Mostrar mensagens com a etiqueta Anne Bishop. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Anne Bishop. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Opinião: Cartas de Profecia (Os Outros #5)

Título Original: Etched in Bone (2017)
Autor:  Anne Bishop
Tradução: Luís Santos
ISBN: 9789897730863
Editora: Edições Saída de Emergência (2017)

Sinopse:

Depois de uma insurreição humana ter sido brutalmente abortada pelos Anciãos – uma forma primitiva e letal de Os Outros –, as poucas cidades que os humanos controlam estão dispersas. Os seus habitantes conhecem apenas o medo e a escuridão da terra de ninguém.
À medida que algumas dessas comunidades lutam para se reconstruir, Simon Wolfgard, o líder lobo metamorfo, e Meg Corbyn, a profetisa de sangue, trabalham com os humanos para manter a frágil paz. Mas todos os seus esforços são ameaçados quando uma misteriosa figura humana aparece.
Com os humanos desconfiados em relação a um dos seus, a tensão aumenta, atraindo a atenção dos Anciãos, curiosos sobre o efeito que este predador terá na matilha. Mas Meg já conhece o perigo, pois viu nas cartas de profecia como tudo terminará: com ela ao lado de uma campa.

Opinião:

É sempre com um misto de alegria e tristeza que chego ao fim de uma saga que tanto me cativou. Cartas de Profecia é a despedida de Meg, Simon e todas as outras personagens com quem criei ligações ao longo de cinco livros. Por um lado é bom finalmente saber que destino estava reservado a cada uma destas figuras, por outro tenho pena de não viver novas aventuras ao lado delas. Foi então com algumas expectativas que iniciei esta leitura, curiosa para saber o que Anne Bishop tinha guardado para o grande final.

O Pátio está em fase de adaptação, a pensar num futuro em que Outros e Humanos tenham um contacto mais próximo. Como tal, assistimos a várias discussões sobre o que pode ser alterado de forma a haver harmonia, o que não é cansativo graças aos elementos cómicos que são sempre inseridos e acabam por aliviar assuntos mais pesados ou potencialmente maçadores. E afinal, há muito mais a acontecer, o que prende o interesse e proporciona uma leitura rápida.

Meg está a lidar cada vez melhor com o seu dom de cassandra de sangue, mas a suspeita de um perigo iminente não a deixa alcançar a tão desejada estabilidade. Nota-se um sério crescimento desta personagem desde o primeiro volume, que passou de uma jovem fraca e amedrontada para uma mulher forte, doce e que vê bondade nos seres que podem causar maiores suspeitas. Mas ela não é a única a apresentar mudanças. Também Simon conseguiu refrear-se, explorando um lado que acreditava não ter e aceitando desafios inesperados. Juntos, eles alteram quem os rodeia e isso provoca alterações na comunidade.

Ao longo dos livros foi ainda possível assistir ao desenvolvimento da relação de Meg e Simon, e também esta questão é resolvida. Recordo que, quando esteve em Portugal em Outubro por ocasião do Festival Bang!, a autora disse que esta relação nunca seria simples, pois tratam-se de duas pessoas de natureza diferente. Estava então ainda mais curiosa para saber que solução tinha sido encontrada e fiquei muito satisfeita com este desfecho. Tratam-se de duas personagens que conseguiram criar uma ligação genuína e pura, o que é sempre inspirador.

Achei curioso que, enquanto em livros anteriores vimos crescer a ameaça de uma organização de humanos que queria sobrepor-se ao Outros, desta vez a grande ameaça estava centrada numa pessoa. Esta parece ter sido a forma de a autora nos dar a entender que o ódio e a maldade de apenas um individuo é capaz de causar grandes desastres no seio de uma comunidade. Sim, o grande perigo já foi desmantelado, mas é preciso ter em atenção as pessoas que não conseguem respeitar a diferença, mesmo que não pareçam capazes de grande mal.

O envolvimento dos Anciãos faz sentir um grande respeito, temor e curiosidade. Estas criaturas conseguem marcar presença, mesmo quando parecem não estar a agir, e isso sente-se no ambiente que fica instalado entre as outras personagens. Os Anciãos estão ligados à natureza, ao que há de mais primordial. Já Jimmy faz temer e sentir ódio por representar o que de pior há na humanidade. Oportunista, interesseiro, egocêntrico, insensível e frio, ele é o grande perigo, mostrando que o mal muitas vezes pode ser encontrado no lado menos esperado. Apesar de detestar a personagem devido ao que ela representa, gostei dos seus capítulos por fazerem mexer o resto da trama.

Adorei a conclusão que Anne Bishop deu a esta saga. São muitos os assuntos que são resolvidos, mas também muitos os que ainda precisam de resolução. A autora prova que a mudança é lenta, mas acontece quando há vontade para tal. Por isso, Humanos e Outros ainda terão de descobrir novos métodos para  conviverem em harmonia, mas tudo indica que serão capazes. Além disso, já se sabe que a autora se despede do Pátio e personagens inerentes mas não deste universo. Em Março de 2018 vai sair nos EUA Lake Silence, o primeiro livro de uma nova série passada no mesmo mundo, mas noutro local e com novas personagens. Quer isto dizer que ainda há muito para explorar e que podemos ainda ler referências a Meg, Simon e companhia.

Cartas da Profecia é uma despedida agridoce. Custa dizer adeus a estas personagens, mas sabe bem saber qual foi o destino que Anne Bishop lhes deu. Uma boa conclusão para uma saga que proporcionou grandes momentos de leitura e que fez sonhar com um mundo semelhante ao nosso, onde metamorfos, vampiros e muitos outros seres coexistem com a humanidade e a fazem recordar da importância do respeito para com o mundo e para com formas de vida diferentes.

Outras opiniões a livros de Anne Bishop:
A Voz
Os Pilares do Mundo (Trilogia dos Pilares do Mundo #1)
Luz e Sombras (Trilogia dos Pilares do Mundo #2)
A Casa de Gaian (Trilogia dos Pilares do Mundo #3)
Ponte de Sonhos (Efémera #3) 
Letras Escarlates (Os Outros #1)
Bando de Corvos (Os Outros #2)
Visão de Prata (Os Outros #3)
Marcado na Pele (Os Outros #4)

quinta-feira, 9 de março de 2017

Opinião: Marcado na Pele (Os Outros #4)

Título Original: Marked in Flesh (2016)
Autor: Anne Bishop
Tradução: Luís Santos
ISBN: 9789897730245
Editora: Saída de Emergência (2017)

Sinopse: 

Durante séculos, os Outros e os humanos viveram lado a lado numa paz precária. Mas quando a Humanidade ultrapassa os seus limites, os Outros terão de decidir o que estão dispostos a tolerar.
Desde que os Outros se aliaram às Cassandra Sangue, os frágeis mas poderosos profetas humanos que estavam a ser explorados pela sua própria espécie, tudo se transformou na relação entre humanos e os Outros. Alguns como Simon Wolfgard, metamorfo e líder, e a profetisa Meg Corbyn, encaram a nova parceria como vantajosa. Mas nem todos estão convencidos. Um grupo de humanos radicais procura usurpar terras através de uma série de ataques violentos contra os Outros. Mal sabem eles que existem forças mais perigosas e antigas que vampiros e metamorfos e que estão dispostas a fazer o que for necessário para proteger o que lhes pertence…

Opinião:

Marcado na Pele foi o livro que mais gostei de ler na série "Os Outros", de Anne Bishop. Existem mais momentos de tensão, surgem novas figuras poderosas que geram curiosidade, as habilidades das cassandra de sangue sugerem novas possibilidades e as relações entre personagens estão mais cimentadas. Tudo isto proporcionou-me uma leitura entusiasmante e que é foi feira com rapidez, tão envolvida estava pela história.

A guerra entre os Outros e humanos está a fazer cada vez mais estragos. Anne Bishop não só mostra como as comunidades que já conhecemos são afectadas pelos novos ataques dos humanos como ainda nos apresenta novas povoações e personagens. Com isto, a ideia de que a animosidade entre os dois povos é um problema global, além de que é com interesse que se verifica as diferentes formas com que se lida com tal. Gostei da mensagem de que pode existir união na adversidade e também de ter um pouco mais de conhecimento do lado de Cel-Romano.

Existem momentos de grande tensão, outros que nos apresentam a tragédia que advém do preconceito e outros ainda que nos falam de esperança. Desta forma, este livro, para além de entreter, também nos passa uma grande mensagem relacionada com a vida real. Anne Bishop tanto pode estar a querer falar sobre o respeito que é devido à natureza como sobre a abertura que precisamos de ter para aceitar as diferenças dos outros. A autora mostra que quando diferentes formas de vida estão lado a lado conseguem atingir grandes objetivos.

Surgiram dois novos elementos que me deixaram cativada. Por um lado, adorei os Anciães, seres antigos e ainda mais poderosos, representações do que é instintivo e, mesmo assim, tem paciência para entender e só depois passar à ação. Também apreciei muito a introdução das cartas de tarô na vida de Meg, não sendo isto feito à pressão, mas sendo possível notar que tal já poderia estar pensado desde o início da série. Estou agora curiosa para saber a evolução deste método.

Continuo a ficar deliciada com a ingenuidade de alguns momentos, pois transmitem a pureza dos Outros e de Meg. Esta característica origina momentos que conseguem arrancar-me um sorriso. Existe uma situação que me causa alguma estranheza. Adoro livros, adoro ler, como já bem devem ter reparado, e percebe-se que a autora sente o mesmo. Contudo, acho exagerado o facto de, em situações de emergência que acontecem ao longo da narrativa, os livros muitas vezes serem mencionados como artigos de primeira necessidade antes mesmo de se falar em alimentos.

Apreciei a evolução de Meg, que, aos poucos, está a tornar-se mais mulher, não deixando de parte, contudo, a inocência que lhe é característica. Se ao início era possível antever o desenvolvimento de um romance com Simon, agora quase que há a certeza de que tal poderá ser uma realidade. É que a admiração mútua está a transformar-se em algo mais, começando-se a perceber o desejo sexual que está a surgir entre ambos.

Tal como aconteceu com nos livros anteriores, Marcado na Pele fecha um ciclo desta história, mas deixa tudo em aberto para uma continuação. Apreciei muito esta leitura e estou muito curiosa para saber o que Anne Bishop reserva para o próximo volume, cujo original será publicado já está mês, nos Estados Unidos. Este mundo e estas personagens já conquistaram um lugar de destaque.

Opiniões a outros livros de Anne Bishop:
Letras Escarlates (Os Outros #1)
Bando de Corvos (Os Outros #2)
Visão de Prata (Os Outros #3)

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Opinião: Visão de Prata (Os Outros #3)

Título Original: Vision in Silver (2015)
Autor: Anne Bishop
Tradução: Luís Santos
ISBN: 9789896379704
Editora: Saída de Emergência (2016)

Sinopse:

Os Outros libertaram as cassandra sangue como forma de as proteger, não se apercebendo que as suas ações teriam consequências desastrosas.
Agora os videntes encontram-se em grande perigo e são presa fácil daqueles que procuram controlar os seus poderes divinatórios. Desesperado por respostas, Simon Wolfgard, um metamorfo líder entre os Outros, não tem outra escolha senão recorrer à ajuda da profetisa Meg Corbyn.
Meg ainda se encontra imersa no seu vício pela euforia que sente quando realiza profecias. Está ciente de que cada golpe da sua faca é um passo mais próximo da morte. Mas os Outros, bem como os humanos, precisam de respostas, e as suas visões são a única esperança para pôr fim ao conflito…

Opinião:

Visão de Prata superou as expetativas. Depois de ter gostado de Letras Escarlates mas de ter ficado um pouco desiludida com Bando de Corvos, foi com alguma apreensão que iniciei a leitura do terceiro volume de "Os Outros". Tinha receio de que a série tivesse entrado numa espiral descendente.  Porém, Anne Bishop deu-me provas de que a história de Meg e dos habitantes do Pátio ainda tem muito para dar!

Desta vez, senti-me rendida à história logo desde o início. Existe mais do que um foco de interesse. Porém, a protagonista, Meg, apesar de ser uma personagem que tem a minha simpatia, voltou a ser aquela que me parece ter um desenvolvimento menor. Existe uma questão à volta dela que é bastante pertinente e gostei da forma como foi chamada à atenção após uma determinada atitude. Faz sentido e mostra que também ela erra, apesar de ser vista como uma esperança para as suas iguais. Porém, não percebi o motivo para que o problema dela com a desordem e o caos apenas ter sido considerado no terceiro volume, quando, devido a uma série de condicionantes, deveria ter surgido logo no início.

Gostei muito da história em volta de Monty, um agente humano. Já sabíamos do seu problema familiar, mas ver tudo isso exposto foi uma lufada de ar fresco, além de que foi este o assunto que marcou o ritmo da trama. Simon volta a ser uma figura de grande destaque e a forma como ele gere o Pátio faz pensar que, apesar de nem sempre concordarmos ou enterdermos quem nos rodeia, podemos ser capazes de conviver com essa pessoas em harmonia se houver respeito mútuo. Já o acompanhamento de uma cassandra de sangue nova também deu uma nova perspectiva sobre estas jovens e proporcionou capítulos bem conseguidos e cativantes.

Adoro a forma como a autora consegue construir personagens que apresentem tão bem um lado racional e, ao mesmo tempo, primitivo. Os Outros voltam a dar um toque único a este livro. Divididos em diferentes grupos, consoante os animais ou as forças e elementos que os inspiraram, transmitem muito bem a essência de cada um. Ao mesmo tempo, protagonizam situações caricatas e fazem-nos pensar na simplicidade e beleza da natureza.

E além de me ter divertido e emocionado muito com esta leitura, também é verdade que alguns dos temas retratados me fizeram pensar na atualidade mundial. Afinal, a relação entre humanos e Outros serve de analogia para a discriminação a que se tem assistido em larga escala. O medo do que é diferente, a intolerância, a violência, a noção de superioridade e a incapacidade de respeitar o outro são algumas das ideias que a autora transmite ao longo da leitura. É impossível não comparar algumas das situações da trama com a realidade.

O final é muito apropriado. Passa para um plano mais geral deste mundo, dá algumas respostas, mesmo que de forma implícita, fala de superação e esperança. Anne Bishop recorda-nos que não podemos encarar o planeta e a natureza como propriedade, mas sim como uma casa que deve ser respeitada e cuidada. A autora volta a provar que, através de uma história bonita e original, consegue transmitir mensagens fortes e atuais. Estou muito curiosa para saber o que nos trará o próximo volume desta série.

Outras opiniões a livros de Anne Bishop:
A Voz
Os Pilares do Mundo (Trilogia dos Pilares do Mundo #1)
Luz e Sombras (Trilogia dos Pilares do Mundo #2)
A Casa de Gaian (Trilogia dos Pilares do Mundo #3)
Ponte de Sonhos (Efémera #3) 
Letras Escarlates (Os Outros #1)
Bando de Corvos (Os Outros #2)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Opinião: Bando de Corvos (Os Outros #2)

Título original: Murder of Crowns (2014)
Autor: Anne Bishop
Tradução: Luís Santos
ISBN: 9789896379209
Editora: Edições Saída de Emergência (2016)

Sinopse:

Ninguém tem a capacidade de criar novos mundos como Anne Bishop, autora bestseller do The New York Times. Nesta nova série somos transportados para um mundo habitado pelos Outros, seres sobrenaturais que dominam a Terra e cujas presas prediletas são os humanos. Depois de conquistar a confiança dos Outros que habitam Lakeside, Meg Corbyn teve alguma dificuldade em perceber o que significa viver entre eles. Como humana, Meg deveria apenas ser tolerada como presa, mas os seus dons como cassandra sangue tornam-na algo mais. A aparição de duas drogas aditivas foi a faísca que desencadeou a violência entre os humanos e os Outros, resultando em mortes para ambas as espécies nas cidades limítrofes. Quando Meg tem um sonho sobre sangue e penas negras na neve, Simon Wolfgard – o líder metamorfo de Lakeside – pergunta-se se a profetisa de sangue sonhou com o passado ou uma ameaça futura. À medida que as profecias se revelam a Meg, cada vez mais intensas e dolorosas, as intrigas adensam-se em Lakeside. Agora, os Outros e o punhado de humanos que aí residem terão de reunir forças para parar o homem que se assume como o verdadeiro profeta de sangue – e extinguir o perigo que ameaça destruir todos os clãs.

Opinião:

Sou fã de Anne Bishop e estava ansiosa por começar a ler Bando de Corvos. Adorei ler Letras Escarlates (opinião aqui), o primeiro volume desta saga. e por isso foi com grandes espetativas que voltei e entrar neste mundo com tantas semelhanças e diferenças ao nosso e que reencontrei estas personagens. Porém, logo ao início, percebi que esta experiência de leitura iria ser muito diferente do que estava à espera.

Ao contrário do que aconteceu em Letras Escarlates, desta vez não me senti cativada pela história. Não existiu um novo elemento que me chamasse a atenção e por diversas vezes dei por mim a distrair-me. Era com facilidade que largava o livro e em muitas situações tive oportunidade de retomar a leitura e preferi não o fazer. Penso que tal aconteceu por o factor novidade ter desaparecido e, principalmente, por muitas ideias terem surgido de forma repetitiva. Além disso, não senti o perigo que era suposto, pois tinha a certeza que tudo se iria resolver.

O desenvolvimento do enredo está aborrecido e pouco interessante. A ação é muito lenta e em muitos momentos surgem poucas ideias novas, o que é pouco estimulante. Começa-se a introduzir uma noção de romance, mas não se trata de algo que nos faça suspirar. Isto acontece porque a ligação entre as duas personagens é apresentada com alguma infantilidade, o que é estranho tendo em conta que envolve um ser que está muito ligado aos seus instintos primitivos.

Relativamente às personagens, senti que houve uma evolução muito pequena neste campo. Continuo a gostar de Meg, mas desta vez custou-me mais a aceitar a sua faceta tão inocente. Ela já passou por tanto e já conhece melhor o mundo, por isso seria de esperar que começasse a encarar alguns factos de uma forma diferente do que fazia no primeiro livro e a deixar de se comportar tanto como uma menina e mais como uma mulher. Porém, continua a ter a minha simpatia. Já Simon apresenta um maior desenvolvimento, mas tal levou-o a cair num cliché (algo que não tinha acontecido antes e que tinha merecido o meu elogio). Curiosamente, acho que desta vez Simon foi a força motriz da obra, mais do que Meg. Tive pena que as outras figuras pertencentes aos Outros fossem tão pouco exploradas.

O final é o ponto mais interessante de toda a narrativa. É nesse momento que se sente que realmente aconteceu algo. É um momento que capta a atenção, mas que não deixa de ser previsível. Porém, fico com a sensação que tudo aconteceu nas últimas páginas e que tal foi apresentado um pouco à pressa. Teria sido mais estimulante explorar mais esse lado e menos a encomenda de biscoitos de cão, por exemplo.

Se Letras Escarlates cativa e surge com uma trama fascinante, Bando de Corvos desilude. É o repetir de muitas ideias com pouco desenvolvimento. Gostaria que os Intuits tivessem tido um foco diferente e que fosse possível assistir ao amadurecimento das personagens principais. Anne Bishop consegue transmitir bem a ideia de xenofobia e do terror aliado à ignorância, mas podia ter voltado a apresentar tais conceitos de uma forma mais aliciante e onde a noção de perigo parecesse mais real ao leitor. Espero, sinceramente, que o próximo volume tenha um nível mais próximo do primeiro, pois caso contrário vou ponderar se vale a pena acompanhar esta saga.

Outras opiniões a livros de Anne Bishop:
A Voz
Os Pilares do Mundo (Trilogia dos Pilares do Mundo #1)
Luz e Sombras (Trilogia dos Pilares do Mundo #2)
A Casa de Gaian (Trilogia dos Pilares do Mundo #3)
Ponte de Sonhos (Efémera #3) 
Letras Escarlates (Os Outros #1)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Opinião: Letras Escarlates (Os Outros #1)

Título original: Written in Red (2013)
Autor: Anne Bishop
Tradução: Luís Santos
ISBN: 9789896377397
Editora: Edições Saída de Emergência (2015)

Sinopse:

Meg é uma profetisa de sangue. Sempre que a sua pele é cortada, ela tem uma visão do futuro – um dom que mais lhe parece uma maldição. O Controlador de Meg mantém-na aprisionada de forma a ter acesso total às suas visões. Quando finalmente ela consegue escapar, o único sítio seguro para se esconder é no Pátio de Lakeside – uma zona controlada pelos Outros.
O metamorfo Simon Wolfgard sente alguma relutância em contratar a estranha que lhe pede trabalho. Sente que ela esconde algo e, para além disso, ela não lhe cheira a uma presa humana. Algo no seu íntimo leva-o a contratá-la, mas ao descobrir quem a jovem realmente é e que o governo a procura, ele terá de tomar uma decisão. Será que proteger Meg é mais importante do que evitar o confronto que se avizinha entre humanos e Outros?

Opinião:

Depois de tanta espera, finalmente chegou mais um livro de Anne Bishop. E porquê este meu entusiasmo? Porque gosto muito da autora e pelo seu site já tinha percebido que Letras Escarlates seria um livro que se afasta de todos os outros que já publicou. Assim sendo e dentro do género da fantasia urbana, desta vez Anne Bishop  apresenta um mundo muito semelhante a este em que vivemos, mas, ao mesmo tempo, com muitas diferenças.

A sociedade de Letras Escarlates pode ser dividida em dois grupos. Por um lado temos os humanos, cujas características necessitam de pouca apresentação. O que mais me saltou à vista é que a autora explora os valores morais da humanidade, havendo, desta forma, personagens dotadas de compaixão, compreensão e benevolentes, enquanto outras não aceitam a diferença, exploram ao máximo o que podem e acreditam serem donos da razão. Isto faz com que a discriminação e o não respeito pelo outro sejam temas muito importantes deste livro.

O outro grupo da sociedade é composto pelos Outros. Estes são seres sobrenaturais, inspirados em criaturas como vampiros, lobisomens e metamorfos mas, ao mesmo tempo, com características novas e muito apelativas. Os Outros estão ligados á natureza e, desta forma, parecem procurar explorar o lado instintivo que, apesar de menos saliente, também nos pertence. É através deste grupo que a autora faz pensar sobre o respeito pelo mundo, a ecologia, a prevenção de todas as espécies e para a importância da união como forma de combater as ameaças extrenas.

E no meio destes dois grupos surge Meg, a protagonista desta obra. Ela é uma fugitiva que acaba por não pertencer inteiramente a humanos ou a Outros. Afinal, ela tem capacidades divinatórias, que sempre foram exploradas pos interesses financeiros. É fácil sentir empatia por esta mulher tão ingénua que se encontra pela primeira vez sozinha no mundo. E, para além disso, percebe-se que esta é uma personagem de Anne Bishop: é doce mas ao mesmo tempo luta pelo que acredita, é inocente mas procura aprender compreender tudo o que a rodeia, tem medo mas está disposta a dar a mão e a acreditar nos outros, é uma estranha mas capta a atenção de todos e acaba por ser muito amada.  Ela é o símbolo da luta das mulheres pela liberdade, independência e igualdade.

Os mistérios ligados a Meg são desvendados aos poucos, mas ainda existe muito para entender sobre a sua condição. Admito que gostaria que ela fosse mais propensa ao erro, mas ainda assim tornou-se numa figura que se destaca. O que também é interessante é a relação dela com as outras personagens. Afinal, neste tipo de livros já se espera que tudo ande à volta de um grande romance e que até exista um triângulo amoroso, mas, felizmente, tal não acontece aqui. Até há momentos onde a autora brinca com este cliché! Fica a ideia de que algo deste género poderá ainda vir a acontecer num próximo volume da série, mas agora tudo foi direcionado para a construção de amizades e para a aceitação da diferença.

Gostei muito de Simon. Ele é o macho alfa, que impõe a sua autoridade apesar de o fazer com justiça. Esperava-se que ele amolecesse, mas ele nunca perde o temperamento explosivo ou deixa de ser a figura masculina que quer impor a sua posição a todos. Contudo, é interessante verificar que ele não o faz por interesse próprio, mas pela comunidade. O grande vilão da trama acaba por não surgi, mas os seus feitos são uma ameça constante. A figura que acaba por representar o mal de forma mais direta é Asia, uma mulher de más intenções que consegue ser envolvente. É curioso ver que Asia também é ingénua, mas isso fá-la colocar-se numa situação condenável. Porém, o ridículo da personagem também proporciona momentos engraçados.

O desenrolar da trama não possui reviravoltas inesperadas, mas a leitura diverte e é marcante. O mundo é diferente, as temáticas abordadas são facilmente transpostas para a realidade, as personagens cativam e a escrita é característica de Anne Bishop. As situações caricatas e a mensagem que se tenta passar fazem recordar outras obras da autora e fazem sentido neste novo mundo que vou querer continuar a acompanhar. Claro que recomendo!

Outras opiniões a livros de Anne Bishop:
A Voz
Os Pilares do Mundo (Trilogia dos Pilares do Mundo #1)
Luz e Sombras (Trilogia dos Pilares do Mundo #2)
A Casa de Gaian (Trilogia dos Pilares do Mundo #3)
Ponte de Sonhos (Efémera #3)




terça-feira, 16 de setembro de 2014

Opinião: A Casa de Gaian (Trilogia dos Pilares do Mundo #3)

Título original: The House of Gaian (2003)
Autor: Anne Bishop
Tradutor: Luís Coimbra
ISBN: 9789896374662
Editora: Edições Saída de Emergência (2012)

Sinopse:

Começou como uma caça às bruxas, mas o plano do Inquisidor-Mor para eliminar todos os vestígios de poder feminino que há no mundo preveem agora a aniquilação dos barões de Sylvalan que se lhe opõem… e a destruição do berço de toda a magia: a Serra da Mãe. Humanos e feiticeiras formam uma aliança difícil com os Fae para fazerem frente a esse imigo terrível. No entanto, mesmo unidos, não têm força suficiente para resistirem aos exércitos mobilizados pela Inquisição. Procuram por isso o apoio do último aliado ao qual podem recorrer: a Casa de Gaian. As feiticeiras que vivem isoladas na Serra da Mãe têm poder suficiente para criarem um mundo… ou para o destruírem. O antigo lema das bruxas: «Não fareis o mal», arrisca-se a ser esquecido por força de uma necessidade mais premente: a necessidade de sobreviverem.

Opinião:

A Casa de Gaian é o derradeiro volume da trilogia dos Pilares do Mundo, de Anne Bishop. Estava muito curiosa quanto a este livro, mas atrasei a sua leitura. Curiosamente é algo que costumo fazer sempre com livros de Anne Bishop, pois sabia que ler este volume seria despedir-me de um mundo que tanto me cativou.

Finalmente acontece o confronto final entre o povo que respeita a natureza e a magia como uma só e o grupo de homens repressivos, retrógados que anseiam o poder e temem quem o detem. Penso que a autora fez esta divisão tendo como base o mundo real. Afinal, os preconceitos enunciados acabam por ser tão facilmente encontrados no nosso mundo, onde homens temem mulheres independentes, onde a natureza é despezada, onde cultos antigos são esquecidos e existe a procura do poder pela subjugação do outro. Isto faz pensar que a autora, mais do que querer contar uma história, quer fazer o leitor pensar sobre o seu próprio mundo.

Assim sendo, a mulher volta a ser a grande inspiração da autora. Anne Bishop tenta transmitir aos leitores a força do "sexo fraco", colocando as suas personagens femininas em situações adversas, mas que a muito se assemelham ou assemelhavam a circunstâncias reais. Desta forma, penso que uma leitora passar a acreditar no poder que tem dentro de si e um leitor admira o género contrário, que tantas vezes é menosprezado, mesmo em pleno século XXI.

As personagens apresentam evoluções interessantes e consistentes. O Bardo, a Musa, o Caçador e principalmente a Ceifeira foram as figuras que mais me prenderam a atenção. Gostei do facto de cada um deles representar um ideal ou valor, e de juntos conseguirem fazer grandes coisas. Tal como já dei a entender, a Ceifeira foi uma das figuras que mais me cativou ao longo desta trilogia, devido à sua personalidade e coração, e a sua evolução foi surpreendente. Fiquei chocada com algumas das escolhas desta Senhora da Morte, mas num bom sentido, já que fizeram sentido.

Se senti que no livro anterior, Luz e Sombras, a autora se estava a dispersar ao escolher não centrar-se num grupo de personagens mas a apresentar diferentes núcelos, agora já testemunhei tal. As personagens que pareciam afastadas e sem qualquer ligação acabam por se encontrar e formar alianças que fazem sentido. Isto dá a ideia que mesmo quando nos sentimos sozinhos, não devemos perder a esperança de encontrar outros que tenham os mesmos ideiais.

A Casa de Gaian é uma conclusão muito satisfatória. Gostei do desfecho apesar de ter sofrido com algumas perdas. As últimas páginas são lidas num ápice, tal é a emoção do relato. Anne Bishop volta a provar que é uma autora diferente e que cativa pelas suas peculariedades. Ela realmente consegue sentir que estamos ligados às suas personagens assim como transportarmo-nos para mundo únicos.  Adorei esta trilogia e claro que a recomendo.

Outras opiniões a livros de Anne Bishop:
A Voz
Os Pilares do Mundo (Tir Alainn #1)
Luz e Sombras (Tir Alainn #2)
Ponte de Sonhos (Efémera #3)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Opinião: Luz e Sombras (Trilogia dos Pilares do Mundo #2)

Título original: Shadwos and Light (2002)
Autor: Anne Bishop
Tradutor: Luís Coimbra

ISBN: 9789896374273
Editora: Edições Saída de Emergência (2012)

Sinopse:

Desde o massacre das bruxas, os Fae, que deviam proteger as suas primas há muito esquecidas, ignoraram as necessidades do resto do mundo. Agora as sombras voltam a alastrar-se sobre as aldeias do oriente. Sombras negras e poderosas que ameaçam todas as feiticeiras, todas as mulheres e os próprios Fae. Apenas três pessoas podem fazer frente à loucura coletiva que se está a disseminar e impedir que mais sangue seja derramado: o Bardo, a Musa, e a Ceifeira. Aiden, o Bardo, sabe que o mundo está dependente da proteção dos Fae, mas estes recusam-se a escutar os seus avisos sobre o mal que se esconde nas florestas. Vê-se obrigado a partir com o amor da sua vida, Lyrra, a Musa, numa aventura arriscada em busca do único Fae capaz de fazer o seu povo despertar da indiferença. Se os Fae não agirem depressa, ninguém sobreviverá…

Opinião: 

Depois de ter ficado rendida com Os Pilares do Mundo, iniciei a leitura do segundo volume da trilogia "Tir Alainn", Luz e Sombras. Feitas as introduções a este mundo no primeiro livro, é possível constatar a vontade da autora de o explorar. Deste modo, surgem mais personagens e locais sem menosprezar as figuras que cativaram anteriormente.

Tendo ainda como base a submissão das mulheres por um grupo de humanos com ideias repressivos, Anne Bishop apresenta novas realidades e novas formas de enfrentar a pressão dos pares. Desta forma surge Padrick, um jovem barão que não aceita a inferiorizarão do sexo feminino. É interessante ver a forma como esta personagem actua, muitas vezes de forma ingénua mas sempre com coragem. Através dos olhos de Padrick é possível constatar as mudanças que vão sendo efectuadas numa aldeia, e é curioso verificar que o medo é utilizado para manipular mulheres como também homens.


É com interesse que se observa a passagem de sociedade matriarcal para patriarcal. Esta é brusca e violenta, possuindo métodos usados para manipular pensamentos e reorganizar a sociedade que, apesar de não serem propriamente bonitos, fazem lembrar o que aconteceu com povos pagãos aquando a chegada de invasores ou de novas ideias.

O mundo dos Fae é também mais explorado graças à rebeldia do Bardo, Musa e da Ceifeira. Se no primeiro volume foram apresentados os que vivem em Tir Alainn e vêm os humanos como inferiores, agora a autora debruça-se mais sobre um outro grupo, com formas de organização e ideias diferentes dos primeiros. As três personagem que foram mencionadas vão perceber que a descoberta que fizeram não é uma novidade para todos os Fae, havendo mesmo quem sempre tenha vivido com a intenção de a executar. Neste campo, existe uma tentativa da autor esconder a verdadeira identidade de uma certa personagem, mas tal é bastante perceptível ao longo da leitura.

Apesar de estar ser uma obra característica de Anne Bishop, a verdade é que acaba por não cativar tanto como aconteceu com o primeiro volume da trilogia. A trama não possui um grupo central, sendo que autora vai saltando entre núcleos. Existe, desta forma, uma certa dispersão, até porque os grupos apresentados podem parecer não ter qualquer ligação entre si. Isto também pode acontecer por este ser um livro de ligação entre o início e o fim da trilogia, logo ser focado mais no desenvolvimento do mundo do que nas apresentações ou conclusões.

Luz e Sombras é um volume que, por diversas vezes, justifica o nome que lhe foi dado. O leitor tanto assiste a momentos de puro desespero como outros de esperança, sendo possível verificar um equilíbrio entre estes elementos. Uma leitura deliciosa para os fãs de Bishop, mas que não possui grandes conclusões. Estas só deverão chegar com A Casa de Gain, o derradeiro livro da trilogia.

Outras opiniões a livros de Anne Bishop:
A Voz
Os Pilares do Mundo (Tir Alainn #1)
Ponte de Sonhos (Efémera #3) 

sábado, 29 de junho de 2013

Opinião: Ponte de Sonhos (Efémera #3)



Título Original: Bridge of Dreams (2012)
Autor: Anne Bishop
Tradutor: Maria João Trindade
ISBN: 9789896375294
Editora: Edições Saída de Emergência (2013)

Sinopse:

Quando os magos ameaçam Belladonna e o seu trabalho para manter Efémera em equilíbrio, o seu irmão Lee sacrifica-se para a salvar — e acaba por ser internado num Asilo na cidade de Visão, longe de tudo o que conhece. Ao mesmo tempo, umas estranhas trevas parecem estar a espalhar-se — uma escuridão que esconde a natureza dos Xamãs que cuidam da cidade e da sua população. Danyal, um dos Xamãs, é o responsável pelo Asilo. Mas talvez por estar a tentar descobrir os seus próprios sonhos, Danyal sente-se intrigado pelos aparentes delírios de Lee. Com a ajuda de Zhahar, uma mulher com os seus próprios segredos tenebrosos, a mente e o corpo de Lee melhoram, e as suas palavras começam a fazer sentido. Em breve, Danyal e Zhahar começam a vislumbrar o mundo como nunca haviam imaginado. Quando Danyal, Lee e Zhahar se unem para descobrir o que ameaça a cidade, serão obrigados a olhar para além de si mesmos — e para dentro de si mesmos — para descobrir quem são… e até que ponto podem ser demasiado perigosos.

Opinião:

Ponte de Sonhos é o regresso ao mundo de Efémera, anteriormente explorado nos livros Sebastian, Belladona e ainda no conto A Voz.

A trama tem início um pouco depois de Belladona ter encerrado o Devorador do Mundo. O protagonista, desta vez, é Lee, o irmão mais novo de Belladona e um Construtor de Pontes. A autora explora esta personagem com o intuito de dar a conhecer as suas qualidades, defeitos e principais defeitos. É interessante verificar que este é um homem atormentado que não aceita completamente aquilo que o faz sofrer. Só com o tempo e com a aceitação da sua natureza é que tal vai ser possível, assim como a procura da felicidade. 

Entre as novas personagens que foram dadas a conhecer o destaque vai para Zhahar, ou, melhor dizendo, Sholeh Zeela a Zhazar, uma Tríade. Esta é uma figura que introduz o leitor para um novo ser composto por três irmãs que partilham o mesmo espaço físico.

“Uma que são três e três que são uma”.

Sholeh Zeela a Zhazar resulta da junção de três irmãs com personalidades bem distintas. Cada uma está a associada a um centro, sendo Sholeh a intelectual, Zeela a mais impulsiva e Zhazar a que está ligada ao coração. Representação de um ser completo, a Tríade é também um ser novo e desconhecido, o que faz a autora explorar a ideia de preconceito e, com ela, as inseguranças e medos associados à não aceitação pelos outros.  O leitor vai sentir-se interessado na exploração destas novas personagens, nomeadamente na forma como as três coexistem.

Ao longo da trama, é possível ver a preocupação da autora de não só fornecer uma história emocionante mas que também possua mensagens relevantes para o mundo atual. Assim, a ideia de que são os Homens que transformam o mundo com as suas ações e desejos é constantemente relembrada. Anne Bishop concede um mundo detentor de Luz e Escuridão, sendo que a existência apenas é possível através do equilíbrio. As suas personagens são também detentoras destas duas naturezas, o que as leva a viverem conflitos interiores interessantes e permite uma empatia com o leitor mais instantânea.

“Que o teu coração viaje com leveza, pois o que trazes contigo torna-se parte da paisagem.”

A autora relembra o poder dos desejos e mostra que estes, quando realizados, podem revelar um lado inesperado na natureza do seu autor. 

Igualmente, existe uma enorme preocupação com a natureza. Sendo a autora uma adepta fervorosa da jardinagem, nota-se esta sua paixão a cada página, quer seja na atividade principal das Paisagistas, quer em pormenores que se revelam provocadores de grandes mudanças.

A resolução final é adequada, mas deixa ainda algumas explicações no ar e certos assuntos por resolver, o que pode não agradar a todos os leitores. Contudo, os fãs de Anne Bishop vão apreciar esta viagem por Paisagens onde a humanidade é apresentada nas suas diversas facetas. Recomendo.


Outras opiniões a livros de Anne Bishop:
A Voz
Os Pilares do Mundo (Tir Alainn #1)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Opinião: Os Pilares do Mundo (Trilogia dos Pilares do Mundo #1)

Título original: The Pillars of The World (2001)
Autor: Anne Bishop
Tradutor: Luís Coimbra

ISBN: 9789896373856
Editora: Edições Saída de Emergência (2011)

Sinopse:

Ari, a última descendente de uma longa linhagem de bruxas, pressente que o mundo está a mudar… e está a mudar para pior. Há várias gerações que ela e outras como ela zelam pelos Lugares Antigos, assegurando-se de que o território se mantém seguro e os solos férteis.

No entanto, com a chegada da primeira Lua Cheia do Verão, as relações com os seus vizinhos azedam-se. Ari já não está segura. Há muito que o povo Fae ignora o que se passa no mundo dos mortais. Só o visitam, através das suas estradas misteriosas, quando desejam recrear-se. Agora esses caminhos desaparecem a pouco e pouco, deixando os clãs Fae isolados e desamparados. Onde sempre reinara a harmonia entre o universo espiritual e a natureza, soam agora avisos dissonantes nos ouvidos dos Fae e dos mortais. Quando se espalham nas povoações boatos sobre o começo de uma caça às bruxas, há quem se interrogue se os diversos presságios não serão notas diferentes de uma mesma cantiga. A única informação que têm para os nortear é uma alusão passageira aos chamados Pilares do Mundo…


Opinião:

Comprei este livro assim que saiu para as livrarias, mas só agora consegui pegar nele. Não foi por falta de tempo e muito menos por não ter vontade para o fazer. Anne Bishop já me conquistou há muito e por isso, à partida, pegar numa nova história dela é algo que me marca. Por isso mesmo, começar um novo livro desta autora é um misto de vários sentimentos que me acabam por fazer adiar esse momento (manias estranhas que nem eu sei como explicar). O que importa é que finalmente decidi entrar neste novo mundo que, confesso, em nada me desiludiu.

Os Pilares do Mundo é o primeiro volume de uma trilogia que tem fortes inspirações na época medieval, na mitologia celta e até greco-romana. Neste universo, as barreiras que separam o mundo dos humanos a Tir Alainn são ténues, mas algo está a mudar, o que deixa alguns Fae em alerta. Através de um narrador omnisciente, ficamos a conhecer em profundidade personagens complexas e intensas.

Na realidade humana, acompanhamos Ari, uma jovem com quem é fácil criar empatia. Desprezada por todos, esta menina mulher ainda um pouco ingénua não deixa de dar o que tem de melhor. Respeitadora das antigas tradições, é uma bruxa que venera a Natureza e que atrai tanto humanos como Fae. Ao longo da narrativa, ficamos a conhecer os desejos do seu coração, sentimos a solidão em que vive e as suas angústias. Mas apesar das muitas dificuldades em que vive, é interessante ver que esta bruxa continua fiel a si própria proporcionando momentos engraçados quando está com um humor mais rezingão.

Ainda dentro desta realidade, conhecemos Neall, um rapaz de bom coração, que cresceu em casa de uns familiares afastados que o exploram e que se revela de uma natureza curiosa. Igualmente, e como já é habitual em Anne Bishop, ficamos também a par do lado mais negro da narrativa. Desta vez, esse lugar é de Adolfo, um Inquisidor-Mor conhecido como o Flagelo das Bruxas. Este é um homem que provoca o caos ao acreditar estar a fazer o bem e a autora conferiu-lhe um passado coerente com esta opção de vida.

No mundo dos Fae, somos confrontamos com personagens que possuem fortes inspirações a religiões pagãs e até na época Clássica. Inicialmente, somos confrontados com Dianna e Lucífero, dois irmãos que representam elementos opostos. Junto a esta dupla surge Lyrra, a Musa, e Aiden, o Bardo, que ajudam na busca de informação e que, com o tempo, se revelam cruciais para o futuro de Tir Alainn. Contudo, a personagem Fae que mais me cativou acabou por ser a incompreendida Morag. Senhora da Morte, é temida por todos mas acaba por ser possuidora de uma visão mais geral da realidade, muito graças à convivência com os dois mundos. Solitária e sábia, é uma chave importante para a resolução do mistério que assola Tir Alainn. É curioso ver que, entre todos os Fae, a Senhora da Morte é a menos egoísta e mais altruísta.

Apreciei bastante as personalidades dos Fae. Anne Bishop não caiu na tentação de tornar estes seres em personagens perfeitas, conferiu-lhes as características que a tradição enuncia e explorou-as de um modo bastante cativante. Se ao início dá a entender algo, a autora decidiu optar pelo crescimento pessoal do que pela fantasia de uma história de amor perfeita.

Como já vem a ser habitual nas obras desta autora, o papel das mulheres na sociedade volta a estar em evidência. Numa sociedade em que a mulher é posse dos pais ou do marido, é com estranheza que se observa uma que seja independente. Ainda para mais, se for uma que não siga os valores da maioria e que tenha opinião própria. Os abusos, maus tratos e inferiorizarão da mulher fase ao homem são explorados na imposição de uma sociedade patriarcal. Também os seres mais pequenos, que parecem não possuir poder ou importância revelam-se capazes de ser fator de mudança.

A escrita é bela e embala a leitura. A história agarra desde a primeira página e faz o leitor alegrar-se com as conquistas, temer os perigos e suspirar com a beleza das relações descritas. Os Pilares do Mundo é um livro que pode ser lido em solo, já que encerra algumas questões, mas que acaba por entusiasmar para a continuação da leitura da trilogia. Eu fiquei rendida.

domingo, 3 de março de 2013

Opinião: A Voz

Título Original: The Voice (2012)
Autor: Anne Bishop
Tradutor: Luís Coimbra
ISBN: 9789896374921
Editora: Edições Saída de Emergência (2013)

Sinopse:

Numa aldeia vizinha da cidade de Visão ninguém conhece o sabor da mágoa e da angústia, mas essa comunidade, aparentemente idílica, esconde um segredo tenebroso. Quando era pequena, Nalah não percebia porque a mandavam levar um bolo à menina muda a quem chamavam «A Voz» sempre que se sentia mal. Sabia apenas que isso a ajudava a melhorar. Já crescida, desvenda esse mistério e anseia por fugir da aldeia opressiva onde sempre viveu. Só depois de visitar a cidade de Visão e de conhecer o Templo das Mágoas, compreende o que tem de fazer para se libertar…

Opinião:

"Chamavam-lhe 'A Voz' porque a não tinha". 

Inspirada no universo de Efémera, Anne Bishop  apresenta A Voz, uma novela que explora a necessidade de utilizar o outro de modo a obter a própria felicidade.

A trama é narrada na primeira pessoa, por Nalah, uma rapariga comum que assiste a um episódio bastante perturbador aos 10 anos. A partir desse momento, Nalah não consegue esquecer o que viu e tenta procurar uma explicação para certas medidas do funcionamento da sua aldeia. A jovem reage de forma diferente a todas as outras pessoas da sua aldeia, já que o hábito é fechar os olhos à verdade de modo a não comprometer o bem estar geral. Mas a protagonista não aceita isso, o tempo faz com que a necessidade de obter resposta cresça, mas cada passo que na direção da verdade faz desenvolver a revolta.

Numa fase inicial, Nalah é uma menina igual a tantas outras, mas quando percebe que existe uma pessoa a ser usada em benefício de toda a aldeia começa a desenvolver uma alterar-se. Depois disso, conhecemos uma Nalah com 17 anos. A menina alegre e brincalhona deu lugar a uma jovem silenciosa, de poucos amigos e de formas pouco elegantes. Esta protagonista é a representação de quem questiona a sua sociedade, de quem não se conforma com a ordem imposta, de quem não intende a necessidade de os mais fracos sofrerem em benefício dos mais fortes. É fácil simpatizar com esta personagem que não fica incólume aos erros a que assiste.

Através da visão de Nalah conhecemos a Voz, uma rapariga muda e forçada a uma vida de servidão onde ninguém procura conhecer a sua opinião e os seus sentimentos. Anne Bishop criou esta personagem de forma a representar de que forma o sofrimento e a angústia são capazes de destruir um ser. A Voz é alimentada através de bolos que possuem no seu interior a dor dos aldeões, o que nos leva a pensar na forma como o ser humano pode sentir necessidade de empurrar para os outros os seus problemas. Também o papel da mulher volta a ser explorado por Anne Bishop neste livro, quer seja por as suas opiniões não serem consideradas tão fortes quanto as dos homens quer seja por ter de se sujeitar a relações abusivas.

Apesar de ser um livro curto, existe ainda espaço para simpatizar com mais personagens e para detestar outras. As amigas de infância de Nalah, Tahnee e Kobrah, mostram como as circunstâncias da vida podem mudar completamente uma pessoa, como podem transformá-la em alguém feliz e realizado ou alguém vingativo e destrutivo. E enquanto estas mulheres fazem surgir em nós sentimentos de compaixão, já Chayne e Dariden são dois rapazes que apenas desejamos ver castigados no final devido à crueldade das suas ações e pensamentos.

No final de ler este pequeno livro, pensei se não teria sido melhor se a autora tivesse explorado mais esta trama. Claro que fica sempre a vontade de conhecer e saber mais, até porque esta foi uma história que me agarrou, mas acabei por concluir que não, que assim ficou bem. Como está, percebemos bem o enredo, criamos empatia com as personagens, captamos a mensagem que a autora quer transmitir e ficamos satisfeitos com o desfecho. Está tudo na quantidade certa e existe um bom equilíbrio de elementos.

A escrita de Anne Bishop apresenta as características às quais já nos habituou. Entramos neste mundo sem grandes dificuldades, apreciamos a os cenários que a autora descreve assim como as emoções. A magia encontra-se presente, apesar de isso não ser feito de uma forma direta. Também os elementos peculiares de Efémera estão lá, mas de um modo bastante subtil.

A Voz é uma leitura rápida mas intensa que os fãs de Anne Bishop não vão querer perder. Recomendo.