Título Original: Mannen som sökte sin skugga (2017)
Autor: David Lagercrantz
Tradução: Agneta Öhrstrom
ISBN: 9789722063425
Editora: Publicações Dom Quixote (2017)
Sinopse:
Lisbeth Salander cumpre uma curta pena no estabelecimento prisional feminino de Flodberga e faz o possível por evitar qualquer conflito com as outras reclusas, mas ao proteger uma jovem do Bangladesh que ocupa a cela vizinha, é imediatamente desafiada por Benito, a reclusa que domina o bloco B. Holger Palmgren, o antigo tutor de Lisbeth, visita-a para lhe dizer que recebeu documentos que contêm informações sobre os abusos de que ela foi vítima em criança. Lisbeth pede ajuda a Mikael Blomvkist e juntos iniciam uma investigação que pode trazer à luz do dia uma das experiências mais terríveis implementadas na Suécia no século XX. Os indícios conduzem-nos a Leo Mannheimer, sócio da corretora de valores Alfred Ögren, com quem Lisbeth tem em comum muito mais do que algum deles podia pensar.
Opinião:
Reencontrar Lisbeth Salander é sempre um prazer. Trata-se de uma daquelas personagens que já conquistaram um lugar de destaque na literatura e sobre a qual queremos sempre saber mais. Em O Homem que Perseguia a sua Sombra, David Lagercrantz volta a pegar na obra de Stieg Larsson para dar continuidade ao seu trabalho. O passado desta heroína volta a ser um tema de grande importância, dando mote ao enredo que se desenvolve nestas páginas.
Desde logo achei curioso o facto de, através da história trágica da infância e adolescência de Lisbeth ser possível criar um novo thriller onde novas personagens são implicadas. Desta forma, percebemos melhor os contornos horríveis que a protagonista viveu e que a tornaram nesta mulher impressionante. Gostei que as novas descobertas fizessem sentido com tudo o resto e fiquei bastante interessada na questão dos gémeos que foi apresentada.
Existem enredos paralelos à trama principal, o que dá a sensação de há sempre algo a acontecer. Apesar das novas figuras, não achei que estas histórias se tornassem confusas, mas fizeram questionar o motivo para o autor ter preferido dispersar-se em vez de se concentrar numa só. Entendo o motivo de abranger questões sociais da atualidade, mas tal levou a que o tema centram acabasse por perder alguma força. Além disso, o trabalho em conjunto entre Lisbeth e Mikael Blomkvist acabou por ser pouco explorado, o que é uma pena, já que esta parceria proporcionou momentos bastante intensos noutras ocasiões.
Ainda que o assunto possa causar desconforto, achei interessante a questão do homem perfeito ser um produto socio-cultural e não genético. Tal justifica muito do que acontece na intriga principal, ainda que por meios pouco ortodoxos. A forma como os gémeos são colocados neste estudo remete-nos para o desrespeito pela vida humana e pelo outro, levando-nos, mais uma vez, a questionar abusos de poder que podem estar a existir na nossa sociedade sem que exista conhecimento de tal. O autor ainda faz-nos pensar sobre o sentido de pertença, tão importante para a estabilidade emocional.
Tal como aconteceu com os livros anteriores da saga, devorei este volume com vontade e avidez. Contudo, senti que a conclusão foi um pouco precipitada, e custou-me aceitar que Lisbeth se colocasse numa situação de tão grande perigo quando se encontrava bastante debilitada e não havia urgência na sua acção. Penso que tal aconteceu por ter sempre admirado a capacidade desta personagem de se manter fria e bastante racional na execução dos seus planos, reprimindo um lado emocional forte. Além disso, a intriga pareceu-me menos complexa, o que não me levou a sentir tão arrebatada pela história tal como aconteceu nos primeiros volumes.
O Homem que Perseguia a sua Sombra pode não ser o livro mais brilhante da coleção, mas tem o seu valor. A história prende, somos levados a imaginar diversas possibilidades consoante os dados que nos são apresentados e ainda obtemos mais informações sobre o passado de Lisbeth. O significado da tatuagem do dragão, tão marcante nesta figura, finalmente é desvendado e deixou-me bastante satisfeita. No final, fica ainda a ideia de que há muito mais para explorar e que novas aventuras da "Millennium" estão para chegar. Eu cá estarei à espera para as ler.
Opiniões a outros livros de desta saga:
Os Homens Que Odeiam as Mulheres (Millennium #1)
A Rapariga Que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo (Millennium #2)
A Rainha no Palácio das Correntes de Ar (Millennium #3)
A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha (Millennium #4)
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segunda-feira, 25 de setembro de 2017
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Opinião: A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha (Millennium #4)
Título Original: Det som inte dödar oss (2015)
Autor: David Lagercrantz
Tradução: Jaime Bernardes
ISBN: 9789897541643
Editora: Publicações D. Quixote (2015)
Sinopse:
Neste thriller carregado de adrenalina, a genial hacker Lisbeth Salander e o jornalista Mikael Blomkvist enfrentam uma nova e perigosa ameaça que os leva mais uma vez a unir as suas forças. Uma noite, Blomkvist recebe um telefonema de uma fonte confiável declarando ter informação vital para os Estados Unidos. A fonte tinha estado em contacto com uma jovem mulher, uma super-hacker que se parecia com alguém que Blomkvist conhecia bem de mais. As consequências são surpreendentes. Blomkvist, a precisar urgentemente de um furo jornalístico para a Millennium, pede ajuda a Lisbeth, que, como habitualmente, tem a sua agenda própria.
Opinião:
Quando terminei de ler A Rainha do Palácio das Correntes de Ar, pensei que nunca mais iria acompanhar Lisbeth Salander, uma das personagens mais interessantes da literatura policial. Afinal, Stieg Larsson, o autor de "Millennium", perdeu a vida antes de terminar esta saga que idealizava como tendo 10 volumes. Escreveu três e parecia que tudo iria ficar por aí. Mas David Lagercrantz, também jornalista de investigação, foi convidado para dar continuidade a esta saga de sucesso. Como tal, começou por escrever A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha.
Quando soube da publicações deste livro fiquei entusiasmada, mas também surgiram algumas dúvidas. Afinal, iria o novo autor manter-se fiel ao estilo de Larsson? Reconheceria as personagens? O enredo seria envolvente como os anteriores? Como tal, comecei a leitura um pouco de pé atrás, mas depressa vi-me envolvida nesta nova história. O mistério continua a ser uma constante e as revelações finais surpreendem. E as personagens estão tal e qual como as recordava.
Existem muitas figuras que estão de volta. Mikael Blomkvist está a atravessar uma crise que parece bastante plausível. A forma como ele se envolve nos acontecimentos demonstram a sua vocação profissional mas também o lado humano. Já Lisbeth, que volta a não surgir logo nas primeiras páginas, continua a ser uma verdadeira delícia. É impossível não se ficar intrigado com esta mulher que é dotada de uma grande inteligência. É verdade que gostaria de a ter visto mais, mas o seu contributo volta a ser imprescindível.
Desta vez, Blomkvist e Lisbeth deparam-se com um caso que está relacionado com segurança nacional e questões de privacidade tecnológica. Ao longo da leitura, existem muitos acontecimentos e crimes que parecem não ter qualquer ligação. O início chega mesmo a ser muito lento e o confesso que existem fases em que tudo chega a ser confuso, pois parece que existe mais de uma história a ser contada. Porém, com o avançar das páginas percebe-se que tudo esteve sempre relacionado, e é impressionante ver de que forma o autor conseguiu unir todos os pontos sem deixar grandes questões.
Gostei que o autismo fosse um dos temas centrais da obra, e a caracterização de August estava muito bem conseguida. Mas aquilo que mais me agradou acabou por ser a ligação do passado de Lisbeth com os acontecimentos atuais. Quando pensávamos que ela já tinha derrotado o seu grande inimigo, Alexander Zalachenko, surge uma nova e perigosa figura. É uma daquelas personagens cuja personalidade odiamos, mas que tem uma construção que nos prende e faz ter vontade de saber mais. As suas ações neste volume mostram que se trata de alguém capaz de tudo, e fica agora a curiosidade sobre o seu futuro e embate mais direto com Lisbeth.
As atividades de hacker voltam a ser bastante usadas neste volume, e as capacidades de Lisbeth voltam a fazer-nos sorrir de tão ousadas e inteligentes que são. Neste campo, surgem novas e interessantes figuras, com destaque para Ed Needham, um homem que gera dúvidas quanto aos seus verdadeiros propósitos mas que tem uma personalidade que diverte o leitor.
Fiquei muito agradada com o trabalho que David Lagercrantz. Acredito que tenha sido necessária coragem para assumir uma saga que tantos fãs conquistou, mas ele fez um bom trabalho. Para mim, este não é o volume mais forte da saga, mas revela os mesmo ingredientes que Larsson usou e sugere que fica muito e aberto para dar continuação à série. Fiquei convencida e vou querer continuar a acompanhar.
Outras opiniões a livros da saga "Millennium":
Os Homens que Odeiam as Mulheres (Millennium #1)
A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo (Millennium #2)
A Rainha do Palácio das Correntes de Ar (Millennium #3)
Autor: David Lagercrantz
Tradução: Jaime Bernardes
ISBN: 9789897541643
Editora: Publicações D. Quixote (2015)
Sinopse:
Neste thriller carregado de adrenalina, a genial hacker Lisbeth Salander e o jornalista Mikael Blomkvist enfrentam uma nova e perigosa ameaça que os leva mais uma vez a unir as suas forças. Uma noite, Blomkvist recebe um telefonema de uma fonte confiável declarando ter informação vital para os Estados Unidos. A fonte tinha estado em contacto com uma jovem mulher, uma super-hacker que se parecia com alguém que Blomkvist conhecia bem de mais. As consequências são surpreendentes. Blomkvist, a precisar urgentemente de um furo jornalístico para a Millennium, pede ajuda a Lisbeth, que, como habitualmente, tem a sua agenda própria.
Opinião:
Quando terminei de ler A Rainha do Palácio das Correntes de Ar, pensei que nunca mais iria acompanhar Lisbeth Salander, uma das personagens mais interessantes da literatura policial. Afinal, Stieg Larsson, o autor de "Millennium", perdeu a vida antes de terminar esta saga que idealizava como tendo 10 volumes. Escreveu três e parecia que tudo iria ficar por aí. Mas David Lagercrantz, também jornalista de investigação, foi convidado para dar continuidade a esta saga de sucesso. Como tal, começou por escrever A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha.
Quando soube da publicações deste livro fiquei entusiasmada, mas também surgiram algumas dúvidas. Afinal, iria o novo autor manter-se fiel ao estilo de Larsson? Reconheceria as personagens? O enredo seria envolvente como os anteriores? Como tal, comecei a leitura um pouco de pé atrás, mas depressa vi-me envolvida nesta nova história. O mistério continua a ser uma constante e as revelações finais surpreendem. E as personagens estão tal e qual como as recordava.
Existem muitas figuras que estão de volta. Mikael Blomkvist está a atravessar uma crise que parece bastante plausível. A forma como ele se envolve nos acontecimentos demonstram a sua vocação profissional mas também o lado humano. Já Lisbeth, que volta a não surgir logo nas primeiras páginas, continua a ser uma verdadeira delícia. É impossível não se ficar intrigado com esta mulher que é dotada de uma grande inteligência. É verdade que gostaria de a ter visto mais, mas o seu contributo volta a ser imprescindível.
Desta vez, Blomkvist e Lisbeth deparam-se com um caso que está relacionado com segurança nacional e questões de privacidade tecnológica. Ao longo da leitura, existem muitos acontecimentos e crimes que parecem não ter qualquer ligação. O início chega mesmo a ser muito lento e o confesso que existem fases em que tudo chega a ser confuso, pois parece que existe mais de uma história a ser contada. Porém, com o avançar das páginas percebe-se que tudo esteve sempre relacionado, e é impressionante ver de que forma o autor conseguiu unir todos os pontos sem deixar grandes questões.
Gostei que o autismo fosse um dos temas centrais da obra, e a caracterização de August estava muito bem conseguida. Mas aquilo que mais me agradou acabou por ser a ligação do passado de Lisbeth com os acontecimentos atuais. Quando pensávamos que ela já tinha derrotado o seu grande inimigo, Alexander Zalachenko, surge uma nova e perigosa figura. É uma daquelas personagens cuja personalidade odiamos, mas que tem uma construção que nos prende e faz ter vontade de saber mais. As suas ações neste volume mostram que se trata de alguém capaz de tudo, e fica agora a curiosidade sobre o seu futuro e embate mais direto com Lisbeth.
As atividades de hacker voltam a ser bastante usadas neste volume, e as capacidades de Lisbeth voltam a fazer-nos sorrir de tão ousadas e inteligentes que são. Neste campo, surgem novas e interessantes figuras, com destaque para Ed Needham, um homem que gera dúvidas quanto aos seus verdadeiros propósitos mas que tem uma personalidade que diverte o leitor.
Fiquei muito agradada com o trabalho que David Lagercrantz. Acredito que tenha sido necessária coragem para assumir uma saga que tantos fãs conquistou, mas ele fez um bom trabalho. Para mim, este não é o volume mais forte da saga, mas revela os mesmo ingredientes que Larsson usou e sugere que fica muito e aberto para dar continuação à série. Fiquei convencida e vou querer continuar a acompanhar.
Outras opiniões a livros da saga "Millennium":
Os Homens que Odeiam as Mulheres (Millennium #1)
A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo (Millennium #2)
A Rainha do Palácio das Correntes de Ar (Millennium #3)
terça-feira, 30 de julho de 2013
Opinião: Artemis Fowl e o Ouro das Fadas
Autor: Eoin Colfer
Tradução: Maria Eduarda Colares
ISBN: 9722022245
Editora: Dom Quixote (2001)
Sinopse:
Com apenas 12 anos e uma prodigiosa inteligência criminal, Artemis Fowl vê-se envolvido num estranho e poderoso mundo: ao raptar uma criatura do Povo das Fadas, defronta-se com a capitã Holly Short da LEPrecon e com um perigoso exército de gnomos, fadas, duendes, elfos e trolls munidos de armas muito avançadas.
Opinião:
Tradução: Maria Eduarda Colares
ISBN: 9722022245
Editora: Dom Quixote (2001)
Sinopse:
Com apenas 12 anos e uma prodigiosa inteligência criminal, Artemis Fowl vê-se envolvido num estranho e poderoso mundo: ao raptar uma criatura do Povo das Fadas, defronta-se com a capitã Holly Short da LEPrecon e com um perigoso exército de gnomos, fadas, duendes, elfos e trolls munidos de armas muito avançadas.
Opinião:
Professor e autor de livros infantis, Eoin Colfer obteve o reconhecimento internacional com a série protagonizada pelo anti-herói Artemis Fowl.
“Como é que se pode descrever Artemis Fowl? Vários psiquiatras tentaram, mas falharam. O principal problema é a própria inteligência de Artemis. Ele consegue sempre dar a volta a todos os testes que lhe são feitos. Conseguiu baralhar os maiores cérebros da medicina e atirou com muitos deles para os seus próprios hospitais, sem conseguirem dizer coisa com coisa.”
É com estas palavras que este controverso protagonista é apresentado. Com apenas 12 anos, Artemis é um génio criminoso, responsável por grandes golpes. Proveniente de uma família abastada, vê a sua vida dar uma grande volta quando o pai desaparece. Para além do choque causado pela perda de alguém que ama, aproveita a oportunidade de liberdade para dar largas à sua mente e conseguir concretizar atividades pouco moralistas.
Apesar de ser um jovem dotado de inteligência ímpar, Artemis também é um jovem que se fascina facilmente pela magia, e é assim que começa a explorar antigas lendas e contos, de modo a encontrar o ouro destas criaturas místicas, uma vez que o seu grande objetivo é recuperar a fortuna da família. Deste modo, vê-se rapidamente envolvido num mundo secreto aos humanos, onde fadas, centauros, trolls e anões coexistem. Contudo, este seres estão longe de serem considerados primitivos ou de se apresentarem como o folclore sugere. Artemis Fowl vai-se deparar com entidades dotadas de tecnologia superior e que se revelam um verdadeiro desafio
Este é um livro que vai fazer as delícias do leitor jovem e sedento de tramas fantásticas que o surpreendam. Para este leitor, a novidade poderá surgir por o protagonista não ser o herói valoroso e cheio de boas intenções. Artemis é calculista, interesseiro, egoísta e impertinente, e isso depressa surge como um dos pontos mais cativantes. O leitor acompanha os seus planos onde não se olha a meios para atingir fins. A relação deste estranho jovem com o seu mordomo também é um fator de interesse.
Também a sociedade dos Seres se revela interessante, na medida em que se tratam de criaturas mágicas que sentiram necessidade de desenvolver a sua tecnologia, de modo a contornar a questão humana. Neste contexto o destaque vai para Holly Short, uma elfo que pertence à Polícia do Subsolo.
A escrita é simples, fácil de acompanhar e a trama está repleta de cenas de ação. Todavia, é importante ter em conta que se trata de uma obra destinada a um público juvenil e, por isso mesmo, o leitor mais adulto poderá sentir que alguns dos acontecimentos são previsíveis ou demasiado básicos.
Uma obra interessante e uma leitura fundamental para o jovem que aprecia o género fantástico.
Nota:
Esta obra foi relançada mais recentemente pela Vogais. Ver aqui.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Opinião: Os Antiquários
Título Original: Los Antiquários (2013)
Autor: Pablo De Santis
Tradução: Helena Pitta
ISBN: 9789722048835
Editora: Pubicações Dom Quixote (2013)
Sinopse:
Os antiquários vivem escondidos, sempre rodeados por objetos do passado, em velhas livrarias ou lojas de antiguidades. Não suportam as mudanças nem o presente, são colecionadores. Têm a capacidade de evocar nos outros o rosto ou os gestos de pessoas que morreram. Aprenderam a controlar a sede primordial. Mas quando se sentem atacados, o antigo apetite regressa…
A partir de um incidente, Santiago Lebrón ficará contaminado, transformado em mais um antiquário. E enquanto descobre os segredos dessa antiga tradição, conhecerá o amor estranho, poderoso e perturbador provocado pela sede de sangue. Terá também de descobrir as estratégias de sobrevivência num mundo hostil. Entre elas, a obrigação de acabar com a vida daqueles que cedem à sede, para que a tradição possa continuar na sombra.
Reinventando o mito dos vampiros de forma inteligente, e afastando-se das abordagens corriqueiras da literatura do género dos últimos anos, Pablo de Santis volta a deslumbrar-nos com um notável romance onde seres melancólicos, que habitam espaços repletos de nostalgia, e sobretudo de livros, vivem reclusos.
Opinião:
Pablo De Santis apresenta uma visão diferente, mas apoiada em conceitos tradicionais, do mito vampírico com Os Antiquários. A trama decorre durante a primeira metade do século XX, na Argentina.
Santiago Lebrón é o protagonista da trama. Jovem igual a tantos outros, que procura o seu lugar no mundo, começa por ajudar um tio a concertar máquinas de escrever. A morte repentina de um jornalista leva-o a ser convidado a assumir aquele lugar, o que lhe abrirá portas para uma realidade inesperada.
Responsável por uma coluna dedicada ao oculto, Santiago vai perceber que muitas das histórias em que não acreditava são, afinal, verdadeiras. O jovem começa a embrenhar-se nesta realidade, o que o levará a conhecer novas pessoas e, sobretudo, a ter uma maior consciência de quem realmente é.
Nesta narrativa, raramente o autor apresenta os vampiros com este nome. Eles são os antiquários. Os antiquários surgem com base numa infecção transmissível. A transformação leva-os a possuírem uma série de características peculiares:
Para além disso, sentem ainda a chamada “sede primordial”, que corresponde à alimentação com base no sangue humano. Contudo, estes seres conseguiram desenvolver uma forma de se manterem vivos sem ameaçar a vida humana. Isso levou-os a refugiarem-se cada vez e a parecerem mais eremitas do que os tradicionais vampiros que saem à noite para se alimentarem. Este é um conceito novo e muito cativante.
O protagonista está bem construído e o leitor consegue justificar as suas obsessões. As personagens secundárias possuem profundidade e parecem reais. Destaco Luísa, a mulher amada, e Calisser, o mentor.
Com o decorrer da leitura, torna-se visível que é possível dividir a narrativa em três fases: Santiago jovem e sem consciência do que o rodeia; Santiago quando contacta com o oculto; Santiago quando se transforma. O protagonista evolui ao longo de cada fase, sendo inevitável a comparação com as três fases da vida: juventude, maturidade e velhice.
O estilo de escrita de Pablo De Santis cativa pela sua aparente simplicidade, embelezada por metáforas fluídas. Contudo, a primeira parte poderá parecer demasiado extensa, já que o lado mais místico da obra não é logo revelado.
O final é adequado, mas fica a sensação que ficou muito por explicar e descobrir. O leitor vai desejar ter conhecido melhor os antiquários, a sua origem, evolução, o que os levou a procurar viver de forma pacífica em vez de preferirem a dominação típica de predador-presa. Fica também a vontade de ter conhecido melhor os outros antiquários que foram surgindo ao longo da trama e que conseguiram seduzir através das suas obsessões pelo coleccionismo. Este impulso de guardar tudo acaba por fazer reflectir sobre a necessidade de estes seres terem alguma ordem e poder nas suas existências, uma vez que a vida humana e a liberdade lhes foi retirada.
Os Antiquários revela-se uma leitura agradável e uma lufada de ar fresco para mitologia vampírica.
Autor: Pablo De Santis
Tradução: Helena Pitta
ISBN: 9789722048835
Editora: Pubicações Dom Quixote (2013)
Sinopse:
Os antiquários vivem escondidos, sempre rodeados por objetos do passado, em velhas livrarias ou lojas de antiguidades. Não suportam as mudanças nem o presente, são colecionadores. Têm a capacidade de evocar nos outros o rosto ou os gestos de pessoas que morreram. Aprenderam a controlar a sede primordial. Mas quando se sentem atacados, o antigo apetite regressa…
A partir de um incidente, Santiago Lebrón ficará contaminado, transformado em mais um antiquário. E enquanto descobre os segredos dessa antiga tradição, conhecerá o amor estranho, poderoso e perturbador provocado pela sede de sangue. Terá também de descobrir as estratégias de sobrevivência num mundo hostil. Entre elas, a obrigação de acabar com a vida daqueles que cedem à sede, para que a tradição possa continuar na sombra.
Reinventando o mito dos vampiros de forma inteligente, e afastando-se das abordagens corriqueiras da literatura do género dos últimos anos, Pablo de Santis volta a deslumbrar-nos com um notável romance onde seres melancólicos, que habitam espaços repletos de nostalgia, e sobretudo de livros, vivem reclusos.
Opinião:
Pablo De Santis apresenta uma visão diferente, mas apoiada em conceitos tradicionais, do mito vampírico com Os Antiquários. A trama decorre durante a primeira metade do século XX, na Argentina.
Santiago Lebrón é o protagonista da trama. Jovem igual a tantos outros, que procura o seu lugar no mundo, começa por ajudar um tio a concertar máquinas de escrever. A morte repentina de um jornalista leva-o a ser convidado a assumir aquele lugar, o que lhe abrirá portas para uma realidade inesperada.
Responsável por uma coluna dedicada ao oculto, Santiago vai perceber que muitas das histórias em que não acreditava são, afinal, verdadeiras. O jovem começa a embrenhar-se nesta realidade, o que o levará a conhecer novas pessoas e, sobretudo, a ter uma maior consciência de quem realmente é.
Nesta narrativa, raramente o autor apresenta os vampiros com este nome. Eles são os antiquários. Os antiquários surgem com base numa infecção transmissível. A transformação leva-os a possuírem uma série de características peculiares:
"Escondem-se da luz. Formam à sua volta um círculo de coisas velhas. São colecionadores por natureza. Fogem da mudança".
Para além disso, sentem ainda a chamada “sede primordial”, que corresponde à alimentação com base no sangue humano. Contudo, estes seres conseguiram desenvolver uma forma de se manterem vivos sem ameaçar a vida humana. Isso levou-os a refugiarem-se cada vez e a parecerem mais eremitas do que os tradicionais vampiros que saem à noite para se alimentarem. Este é um conceito novo e muito cativante.
O protagonista está bem construído e o leitor consegue justificar as suas obsessões. As personagens secundárias possuem profundidade e parecem reais. Destaco Luísa, a mulher amada, e Calisser, o mentor.
Com o decorrer da leitura, torna-se visível que é possível dividir a narrativa em três fases: Santiago jovem e sem consciência do que o rodeia; Santiago quando contacta com o oculto; Santiago quando se transforma. O protagonista evolui ao longo de cada fase, sendo inevitável a comparação com as três fases da vida: juventude, maturidade e velhice.
O estilo de escrita de Pablo De Santis cativa pela sua aparente simplicidade, embelezada por metáforas fluídas. Contudo, a primeira parte poderá parecer demasiado extensa, já que o lado mais místico da obra não é logo revelado.
O final é adequado, mas fica a sensação que ficou muito por explicar e descobrir. O leitor vai desejar ter conhecido melhor os antiquários, a sua origem, evolução, o que os levou a procurar viver de forma pacífica em vez de preferirem a dominação típica de predador-presa. Fica também a vontade de ter conhecido melhor os outros antiquários que foram surgindo ao longo da trama e que conseguiram seduzir através das suas obsessões pelo coleccionismo. Este impulso de guardar tudo acaba por fazer reflectir sobre a necessidade de estes seres terem alguma ordem e poder nas suas existências, uma vez que a vida humana e a liberdade lhes foi retirada.
Os Antiquários revela-se uma leitura agradável e uma lufada de ar fresco para mitologia vampírica.
sábado, 22 de dezembro de 2012
Opinião: Limite
Título original: Limit (2009)
Autor: Frank Schätzing
Tradutor: Dora Reis
ISBN: 9789722039895
Editora: Publicações Dom Quixote (2012)
Sinopse:
Maio de 2025: o fornecimento energético da Terra parece estar assegurado, desde que os Estados Unidos começaram a extrair Hélio-3 da Lua. As tecnologias pioneiras da corporação gigante Orley Enterprises revolucionaram a aeronáutica; americanos e chineses disputam direitos de exploração numa renhida corrida espacial.
A ação transporta-nos para o meio das tumultuosas guerras mercenárias africanas, uma contenda pelo petróleo e energias alternativas, onde imperam ambições de domínio espacial - acabando depois na Lua, onde um grupo de viajantes de Orley se vê subitamente confrontado com uma ameaça mortífera.
Opinião:
Limite é divulgado como um romance onde se trava uma batalha pelos recursos energéticos, mas revela ser mais que isso.
A ação tem lugar em 2025, época em que o petróleo deixa de ser a principal fonte de energia, em detrimento do Hélio-3, extraído da Lua. A Orley Enterprises, um gigante corporativo dos Estados Unidos da América, detém as tecnologias que permitem a exploração deste combustível e disputam com a China os direitos sobre a corrida espacial. Julian Orley, o excêntrico dono da corporação, chama uma série de convidados ilustres para uma viagem de lazer a um hotel construído no satélite natural, procurando, com isso, obter parcerias vantajosas.
Ao mesmo tempo, o detetive Owen Jericho, especializado em sistemas de redes informáticas, a viver em Xangai, fica encarregue de encontrar Yoyo, uma dissidente desaparecida. Owen rapidamente descobre que os motivos por trás da fuga da jovem rapariga vão muito além de problemas com o governo chinês. Envolvido numa conspiração maior do que pensava, acaba por fazer uma viagem de risco entre o Berlin e Londres, de modo a entender as informações secretas que colocaram Yoyo em risco de vida.
O leitor, inicialmente, poderá deparar-se com alguma confusão relativamente aos dois enredos, que parecem tão distintos e sem pontos de ligação e, a certo ponto, um pouco aborrecidos. Contudo, essa sensação rapidamente desvanece. A verdade é que o autor os trata dessa forma, numa primeira fase, talvez num modo de levar à criação de intimidade entre o leitor e as muitas personagens existentes, que são descritas com grande detalhe.
Com o decorrer da narrativa, percebe-se onde estão os pontos que ligam as duas histórias que, inicialmente, pareciam distintas, e a leitura acaba por ganhar um ritmo mais acelerado.
Frank Schatzing prova que não só possui uma escrita fluída e clara, como tem uma grande capacidade de criar histórias complexas que proporcionam muitas surpresas agradáveis. Destaca-se ainda os seus conhecimentos de diferentes áreas, tais como tecnologia espacial, reações de mercado e informática, que refletem um trabalho de pesquisa aprofundado. Porém, existem certos momentos onde as extensas descrições destes conteúdos que podem travar o ritmo da leitura, e até fazer questionar quanto necessidade de estarem na obra.
As personagens são um ponto interessante de Limite. O leitor percebe rapidamente os seus intentos, contudo, algumas com menor relevância poderão surgir dentro de estereótipos demasiado previsíveis. No final da obra, é possível encontrar um guião de personagens, o que ajuda, em muito, a orientação na narrativa.
É visível que o grande intuito de Frank Schatzing foi provocar a reflexão sobre as necessidades energéticas do mundo contemporâneo, mas sobretudo, quanto ao jogo de domínio que existe, e que não é tão perceptível quanto pode parecer. Mais do que disputas entre governos, o autor mostra que o poder nem sempre está nas mãos de entidades conhecidas. Em Limite, as facções mais poderosas do mundo iniciam uma nova luta não armada pela posse dos territórios detentores do tão precioso combustível, gerando a reflexão sobre a divisão dos espaços exteriores ao nosso planeta. Paralelamente, assiste-se a outros detalhes de grande interesse, tal como a evolução das redes sociais que levam à existências de vidas completamente virtuais e ao facto de a história repetir sempre os mesmo erros.
O número de páginas desta edição (1095), assim como o tamanho de letra e as pequenas margens podem não cativar inicialmente, mas a verdade é que Limite revela ser uma boa trama, que não só proporciona bons momentos como ainda faz reflectir acerca do mundo atual e do futuro. Um livro a ter em atenção.
Autor: Frank Schätzing
Tradutor: Dora Reis
ISBN: 9789722039895
Editora: Publicações Dom Quixote (2012)
Sinopse:
Maio de 2025: o fornecimento energético da Terra parece estar assegurado, desde que os Estados Unidos começaram a extrair Hélio-3 da Lua. As tecnologias pioneiras da corporação gigante Orley Enterprises revolucionaram a aeronáutica; americanos e chineses disputam direitos de exploração numa renhida corrida espacial.
A ação transporta-nos para o meio das tumultuosas guerras mercenárias africanas, uma contenda pelo petróleo e energias alternativas, onde imperam ambições de domínio espacial - acabando depois na Lua, onde um grupo de viajantes de Orley se vê subitamente confrontado com uma ameaça mortífera.
Opinião:
Limite é divulgado como um romance onde se trava uma batalha pelos recursos energéticos, mas revela ser mais que isso.
A ação tem lugar em 2025, época em que o petróleo deixa de ser a principal fonte de energia, em detrimento do Hélio-3, extraído da Lua. A Orley Enterprises, um gigante corporativo dos Estados Unidos da América, detém as tecnologias que permitem a exploração deste combustível e disputam com a China os direitos sobre a corrida espacial. Julian Orley, o excêntrico dono da corporação, chama uma série de convidados ilustres para uma viagem de lazer a um hotel construído no satélite natural, procurando, com isso, obter parcerias vantajosas.
Ao mesmo tempo, o detetive Owen Jericho, especializado em sistemas de redes informáticas, a viver em Xangai, fica encarregue de encontrar Yoyo, uma dissidente desaparecida. Owen rapidamente descobre que os motivos por trás da fuga da jovem rapariga vão muito além de problemas com o governo chinês. Envolvido numa conspiração maior do que pensava, acaba por fazer uma viagem de risco entre o Berlin e Londres, de modo a entender as informações secretas que colocaram Yoyo em risco de vida.
O leitor, inicialmente, poderá deparar-se com alguma confusão relativamente aos dois enredos, que parecem tão distintos e sem pontos de ligação e, a certo ponto, um pouco aborrecidos. Contudo, essa sensação rapidamente desvanece. A verdade é que o autor os trata dessa forma, numa primeira fase, talvez num modo de levar à criação de intimidade entre o leitor e as muitas personagens existentes, que são descritas com grande detalhe.
Com o decorrer da narrativa, percebe-se onde estão os pontos que ligam as duas histórias que, inicialmente, pareciam distintas, e a leitura acaba por ganhar um ritmo mais acelerado.
Frank Schatzing prova que não só possui uma escrita fluída e clara, como tem uma grande capacidade de criar histórias complexas que proporcionam muitas surpresas agradáveis. Destaca-se ainda os seus conhecimentos de diferentes áreas, tais como tecnologia espacial, reações de mercado e informática, que refletem um trabalho de pesquisa aprofundado. Porém, existem certos momentos onde as extensas descrições destes conteúdos que podem travar o ritmo da leitura, e até fazer questionar quanto necessidade de estarem na obra.
As personagens são um ponto interessante de Limite. O leitor percebe rapidamente os seus intentos, contudo, algumas com menor relevância poderão surgir dentro de estereótipos demasiado previsíveis. No final da obra, é possível encontrar um guião de personagens, o que ajuda, em muito, a orientação na narrativa.
É visível que o grande intuito de Frank Schatzing foi provocar a reflexão sobre as necessidades energéticas do mundo contemporâneo, mas sobretudo, quanto ao jogo de domínio que existe, e que não é tão perceptível quanto pode parecer. Mais do que disputas entre governos, o autor mostra que o poder nem sempre está nas mãos de entidades conhecidas. Em Limite, as facções mais poderosas do mundo iniciam uma nova luta não armada pela posse dos territórios detentores do tão precioso combustível, gerando a reflexão sobre a divisão dos espaços exteriores ao nosso planeta. Paralelamente, assiste-se a outros detalhes de grande interesse, tal como a evolução das redes sociais que levam à existências de vidas completamente virtuais e ao facto de a história repetir sempre os mesmo erros.
O número de páginas desta edição (1095), assim como o tamanho de letra e as pequenas margens podem não cativar inicialmente, mas a verdade é que Limite revela ser uma boa trama, que não só proporciona bons momentos como ainda faz reflectir acerca do mundo atual e do futuro. Um livro a ter em atenção.
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