler. Contudo, não posso dizer-vos que se trata de um livro perfeito e que puxa por nós. Não o é. A Seleção apela aos nossos sonhos de criança, já que surge quase como um conto de fadas. Penso que é uma leitura direcionada para o público feminino, já que muito do que é retratado tem muito a ver com um processo de autodescoberta feminina, sentimentos contraditórios relativamente a dois rapazes e ainda com a relação de amizade ou inimizade com outras raparigas. E como se tal não bastasse, grande parte da narrativa acontece num palácio luxuoso onde não faltam vestidos que só de imaginar queremos usar e eventos que, por alguma razão inconsciente, são deliciosos.

America Singer é a protagonista deste livro (confesso que me custou a habituar ao nome dela). Ela é uma rapariga de um escalão da sociedade mediano. Com a sua família, luta para levar uma vida digna e, felizmente, juntos conseguem ultrapassar grandes dificuldades. Ao conhecer a America do início do livro, ficamos logo com a ideia de que ela é uma rapariga que sabe o que quer e que não se importa com o que os outros pensam sobre isso. Também é possível reparar que ela não se deixa entusiasmar pelo que é supérfluo, uma vez que coloca o seu coração sempre em primeiro lugar.

Gostei desta protagonista. Ao início poderá parecer um pouco igual a tantas outras, mas com o desenvolvimento da narrativa percebemos que ela se destaca. Os momentos em que ela "bate o pé", toma atitudes diferentes daquelas que seriam esperadas ou diz o que realmente pensa sem se importar com as consequências fazem com ela nos consiga cativar. Mas para mim, o momento em que America realmente me impressionou foi mesmo no final, graças a uma atitude que tomou.

Aspen e Maxon formam com America um triângulo amoroso. O primeiro é o primeiro amor da protagonista e eu confesso que não senti qualquer ligação com ele. Parece-me uma personagem demasiado básica e pouco profunda. Com o avançar da narrativa surgem explicações para certos comportamentos que não foram bem aceites da minha parte por serem demasiado simplistas. Já Maxon é mais apelativo. Gostei do facto de ele ser alguém diferente do que seria esperado, da sua ingenuidade quanto à realidade fora do palácio, da sua vontade de fazer a diferença na vida dos mais desfavorecidos e também do facto de ele olhar para a Seleção com receio e um dever.

O desenvolvimento da narrativa é previsível. Desde o início que sabemos o que é mais provável acontecer, portanto esta não é uma história que nos traga grandes surpresas. Contudo, não é uma leitura aborrecida. Temia que ficasse cansada do triângulo amoroso, mas felizmente tal também não aconteceu. Claro que não concordei com todas as escolhas de America, e achei mesmo que alguns acontecimentos foram demasiado convenientes (se não praticamente todos).

A componente distópica acaba por ficar em segundo plano e penso que tal acontece devido ao facto de o mundo não estar bem apresentado ou sequer construído. A divisão social não é imediatamente apreendida e só com o avançar da leitura se vai percebendo como a população está organizada. Os perigos são apresentados de uma forma bastante ténue, ficando a dúvida sobre quem é realmente o inimigo e quais são as suas motivações. A mistura entre sociedade monárquica típica de contos de fadas com a tecnologia do futuro não está bem interligada. A crítica social parece incidir sobre o papel submisso das mulheres nas sociedades patriarcais e a manipulação que é feita através dos órgãos de comunicação cada vez mais adeptos dos reality shows.

Li A Seleção em pouco menos de dois dias. Apesar de ser um livro com muitas falhas, a verdade é que, mesmo assim, conseguiu-me agarrar. Gostei das personagens, da construção das relações e confesso que estou curiosa quanto ao destino que lhes está guardado. Contudo, também achei que a autora poderia ter apresentado esta trama de uma forma mais pensada e focada noutros aspectos que não os vestidos que todas as candidatas usam, por exemplo. Espero sinceramente que o próximo volume  apresente desenvolvimentos mais apelativos e que continue a apresentar um desenvolvimento agradável da protagonista.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Opinião: Encontro em Itália

Autor: Liliana Lavado
ISBN: 9789897540950
Editora: Marcador (2014)

Sinopse.

"Encontro em Itália" revela a história de dois amigos de infância. Henrique e Sara que pouco têm em comum, para além de uma paixão por livros e uma amizade que ambos já deram como perdida. Após vários anos afastados, ele é agora um estudante finalista de Literatura Inglesa que olha com receio os dias fora das paredes seguras da Universidade e ela uma aspirante a escritora que se esvanece no tumulto de um grupo amigos problemáticos. Durante uma viagem a Itália, que tem tudo para ser perfeita, vão encontrar um livro misterioso, um gato com um estranho sentido de humor e uma inesperada aventura que os volta a juntar no mesmo caminho. Henrique e Sara podem ter encontrado um no outro o pretexto que tanto procuravam para adiar decisões e contornar o futuro.

Opinião:

Comecei a ler Encontro em Itália com expectativas. Até então só tinha lido um livro de Liliana Lavado, Inverno de Sombras, e este deu-me a sensação de estar perante uma autora original e com o dom de contar histórias. Este novo livro corresponde a esse sentimento. A autora voltou a agarrar-me às páginas de um livro.

Em primeiro lugar, quero salientar o facto do título e capa poderem sugerir um outro tipo de trama. A primeira vez que peguei no livro tive a sensação de que ia estar perante um romance passado em Itália, mas não é bem assim. Existe romance e também existe uma breve passagem por Itália, mas aquilo que considero mais forte é a componente fantástica e as relações estabelecidas entre as diferentes personagens.

Henrique e Sara são as personagens principais. Achei curioso o facto de a autora querer mostrar que numa relação antiga existem coisas que mudam mas outras que permanecem, Assim sendo, as vidas que estas duas figuras tomaram levou-as a viver experiências diferentes e que se reflectem naquilo que tentam transmitir aos outros. Contudo, a essência permanece. Gostei do contraste que existe entre eles, mas confesso que Sara nem sempre me agradou. Dá para perceber que esconde algo, e quando isso é revelado não o considerei justificação para as suas acções. Já Henrique pareceu-me mais consistente e real.

As personagens secundárias têm uma presença muito forte nesta narrativa e tal deve-se às personalidades de que foram dotadas. O grupo de amigos de Sara é bastante curioso por ter tantas imperfeições, mas existiram momentos em que me pareceu um pouco confuso. Digo isto por causa das muitas intrigas que existem neste meio. Os pais de Sara foram credíveis e pareceram-me bastante humanos, sendo que as suas atitudes correspondem às circunstâncias. O amigo de Henrique é divertido e a transformação por que passa é interessante. A irmã de Sara representa as pessoas demasiado influenciáveis e, apesar de não me ter agradado, percebi o seu papel.

A trama em si tem muitas ideias interessantes, mas no final fiquei com a ideia de que elas nem sempre jogaram bem umas com as outras. Digo isto porque tive a noção de estar perante duas histórias diferentes, sendo que o que as separa é uma revelação. Antes da revelação, pensava estar perante um romance sobrenatural que me estava a divertir, mas depois disso entendi que afinal o tema principal era outro, e tudo mudou. A trama passou a ser mais pesada, quebrando com o que tinha sido apresentado nas páginas anteriores. Gostaria que a ligação entre as duas partes estivesse mais fluída, quer seja pelos elementos quer pelo tom.

Contudo, a verdade é que não consegui largar o livro até chegar à última página. Existe sempre algo a acontecer, existe sempre a sensação de que há mais a descobrir e queria, mais do que tudo, saber o destino das personagens. Não fiquei feliz com o final. Não é que eu seja fã de conclusões cor-de-rosa e previsíveis, mas é que achei ficou demasiado afastado do teor que o a história sugeria, para além de que não deixou qualquer noção de esperança, algo que para mim é importante.

Encontro em Itália proporcionou-me uma leitura agradável e diferente do habitual. Apesar de possuir pontos mais fracos, fez-me pensar sobre o que une as pessoas, sobre amor, sobre mudanças e sobre prioridades. Liliana Lavado é uma autora original e criativa e por isso vou continuar atenta ao seu trabalho.

Outras opiniões a livros de Liliana Lavado:
Inverno de Sombras

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

"Inverno de Sombras", de Liliana Lavado, vai ser publicado em Portugal

Liliana Lavado, ou L. C. Lavado, vai ter, finalmente, o seu primeiro livro publicado em Portugal.

A autora já entrevistada pelo blog (ver aqui) foi incansável no processo de divulgação do seu trabalho, pautado pela forte ligação à cultura portuguesa, apesar de a autora residir na Suíça. Mas os seus esforços foram recompensados e  Inverno de Sombras (ver opinião aqui), livro do qual tive o prazer de ser beta-reader, está a poucos meses de chegar ao mercado nacional em versão paperbak através da editora Marcador.

A publicação está prevista para Abril e a autora já fala na possibilidade de estar presente na Feira do Livro de Lisboa.

O blog Uma Biblioteca em Construção dá os parabéns a Liliana, uma jovem promissora na literatura nacional. Ficam aqui os desejos de sucesso e a chamada de atenção a todos os leitores para esta autora. Fiquem atentos!