Mostrar mensagens com a etiqueta Edições Saída de Emergência. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Edições Saída de Emergência. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Opinião: O Destino do Assassino

Título Original: Assassin's Fate (2017)
Autor: Robin Hobb
Tradução: Jorge Candeias
ISBN: 9789897731556
Editora: Saída de Emergência (2019)

Sinopse:

Fitz Cavalaria deixou para trás a pele de assassino, mas nem assim encontrou paz. Depois do rapto de Abelha, e acreditando que ela está morta, Fitz e o Bobo partem em busca de vingança. Nenhum Servo estará a salvo. A missão revela-se surpreendente, com o reencontro com velhos amigos e a descoberta de novos aliados Fitz ainda é um homem temido, e o Bobo continua a ter segredos por desvendar.
O destino dos dois amigos ficará para sempre selado à medida que as respostas aos mistérios antigos são reveladas, num final épico, intenso e empolgante.

Opinião:

É uma sensação agridoce a despedida de uma série que acompanhamos há muitos anos e que agora chega ao fim. Claro que é fantástico perceber o destino dado a cada personagem que acarinhados ao longo deste tempo, mas ler as últimas páginas é uma tarefa feita já com saudosismo e nostalgia. Foi o que aconteceu com a saga "Assassino e o Bobo", a última sobre estas personagens de Robin Hobb.

Por muito que desejasse pegar logo neste livro quando ele foi publicado, não o fiz. Queria adiar a despedida, sentir que ainda tinha tempo para viver acompanhar Fitz e o Bobo pela última vez. Mas não consegui adiar mais e a leitura começou. Primeiro com alguma lentidão, mas passados os capítulos iniciais a velocidade já começava a aumentar, tal era a curiosidade em saber tudo o que ia acontecer.

Robin Hobb vai intercalando a perspetiva de Fitz com a de Abelha. Esta decisão fornece ao leitor uma visão mais ampla da história e proporciona um ritmo mais rápido. Nos capítulos de Fitz, sentimos o desespero por vingança e por fazer algo para recuperar a filha. É curioso perceber como a personagem evoluiu ao longo da sua vida, mas conseguiu manter a essência inalterada. Percebe-se que Fitz é um homem cansado que dá a ideia de que está a guardar forças para uma derradeira demanda. Sente-se o peso que ele carrega provocado pelo anos de provações, tristezas, arrependimentos e incertezas. Contudo, também há nele um grande amor e carinho por aqueles que sempre estiveram ao seu lado. Nos capítulos de Fitz, continuamos a assistir a um Bobo misterioso que alterna entre estados. Esta continua a ser uma personagem intrigante, que parece agir pelo desespero de corrigir erros e de cumprir algo em que acredita com toda a sua fé.

Já tinha dito em opiniões anteriores que fiquei rendida a Abelha, e agora volto a repetir: que personagem incrível! Abelha passou de menina que tenta passar despercebida e que vive num mundo próprio para uma jovem que é forte e capaz de tudo para se manter viva. Há nela um espírito guerreiro que não se adivinhava à partida, mas que torna as páginas que lhe são dedicadas hipnotizantes. Arrepiei-me com o que ela sofreu, graças a descrições diretas e sem censura da autora. Nestes capítulos, Robin Hobb mostra o que de pior podemos encontrar na humanidade e faz-nos temer o que podemos fazer uns aos outros. Ainda assim, Abelha torna-se símbolo de resistência e de espírito inquebrável.

O desenrolar da história está bem conseguido, com um encadeamento orgânico e que nos faz acreditar que tudo o que é narrado poderia mesmo ter acontecido. Adorei que os navios vivos fossem introduzidos na fase final desta saga, uma vez que fiquei muito curiosa com este conceito quando Robin Hobb esteve em Portugal e falou sobre eles no Fórum Fantástico. A presença mais forte dos dragões também gera curiosidade por toda a mística, respeito e até terror a ele associados.

O desfecho fez todo o sentido. Pode não ser aquele que mais desejei, mas é o que tem maior fundamento. As últimas páginas deste livros apresentam uma despedida que honra as personagens de Fitz e do Bobo e que honra a história de ambos. A forma como isso é encarado por todos os outros intervenientes da ação é muito bonita e emotiva. Sim, as lágrimas espreitaram, mas o sorriso nos lábios também esteve presente. Assim faz sentido.

O Destino do Assassino superou as expetativas e encerrou com chave de ouro uma história que merecia terminar assim. Despedi-me de Fitz, do Bobo e de todas as outras personagens que acompanhei nesta aventura. Despedi-me, mas acredito que não os vou esquecer. É fantástico quando personagens da ficção se tornam tão marcantes, não é? Os meus parabéns a Robin Hobb.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Opinião: Sangue & Fogo (A História dos Reis Targaryen # 1 - partes 1 e 2)

Título Original: Fire and Blood (2018)
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
ISBN: 9789897731365 e 9789897731464
Editora: Edições Saída de Emergência (2018 e 2019)

Sinopse:

Séculos antes dos acontecimentos de A Guerra dos Tronos, a Casa Targaryen – a única família de senhores dos dragões a sobreviver à Perdição de Valíria – fez de Pedra do Dragão a sua residência. Sangue e Fogo inicia a sua narração com a história do lendário Aegon, o Conquistador, criador do Trono de Ferro, e prossegue com o relato das gerações de Targaryen que lutaram para manter o icónico trono, até à guerra civil que praticamente destruiu esta dinastia.

Porque foi a Dança dos Dragões tão devastadora para os Sete Reinos? Quem é o legítimo herdeiro do Dragão? E que papel desempenhou a Casa Stark nesta luta de poder? Estas são algumas das questões a este livro dá resposta pela mão de um reconhecido meistre da Cidadela.

Opinião:

George R. R. Martin decidiu revisitar a história de uma das famílias mais intrigantes de "As Crónicas de Gelo e Fogo": os Targaryen. Enquanto os fãs aguardam (im)pacientemente pela continuação da saga de sucesso, o ator apresenta "A História dos Reis Targaryen", uma obra que apresenta todos os monarcar que subiram ao Trono de Ferro desde Aegon, o Conquistador, primeiro desta dinastia.

Tal ideia pode fazer parecer que Sangue & Fogo poderá resultar numa obra monótoma, aborrecida e com pouco a acrescentar a este universo. Quem pensa assim não poderia estar mais enganado. É que o resultado é o oposto desta ideia preconcebida. George R. R. Martin volta a provar que é um verdadeiro mestre. O autor não só apresenta um mundo complexo, como ainda nos deixa cativados com as personagens e intrigas que as envolvem.

É muito interessante atribuir uma personalidade vincada a cada um dos nomes de que já tínhamos ouvido falar. Agora, estas figuras surgem à nossa frente, são dotadas de características distintas, fazem-nos acreditar que realmente poderiam ter existido. Este continua a ser um dos pontos fortes do autor: construir personagens bem humanas, com as suas qualidades, defeitos e peculariedades. Desta forma, é fácil distinguir cada personagem e perceber de que forma influenciaram o tempo em que viveram e como modificaram os Sete Reinos.

Ao fazer esta leitura, fiquei com a sensação de que estava a ler um livro de História, de um ponto de vista mais íntimo. Isto porque a forma como os factos são apresentados estão tão bem fundamentados que quase fazem acreditar que tudo aquilo poderia ter acontecido. Isto é fantástico, uma vez que estamos a falar de um mundo imaginário no qual existem dragões. Pode-se dizer que esta sensação resulta de uma narrativa credível, fortemente inspirada na realidade, sem receios de chocar ou de mostrar o pior e melhor da humanidade.

Ao observar diferentes reinados, é impossível não comparar os reis, os trabalhos feitos e eleger os nossos favoritos. Confesso que gostei de Aegon, o Conquistador, mais pelo seu lado pioneiro e pelo papel desempenhado por cada irmã do que propriamente pela personalidade do rei. Jaehaerys I e Alysanne facilmente conquistam a simpatia dos leitores por terem sido os mais próximos do povo e das suas necessidades. Aegon III pode ter sido o que menos me agradou, talvez por nunca ter entendido bem quem ele era devido à personalidade reservada e pouco luminosa.

Fica ainda a ideia de que um bom rei poderá sempre deixar uma mancha ou algo mal resolvido que vai prejudicar o reinado do seu sucessor. Como tal, é ingrato avaliar o trabalho de cada monarca pela estabilidade conseguida, uma vez que, muitas vezes, os problemas são herdados de questões mal resolvidas de governos anteriores. Ainda assim, torna-se interessante observar a fama com que cada um fica em comparação com as verdadeiras preocupações e trabalhos feitos.

Terminado o volume 1 de Sangue & Fogo, surge a vontade de ler a segunda parte desta obra que apresenta toda a disnatia Targaryen. É uma obra muito bem conseguida e que vem acrescentar bases e profundidade às "Crónicas de Gelo e Fogo". Estou curiosa para conhecer os antepassados de Daenerys e, claro, para ler o Winds of Winter.



segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Opinião: A Jaula do Rei (#3)

Título Original: King's Cage (2017)
Autor: Victoria Aveyard
Tradução: Teresa Martins Carvalho
ISBN: 9789897731280
Editora: Saída de Emergência (2018)

Sinopse:

Mare Barrow foi capturada e está impotente sem o seu poder, vivendo atormentada pelos erros do passado. Ela está à mercê do rapaz por quem um dia se apaixonou, um jovem dissimulado que a enganou e traiu. Agora rei, Maven continua com os planos da sua mãe, fazendo de tudo para manter o controlo de Norta — e de sua prisioneira.

Enquanto Mare tenta aguentar o peso sufocante da Pedra Silenciosa, a Guarda Escarlate organiza-se, deixando de agir nas sombras e preparando-se para a guerra. Entre os guerreiros está Cal, o príncipe exilado, que no meio das dúvidas tem apenas uma certeza: ele não vai descansar enquanto não trouxer Mare de volta. Sangue vermelho e prateado correrá pelas ruas. A guerra está a chegar…

Opinião:

Terminados os acontecimentos de Espada de Vidro, a autora deixou a certeza de que o próximo volume desta série iria ser diferentes. Como tal, quando A Jaula do Rei foi publicado, foi com curiosidade que iniciei a leitura, tal era a vontade de descobrir o que ia acontecer a Mare e como isso iria afetar a Guarda Escarlate. Este terceiro livro inicia-se com rapidez e fornece logo algumas respostas.

É fácil perceber a escolha deste título. A jaula refere-se claramente ao facto de Mare passar uma boa parte deste livro aprisionada a mando de Maven. Contudo, também pode ser uma referência ao facto de este novo rei também ele estar preso aos deveres do trono, às expetativas que existem à volta dele, às ligações necessárias para a manutenção do poder. Confesso que esta segunda parte foi a minha preferida, pois permitiu que ficasse mais próxima de Maven, uma das personagens mais intrigantes desta série.

Se Mare não me conquistou no primeiro e no segundo livro, lamento dizer que o mesmo se passou neste terceiro volume. Interesso-me por ela pelas situações que a envolvem, mas não tanto pela personalidade dela. O sarcasmo e ironia característicos desta personagem não são suficientes para a construírem como uma personagem complexa e credível. É que em tudo o resto ela é demasiado série, intensa e moral, e isso não me deixa particularmente interessada. Contudo, as circunstâncias em que ela se encontra é que me fazem olhar para ela com curiosidade, não por ela mas pela vontade de descobrir o que vai acontecer a seguir.

O facto de, neste livro, Mare estar próxima do rei e da corte devido ao seu aprisionamento, permite-nos conhecer melhor este lado. Foi bom voltar a este meio e ver o que mudou desde a ascensão da Guarda Escarlate. Gostei da tensão constante, mesmo quando se tenta rebaixar os Vermelhos e aclamar a superioridade dos Prateados. A autora fez algumas reviravoltas interessantes ao longo da narrativa, fazendo-nos pensar sobre os estratagemas políticos que acontecem nos bastidores para que um objetivo seja alcançado. Também é curioso ver a diferença entre o que é real e o que é apresentado ao povo, levando-nos a pensar sobre o poder da comunicação das campanhas e como tal manipula o pensamento, mesmo quando acreditamos estar a  pensar pela nossa própria cabeça e sem influências.

Este livro pode ser dividido em duas partes, sendo que a segunda retoma o lado mais revolucionário da ação. A primeira foi a minha preferida por ser a que está mais ligada a Maven, que é, para mim, a figura mais interessante desta obra. Existiam alguns capítulos paralelos que nos levam a conhecer o que se passa do lado dos rebeldes, mas confesso que os achei desnecessários e, em certos aspectos, aborrecidos. Quando retomamos por completo o lado revolucionário, não existe, propriamente uma grande novidade. As decisões finais é que nos fazem adivinhar que vêm aí novas reviravoltas no último volume da saga, deixando adivinhar que uma figura já nossa conhecida se vai revelar surpreendente.

Este não foi o livro que mais me agradou da saga iniciada com Rainha Vermelha. Victoria Aveyard parece ter enrolado um pouco nesta parte da narrativa, sendo pouca a nova informação que surge. Além disso, a personagem principal não ajudou propriamente, mantendo-se estática no que toca a construção. Contudo, a autora mantém a curiosidade para o que está reservado para o final. Quero muito saber como tudo isto vai terminar e acredito que ainda há surpresas guardadas para o derradeiro livro.

Opiniões a outros livros de Victoria Aveyard:
Rainha Vermelha (#1)
Espada de Vidro (#2)

domingo, 16 de setembro de 2018

Opinião: Um Estranho Numa Terra Estranha - Vol. 2

Título Original: Stranger in a Strange Land (1961)
Autor: Robert A. Heinlein
Tradução: Jorge Candeias
ISBN: 9789897731143
Editora: Saída de Emergência (2018)

Sinopse:

Valentine Michael Smith encontra na Terra uma realidade muito diferente da que experienciou em Marte. As crenças e os rituais sagrados que aprendeu em Marte em nada se assemelham aos que encontra na Terra. A própria existência de Valentine torna-o alvo de uma intriga política. Neste 2.º volume de Um Estranho numa Terra Estranha, Robert A. Heinlein continua a apresentar-nos a história de Valentine e do seu processo de integração numa cultura marcada pela anarquia, partilha, amor livre e vida comunitária. Este clássico da ficção científica ainda hoje nos leva a questionar as nossas aspirações mais profundas e continua a despertar sentimentos fortes – por vezes contraditórios – nos leitores.

Opinião:

Quando escrevi a minha opinião a Um Estranho Numa Terra Estranha - volume 1 disse que estava ansiosa para ler rapidamente a segunda parte deste livro. Como tal, assim que me foi possível, peguei nele e concluí a leitura desta obra, que foi dividida nesta edição da Saída de Emergência. Felizmente esta publicação aconteceu poucos meses após o lançamento do primeiro livro, o que fez com que tivesse a história fresca na minha mente e, por isso, fosse natural entrar nesta narrativa e reencontrar as suas personagens.

Continuamos a acompanhar a adaptação de Valentine Michael Smith na Terra. Apesar de já estar mais por dentro de alguns assuntos, é ainda fascinante como este homem analisa aspectos da existência humana que todos vemos com normais e sobre os quais não procuramos grandes explicações. Desta forma, somos levados a interrogar situações que sempre tomámos como regra sem perceber o motivo para tal ser assim.

Fico fascinada pela forma como este Homem de Marte e Jubal se completam neste papel de fazer o leitor parar e refletir. É que enquanto o primeiro fornece uma visão ingénua pelo facto de realmente não ter conhecimentos base sobre o que quer que seja, o segundo é um homem que já pensou bem nas diversas vertentes do que está a ser analisado. Desta forma, Michael fornece-nos a frescura de um primeiro impacto, enquanto Jubal dá-nos uma análise que muitas vezes chega a chocar por até tocar em pontos que vão contra o que acreditamos ser correcto.

Os temas abordados nesta parte do livro são ligeiramente diferentes. Existe um grande foco na religião e no que leva à construção de uma Igreja. Não falo do edifício do templo, mas sim na comunidade de fiéis e nas regras que estes seguem para expressarem a sua fé. Achei esta direção pertinente e fiquei intrigada pelos caminhos seguidos pelo autor. Apesar de não concordar com todas as ideias expressas, acredito que este caminho faz sentido, tendo em conta o desenvolvimento de Michael.

É que o Homem de Marte passa por uma grande transformação. A evolução desta personagem desde o momento em que chega à Terra até à derradeira página deste livro está construída de forma consistente, credível e muito apelativa. É fácil acreditar que os estímulos que Michael recebeu desde que aterrou no nosso planeta o tenham levado a tornar-se naquela figura que encontramos na conclusão da obra. A forma como ele afetou quem com ele se cruzou também faz sentido, apesar de ter sentido um certo exagero na devoção quase cega de algumas personagens. Jubal, por seu lado, continuou consistente e a ser uma das minhas figuras preferidas.

A leitura requer alguma lentidão, de forma a ser possível compreender tudo o que está a ser apresentado e também para se refletir bem na forma como certos temas são tratados. Este não é um livro que deve ser apenas absorvido, mas que também tem de levar ao questionamento e fazer o leitor encontrar as suas próprias conclusões e ideias sobre os assuntos que são levantados. Ainda assim, está escrito de forma a conseguir cativar o leitor para a sua leitura, mesmo nos momentos mais parados.

Disse na minha opinião ao primeiro volume que este era um livro que queria ler há muitos anos, tendo ficado feliz por a Saída de Emergência ter apostado numa nova edição em português. Terminada a obra, percebe o motivo para ser considerada uma referência na Ficção Científica. Não se trata apenas de uma história que nos diverte, mas é sobretudo uma aventura que nos leva a colocar em causa tudo o que nos rodeia e o nosso modo de pensamento. Valeu a pena a espera.

 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Opinião: Coração Negro

Título Original: Uprooted (2015)
Autor: Naomi Novik
Tradução: Sérgio Gonçalves
ISBN: 9789897731198
Editora: Saída de Emergência (2018)

Sinopse:

Agnieszka adora a sua pacata aldeia no vale, as florestas e o rio cintilante. Mas o maléfico Bosque permanece na fronteira e a sua sombra ameaçadora paira sobre a vida da jovem.
O povo depende do feiticeiro conhecido apenas por Dragão para manter os poderes de Bosque afastados. Mas o Dragão exige um terrível preço pela sua ajuda: uma jovem deve servi-lo durante dez anos, um destino quase tão terrível como perecer a Bosque.
A próxima escolha aproxima-se e Agnieszka tem medo. Todos sabem que o Dragão irá levar a bela, graciosa e corajosa Kasia, tudo aquilo que Agnieszka não é, e a sua melhor amiga no mundo. E não há forma de a salvar. Mas Agnieszka teme as coisas erradas. Porque quando o Dragão chega, a sua escolha surpreende todos...

Opinião:

É tão bom quando encontramos livros como este. Coração Negro foi uma verdadeira surpresa! Já conhecia a autora devido à série "Temeraire", lida há alguns anos, mas ainda assim estava um pouco incerta quanto ao que ia encontrar. Todos os elementos presentes na sinopse apelaram-me, mas tinha receio de estar perante uma história que não me surpreendesse e que não conseguisse fugir de alguns clichés que atualmente vemos no literatura fantástica, género que tanto gosto. Felizmente não havia motivos para inseguranças e logo nas primeiras páginas fiquei agarrada à leitura.

O início transmite imediatamente uma aura de mistério e medo. E tudo isto é-nos apresentado pelos olhos de Agnieszka, a protagonista desta aventura. É incrível perceber como Agnieszka evolui ao longo desta narrativa. Ao início, surge como uma jovem desajeitada e que vive na sombra da melhor amiga. É fácil sentir simpatia pela sua personalidade aparentemente aluada e pela dedicação que devota aos que mais ama, mesmo que não o demonstre. Com o passar das páginas, percebemos que muitas das características desta jovem escondiam uma verdade oculta, vemos o seu sentido de responsabilidade a aumentar e assistimos ao surgir de uma coragem necessária para enfrentar grandes obstáculos e também para se expor a alguém que temia e que aprendeu a amar. Esta é uma personagem complexa e muito empática. 

As personagens secundárias também desempenham o seu papel com eficácia. Gostei muito do Dragão e dos sentimentos contraditórios que ele conseguiu gerar. Existe um misto de indignação quanto à superioridade que ele aparenta e ao tom crítico constante, mas, ao mesmo tempo, vai surgindo uma grande admiração pelo seu lado altruísta e pela forma como se protege dos seus sentimentos. Gostei de Kasia, especialmente a partir do momento em que a autora revelou que todos os sentimentos dela não eram inteiramente louváveis, pois isso fez dela humana. O príncipe e o Falcão, apesar de não gerarem a minha simpatia incialmente, conseguiram redimir-se no momento final e dar uma visão diferente sobre certos assuntos, fazendo-nos recordar que todos os lados de uma guerra acreditam estarem certos e que o mal não é praticado pelo puro mal. Contudo, é preciso salientar que o próprio Bosque, que tanto temor provoca ao longo de toda a obra, acaba por também resultar como uma personagem inesperada e que nos marca.

O Bosque apresentado nesta obra exige uma análise atenta. Não quero fazer grandes revelações sobre este elemento da trama, mas fiquei muito surpreendida com todas as vertentes que a autora criou para o explicar. Ao início, parece um centro de superstição, depois revela-nos perigos inimagináveis e que nos fazem temer sobre a fonte de tudo aquilo. Depois impressiona-nos com a sua origem e faz-nos ficar a pensar nele mesmo quando já não temos o livro nas mãos. Um aplauso à autora por esta ideia e pela sua construção no papel.

O desenrolar da trama está construído com mestria. Senti-me imediatamente presa à história na ânsia de descobrir os mistérios deste mundo. Existem muitos momentos de ação, que me impediam de parar a leitura. As descrições não eram excessivas, mas deixavam perceber bem o ambiente, as personagens e a aura mística que existe nesta terra. Os diálogos são credíveis e, felizmente, não ficaram presos a uma estética mais medieval e cheia de formalidades. Além disso, quando acreditava ter adivinhado o que vinha a seguir, a autora surpreendia com uma reviravolta que mudava tudo. Tudo ingredientes para me cativar.

Foi curioso sentir que a autora foi inspirada pela cultura do leste europeu para criar esta história. Numa pesquisa posterior, percebi que tal se deveu à ascendência polaca de Naomi Novik, que teve contacto com o folclore dessa cultura em tenra idade. Diverti-me com as referências a Baba Yaga, um ser que povou muitos contos que gostava de ler na minha infância. Além disso, todas estas inspirações e alusões podem ajudar a explicar construção de lendas entre este novo povo, assim como a organização social. Este caráter mais pessoal de certo contribuiu em muito na aproximação da autora ao leitor.

Coração Negro revelou-se um livro especial. Através de uma aventura deliciosa, a autora faz-nos pensar sobre como é difícil definir a dicotomia bem e mal. Através desta obra, somos levadas a pensar em como, numa guerra, cada parte acredita ser dona da razão, e em como as ações dos outros muitas vezes mascaram dores do passado. Além disso, Naomi Novik alerta-nos para a injustiça e perigo da discriminação do que é diferente. Temos aqui um livro com uma aventura entusiasmante, personagens carismáticas e lições que podem ser levadas para a vida.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Opinião: A Demanda do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #3)

Título Original: Fool's Quest (2015)
Autor: Robin Hobb
Tradução: Jorge Candeias
ISBN: 9789897731075
Editora: Saída de Emergência (2018)

Sinopse:

Em tempos existiu em Torre do Cervo um assassino real. Para aqueles que simpatizavam com ele era conhecido como Fitz; para os que o odiavam era o Bastardo Manhoso. Mais tarde esse homem desapareceu e surgiu um respeitável senhor rural chamado Tomé Texugo, pacato, marido e pai.
Mas agora também esse homem desapareceu, deixando no seu lugar FitzCavalaria Visionário, príncipe reconhecido da casa real, tio do rei, pai de uma criança raptada cuja existência quase todos ignoram, amigo de um velho Bobo quebrado e cego cuja saúde vai recuperando de forma dolorosamente lenta.
Entre todas estas forças que o puxam nas mais diversas direções, a quais irá ele ceder, e quem, ao certo, cederá? O pai ou o amigo? O príncipe ou o assassino?

Opinião:

Este livro segue os acontecimento que encerraram A Revelação do Bobo. Em A Demanda do Bobo, Robin Hobb foca a nossa atenção na angústia, raiva, desespero, dor e sentido de vingança de um pai cuja filha foi raptada. Sendo Fitz uma personagem tão querida, custa vê-lo nestas circunstâncias, tal é o envolvimento que a autora consegue criar entre leitor e personagens.

Mais uma vez, voltamos a ter capítulos dedicados a Fitz e alguns a Abelha. Confesso que ficava especialmente entusiasmada quando percebia que iria começar um relato de Abelha. Não que não aprecie os de Fitz, pois gosto muito, mas os desta jovem personagem têm mais ritmo, fornecem informações mais interessantes e apresentam-nos uma evolução da história mais concreta. Além disso, é nesse cenário que tudo é mais intenso e é também aí que os acontecimentos mais relevantes se dão.

Nos capítulos de Fitz existe sobretudo dúvida. O protagonista anseia por encontrar a filha, saber o que lhe aconteceu ou está a acontecer, o que acaba por ser algo frustrante para o leitor que, até certo ponto, tem todas estas informações. Contudo, é também esta dúvida e angústia que nos permitem explorar a humanidade de Fitz e de todas as outras figuras que o rodeiam. É aqui que a autora volta a provar que é mestre na criação de personagens profundas, reais e que marcam o leitor.

Gostei muito do desenvolvimento das relações que se foram estabelecendo ao longo deste volume, o que faz pensar sobre como estas são mutáveis. Personagens que pareciam já ter uma ligação estabelecida acabam por surpreender ao mostrarem que as relações podem atingir novos contornos, especialmente quando estamos em situações dramáticas. O desejo de corrigir erros antigos, de qualquer nível, acabou por ser o elemento fundamental para muitas destas figuras, dando-nos provas de que o ser humano é capaz de mudar e evoluir se assim o desejar.

Este volume tem mais ritmo do que o anterior, o que proporciona uma leitura mais rápida e até interessada. Os momentos de maior ação estão muito bem conseguidos e dão-nos provas de que ainda há muito para vir e para nos surpreender. Existem também períodos mais calmos, caracterizados pelas reflexões de Fitz ou pelos diálogos com outras personagens. Aqui, destaque para os momentos que o protagonista tem com o Bobo, Urtiga, Lante e Enigma.

A Demanda do Bobo revela-se um livro que não desilude e tem tudo para fazer as delícias de Robin Hobb. Uma leitura com muito de novo a acontecer, mas que também tem várias referências a obras passadas da autora. A prova de que a Saga Assassino e o Bobo é forte, consistente e de grande qualidade. Venha agora o próximo volume, pois este deixou-me muito curiosa e entusiasmada com o que está para chegar.


Outras opiniões a livros de Robin Hobb:
Aprendiz de Assassino (A Saga do Assassino #1)
O Assassino do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #1)
A Revelação do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #2)

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Opinião: Quem Teme a Morte

Título Original: Who Fears Death (2010)
Autor: Nnedi Okorafor
Tradução: Teresa Martins Carvalho
ISBN: 9789896655471
Editora: Saída de Emergência (2018)

Sinopse:

Num futuro distante, um holocausto nuclear devasta o continente africano e dá-se um genocídio numa das suas regiões. Os agressores, os Nuru, de pele mais clara, decidiram seguir o Grande Livro e exterminar os Okoke, de pele mais escura. Mas, depois de ser violada, a única sobrevivente de uma aldeia Okoke consegue escapar e refugiar-se no deserto. Dá à luz uma rapariga com cabelo e pele cor de areia e a mãe percebe, nesse momento, que a sua filha é diferente. Dá-lhe o nome de Onyesonwu, que significa “Quem Teme a Morte?”.

Treinada por um misterioso xamã, Onyesonwu sabe que tem um destino mágico a cumprir: pôr fim ao genocídio do seu povo. A jornada para cumprir tal proeza irá pô-la em confronto com a natureza, a tradição, o amor verdadeiro, os mistérios da sua cultura… e, por fim, com a própria morte.

Opinião:

Como fã de Fantasia, claro que fiquei entusiasmada quando soube que Quem Teme a Morte, livro vencedor do World Fantasy Award, ia ser publicado em Portugal. Afinal, tinha desejo de conhecer esta história que chamou atenções dentro do género. Com as expectativas elevadas quanto a esta obra de Nnedi Okorafor, foi com surpresa que me deparei com uma narrativa original e cativante desde a primeira página.

Assim que comecei a ler senti que estava a ser transportada para um ambiente diferente. A autora leva-nos para a África num mundo pós-apocalíptico. Contudo, é interessante perceber que estamos a falar de uma ideia de futuro apenas quando alguns dispositivos tecnológicos surgem, pois tudo o resto indica uma nova realidade baseada em regimes tribais ou cidades pouco desenvolvidas. Como tal, as descrições relativas à sociedade são sempre cruas, com a autora a maravilhar-nos pelas descrições culturais e a deixar-nos em choque com questões relativas aos mais diferentes tipos de preconceito.

Onyesonwu é a protagonista desta aventura. Conhecemos a sua história desde o momento da concepção, sendo incrível perceber como uma experiência tão violenta e traumatizante acabou por gerar como fruto um ser humano tão incrível. Onyesonwu é uma menina que cresce revoltada pela reacção dos outros ao facto de ser Ewu, isto é, uma mestiça, produto da união forçada entre um homem e uma mulher de raças diferentes. Assim, além da sua condição de mulher, que já por si acarreta inferioridade, esta heroína é ainda uma renegada devido a mais um factor sobre o qual não tem opção de escolha. É impressionante como ela encara tal ao longo da vida, num misto de revolta contra a sociedade, a necessidade de aceitação pelos outros e a carência de reconhecimento pelo valor daquilo sobre o qual tem realmente controlo.

Esta protagonista é uma personagem carismática. Com as suas qualidades e defeitos, Onyesonwu consegue conquistar. As suas capacidades únicas vão evoluindo com o passar das páginas e impressionam por serem tão únicas e por nos fazerem acreditar num salvador que tem como destino fazer a diferença num mundo perdido. Curiosamente, as suas fraquezas fazem dela uma humana que se distingue dos outros pela garra e pela coragem de se superar, caindo as vezes que forem necessárias para fazer com que outros não sofram o que ela e os que mais ama sofreram.

Nem sempre é fácil perceber todas as capacidades de Onyesonwu. Os seus poderes incríveis vão evoluindo de forma gradual, nem sempre evidentes. Não estamos a falar das capacidades exploradas em tantas outras histórias, mas sim noutras que nos fazem pensar sobre as diferentes ligações que existem no nosso mundo, mas também entre realidades que vão para além da nossa compreensão. Gostei que a autora não fizesse deste factor algo apenas negativo, explorando ainda os sacrifícios necessários para se conseguir tal poder e ainda as consequências de actos irreflectidos ou desesperados.

Ao longo da história de Onyesonwu a autora explora temas que causam impacto no leitor por se tratarem de assuntos atuais. A questão da discriminação racial é muito forte neste universo marcado pela luta entre dois povos que se regem por um livro sagrado que dita a superioridade de um em detrimento de outro. O papel da mulher é analisado, sendo interessante verificar como este muda nas diferentes cidades ou tribos com as quais a protagonista contacta, apesar de a ideia de submissão acabar por estar sempre presente. A mutiliação genital feminina como componente cultural que é aceite sem que se tenha em causa a forma como irá afectar a saúde e o futuro de uma mulher. O medo do desconhecido que provoca rejeição e violência.

Quem Teme a Morte revelou-e uma leitura que superou as altas expectativas que inicialmente tinha. Apesar de algumas decisões da autora me terem custado um pouco a aceitar, reconheço que esta é uma obra que merece destaque por marcar a diferença dentro de um género que tanto admiro. Um livro que não só entretém como ainda tenta despertar consciências para o que se pode fazer nos nossos dias a nível das comunidades para a integração, respeito e igualdade. Recomendo.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Opinião: Fahrenheit 451

Título Original: Fahrenheit 451 (1953)
Autor: Ray Bradbury
Tradução: Casimiro da Piedade
ISBN: 9789897731068
Editora: Saída de Emergência (2018)

Sinopse:

Guy Montag é um bombeiro. O seu emprego consiste em destruir livros proibidos e as casas onde esses livros estão escondidos. Ele nunca questiona a destruição causada, e no final do dia regressa para a sua vida apática com a esposa, Mildred, que passa o dia imersa na sua televisão.
Um dia, Montag conhece a sua excêntrica vizinha Clarisse e é como se um sopro de vida o despertasse para o mundo. Ela apresenta-o a um passado onde as pessoas viviam sem medo e dá-lhe a conhecer ideias expressas em livros. Quando conhece um professor que lhe fala de um futuro em que as pessoas podem pensar, Montag apercebe se subitamente do caminho de dissensão que tem de seguir.
Mais de sessenta anos após a sua publicação, o clássico de Ray Bradbury permanece como uma das contribuições mais brilhantes para a literatura distópica e ainda surpreende pela sua audácia e visão profética.

Opinião:

Já há muito que sentia curiosidade quanto a este livro que tantas vezes me foi aconselhado. Contudo, a oportunidade para o ler surgiu apenas agora, graças à nova edição da Saída de Emergência. Saltei rapidamente para esta leitura, já como uma ideia do que me estava reservado, mas sem conseguir imaginar a total dimensão apresentada nesta obra nem o desfecho que Ray Bradbury tinha reservado para Guy Montag.

Em Fahrenheit 451 somos apresentados a uma sociedade que, de forma assustadora, parece uma caricatura ao estado em que estamos actualmente. Uso a palavra "assustadora" para descreve o que senti pois este livro foi escrito em 1953. O autor parece fazer uma crítica à forma como a cultura de entretenimento e de evasão tomou conta das vidas das pessoas, usando a influência da televisão para o explicar. Ainda assim, Ray Bradbury parece adivinhar como toda esta tecnologia iria evoluir, dando origem às redes sociais e ao predomínio das relações virtuais em detrimento das pessoais. Disse que o livro foi escrito na década de 50? Disse sim.

As personagens deste livro vivem de forma robotizada. Cumprem as tarefas que lhe esão esperadas, entregam-se às imagens que os ecrãs instalados em casa lhes oferecem e pouco mais. Esta existência, alheada de tudo e todos, começa por nos transmitir a ideia de que a humanidade está fazia de sentido e de valores. Mais tarde, percebemos que existe também conformidade ou desespero sufocante que é abafado por tudo o que distrai e faz evitar o pensamento crítico. Afinal, o autor parece mostrar que é o desinteresse pelo conhecimento, pela arte e pela cultura que leva o ser humano a viver de forma vazia.

Guy Montag, o protagonista desta obra, surge como um homem que vive dentro deste sistema. Contudo, existe um gatilho que o leva a interrogar-se sobre este modo vida e sobre os ditos perigos que podem ser encontrados nos livros. É que este homem é um bombeito, o que quer dizer que tem como função queimar livros e tudo aquilo que lhes pode estar associado. Uma visão que causa estranheza e até desconforto. É interessante ver como Guy Montag começa a questionar as suas funções e a querer entendê-las em vez de apenas executá-las. O seu comportamento desviante é o que move a narrativa.

Através do olhar de Guy, também nós, leitores, questionamos o que move aquela sociedade, a forma como chegou àquele ponto e o modo como pode sair da apatia, ignorância e dessinteresse. E ao mesmo tempo que analisamos esta disfuncionalidade, também analisamos a nossa vivência atual e fazemos quase que um exame de consciência para perceber se estamos a ajudar no caminho para algo do género. Uma ideia que, certamente, assusta muitos (e infelizmente não todos).

A forma como Guy começa a romper com as convenções e a executar actos de rebeldia são uma chamada de atenção para a necessidade do pensamento crítico para a evolução da sociedade e das mentalidades. Este protagonista prova que é possível sair da apatia e do conformismo e que a existência de opiniões divergentes não é perigosa mas pode sim gerar progresso. O conhecimento não deve ser esquecido ou menosprezado, mas merece passar de gerações em gerações. Ao mesmo tempo, surge quase que uma declaração de amor ao formato livro e a todo o que ele nos pode oferecer.

Fanrenheit 451 é um daqueles livros que dificilmente se esquece. Imperdiível para quem ama livros e não só. Uma distopia que se tornou um clássico e que nos deixa adivinhar que se vai manter atual por muitos e longos anos, servindo como aviso e alerta para os erros que não se podem cometer. Uma obra que nos faz pensar sobre que livros nós somos e sobre a forma como podemos contribuir para a comunidade e sua evolução. Recomendo.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Opinião: O Poder

Título Original: The Power (2016)
Autor: Naomi Alderman
Tradução: Sónia Maia
ISBN: 9789897731044
Editora: Saída de Emergência (2018)

Sinopse:

E se, um dia, as raparigas ganhassem subitamente o estranho poder de infligir dor excruciante e morte? De magoar, torturar e matar? Quando o mundo se depara com esse estranho fenómeno, a sociedade tal como a conhecemos desmorona e os papéis são invertidos. Ser mulher torna-se sinónimo de poder e força, ao passo que os homens passam a ter medo de andar na rua, sozinhos à noite. Ao narrar as histórias de várias protagonistas, de múltiplas origens e estatutos diferentes, Naomi Alderman constrói um romance extraordinário que explora os efeitos devastadores desta reviravolta da natureza, o seu impacto na sociedade e a forma como expõe as desigualdades do mundo contemporâneo.

Opinião:

Em O Poder, Naomi Alderman parte de uma simples premissa: e se as mulheres se fossem mais fortes do que os homens? A partir daqui dá-se uma verdadeira revolução social, com os papéis de ambos os géneros a serem colocados em causa. Afinal, o mundo é governado, regra geral, por sociedades patriarcais, havendo o conceito generalizado de que o homem, mais forte, tem o dever e direito de proteger a sua comunidade, sendo que a mulher, mais fraca, assume um lugar subserviente. Agora imaginem isto ao contrário.

Através dos pontos de vista de diferentes personagens, a autora apresenta-nos uma história de transformação e revolução social. De um momento para o outro, as mulheres começam a ter um estranho poder que lhes confere mais força. É curioso ver como este acontecimento é aceite em redor do globo. Nota-se que a autora foi capaz de se colocar na pele de cada uma destas personagens, pois as suas vivências e personalidades parecem-nos reais.

A história é narrada pelo pontos de vista de diferentes figuras, cada uma de origens e estratos sociais distintos. É interessante verificar que as mudanças são mais lentas nas comunidades em que as mulheres têm mais oportunidades, sendo que na situação inversa tudo acontece num rompante. Tal faz pensar no desespero sentido por se viver em repressão. Ao mesmo tempo, choca obervar a vingança executada por muitas destas mulheres, que fazem aos homens o que sofreram na pele. Quer tenham sido eles os autores de tais agressões quer não. Tal é revoltante e deixa perceber a mensagem de que, na verdade, somos todos iguais e acabamos por cometer os mesmos erros e pecados.

O facto de não existir efectivamente uma personagem principal, mas sim várias figuras que apresentam o seu ponto de vista, faz com que acabemos por simpatizar mais por umas figuras do que por outras. Ainda assim, é fácil compreender o que motiva cada uma destas pessoas, mesmo que custe a aceitar. Gostei ainda que a autora destacasse uma personagem masculina, de forma a dar uma visão mais abrangente deste mundo. As notas inciais e finais do livro são também muito curiosas pelo constraste que apresentam.

A evolução da narrativa está muito bem conseguida. Todas as personagens, apesar de inicialmente distantes e sem conhecimento comum, acabam por ver os seus destinos cruzarem-se. É como se existisse um núcleo que as atrai, mesmo nós sabendo que a fuga deste local seria mais segura. Como desenrolar da história, estas figuras passam por uma verdadeira transformação ao mesmo tempo que nos prendem a atenção por uma aventura que tem ritmo, propósito e nos faz questionar sobre diversos assuntos.

É incrível como um exercício de troca de papéis na sociedade pode causar tanta estranheza e nos fazer ponderar sobre o que é esperado de cada um de nós. Mas Naomi Alderman vai mais longe em O Poder. A autora deste livro incrível não só sensibiliza os leitores para as questões das diferenças dos géneros como ainda apresenta uma história emocionante, interessante e muito bem construída. Uma obra que certamente marca pela diferença e que nos deixa a pensar sobre como o poder pode transformar e até mesmo corromper tudo e todos. Recomendo.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Passatempo especial de aniversário: "O Poder"

A Saída de Emergência está a comemorar o 6º aniversário do blogue! Para celebrar, estamos a sortear um exemplar da novidade O Poder, de Naomi Alderman.


Para se habilitarem a ganhar este livro, apenas precisam de:

- Responder a todas as questões colocadas no formulário (podem encontrar as respostas aqui);
- Seguir o blogue e/ou fazer gosto na página de Facebook do blogue, aqui;
- Só participar uma vez (caso tal não se confirme a participação será anulada);
 - O passatempo termina no dia 18 de Maio às 23h59. Não serão aceites participações após essa data.

Agora é só participar!




Notas:
- Este passatempo é realizado em parceria com a Saída de emergência
- O vencedor será escolhido aleatoriamente entre as participações válidas através do site random.org;
- Como participação válida entende-se: existir apenas uma por participante com todos os dados do questionário respondidos correctamente;
- O vencedor será contactado por e-mail e anunciado no blogue;
- Este passatempo é válido para Portugal continental e ilhas;
- O blogue não se responsabiliza pelo possível extravio do livro nos correios.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Opinião: Um Estranho Numa Terra Estranha - vol. 1

Título Original: Stranger in a Strange Land (1961)
Autor: Robert A. Heinlein
Tradução: Jorge Candeias
ISBN: 9789897730924
Editora: Saída de Emergência (2018)

Sinopse:

Há vinte e cinco anos, a primeira missão a Marte terminou em tragédia e todos os tripulantes morreram. Mas, na verdade, houve um sobrevivente. Nascido na fatídica nave espacial e salvo pelos Marcianos que o criaram e lhe ofereceram uma nova vida, Valentine Michael Smith nunca viu um ser humano até ao dia em que é descoberto por uma segunda expedição a Marte.

Ao regressar à Terra, vê-se pela primeira vez entre o seu povo. Começa então um percurso de aprendizagem dos códigos sociais e preconceitos da natureza humana, totalmente alienígenas para a sua mente. Nesse processo de descoberta e integração, Valentine irá partilhar com a Humanidade os rituais sagrados que aprendeu em Marte e retribuir com as suas próprias crenças sobre o amor e o sentido da vida. Mas conseguirá alguma vez deixar de se sentir um estranho numa terra estranha?

Opinião:

Não imaginam há quanto tempo desejava ler este livro. Procurei uma edição em português, mas sem grande sucesso. Por isso, nem imaginam o quão feliz fiquei quando no Fórum Bang!, realizado em Outubro do ano passado, foi anunciado que as Edições Saída de Emergência iam publicar uma nova versão desta obra. Curiosamente, quando o livro me chegou às mãos, não consegui logo começar a lê-lo. Afinal, e se as minhas expectativas eram demasiado altas? E se o livro se revelasse algo muito diferente do que esperava e eu ficasse desiludida? Aviso já: não fiquei nada. Mesmo nada!

Logo ao início percebesse que Robert A. Heinlein tem uma forma muito particular de apresentar as suas ideias. Os dados que precisamos para perceber a narrativa não são fornecidos de forma directa, uma vez que o autor prefere sempre dar uma visão geral sobre determinada situação para só depois nos explicar algo mais concreto. Esta técnica pode parecer aborrecida quando explicada assim, mas garanto que em momento algum me senti aborrecida durante a leitura. É que Heinlein não é só muito preciso na apresentação das suas ideias como ainda o faz de forma cativante. Assistir ao enquadramento de um acontecimento é saber mais sobre o funcionamento do mundo e sobre a mente das personagens que nos são apresentadas. Garanto, assim, que a leitura deixa a nossa mente desperta e nos fascina pela complexidade e credibilidade do que é apresentado. E tudo feito numa linguagem actual e fácil de entender.

Nesta obra, deparamo-nos com a ideia de que um homem cresceu em Marte entre marcianos e como se fosse um ser daquele planeta. É curioso verificar que ele pensa e se sente como marciano, apesar de saber que é diferente devido ao seu corpo. Já na Terra, ele encontra seres iguais a ele, mas não se sente humano pois não compreende a humanidade. É intrigante pensar em como seria estar no lugar de Smith, sem se ser capaz de integrar inteiramente em qualquer comunidade. Ser sempre um estranho.

O autor fez um trabalho excepcional ao afastar um ser humano de toda a cultura terrena. A primeira impressão é a de que Valentine Michael Smith é uma pessoa fragilizada pelas condições em que nasceu e cresceu. A forma como ele se relaciona com os outros, com o meio que o envolve, com a própria vida faz-nos reflectir sobre o que tomamos como garantido e sobre se isso é realmente a única opção certa e verdadeira. Com o decorrer da leitura, percebemos que este homem estranho não é inferior a qualquer outro, sendo surpreendente perceber que, afinal, ele pode estar a dar-nos uma lição valiosa sobre o que é realmente importante na nossa existência.

Este homem que vem de Marte é apresentado como ingénuo, pacífico, extremamente inteligente e dedicado a quem se dá. Todos os que o rodeiam sentem-se impressionados com esta diferença e, aos poucos e poucos, começam a sofrer pequenas alterações na forma como pensam sobre a existência humana. Claro que nos sentimos intrigados com ele, havendo sempre vontade de compreender as suas motivações e linhas de pensamento, mas sem nunca conseguir lá chegar completamente (ou terei de dizer sem grocar"?).

Destaco ainda o papel de Jubal ao longo desta trama. A par do protagonista, é uma das personagens mais fascinantes. É nele que se centram muitos momentos de relevo para o avançar da história, uma vez que surge como protetor de Valentine Michael Smith. Ao início, pode parecer um homem algo bizarro e que vive de uma forma pouco comum, mas a forma directa como aborda todos os assuntos, inteligência e humor levam-nos a ficar presos nas suas ideias e argumentos. Destaco um diálogo de Hubal com Duke muito relevante e atual sobre a aceitação da diferença no outro (para não mencionar e desvendar muitos outros momentos impressionantes desta personagem ao nível da retórica).

O aparecimento de Valentine Michael Smith na Terra dá origem a uma série de acontecimentos ao nível mundial.  Questões de poder são levantadas, o que deixa o protagonista em situações de perigo, mesmo que nem sempre tenha noção disso. Assim se percebe que muitas vezes vemos o que é diferente como ameaça, havendo também que sempre procure uma forma de obter benefícios com aqueles que aparentam qualquer tipo de fragilidade.

Valentine Michael Smith acaba por se revelar uma chamada de atenção para o nosso código de conduta. Esta personagem faz-nos reflectir sobre a hierarquia de valores que possuímos, sobre o que é realmente importante para a construção da felicidade e sobre o que podemos dar aos outros para tornar o mundo em que vivemos num local melhor. Existe ainda uma mensagem de respeito por todas as formas de vida, além de é analisada a dimensão do amor ao outro. Tenho pena que esta obra tenha sido dividida, de forma a não poder ler já a continuação, uma vez que estou muito entusiasmada com a leitura e curiosa para saber o que vem a seguir. Mas estou feliz por a espera ter valido a pena: este livro é mesmo bom!

terça-feira, 20 de março de 2018

Opinião: Aceitação (Trilogia Área X #3)

Título Original: Acceptance (2014)
Autor: Jeff Vandermeer
Tradução: Casimiro da Piedade
ISBN: 9789897730955
Editora: Saída de Emergência (2018)

Sinopse:

Será que há finalmente respostas para os mistérios da Área X?
O inverno chegou à Área X, a misteriosa zona que desafia toda a lógica há mais de trinta anos e que tem resistido a inúmeras expedições que procuram desvendar os seus segredos.
À medida que a Área X se expande, a agência responsável por investigá-la colapsa e mergulha no caos. Cabe a uma última e desesperada equipa atravessar a fronteira e alcançar a ilha remota que pode conter as respostas ao enigma. Se falharem, o mundo vai sucumbir à devastação que não para de alastrar.
Neste último volume, a verdade sobre a criação da Área X poderá ser revelada, bem como os eventos e protagonistas que originaram a sua contaminação. Mas estarão os membros da equipa preparados para as implicações aterradoras e profundas dessas revelações?

Opinião:

Chegou ao fim uma das trilogias de ficção científica mais inquietantes da actualidade. Não se pode dizer que esta seja uma obra fácil de compreender na sua totalidade. Requer uma leitura cuidada, atenta, assim como espírito crítico e capacidade de entender a crítica do autor. Mas certo é que nos faz reflectir sobre o nosso papel neste mundo, sobre o como a sociedade o está a corromper, sobre como tudo é fugaz, como a mudança é inevitável e não pode ser travada.

Aceitação conclui a Trilogia Área X de forma inesperada. Apesar de os dois primeiros volumes tratarem do mesmo assunto, apresentam-no de uma forma completamente diferente. Agora, neste último livro, o autor consegue juntar todos os pontos de vista num desfecho apropriado, mas que dificilmente conseguiria prever. Gostei que o autor mistura-se as personagens e também os tempos da narrativa, de forma a fornecer-nos uma visão geral do que aconteceu no início de tudo, justificando assim o fim escolhido.

Ao longo destas páginas, acompanhamos o ponto de vista de quatro personagens. Três delas são já nossas conhecidas, sendo que a quarta, apesar de nova, é também uma figura já mencionada que finalmente se revela e nos fornece informações importantes para compreender a origem da Área X. Achei curiosas as ligações que o autor fez entre algumas personagens, assim como também apreciei o facto de o estilo de escrita mudar com uma destas figuras. Sinto que estas opções tornaram a leitura mais rica.

As descrições continuam a ter um papel muito forte na narrativa deste volume, o que pode causar algum desconforto. São momentos longos, que precisam de atenção para se entender o que o autor quer transmitir, quer seja no espaço como na exploração das personagens. Ao longo da história surgem criaturas, paisagens ou circunstâncias muito fora do comum, nem sempre sendo fácil imaginar com facilidade tudo o que nos é transmitido. Certo é que, mesmo com algumas dificuldades, surgem na nossa mente imagens invulgares e muitas vezes perturbadoras, levando-nos a pensar sobre o limite entre o belo e o horrendo, o equilíbrio e o caos. Um verdadeiro exercício mental.

A Área X acaba por ser uma chamada de atenção para com a forma como o ser humano se relaciona com o mundo. Cada personagem representa uma forma diferente de o fazer. As questões ambientais estão claramente em causa, sendo possível perceber a preocupação do autor para com as alterações que se estão a operar no nosso planeta devido à acção do Homem. Jeff Vandermeer recorda-nos que nós não existimos em separado da natureza, que fazemos parte dela e somos dependentes dela. Devemos preocupar-nos com a forma como cuidados do planeta, pois as mudanças inevitáveis vão atingir-nos a alterar a forma como vivemos. Resta saber até que ponto...

É uma obra que causa estranheza, mas é também uma obra difícil de comparar com qualquer outra. Tem identidade própria, é diferente de tudo o resto, marca e ocupa um lugar próprio. Jeff Vandermeer teve a ousadia de se inspirar num sonho que teve para criar um mundo novo e apresentar uma possibilidade de futuro. Existem emoções fortes e revelações inesperadas, o que, juntamente com as descrições, conseguem deixar-nos algo perturbados. Uma obra marcante que merece ser tida em conta.


Outras opiniões a livros de Jeff Vandermeer:
Aniquilação (Trilogia Área X #1)
Autoridade (Trilogia Área X #2)

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Opinião: A Revelação do Bobo (Saga Assassino e o Bobo #2)

Título Original: Fool's Quest (2015)
Autor: Robin Hobb
Tradução: Jorge Candeias
ISBN: 9789897730931
Editora: Edições Saída de Emergência (2018)

Sinopse:

Depois de garantir que nunca mais a deixaria só ou negligenciada, Fitz abandonou a sua filha Abelha para correr para Torre do Cervo a fim de tentar salvar a vida do velho amigo Bobo. A consequência foi a mais terrível: um ataque à sua casa e o rapto da pequena, que desaparece sem deixar rasto.

Encontramo-lo neste volume dilacerado entre as obrigações para com o Bobo e o que a consciência lhe exige que faça para tentar recuperar a filha. Mesmo o regresso a Torre do Cervo traz grandes perigos, pois no local onde nasceu e viveu durante muitos anos ainda perdura a sua má fama de Bastardo Manhoso e assassino. O que poderá Fitz fazer para trazer a paz de novo ao seu mundo?

Opinião:

Não resisti e tive de começar a ler este livro assim que me chegou às mãos. Depois de ter ficado conquistada com o Assassino do Bobo, o primeiro volume da nova saga de Robin Hobb, "O Assassino e o Bobo", estava muito curiosa para descobrir os desenvolvimentos que a autora iria dar a esta aventura. A leitura de A Revelação do Bobo começou, então, com expectativas, sendo que o primeiro capítulo fez recordar imediatamente o lado mais chocante, cruel e doloroso da escrita de Hobb. Sim, esta parte da história começa com um murro no estômago.

A narrativa segue os acontecimentos do livro anterior. Desta forma, vemos as nossas atenções divididas entre o que se passa com Fitz e o que está a acontecer a Abelha. Em boa parte da narrativa, a autora foca-se no regresso do protagonista a Torre do Cervo, sendo bom vê-lo de novo num espaço onde passou por tanto e a regressar às intrigas da Corte. A proximidade do Bobo, apesar da situação dramática que este está a viver, também nos apele à curiosidade, afinal estas são duas personagens que têm uma ligação bastante forte. É bom ver que isso não se perdeu, apesar do tempo e da distância, e é com curiosidade que assistimos a este reencontro e aos diálogos que existem entre ambos. Ao mesmo tempo, fica sempre latente em nós aquela vontade de que Fitz perceba o que está a acontecer com Abelha e parta para a acção.

Existe uma certa lentidão no desenrolar dos acontecimentos na maior parte do livro. Já como tinha acontecido com o volume anterior, isso não faz com que a história seja desinteressante, pois as personagens cativam e as pequenas nuances que vão surgindo chamam sempre a atenção. Esta é a fase de percebermos quem são realmente estas figuras e de assistirmos às complexas relações que estabelecem. Ao longo desta fase, vemos Fitz a mudar lentamente, sendo curioso ver como o seu papel muda de uma forma inesperada na corte. Mais perto do final acontece um grande choque que o leva a enveredar por um caminho que tinha prometido não voltar a seguir. As várias camadas da personalidade deste homem continuam a impressionar e a torná-lo impressionante, uma figura incomparável e que continua a conquistar um lugar de destaque entre as personagens de ficção fantástica.

O regresso do Bobo é visto com um misto de sentimentos. Por um lado, estou bastante feliz por ver esta figura tão querida de regresso, mas por outro é com tristeza que assisto à sua condição. Saber as grandes dificuldades que atravessou e como mudou é chocante. Queremos que ele seja capaz de superar o passado, mas percebemos que é impossível que este homem volte a ser o que era. Por isso mesmo, as descrições sobre o seu corpo, os seus discursos e estados de espírito não deixam o leitor indiferente. No final é feita uma revelação que está relacionada com o Bobo e, apesar de ser algo esperado, não deixa de provocar espanto e dar uma sensação de esperança.

Abelha foi a personagem que mais gostei de acompanhar no volume anterior. Como tal, gostaria de ter estado mais perto dela neste livro, mas tal não aconteceu. Queria muito saber mais sobre o que lhe aconteceu sobre as pessoas que provocaram tudo aquilo, mas a autora aumenta o suspense ao dar apenas uma dose de informação reduzida. Ainda assim, fiquei impressionada com a inteligência desta pequena criança e do que ela faz para garantir a sua sobrevivência, sempre a pensar no que poderá fazer para escapar daquela situação. É curioso vê-la a ter Esquiva como aliada, depois de tudo o que aconteceu entre ambas. Os pequenos dados que nos são dados sobre os seus captores deixam-nos perceber ligações mais profundas entre o que aconteceu ao Bobo.

Robin Hobb não facilita a jornada das suas personagens, deixando o leitor sempre na expectativa do que virá depois. Apesar de ter estado à espera de mais ritmo e acção, gostei muito desta leitura, que funcionada como uma preparação para um grande final.  O leitor sente que está sempre no fio da navalha e quer saber mais sobre estas personagens, que, apesar de já serem exploradas há algum tempo, não deixam de impressionar. As aventuras são sempre novas, desafiantes, com revelações inesperadas e conclusões impossíveis de adivinhar. Robin Hobb é mesmo uma autora que se destaca. Agora, que venha o próxima, que eu já estou preparada para o ler.

 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Opinião: Monstress - volume 2: O Sangue

Título Original: Monstress - vol. 2 (2017)
Autor: Marjorie Lu
Ilustrador: Sana Takeda
Tradução: Renato Carreira
ISBN: 9789897730900
Editora: Edições Saída de Emergência (2018)

Sinopse:

Maika Meiolobo está a ser perseguida por uma coligação de forças determinada a controlar e a destruir a poderosa criatura demoníaca que habita dentro de si. Mas Maika não descansará enquanto não cumprir a sua missão: descobrir os segredos da sua falecida mãe, Moriko.
Nesta sequela, a jornada de Maika irá levá-la à cidade de Thyria, controlada por piratas, e através dos mares à misteriosa Ilha dos Ossos. Será uma viagem que irá forçar Maika a reavaliar o seu passado, presente e futuro e onde irá aprender que não pode confiar em ninguém, incluindo no seu próprio corpo...

Opinião:

Marjorie Liu e Sana Takeda apresentam uma obra admirável. "Monstress" é uma série incrível que tem tudo para conquistar até quem torce o nariz a novelas gráficas. A história é complexa, as personagens profundas, a acção intensa, a imaginação prodigiosa e a mensagem atual. O Sangue, segundo volume desta aventura, retoma a narrativa no momento em que o primeiro terminou e brinda os leitores com momentos impressionantes.

Tenho, inevitavelmente, que começar por falar pelo primeiro aspecto que é admirado nesta obra: a arte gráfica. Sana Takeda é uma ilustradora de enorme talento. Esta história poderia ser apresentada no formato romance, mas não teria o mesmo encanto. Nem perto. Virar as páginas é ansiar por descobrir novas ilustrações e ver como Takeda nos vai surpreender desta vez. Existem uma enorme sensibilidade em criar imagens que tenham a mesma qualidade que a trama, o que faz com que todos os pormenores sejam tidos em conta. Os tons usados reflectem o espírito vivido naquele exacto momento, as expressões das personagens não só correspondem à acção como ainda nos ajudam a desvendar ainda melhor as suas personalidades, os espaços são criados com detalhe. Tudo isto para não mencionar a beleza das figuras mais fantásticas...

Maika Meiolobo, a protagonista desta aventura de inspiração oriental, desempenha a função de anti-herói. Voltamos a vê-la em situações imorais, além de que continua a não ser a pessoa mais amável para com os que a rodeiam. Contudo, apesar destes comportamentos, não consegui deixar de sentir empatia por ela. Com uma criatura horripilante aprisionada dentro do próprio corpo, Maika tenta libertar-se deste tormento que a leva a afastar-se de todos e a não querer criar laços, isto por desconfiança mas também por temer magoar alguém por quem tenha sentimentos. Além da jornada que faz para descobrir os segredos da mãe e o segredo para se livrar do monstro, é comovente assistir às reflexões e dúvidas de Maika quanto ao passado e às intenções da mulher que a deu à luz.

Kipaa e Ren, os companheiros de Maika nesta aventura, também estão de regresso. Apesar da protagonista ser uma "loba-solitária" é bom ver que a cooperação destas duas figuras a ajudam na sua jornada. Kippa é um verdadeiro amor. Representação da inocência, coragem e fé, ela revela-se uma heroína improvável e acaba por apelar ao lado mais compassivo da protagonista. Ren encerra nele sabedoria necessária para vários desafios e revela fidelidade nas promessas feitas, mesmo quando não acredita no sucesso da missão.

A criatura demoníaca que habita no corpo de Maika apresenta uma agradável evolução. Se no primeiro volume ficou a sensação do perigo que representava, agora são fornecidos mais dados sobre o seu passado que dão uma visão mais vasta sobre o seu papel. O terror associado a esta figura e ao que pode fazer a Maika e ao seu mundo persistem, mas agora sabemos que o perigo não existe sem razão. Marjorie Lu prova que tem tudo pensado e que as personagens que cria, independentemente dos valores que possuem, têm motivos válidos segundo o próprio carácter.

O ponto mais fraco deste livro? Fazermos chegar à última página rapidamente e com a sensação de que se quer mais. A história é realmente cativante e fez-me entrar facilmente neste mundo. A narrativa não tem momentos mortos, sendo que tudo é relevante, quer seja pela acção em si como pelas informações que as personagens estão a dar. E todos estes dados são absorvidos com prazer e aumentam ainda mais a vontade de descobrir outras vertentes deste enredo. No final, surge uma situação que nos deixa em suspense e com uma enorme vontade de ter já o capítulo seguinte nas mãos.

Estou muito feliz por ter colocado o cepticismo de lado e ter apostado na leitura desta série. Se o primeiro volume cativou, o segundo fez com que esta obra ganhasse uma nova dimensão de maior destaque. Entendo perfeitamente o porquê de esta ser uma obra tão aclamada e vencedora dos prestigiados prémios Hugo e British Fantasy Award. É que Monstress é mesmo incrível.


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Opinião: Cartas de Profecia (Os Outros #5)

Título Original: Etched in Bone (2017)
Autor:  Anne Bishop
Tradução: Luís Santos
ISBN: 9789897730863
Editora: Edições Saída de Emergência (2017)

Sinopse:

Depois de uma insurreição humana ter sido brutalmente abortada pelos Anciãos – uma forma primitiva e letal de Os Outros –, as poucas cidades que os humanos controlam estão dispersas. Os seus habitantes conhecem apenas o medo e a escuridão da terra de ninguém.
À medida que algumas dessas comunidades lutam para se reconstruir, Simon Wolfgard, o líder lobo metamorfo, e Meg Corbyn, a profetisa de sangue, trabalham com os humanos para manter a frágil paz. Mas todos os seus esforços são ameaçados quando uma misteriosa figura humana aparece.
Com os humanos desconfiados em relação a um dos seus, a tensão aumenta, atraindo a atenção dos Anciãos, curiosos sobre o efeito que este predador terá na matilha. Mas Meg já conhece o perigo, pois viu nas cartas de profecia como tudo terminará: com ela ao lado de uma campa.

Opinião:

É sempre com um misto de alegria e tristeza que chego ao fim de uma saga que tanto me cativou. Cartas de Profecia é a despedida de Meg, Simon e todas as outras personagens com quem criei ligações ao longo de cinco livros. Por um lado é bom finalmente saber que destino estava reservado a cada uma destas figuras, por outro tenho pena de não viver novas aventuras ao lado delas. Foi então com algumas expectativas que iniciei esta leitura, curiosa para saber o que Anne Bishop tinha guardado para o grande final.

O Pátio está em fase de adaptação, a pensar num futuro em que Outros e Humanos tenham um contacto mais próximo. Como tal, assistimos a várias discussões sobre o que pode ser alterado de forma a haver harmonia, o que não é cansativo graças aos elementos cómicos que são sempre inseridos e acabam por aliviar assuntos mais pesados ou potencialmente maçadores. E afinal, há muito mais a acontecer, o que prende o interesse e proporciona uma leitura rápida.

Meg está a lidar cada vez melhor com o seu dom de cassandra de sangue, mas a suspeita de um perigo iminente não a deixa alcançar a tão desejada estabilidade. Nota-se um sério crescimento desta personagem desde o primeiro volume, que passou de uma jovem fraca e amedrontada para uma mulher forte, doce e que vê bondade nos seres que podem causar maiores suspeitas. Mas ela não é a única a apresentar mudanças. Também Simon conseguiu refrear-se, explorando um lado que acreditava não ter e aceitando desafios inesperados. Juntos, eles alteram quem os rodeia e isso provoca alterações na comunidade.

Ao longo dos livros foi ainda possível assistir ao desenvolvimento da relação de Meg e Simon, e também esta questão é resolvida. Recordo que, quando esteve em Portugal em Outubro por ocasião do Festival Bang!, a autora disse que esta relação nunca seria simples, pois tratam-se de duas pessoas de natureza diferente. Estava então ainda mais curiosa para saber que solução tinha sido encontrada e fiquei muito satisfeita com este desfecho. Tratam-se de duas personagens que conseguiram criar uma ligação genuína e pura, o que é sempre inspirador.

Achei curioso que, enquanto em livros anteriores vimos crescer a ameaça de uma organização de humanos que queria sobrepor-se ao Outros, desta vez a grande ameaça estava centrada numa pessoa. Esta parece ter sido a forma de a autora nos dar a entender que o ódio e a maldade de apenas um individuo é capaz de causar grandes desastres no seio de uma comunidade. Sim, o grande perigo já foi desmantelado, mas é preciso ter em atenção as pessoas que não conseguem respeitar a diferença, mesmo que não pareçam capazes de grande mal.

O envolvimento dos Anciãos faz sentir um grande respeito, temor e curiosidade. Estas criaturas conseguem marcar presença, mesmo quando parecem não estar a agir, e isso sente-se no ambiente que fica instalado entre as outras personagens. Os Anciãos estão ligados à natureza, ao que há de mais primordial. Já Jimmy faz temer e sentir ódio por representar o que de pior há na humanidade. Oportunista, interesseiro, egocêntrico, insensível e frio, ele é o grande perigo, mostrando que o mal muitas vezes pode ser encontrado no lado menos esperado. Apesar de detestar a personagem devido ao que ela representa, gostei dos seus capítulos por fazerem mexer o resto da trama.

Adorei a conclusão que Anne Bishop deu a esta saga. São muitos os assuntos que são resolvidos, mas também muitos os que ainda precisam de resolução. A autora prova que a mudança é lenta, mas acontece quando há vontade para tal. Por isso, Humanos e Outros ainda terão de descobrir novos métodos para  conviverem em harmonia, mas tudo indica que serão capazes. Além disso, já se sabe que a autora se despede do Pátio e personagens inerentes mas não deste universo. Em Março de 2018 vai sair nos EUA Lake Silence, o primeiro livro de uma nova série passada no mesmo mundo, mas noutro local e com novas personagens. Quer isto dizer que ainda há muito para explorar e que podemos ainda ler referências a Meg, Simon e companhia.

Cartas da Profecia é uma despedida agridoce. Custa dizer adeus a estas personagens, mas sabe bem saber qual foi o destino que Anne Bishop lhes deu. Uma boa conclusão para uma saga que proporcionou grandes momentos de leitura e que fez sonhar com um mundo semelhante ao nosso, onde metamorfos, vampiros e muitos outros seres coexistem com a humanidade e a fazem recordar da importância do respeito para com o mundo e para com formas de vida diferentes.

Outras opiniões a livros de Anne Bishop:
A Voz
Os Pilares do Mundo (Trilogia dos Pilares do Mundo #1)
Luz e Sombras (Trilogia dos Pilares do Mundo #2)
A Casa de Gaian (Trilogia dos Pilares do Mundo #3)
Ponte de Sonhos (Efémera #3) 
Letras Escarlates (Os Outros #1)
Bando de Corvos (Os Outros #2)
Visão de Prata (Os Outros #3)
Marcado na Pele (Os Outros #4)

domingo, 19 de novembro de 2017

Opinião: Espada de Vidro (Rainha Vermelha #2)

Título Original: Glass Sword (2016)
Autor: Victoria Aveyard
Tradução: Teresa Martins Carvalho
ISBN: 9789897730818
Editora: Saída de Emergência (2017)

Sinopse:

O sangue de Mare Barrow é vermelho mas a sua capacidade Prateada, o poder de controlar os relâmpagos, transformou-a numa arma que a corte real tenta controlar. A coroa acusa-a de ser uma farsa, mas quando ela foge do príncipe Maven – o amigo que a traiu –, Mare faz uma descoberta surpreendente: ela não é a única da sua espécie.
Perseguida por Maven, Mare parte para descobrir e recrutar outros combatentes Vermelhos e Prateados que se juntem à batalha contra os seus opressores. Mas Mare encontra-se num caminho mortífero, em risco de se tornar exatamente no tipo de monstro que está a tentar derrotar.
Será que ela vai ceder sob o peso das vidas exigidas pela rebelião?
Ou a traição e a deslealdade tê-la-ão endurecido para sempre?

Opinião:

Mais perigo, mais acção e mais personagens com poderes incríveis. É isto que o segundo volume desta série de Victoria Aveyard nos oferece. Após a reviravolta com que a Rainha Vermelha terminou, Mare regressa com um novo propósito. Desta forma, somos levados a viajar por este mundo, a descobrir novas vertentes da sociedade e a conhecer outras personagens. Tudo isto sem perder contacto com as figuras que foram mais relevantes no primeiro volume.

O ritmo desta obra é mais rápido. Existem muito acontecimentos arriscados, o que proporciona muita acção e ainda a noção de que as personagens estão constantemente em risco. As muitas viagens que são feitas apresentam-nos um povo que sofre com os seus governadores tiranos, sendo curioso ver as diferentes formas como as pessoas encaram tal regime. São poucas as que parecem resignadas, sendo que entre as que querem mudança existem aquelas que aguardam uma oportunidade para se rebelar enquanto outra não têm coragem de combater contra o que não acreditam. As diferentes reacções dão veracidade à história.

Mare, a protagonista, continua a não me conquistar. O foco total na sua missão e a forma como a sua mente trabalha não conseguiram gerar em mim empatia. Por isso mesmo, não consegui sentir o seu sofrimento e angústia ao longo destas páginas, apesar de ela estar a tomar decisões muito difíceis e a ter atitudes de grande relevância para o futuro de todos. Falta-lhe a humanidade que consegui encontrar em outras figuras secundárias, tais como Farley, que se torna mais cativante ao longo da narrativa.

Os outros Vermelhos com capacidades semelhantes a Mare e que vão surgindo neste livro são curiosos. É verdade que a procura por estas figuras e os seus poderes voltaram a recordar-me os X-Men, mas gostei de ir descobrindo as capacidades de cada um. A autora conseguiu escolher dons que seriam necessários em momentos-chave da trama, o que ajuda na resolução dos problemas, apesar de também retirar um pouco a sensação de que algo pode correr mal.

No primeiro volume já existia a forte presença de um triângulo amoroso, e tal mantém-se neste volume, mas acredito que a história geral ficava a ganhar se este aspecto fosse mais secundário. No caso do vilão, aprecio o perigo que ele representa a todo o momento e espero que as suas motivações continuem a ser exploradas no próximo volume. São as acções desta figura que fazem mover a trama e proporcionam os momentos de maior interesse.

Espada de Vidro segue bastante a linha do primeiro volume desta série. E também deixa as mesmas impressões. É um livro que proporciona momentos de entretenimento, mas que não conseguiu despertar em mim grandes emoções. A história está a ficar mais complexa e apresenta-nos um mundo com potencial, mas as personagens de maior relevância não fazem uma boa ligação com o leitor. Contudo, os pontos fortes divertem e fazem ter vontade de continuar a acompanhar esta aventura de modo a descobrir o que ainda vem aí.

Outras opiniões a livros de Victoria Aveyard:
Rainha Vermelha