terça-feira, 28 de maio de 2019

Opinião: Acredita em Mim

Título Original: Believe Me (2018)
Autor: JP Delaney
Tradução: Ester Cortegano
ISBN: 9789896657901
Editora: Suma de Letras (2019)

Sinopse:

Claire Wright gosta de se pôr na pele de outras pessoas. Mas quem é o isco… e quem é a presa? Claire é uma inglesa estudante de teatro em Nova Iorque. Sem o green card, não tem outra saída senão aceitar o único emprego que consegue: trabalhar para uma firma de advogados especializados em casos de divórcio.

A sua missão é fingir que é uma rapariga fácil, em bares de hotel, para desmascarar maridos infiéis. Quando um dos seus alvos se transforma no objecto de uma investigação por assassinato, a Polícia pede a Claire que use todas as suas habilidades para ajudar a atrair o suspeito para uma confissão.

Opinião:

Este é o segundo livro que li de JP Delaney. Já tinha ficado impressionada com A Rapariga de Antes, por isso as expectativas para este Acredita em Mim estavam altas. Começar a ler um livro já há espera de uma grande história pode ser frustrante, pois estamos mais sensíveis para as fraquezas da trama. Felizmente, as minhas expectativas foram superadas e posso desde já dizer que fiquei mais cativada a esta história do que a primeira que li do autor. Acredita em Mim tem dois pontos muito fortes: as personagens bem construídas e o enredo complexo.

O leitor pode não simpatizar com a protagonista nem aceitar bem as suas escolhas, mas uma coisa é certa: Claire não deixa ninguém indiferente. Vamos descobrindo as várias camadas de personalidade desta figura ao longo da trama. É ainda impressionante que, com o decorrer da história, apareçam muitas dúvidas quanto ao que é real sobre Claire e ao que é pura criação da sua mente. Afinal, ela é apresentada como uma atriz que se entrega por completo aos papéis que representa, muitas vezes tendo dificuldade em distinguir a linha que separa a sua pessoa daquela que está a representar. Perceber quem é a verdadeira Claire é um exercício curioso.

Logo ao início entendemos que Claire é alguém que faz tudo para atingir os seus objetivos, alguém que é carente de afetos e precisa de reconhecimento e atenção. Estes seus traços de personalidade levam-na a uma situação em que tem de ajudar a polícia. A sua missão é tentar perceber se o suspeito de um crime é ou não o responsável pela morte da mulher. Esta premissa parece algo simples, mas com o passar das páginas torna-se cada vez mais intrigante e complexa. É que chagamos a um ponto em que já nem nós sabemos o que é missão e o que é real.

A trama é sempre acompanhada do ponto de vista de Claire e pode ser dividida em vários momentos distintos. Em cada um deles, vemos um novo traço da personalidade desta protagonista e somos levados a pensar sobre quem ela realmente é, quem foi na verdade o autor do crime, para onde tudo se está a encaminhar. Existem diversas reviravoltas inesperadas, e confesso que não estava à espera da conclusão desta obra. Ainda assim, fiquei muito satisfeita com a forma como tudo culminou. Faz sentido.

Existem detalhes maravilhosos nas escrita. Sendo Claire uma atriz apaixonada e dedicada, são vários os episódios que ela relata através do esquema de um guião. Esta incorporação ao longo da história contribui para um ritmo rápido da leitura e aumenta no leitor a ideia da dedicação da protagonista à representação. Uma ideia bem pensada e conseguida com sucesso. A inclusão de temas de Charles Baudelaire também acentua a parte artística e ajuda na construção do criminoso e da sua mente.

Acredita em Mim é um livro que agarra desde a primeira página. A história está muito bem conseguida e as personagens apresentadas fazem-nos acreditar que as pessoas não são aquilo que aparentam e que realmente não se deve confiar totalmente em ninguém. Uma conclusão irónica, tendo em conta o título. Uma leitura imperdível para todos os que gostam de um bom thriller psicológico e de uma história que está sempre a surpreender.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Simon Scarrow e Naomi Novik na Comic Con Portugal




Simon Scarrow e Naomi Novik são as novas confirmações de Literatura, para a próxima edição da Comic Con Portugal, marcando presença no evento de 12 a 15 de setembro.

Simon Scarrow, o aclamado autor da Saga da Águia publicada pela Saída de Emergência,  que fala sobre as legiões do Império Romano durante o período das invasões da Bretanha, estará presente na Comic Con para conversar com os fãs e sessões de autógrafos. Durante a Edição deste ano, será também apresentado o seu novo livro, O Sangue de Roma, o 17.º desta saga de grande sucesso.

A autora nova-iorquina Naomi Novik, nomeada para o prémio Hugo e que recebeu os prémios John W. Campbell e Locus, ambos para Melhor Novo Autor, e o Compton Crook Award para Melhor Romance de Estreia, todos pela obra Coração Negro, que também irá apresentar no evento, estará presente no evento Comic Con Portugal, para conversar com os fãs e para sessões de autógrafos.

Estes dois nomes vêm juntar-se aos já confirmados Ivan Reis, Ed Brubaker, Luís Louro, Manuel Morgado, Susa Monteiro, Kass Morgan e Joe Prado, dentro dos temas de Literatura e de Banda Desenhada, do evento Comic Con Portugal.  

domingo, 28 de abril de 2019

Opinião: Uma Gaiola de Ouro

Título Original: En bur av guld (2019)
Autor: Camilla Läckberg  
Tradução: Elin Baginha
ISBN: 9789896657420
Editora: Suma de Letras (2019)

Sinopse:

Aparentemente, Faye parece ter tudo. Um marido perfeito, uma filha que muito ama e um apartamento de luxo na melhor zona de Estocolmo. No entanto, algumas memórias sombrias da sua infância em Fjällbacka assombram-na e ela sente-se cada vez mais como se estivesse presa numa gaiola de ouro. Antes de desistir de tudo pelo marido, Jack, era uma mulher forte e ambiciosa. Quando ele a engana, o mundo de Faye desmorona-se e ela tudo perde, ficando completamente devastada. É então que decide retaliar e levar a cabo uma cruel vingança…

"Uma Gaiola de Ouro" é um romance destemido sobre uma mulher que foi usada e traída, até tomar conta do próprio destino. Uma história dramática sobre fraude, redenção e vingança.

Opinião:

Este foi um dos livros mais cativantes e envolventes que li nos últimos tempos.  Uma Gaiola de Ouro é um thriller psicológico que, mais do que contar uma boa história, parece procurar chamar a atenção para as fragilidades e forças femininas. É um grito feminista. Através da história de Faye, Camilla Läckberg deixa o leitor agarrado a este livro até à última página. É difícil parar de ler.

Desde a primeira página que me senti cativada com esta leitura. As páginas iniciais dão-nos uma visão terrível do futuro, sendo que logo a seguir começamos a narrativa no tempo da história. É aí que conhecemos a protagonista. Faye é uma mulher da classe alta que é completamente devota à família, mais concretamente ao marido, mas que se anula perante as suas fragilidades. Os seus pensamentos e ações são sempre voltados para o que poderá agradar Jack, o homem com quem se casou. Em contraste, o leitor percebe que o marido é negligente e que já perdeu o interesse em Faye. Logo aqui surge uma forte empatia por esta mulher que deseja ser amada e valoriza.

Mas Faye não se resume às suas inseguranças e à abnegação. Ao longo da leitura, percebemos que se trata de uma mulher de grande inteligência, mas que se colocou sempre em segundo plano em detrimento dos outros. Anos de cedências e de pressão psicológica acabaram por a quebrar e toldar o próprio discernimento, levando-a a um ponto de pura fragilidade. Aquilo que o leitor já adivinhava acontece e é aí que assistimos à queda e reerguer de Faye. Ela renasce das próprias cinzas com um objetivo em mente: vingança. É aqui que entramos na segunda parte desta obra.

Ao longo da narrativa, a autora vai-nos apresentando a outras figuras femininas que representam mulheres que também tiveram que lutar pela sua identidade, voz e felicidade. Estas personagens reforçam muitas das ideias gerais da obra e fazem o leitor pensar na coragem necessária para se lutar por uma vida mais plena. Destaco Chris, cuja irreverência e independência não impedem um lado mais romântico e sonhadora, e Kerstin, que é dona de uma vida de sofrimento e angústia mas que conseguiu encontrar o seu caminho.

O enredo está construído de forma a ser difícil parar de ler. A história em si é interessante e tem uma série de reviravoltas que estimulam a leitura. Quero ainda salientar o facto de a autora levar o leitor a ter sempre dúvidas quanto ao verdadeiro fundo da protagonista. Afinal, Faye tem um passado obscuro, o que nos deixa sempre a pensar sobre até que ponto ela é capaz de ir para atingir os seus objetivos. No final, temos a certeza que ela é uma mulher de quem não gostaríamos de ser inimigos.

Uma Gaiola de Ouro é o thriller do momento. Com uma história forte e personagens que nos parecem reais, faz o leitor ficar agarrado a cada página na expectativa de saber o que vem a seguir. Faye não será facilmente esquecida, disso vos garanto. Um livro que recomendo.


 

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Estes são os vencedores do Prémio Livro do Ano Bertrand

Foi revelado o resultado da votação da 3ª edição do Prémio Livro do Ano Bertrand. Em quatro categorias, foram distinguidas as obras que marcaram o último ano editorial, segundo leitores e livreiros.



Melhor Livro de Ficção de Autores Estrangeiros
1.º lugar - O Tatuador de Auschwitz, de Heather Morris, da Presença. - Livro mais votado pelos leitores e livreiros.
2.º lugar - A Morte do Comendador I, de Haruki Murakami, da Casa das Letras.
3.º lugar - Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco, de Richard Zimler, da Porto Editora.

Melhor Livro de Ficção Lusófona
1. lugar - A Amante do Governador, de José Rodrigues dos Santos, da Gradiva. - Livro mais votado pelos leitores.
2.º lugar - D. Maria I, de Isabel Stilwell, da Manuscrito.
3.º lugar - Princípio de Karenina, de Afonso Cruz, da Companhia das Letras. - Livro mais votado pelos livreiros.

Melhor Livro de Poesia
1.º lugar - Nómada, de João Luís Barreto Guimarães, da Quetzal. - Livro mais votado pelos leitores e livreiros.
2.º lugar - Obra Poética Obra Poética I, de António Ramos Rosa, da Assírio & Alvim,
3.º lugar - Agon, de Luís Quintais, da Assírio & Alvim.

 Melhor Reedição de Obras Essenciais
1.º lugar - A Leste do Paraíso, de John Steinbeck, da Livros do Brasil. - Livro mais votado pelos leitores.
2.º lugar - Dona Flor e os Seus Dois Maridos, de Jorge Amado, da Dom Quixote.
3.º lugar - Odisseia de Homero, de Homero, da Quetzal.
* Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (4.o lugar) foi o livro mais votado pelos livreiros.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Opinião: Sangue & Fogo (A História dos Reis Targaryen # 1 - partes 1 e 2)

Título Original: Fire and Blood (2018)
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
ISBN: 9789897731365 e 9789897731464
Editora: Edições Saída de Emergência (2018 e 2019)

Sinopse:

Séculos antes dos acontecimentos de A Guerra dos Tronos, a Casa Targaryen – a única família de senhores dos dragões a sobreviver à Perdição de Valíria – fez de Pedra do Dragão a sua residência. Sangue e Fogo inicia a sua narração com a história do lendário Aegon, o Conquistador, criador do Trono de Ferro, e prossegue com o relato das gerações de Targaryen que lutaram para manter o icónico trono, até à guerra civil que praticamente destruiu esta dinastia.

Porque foi a Dança dos Dragões tão devastadora para os Sete Reinos? Quem é o legítimo herdeiro do Dragão? E que papel desempenhou a Casa Stark nesta luta de poder? Estas são algumas das questões a este livro dá resposta pela mão de um reconhecido meistre da Cidadela.

Opinião:

George R. R. Martin decidiu revisitar a história de uma das famílias mais intrigantes de "As Crónicas de Gelo e Fogo": os Targaryen. Enquanto os fãs aguardam (im)pacientemente pela continuação da saga de sucesso, o ator apresenta "A História dos Reis Targaryen", uma obra que apresenta todos os monarcar que subiram ao Trono de Ferro desde Aegon, o Conquistador, primeiro desta dinastia.

Tal ideia pode fazer parecer que Sangue & Fogo poderá resultar numa obra monótoma, aborrecida e com pouco a acrescentar a este universo. Quem pensa assim não poderia estar mais enganado. É que o resultado é o oposto desta ideia preconcebida. George R. R. Martin volta a provar que é um verdadeiro mestre. O autor não só apresenta um mundo complexo, como ainda nos deixa cativados com as personagens e intrigas que as envolvem.

É muito interessante atribuir uma personalidade vincada a cada um dos nomes de que já tínhamos ouvido falar. Agora, estas figuras surgem à nossa frente, são dotadas de características distintas, fazem-nos acreditar que realmente poderiam ter existido. Este continua a ser um dos pontos fortes do autor: construir personagens bem humanas, com as suas qualidades, defeitos e peculariedades. Desta forma, é fácil distinguir cada personagem e perceber de que forma influenciaram o tempo em que viveram e como modificaram os Sete Reinos.

Ao fazer esta leitura, fiquei com a sensação de que estava a ler um livro de História, de um ponto de vista mais íntimo. Isto porque a forma como os factos são apresentados estão tão bem fundamentados que quase fazem acreditar que tudo aquilo poderia ter acontecido. Isto é fantástico, uma vez que estamos a falar de um mundo imaginário no qual existem dragões. Pode-se dizer que esta sensação resulta de uma narrativa credível, fortemente inspirada na realidade, sem receios de chocar ou de mostrar o pior e melhor da humanidade.

Ao observar diferentes reinados, é impossível não comparar os reis, os trabalhos feitos e eleger os nossos favoritos. Confesso que gostei de Aegon, o Conquistador, mais pelo seu lado pioneiro e pelo papel desempenhado por cada irmã do que propriamente pela personalidade do rei. Jaehaerys I e Alysanne facilmente conquistam a simpatia dos leitores por terem sido os mais próximos do povo e das suas necessidades. Aegon III pode ter sido o que menos me agradou, talvez por nunca ter entendido bem quem ele era devido à personalidade reservada e pouco luminosa.

Fica ainda a ideia de que um bom rei poderá sempre deixar uma mancha ou algo mal resolvido que vai prejudicar o reinado do seu sucessor. Como tal, é ingrato avaliar o trabalho de cada monarca pela estabilidade conseguida, uma vez que, muitas vezes, os problemas são herdados de questões mal resolvidas de governos anteriores. Ainda assim, torna-se interessante observar a fama com que cada um fica em comparação com as verdadeiras preocupações e trabalhos feitos.

Terminado o volume 1 de Sangue & Fogo, surge a vontade de ler a segunda parte desta obra que apresenta toda a disnatia Targaryen. É uma obra muito bem conseguida e que vem acrescentar bases e profundidade às "Crónicas de Gelo e Fogo". Estou curiosa para conhecer os antepassados de Daenerys e, claro, para ler o Winds of Winter.