sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Opinião: Os Pássaros no Fim do Mundo

Título Original: All the Birds in the Sky (2016)
Organização: Charlie Jane Anders
Tradução: Raquel Pinheiro
ISBN: 9789898869319
Editora: TopSeller (2017)

Sinopse:

Um romance original sobre o fim do mundo… e o princípio do nosso futuro.

Patricia e Laurence tornaram-se amigos quando o resto da escola decidiu marginalizá-los: Laurence, por ser um geek dos computadores, e Patricia, por ser uma suposta bruxa que fala com animais. Mas a interferência das famílias e a ocorrência de circunstâncias muito invulgares acabam por ditar o fim da amizade.

Quando chegam à idade adulta, os dois têm vidas muito diferentes, mas um objetivo em comum: Laurence tornou-se um génio da engenharia e está envolvido na criação de uma máquina de viagens intergalácticas, para salvar os humanos do colapso do planeta; e Patricia, formada na academia secreta de magia, trabalha para reparar os eternos problemas da Terra e dos seus habitantes.

Inevitavelmente, os dois amigos voltam a reunir-se, graças a uma força maior do que eles: algo gigantesco e imperial que trará o Apocalipse.
E Patricia e Laurence nem imaginam que serão as suas escolhas a determinar o destino do planeta e de toda a Humanidade.

Opinião:

Este é um livro muito diferente de todos os outros que li até aqui. Tão diferente que se torna difícil definir o seu género. Os Pássaros no Fim do Mundo tem elementos de fantasia, ficção científica, distopia, romance paranormal, entre outros. Não que seja importante rotular uma obra, mas saliento este aspecto só para que também  consigam perceber o motivo de eu dizer que esta leitura dificilmente pode ser comparada.

Patricia e Laurence são os protagonistas desta obra. É curioso ver como eles se aproximam tão naturalmente apesar de terem personalidades e vocações completamente distintas. Ela é uma bruxa amante da natureza, ele um aspirante a cientista que venera a evolução tecnológica. Contudo, os dois vivem situações semelhantes no que toca às relações com os outros. As peculiaridades de cada um são, além de características que os tornam especiais, fonte de grande problemas dentro das respectivas famílias e até mesmo na escola. Assim, ficamos felizes por eles encontrarem um no outro um apoio nos momentos mais negros.

A autora mostra-nos que a forma como vivemos a nossa infância afecta a idade adulta. Tanto Patricia comi Laurence passaram por grandes obstáculos e momentos traumatizantes. Vítimas de bullying, às vezes mesmo dentro do próprio lar, tornaram-se em pessoas com problemas de auto-estima apesar de muito terem lutado para encontrarem uma vida melhor. É possível sentir empatia pelas duas personagens e queremos muito vê-las a ultrapassar obstáculos, alguns deles colocados por Patricia e Laurence, de modo a encontrarem a estabilidade e sucesso.

O livro pode ser dividido em duas fases, sendo que a primeira se passa durante a infância dos protagonistas e a segunda na idade adulta destes. Senti maior ligação à primeira parte, talvez pela sensação de descoberta e pela forma como o ambiente familiar e escolar foi explorado. A segunda também tem aspectos originais e interessantes, mas por vezes senti-me a distrair-me da história por achar a narração pouco apelativa.

A questão do fim do mundo é convincente. A autora inspirou-se em problemas ambientais actuais causados pela actividade humana e mostrou-nos as consequência que daí podem advir. As descrições são chocantes e observar estes acontecimentos como reais e, talvez, mais próximos do que queremos acreditar, é bastante assustador. Como tal, facilmente sentimos a tensão, terror e desespero que se vive nestas páginas. E mais importante, somos alertados para o facto de podermos fazer a diferença no nosso destino.

Não há dúvida de que Os Pássaros no Fim do Mundo é um livro original e que marca a diferença. Tem sentido de humor apesar de alertar para assuntos sérios e actuais. Proporciona uma leitura que interessante, apesar de certos momentos precisarem de elementos mais cativantes. No geral, é uma boa obra que nos faz querer continuar atentos a esta autora.

Opinião: Em Fuga - Nenhum Lugar é Seguro

Título Original: The Escape (2017)
Organização: C. L. Taylor
Tradução: José João Leiria
ISBN: 9789898869296
Editora: TopSeller (2017)

Sinopse:

Quando uma estranha pede uma simples boleia a Jo Blackmore, esta concorda, mas rapidamente se arrepende de o ter feito.

Afinal, a mulher sabe o nome de Jo, conhece o seu marido, Max, e tem em seu poder uma luva que pertence a Elise, a filha de 2 anos de Jo.

O que começa por ser uma ténue ameaça de uma desconhecida, rapidamente se transforma num pesadelo, quando a polícia, os serviços sociais e até o próprio marido começam a duvidar das capacidades mentais de Jo.

Ninguém parece acreditar que Elise esteja em perigo, e a mulher estranha começa a apertar o cerco. Nesse momento, Jo sabe que só existe uma forma de manter a filha a salvo…fugir!

Opinião:

Este é um daqueles livros que se lê com vontade e rapidez. Em Fuga - Nenhum Lugar é Seguro agarra logo nas primeiras páginas. Somos confrontados com um mistério que queremos ver explicado, e apesar de irem surgindo pistas ao longo do leitura, não é fácil perceber o que realmente está a ameaçar Jo, a protagonista, e a sua filha, Elise. Além disso, o facto de Jo ter um transtorno de pânico tornam as emoções mais intensas e fazem-nos duvidar de tudo e de todos.

O início é algo sinistro e mexe com um receio geral da população. O facto de alguém desconhecido surgir com uma ameaça e apresentar-se como detentor de uma série de informações bastante pessoais e íntimas nossas gera um sensação de pânico, dúvida, invasão. E quando isto acontece com um indivíduo que sofre de agorofobia, tudo fica ainda mais sufocante. É este ponto de vista que nos é dado através do relato de Jo. Pode não ser fácil entender o motivo de algumas decisões e atitudes desta protagonista, mas isso só acontece numa fase inicial. Conforme a leitura avança, são fornecidos dados que nos levam a entender melhor esta mulher e também a admirá-la.

Max, o marido de Jo, é uma personagem que está bem conseguida e que nos faz sentir tanto compreensão como incerteza. Percebemos a sua dificuldade em lidar com os problemas da mulher, mas queremos que ele seja mais crédulo. Com o decorrer da narrativa surge uma outra figura pela qual me interessei. Trata-se de Mar, uma mulher de mais idade que continua a ser perseguida pelos fantasmas e dores do passado. O curioso de todas as personagens que a autora nos apresenta é que não conseguimos acreditar inteiramente nelas, ficando sempre a dúvida sobre as verdadeiras motivações de cada uma e seus desejos. Como tal, todos são suspeitos.

A acção começa com rapidez. As informações não surgem em excesso mas o encadeamento dos acontecimentos marca um ritmo rápido e com um teor algo negro. Não existem momentos mortos e uma reviravolta a meio da obra leva-nos a mudar completamente o nosso ponto de vista sobre o que está a acontecer. A partir daí entramos numa nova fase da história, na qual já existem certezas, ficado apenas a dúvida sobre como tudo irá ser resolvido. A conclusão poderia ter causado maior impacto, ficando um pouco aquém daquilo que era esperado.

A autora faz-nos pensar sobre os limites de cada um e do que é necessário acontecer para que estes sejam ultrapassados. Esta leitura sensibiliza para o facto de que quem sofre com transtornos e traumas raramente ser compreendido pelos outros, e ainda nos leva a questionar quem são aqueles pelos quais nos fazemos rodear, uma vez que podem estar a esconder a sua verdadeira natureza e personalidade para alcançarem objectivos inesperados.

Em Fuga - Nenhum Lugar é Seguro um livro sobre preservação e superação de obstáculos com vista proteger quem mais se ama. É um thriller cativante que nos entretém com uma boa história ao mesmo tempo que nos mostra a força que as mães têm para protegerem os seus filhos e nos faz pensar sobre o lado negro escondido em cada um de nós.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Opinião: A Luz da Noite

Título Original: The Last Days of Night (2016)
Organização: Graham Moore
Tradução: José Remelhe
ISBN: 9789896652876
Editora: Suma de Letras (2017)

Sinopse:

Nova Iorque, 1888. Lâmpadas a gás piscam ainda nas ruas da cidade, mas o milagre da luz elétrica está a nascer. Um jovem advogado sem experiência, Paul Cravath, aceita um caso que parece impossível de ganhar. O cliente de Paul, George Westinghouse, foi processado por Thomas Edison, o inventor da lâmpada elétrica, que defenderá a sua patente com unhas e dentes. Mas, então, quem inventou a lâmpada e detém o direito de iluminar a América? Este caso abre o caminho a Paul para o mundo inebriante da alta sociedade - as brilhantes festas no Gramercy Park Mansions e as relações mais insidiosas feitas à porta fechada. Ao mesmo tempo, coloca-o também no caminho de Nicola Tesla, o excêntrico e brilhante inventor, e de Agnes Huntington, uma cantora de ópera e uma artista impecável tanto dentro como fora de cena. Edison é um astuto e perigoso inimigo com vastos recursos à sua disposição - espiões privados, meios de comunicação do seu lado e o apoio financeiro de J.P. Morgan. Mas este desconhecido advogado partilha com o seu famoso adversário uma compulsão por vencer, custe o que custar.
A história fala desta luta, mas Graham Moore, o famoso guionista o oscarizado "O Jogo da Imitação", conta-a com tal pormenor que parece que também nós estamos ali, entre fórmulas matemáticas e cabos, nas grandes festas de Nova Iorque, assistindo em exclusivo a um espetáculo onde brilha a luz e a inteligência.

Opinião:

Comecei esta leitura com um miste de curiosidade e cepticismo. As boas críticas ao autor e o facto de ter escrito o argumento do filme "O Jogo da Imitação" faziam acreditar que iria encontrar uma trama envolvente, mas o facto de o tema principal poder conter demasiados conceitos e exposições científicas difíceis de compreender deixaram-me algo reticente. Apesar das dúvidas, agarrei este livro e percebi, logo nas primeiras páginas que o ia devorar com vontade. Foi isso mesmo que aconteceu.

A Luz da Noite recebe-nos na cidade de Nova Iorque de finais do século XIX e faz-nos testemunhar uma época de grandes mudanças. É impressionante ver como algo tão comum para nós como a eletricidade começou a dar os primeiros passos para a utilização rotineira. O autor consegue transmitir muito bem este ambiente de dúvida, receio e descrença pelo que é novo e aparentemente perigoso, ao mesmo tempo que nos mostra o entusiasmo da evolução. Mas estas são apenas as sensações gerais, pois no centro deste avanço único está uma verdadeira guerra entre figuras que ficaram para a história e outras ainda que, apesar de relevantes, não são hoje tão conhecidas.

Paul Cravath, um jovem e ambicioso advogado, aceita representar George Westinghouse num caso que o opõe a Thomas Edison. Este é um combante entre dois empresários de peso que desejam controlar o  mercado da eletricidade e levar esta energia a todo o país. É curioso assistir a este embate quando desde sempre fomos ensinados que um destes homens foi o inventor da lâmpada. É que o autor desafia-nos a pensar sobre o que é realmente uma invenção, como algo pode ser considerado criação de um homem quando existiram tantos outros antes que fizeram progressos significativos para se chegar a tal resultado. Existe a questão de até onde podem ir as adaptações e ainda a reflexão sobre os limites estabelecidos para a segurança em detrimento dos lucros e do orgulho pessoal.

O embate entre as figuras históricas tão nossas conhecidas é impressionante. Quando Nikolas Tesla surge, a narrativa ganha um brilho ainda maior. A certo ponto, percebemos que cada um destes homens procura o mesmo apesar de ter objetivos diferentes para esse fim. É impossível não admirar o facto de Edison ter criado uma verdadeira fábrica de ideias, ao mesmo tempo que não nos parece muito ético o facto de ele ficar com o crédito do trabalho de outro. O olho para o negócio de Westinghouse é pertinente, mas a forma não conseguimos concordar com todos os seus métodos. Admiramos o lado visionário e criativo de Tesla, mas não gostaríamos que ele também se dedicasse às aplicações práticas das suas invenções e descobertas. Juntos poderiam formar uma parceria incrível, mas encontram-se em lados opostos e proporcionam ao leitor uma história que não perde o interesse em qualquer momento.

Gostei que o autor tivesse preferido fazer a narração do ponto de vista do Paul Cravath. Assim, as figuras de maior peso não o abafam e deixam-no impressionar através do seu raciocínio. Os seus esquemas são interessantes e ajudam-nos a compreender melhor tudo o que está a acontecer. Afinal, o facto de ele não perceber bem as inovações faz com que seja utilizada uma linguagem acessível quando se fala de termos mais técnicos. E esses momentos são relevantes para a trama e bastante instrutivos.

O desenrolar dos acontecimentos não permite aborrecimentos. Os diálogos estão bem construídos, a intriga agarra, os momentos de acção são fortes e ainda há espaço para romance. A leitura avançou com rapidez, tal era a minha vontade de perceber de que o forma Paul iria conseguir ultrapassar todos obstáculos que foi encontrando. Quero confessar ainda que o meu interesse pela história levou-me a pesquisar a época e as principais figuras desta narrativa, tal era a vontade de saber mais sobre o que realmente tinha acontecido.

Este é um livro eletrizante que nos faz sentir entusiasmo constante, tal como se tivessemos naquela época a assistir a todas as inovações e descobertas. Nota-se perfeitamente que Graham Moore procedeu a uma pesquisa detalhada sobre esta época, figuras e acontecimentos, o que dá maior credibilidade à trama, apesar de se tratar de uma obra de ficção com inspiração em acontecimentos históricos. No final, percebi que as minhas dúvidas iniciais não tinham fundamento e senti-me muito satisfeita por me ter lançado nesta leitura. Ficou também a vontade de continuar a acompanhar o trabalho deste autor.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Opinião: O Homem que Perseguia a sua Sombra (Millennium #5)

Título Original: Mannen som sökte sin skugga (2017)
Organização: David Lagercrantz
Tradução: Agneta Öhrstrom
ISBN: 9789722063425
Editora: Publicações Dom Quixote (2017)

Sinopse:

Lisbeth Salander cumpre uma curta pena no estabelecimento prisional feminino de Flodberga e faz o possível por evitar qualquer conflito com as outras reclusas, mas ao proteger uma jovem do Bangladesh que ocupa a cela vizinha, é imediatamente desafiada por Benito, a reclusa que domina o bloco B. Holger Palmgren, o antigo tutor de Lisbeth, visita-a para lhe dizer que recebeu documentos que contêm informações sobre os abusos de que ela foi vítima em criança. Lisbeth pede ajuda a Mikael Blomvkist e juntos iniciam uma investigação que pode trazer à luz do dia uma das experiências mais terríveis implementadas na Suécia no século XX. Os indícios conduzem-nos a Leo Mannheimer, sócio da corretora de valores Alfred Ögren, com quem Lisbeth tem em comum muito mais do que algum deles podia pensar.

Opinião:

Reencontrar Lisbeth Salander é sempre um prazer. Trata-se de uma daquelas personagens que já conquistaram um lugar de destaque na literatura e sobre a qual queremos sempre saber mais. Em O Homem que Perseguia a sua Sombra, David Lagercrantz volta a pegar na obra de Stieg Larsson para dar continuidade ao seu trabalho. O passado desta heroína volta a ser um tema de grande importância, dando mote ao enredo que se desenvolve nestas páginas.

Desde logo achei curioso o facto de, através da história trágica da infância e adolescência de Lisbeth ser possível criar um novo thriller onde novas personagens são implicadas. Desta forma, percebemos melhor os contornos horríveis que a protagonista viveu e que a tornaram nesta mulher impressionante. Gostei que as novas descobertas fizessem sentido com tudo o resto e fiquei bastante interessada na questão dos gémeos que foi apresentada.

Existem enredos paralelos à trama principal, o que dá a sensação de há sempre algo a acontecer. Apesar das novas figuras, não achei que estas histórias se tornassem confusas, mas fizeram questionar o motivo para o autor ter preferido dispersar-se em vez de se concentrar numa só. Entendo o motivo de abranger questões sociais da atualidade, mas tal levou a que o tema centram acabasse por perder alguma força. Além disso, o trabalho em conjunto entre Lisbeth e Mikael Blomkvist acabou por ser pouco explorado, o que é uma pena, já que esta parceria proporcionou momentos bastante intensos noutras ocasiões.

Ainda que o assunto possa causar desconforto, achei interessante a questão do homem perfeito ser um produto socio-cultural e não genético. Tal justifica muito do que acontece na intriga principal, ainda que por meios pouco ortodoxos. A forma como os gémeos são colocados neste estudo remete-nos para o desrespeito pela vida humana e pelo outro, levando-nos, mais uma vez, a questionar abusos de poder que podem estar a existir na nossa sociedade sem que exista conhecimento de tal. O autor ainda faz-nos pensar sobre o sentido de pertença, tão importante para a estabilidade emocional.

Tal como aconteceu com os livros anteriores da saga, devorei este volume com vontade e avidez. Contudo, senti que a conclusão foi um pouco precipitada, e custou-me aceitar que Lisbeth se colocasse numa situação de tão grande perigo quando se encontrava bastante debilitada e não havia urgência na sua acção. Penso que tal aconteceu por ter sempre admirado a capacidade desta personagem de se manter fria e bastante racional na execução dos seus planos, reprimindo um lado emocional forte. Além disso, a intriga pareceu-me menos complexa, o que não me levou a sentir tão arrebatada pela história tal como aconteceu nos primeiros volumes.

O Homem que Perseguia a sua Sombra pode não ser o livro mais brilhante da coleção, mas tem o seu valor. A história prende, somos levados a imaginar diversas possibilidades consoante os dados que nos são apresentados e ainda obtemos mais informações sobre o passado de Lisbeth. O significado da tatuagem do dragão, tão marcante nesta figura, finalmente é desvendado e deixou-me bastante satisfeita. No final, fica ainda a ideia de que há muito mais para explorar e que novas aventuras da "Millennium" estão para chegar. Eu cá estarei à espera para as ler.

Opiniões a outros livros de desta saga:
Os Homens Que Odeiam as Mulheres (Millennium #1)
A Rapariga Que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo (Millennium #2)
A Rainha no Palácio das Correntes de Ar (Millennium #3)
A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha (Millennium #4)

Novidade da Planeta para Outubro

As Mulheres no Castelo, de Jessica Shattuck
Na guerra fizeram escolhas impossíveis, agora têm de viver com elas. Três mulheres, assombradas pelo passado. Marianne von Lingenfels volta ao castelo abandonado, dos ante-passados do marido. Para cumprir a promessa que fez aos corajosos companheiros do marido: encontrar e proteger as suas mulheres no meio das cinzas da derrota da Alemanha nazi. Um livro com uma pesquisa histórica rigorosa e que oferece um novo olhar e novas realidades da Segunda Guerra Mundial, um dos períodos mais lidos da nossa história.

Disponível a partir de dia 4.
 

domingo, 24 de setembro de 2017

Opinião: Mulheres Perigosas

Título Original: Dangerous Women (2013)
Organização: George R. R. Martin e Gardner Dozois
Tradução: Rui Azeredo
ISBN: 9789897730740
Editora: Saída de Emergência (2017)

Sinopse:

Atenção: o perigo está à espreita perto destas mulheres!
Se procura um livro em que mulheres infelizes ficam a choramingar de pavor enquanto o herói masculino combate o monstro ou choca espadas com o vilão, este livro não é para si.
Aqui encontrará mulheres guerreiras que brandem espadas, intrépidas pilotos de caças, formidáveis super-heroínas, femmes fatale astutas e sedutoras, feiticeiras, más raparigas duronas, bandidas e rebeldes, sobreviventes endurecidas em futuros pós-apocalípticos, rainhas altivas que governam nações e cujas invejas e ambições enviam milhares para mortes macabras, mulheres que não hesitam em assumir a liderança para defenderem aquilo em que acreditam.

Com organização de George R. R. Martin, que assina igualmente um conto passado no mundo de Westeros, e de Gardner Dozois, esta é uma antologia que cruza géneros literários e mistura todos os tipos de ficção, desde Megan Abbott a Brandon Sanderson.

Opinião:

Aqui está um antologia que me proporcionou grandes momentos de leitura. Em Mulheres Perigosas temos a oportunidade de conhecer várias histórias em que o principal ponto em comum é dar força e protagonismo ao sexo feminino. Assim sendo, ficamos a conhecer mulheres que não têm medo de arriscar e que deixam uma marca em todos os que com elas se encontram, quer seja de uma forma positiva ou não. George R. R. Martin e Gardner Dozois reuniram contos muito diferentes e que se inserem em diferentes géneros da ficção.

Joe Abercrombie dá-nos as boas-vindas a este livro com uma bandida muito engenhosa. Em "Completamente Perdida" somos cativados pelos detalhes da acção enquanto acabamos por torcer por uma criminosa de índole duvidosa que foge pelo Velho Oeste. "Ou o Meu Coração Está Destroçado", de Megan Abbott é um thriller que consegue perturbar graças às atitudes inesperadas e chocantes de uma mãe que perdeu a filha. Melinda M. Snodgrass optou pela ficção científica com "As Mãos Que Não Estão Lá", uma intriga muito interessante que nos faz pensar nas intrigas que existem atrás de posições de maior poder e no que e faz para chegar até lá.

O conto de Carrie Vaughn, "Raisa Stepanova", foi um dos que mais me cativou por abordar o lado russo da Segunda Guerra Mundial sob o ponto de vista de uma mulher que muito lutou para ser piloto. Gostei da intensidade das convicções desta figura e das muitas implicações históricas que desconhecia. "Eu Sei Escolhê-las a Dedo", de Lawrence Block, pode inserir-se no género do terror pela reviravolta inesperada e pelo facto de nos fazer duvidas das verdadeiras intenções dos outros. Adorei voltar a encontrar Brandon Sanderson, nesta vez num conto que faz lembrar a saga "Mistborn" devido às brumas na escuridão e aos elementos fantásticos com "Sombras para Silêncio nas Florestas do Inferno" somos cativados por uma personagem feminina que esconde a sua verdadeira força ao mesmo tempo que aceita a missão de enfrentar horrores indescritíveis.

Devorei o conto de Sharon Kay Penmam, "Uma Rainha no Exílio", tal foi o meu interesse por esta mulher que se entregou por completo à coroa, tanto que, no final, se colocou numa situação verdadeiramente humilhante com o fim de conquistar o apoio popular. "A Rapariga no Espelho" permitiu-me voltar a Brakebills, escola de magia criada por Lex Grossman. Confesso que esperava mais deste conto, mas ainda assim foi bom rever algumas figuras. Sam Sykes não conquista imediatamente com este "Dar Nome à Fera", mas com o decorrer da leitura começa a agarrar e no final transmite uma mensagem forte, apesar de previsível. "As Mentiras que a Minha Mãe Me Contou", de Caroline Spector permitiu-me conhecer de perto, pela primeira vez, o universo "Wild Cards" e fez-me ter vontade de ler mais sobre estes heróis.

A antologia termina com chave de ouro. George R. R. Martin revela-nos a verdadeira história da Dança dos Dragões e "A Princesa e a Rainha ou Os Negros e os Verdes". Este é o conto com mais páginas e também o mais forte. Adoro conhecer histórias que antecederam as "Crónicas de Gelo e Fogo" e esta leva-nos a uma verdadeira luta pelo Trono de Ferro disputada entre dois Targaryen. Mais uma vez, o autor apresenta-nos personagens que tanto nos conseguem cativar a simpatia como logo a seguir causar repulsa, mostrando que uma pessoa nunca é inteiramente boa ou má. As intrigas políticas e estratégias bélicas impressionam e fazem-nos sentir sempre no fio da navalha. Fiquei rendida à forte presença de dragões e de assistir à ligação entre estes seres e humanos.

Mulheres Perigosas é uma antologia que merece ser lida pela originalidade das histórias que apresenta como pela mensagem de que as mulheres não são nem nunca foram um sexo fraco. Através das figuras destas narrativas, somos levados a pensar sobre as dificuldades acrescidas que as mulheres enfrentaram e continuam a enfrentar no nosso mundo e nas formas engenhosas que muitas vezes são encontradas para que a igualdade e liberdade sejam alcançadas. Uma leitura que diverte e que não nos deixa esquecer que a força está na personalidade e não no género.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Opinião: Carry On - A História de Simon Snow

Título Original: Carry On (2015)
Autor: Rainbow Rowell
ISBN: 9789897730764
Tradução: Fernanda Semedo
Editora: Edições Saída de Emergência (2017)

Sinopse:

Na famosa Escola de Magia de Watford, Simon desempenha um papel especial: ele é o Escolhido, aquele que irá salvar todos do Mal. Mas a verdade é que, metade das vezes, Simon não consegue fazer a sua varinha funcionar, e, na outra metade, pega fogo a tudo. O seu mentor evita-o, a sua namorada deixou-o, e existe um monstro que se alimenta de magia e que utiliza o rosto de Simon. Para piorar as coisas, Baz, a némesis irritante de Simon, desapareceu. Só pode estar a preparar alguma! Carry On – A História de Simon Snow está repleto de fantasmas, amor, mistérios. Tem exatamente a quantidade de beijos e de conversa que seria de esperar numa história de Rainbow Rowell – mas muito, muito mais monstros.

Opinião:

Este foi o primeiro livro que li de Rainbow Rowell. É curioso pensar que as personagens desta obra já surgem noutro livro da autora, Fangirl, como heróis de uma coleção de fantasia, sendo que ganham agora espaço próprio para contarem as suas aventuras. Assim sendo, Carry On - A História de Simon Snow mostra a capacidade de pegar em sementes de ideias apresentadas noutros trabalhos e trabalhá-las até ganharem uma identidade própria.

Este é um livro leve, que diverte bastante. Ao início, é impossível não comparar as personagens e a escola de magia a Harry Potter, de J. K. Rowling. Existem alguns elementos de ligação, mas conforme a trama se vai desenvolvendo vai também seguindo uma direção completamente diferente. Não se pode dizer que os acontecimentos sejam inesperados, mas acabam por ser, sim, refrescantes.

A componente mais forte deste livro está nas relações. Rainbow Rowell percebe que as pessoas são complexas, que aquilo que deixam transparecer nem sempre corresponde ao que são ou até ao que pensam que são. Como tal, as ligações que estabelecem com outras personagens são aliciantes por parecerem verdadeiras. A autora o amor, a amizade, a família, o companheirismo, a rivalidade e a admiração com grande credibilidade.

Simon Snow é um protagonista a fazer lembrar os heróis de anime. Trapalhão, bondoso e atormentado, acaba por não gerar uma empatia imediata. Aliás, no  meu caso, esta ligação acabou por ser mais forte com Baz. É que Baz consegue explorar outras partes da sua personalidade que acabam por ser mais atrativas e diferenciadoras. Ele destaca-se por aparentar uma imagem de durão que pretende obter poder a todo o custo quando, na verdade, tem um passado que o continua a magoar e luta a tudo o custo contra os seus sentimentos com medo de ser magoado e, mais uma vez, abandonado. Assim sendo, Simon representa a emoção explosiva enquanto Baz é razão fria.

Gostei que a autora tentasse mostrar que não se pode ter nada como certo quando se analisam as relações. Raibow Rowell mostra que um rapaz e uma rapariga podem ter uma forte amizade um pelo outro sem segundas intenções, mas também nos faz pensar sobre como todos os outros veem sempre esta ligação com desconfiança. Esta análise de terceiros pode ser prejudicial para algo que era verdadeiro e puro. Mas o mais interessante é a abordagem que faz às relações homossexuais, não as tratando como diferentes das heterossexuais. Rowell fala sobre sentimentos verdadeiros e preconceito, sendo que este pode vir de fora mas também nos próprios apaixonados que receiam sofrer com a rejeição pela parte do outro.

O desenrolar da trama começa por não trazer grandes surpresas. A autora mostra-nos as personagens no seu último ano na escola de magia, fazendo algumas referências a outras aventuras que tiveram nos anos anteriores. Desta forma, o leitor vai conhecendo o dia a dia nesta instituição e a forma como todos se conheceram. Com o avançar da narrativa, surge a verdadeira ação. As revelações relacionadas com o inimigo são previsíveis, mas ainda assim gostei da justificação dada para o aparecimento de uma figura negra.

Os elementos mágicos poderiam estar melhor trabalhados. A autora acaba por cair em alguns clichés neste campo, não havendo propriamente uma noção de originalidade na apresentação ou criação de figuras ou componentes fantásticas. Tudo parece ser inspirado de uma outra história, não havendo grande inovação. O enredo não é o mais forte, mas as personagens conseguem cativar e manter o interesse pela história.

Carry On - A História de Simon Snow é um livro divertido, ótimo para quem gosta de elementos fantásticos e quer passar momentos descontraídos juntos de personagens jovens e inspiradoras.  A união e confiança são as mensagens mais fortes desta aventura, que tem como grande objetivo entreter o leitor.