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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Opinião: O Covil dos Lobos (Blackthorn & Grim #3)

Título Original: Den of Wolves (2016)
Autor: Juliet Marillier
Tradução: Catarina F. Almeida
ISBN: 9789896579616
Editora: Planeta (2017)

Sinopse:

Blackthorn conhece bem as regras: não procurar vingança, ajudar qualquer pessoa que pedir e praticar apenas o bem.
Mas depois da provação recente que ela e Grim sofreram, sabe que tem de encontrar o homem que lhe arruinou a vida.

Opinião:

Ler um livro de Juliet Marillier é sempre um prazer. A autora nunca desilude e, desta vez, até superou as minhas expectativas. O Covil dos Lobos é o último livro da trilogia "Blackthorn & Grim", e é também o mais emocionante desta aventura.

Existem algumas histórias paralelas nesta livro, e todas conseguiram prender-me a atenção e aguçar-me a curiosidade. Os dramas de Blackthorn e a forma como a sua mente trabalha continuam a cativar-me e a querer continuar acompanhá-la, mas as questões que envolviam Grim também eram bastante intrigantes e levavam-me a querer resolver os mistérios que encontrava. Além destas duas figuras já nossas conhecidas surge uma nova, Cara, e os capítulos que a acompanham diretamente são também muito intensos e fazem-nos sentir compaixão. Perante tudo isto, o livro é lido com avidez desde as primeiras páginas.

Gostei de perceber a evolução de Blackthorn. Neste volume, e ao compararmos esta figura com O Lago dos Sonhos, percebemos que ela conseguiu encontrar paz, apesar de toda a revolta que ainda sente e apesar da sua personalidade fechada e até um pouco rude. Juliet Marillier mostra-nos que, apesar da dor relacionada com um passado repleto de tormentos, a esperança em dias melhores pode existir, mesmo que tal possa parecer impossível. E se Blackthorn já não é a mesma do primeiro livro, também as suas relações com os outros mudam. No seu jeito peculiar, ela passa a ter o coração aberto e mais disponível, e, como tal, encontra uma nova missão e um novo motivo para continuar a lutar pelo seu futuro.

É engraçado que Grim é sempre descrito como um homem cuja aparência pode assustar, pois eu só um consigo imaginar como um verdadeiro cavalheiro. Ele é portador de valores tão nobres que se torna impossível não torcer para que consiga ultrapassar os seus demónios e alcançar a felicidade. As suas acções são o reflexo do homem que é, e nesta obra isso torna-se ainda mais marcante. A coragem de Grim para lutar pelos oprimidos é de louvar, e a sua capacidade de ver para além das aparências e do que lhe contam prova que ele é mais inteligente e perspicaz do que julga. Grim é o exemplo do homem simples e bom que faz a diferença da vida dos que ama e da sua comunidade.

Cara surge como o centro de um novo mistério. Ela é uma jovem com quem é fácil sentir empatia, ainda que a forma como aceitou certas revelações tivesse parecido demasiado fácil. Gostei bastante da história que a envolve, apesar de o seu desfecho ser bastante previsível. Ainda assim, acho que o importante não foi a revelação final, mas a forma como as personagens reagiram a esta verdade. Além disso, foi interessante acompanhar a forma como todas as peças deste puzzle se foram encaixando e em que como tudo fez sentido no final.

O culminar desta aventura leva o leitor a acreditar na magia, esperança e justiça. Faz acreditar no amor, mesmo quando tudo parece perdido. Gostei muito da forma como Juliet Marillier conduziu esta histório, conseguindo sempre manter um elevado nível de interesse, e ainda mais da forma como deu por terminada esta aventura. Bem ao seu jeito, a autora faz-nos acreditar em dias mais felizes, inspira-nos a sermos sempre fiéis aos nossos valores e a pensarmos nos outros, mesmo quando tal é difícil. Mais do que uma contadora de história, Juliet Marillier volta a ensinar-nos a sermos melhores.

Opiniões a outros livros de Juliet Marillier:
A Filha da Floresta (Sevenwaters #1)
O Filho das Sombras (Sevenwaters #2) 
A Filha da Profecia (Sevenwaters #3)
A Vidente de Sevenwaters (Sevenwaters #5)
A Chama de Sevenwaters (Sevenwaters #6)
Sangue-do-Coração
Shadowfell (Shadowfell #1)
O Voo do Corvo (Shadowfell #2)
A Voz (Shadowfell #3)
O Lago dos Sonhos (Blackthorn & Grim #1)
A Torre dos Espinhos (Blackthorn & Grim #2)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Opinião: A Torre de Espinhos (Blackthorn & Grim #2)

Título Original: Tower of Thorns (2015)
Autor: Juliet Marillier
Tradução: Catarina F. Almeida
ISBN: 9789896577827
Editora: Planeta (2016)

Sinopse:

Para Blackthorn e Grim, o regresso à vida tranquila na pequena quinta à beira da Floresta dos Sonhos nunca poderia durar muito. Escassas semanas passaram desde que o mistério do Lago dos Sonhos foi resolvido e já um novo desafio paira no horizonte.O príncipe de Dalriada recebeu um pedido de ajuda da parte de Geiléis, a Senhora de Bann, cujas terras medram sob a força de uma estranha maldição.
Uma criatura sem nome instalou-se na velha torre que se ergue numa ilha do rio Bann e, do nascer ao pôr-do-sol, os seus gritos incessantes impedem o gado de crescer, secam os campos e a vontade dos homens e instalam a semente da loucura nos espíritos mais sãos.
Cercada de espinhos venenosos, a misteriosa torre encerra um segredo secular. Caberá a Blackthorn e Grim mergulharem nas trevas de um amor impossível e libertarem o povo de Bann do coração tempestuoso de uma rainha do Povo Encantado.
Pelo meio, a curandeira e o seu companheiro terão de enfrentar o silêncio de quem sabe e atravessar uma teia de mentiras urdida ao longo de vários séculos.
Quem será o estranho habitante da Torre de Espinhos? Um homem, um monstro? Uma força destruidora ou apenas uma vítima? No fim, o amor será a única redenção.

Opinião:

Os livros de Juliet Marillier marcam pela diferença. Quando se começa a ler um, sente-se logo a marca da autora. E isso não acontece apenas devido aos temas místicos e fantásticos e às épocas que retratam. Deve-se também ao facto de se sentir que se está perante um história que é contada de uma forma muito bela, independentemente de conter momentos mais felizes e incríveis ou outros de grande horror. Ou não fosse Juliet Marillier uma criadora de contos de fadas para adultos.

Foi com grande gosto que voltei a acompanhar as aventuras de Blackthorn e Grim. Fiquei cativada com o primeiro volume da série, O Lago dos Sonhos (ver opinião aqui) e queria muito saber que novos desafios se iriam atravessar no caminho das duas personagens centrais desta coleção. Felizmente, A Torre de Espinhos é uma continuação de grande valor, que apresenta uma narrativa nova e intrigante e que ainda consegue explorar outros lados das figuras centrais.

Blackthorn, a líder desta dupla, mantém-se fiel à apresentação que lhe foi feita no primeiro volume. Dá a entender a quem a rodeia de que é uma mulher forte e inabalável, mas a verdade é que as suas fragilidades estão muito presentes. Profundamente magoada pelo passado, é compelida a viver para além dele, mas nunca o esquece. Como tal, quando uma certa proposta surge, é possível constatar as muitas duvidas que a assaltam, assim como se verifica o seu espírito de sacrifício para honrar quem já desapareceu. As suas decisões nem sempre vão ao encontro do que desejei e, por isso, muitas vezes senti vontade de entrar nas páginas do livro para a tentar convencer do contrário.

Da dupla de protagonistas, a figura que mais me cativou neste volume foi Grim. É que se no primeiro livro da série ficámos a conhecer a história de Blackthorn, agora é a vez de desvendar o passado de Grim. Confesso que fui surpreendida pelas revelações que foram feitas ao longo da trama. Este é um homem que também esconde a sua verdadeira personalidade. Porém, quando ultrapassadas as barreiras criadas pelo seu silêncio e distanciamento, é possível verificar o seu grande coração e passar a admirá-lo. Os seus momentos e capítulos acabaram mesmo por serem aqueles que mais me prenderam à leitura.

O mistério a ser desvendado por Blackthorn e Grim está muito bem conseguido. Geiléis é realmente uma personagem misteriosa, e mesmo os capítulos que são contados do seu ponto de vista não deixam logo perceber o que realmente está a acontecer em Bann. Só aos poucos e poucos, conforme ela vai contando uma certa história, é que todas as peças desta enigma se vão encaixando até, finalmente, ficarmos com uma visão completa dos perigos a serem enfrentados. E mesmo assim, é bom saber que até no final existem surpresas que nos impelem para uma leitura entusiasmante.

Os dilemas morais das personagens e as duas dificuldades interiores são ultrapassadas ao mesmo tempo que um perigo real e externo é desvendado. Desta forma, magia e dramas reais surgem entrelaçados de uma forma tão bela que nos fazem acreditar em seres místicos da floresta e em maldições. O início da leitura pode ter alguns problemas, ser lento, mas o avançar da trama acaba por agarrar e por apresentar uma história forte.

A Torre de Espinhos é uma continuação que vai agradar aos leitores que apreciaram o primeiro volume desta saga. Juliet Marillier prova que regressou às tramas mais adultas, mas sem nunca deixar de abordar os ambientes e os temas que tanto cativaram noutras publicações de sua autoria. Estou ansiosa por ter nas mãos o próximo livro da saga para ver que novas aventuras irão surgir e para descobrir mais sobre a evolução dos dois protagonistas, figuras que já estão entre as mais emblemáticas desta contadora de história de que eu tanto gosto.

Outras opiniões a livros de Juliet Marillier:
A Filha da Floresta (Sevenwaters #1)
O Filho das Sombras (Sevenwaters #2) 
A Filha da Profecia (Sevenwaters #3)
A Vidente de Sevenwaters (Sevenwaters #5)
A Chama de Sevenwaters (Sevenwaters #6)
Sangue-do-Coração
Shadowfell (Shadowfell #1)
O Voo do Corvo (Shadowfell #2)
A Voz (Shadowfell #3)
O Lago dos Sonhos (Blackthorn & Grim #1)

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Opinião: O Lago dos Sonhos (Blackthorn & Grim, #1)

Título original: Dreamer's Pool (2013)
Autor: Juliet Marillier
Tradução: Catarina F. Almeida
ISBN: 9789896576288
Editora: Planeta (2015)

Sinopse:

Um livro intenso que tem como pano de fundo a Irlanda medieval. Voltando ao registo dos seus primeiros livros, a autora constrói uma trama intricada, sempre acompanhada dos mistérios celtas, que não deixará os leitores indiferentes.
Em troca de ajuda para escapar a um longo e injusto encarceramento, a amarga curandeira mágica Blackthorn... terá de cumprir, durante sete anos, a promessa que fez ao seu libertador: aceder a todos os pedidos de socorro que lhe forem dirigidos.

Opinião:

Juliet Marillier é uma autora que eu faço questão de acompanhar e fico feliz por os seus livros estarem a ser publicados com regularidade em Portugal.O mais recente a chegar às nossas livrarias é O Lago dos Sonhos, o primeiro volume de uma nova série, que marca o regresso da contadora de histórias a temas mais adultos.

Esta trama é narrada segundo três pontos de vista diferentes. O primeiro que nos é dado a conhecer é o de Blackthorn. Ao contrário de grande parte das protagonistas da autora, esta é uma mulher madura,  sábia, com um temperamento difícil, resultado de um passado de dor e perda, e que tem muita vontade de ver a justiça a ser feita. Gostei bastante dela pela sua diferença e por parecer ser alguém real. Juliet Marillier arriscou com esta personagem e fê-lo muito bem! Nota-se que ela se inspirou nos seus conhecimentos druídicos para a criar assim como na experiência pessoal de outros.

Depois, existe Grim, um homem que também é muito diferente e inesperado. Nota-se queexiste nele um grande coração, mas também algo muito negro que o atormenta. Ao longo de toda a obra queremos perceber o que lhe aconteceu para se tornar o que é. A terceira visão da obra é dada por Oran, um príncipe jovem, idealista e romântico. Ele é o típico galã com que todas as jovens desejam casar, e penso que, desta forma, a autora quis mostrar que o sonho pode existir, ainda que possa ser improvável. Afinal, Juliet já disse por mais do que uma vez que gosta de contar histórias que transmitam esperança apesar dos muitos obstáculos que possam ter.

O desenrolar da narrativa está muito bem conseguido, apesar dos acontecimentos que são revelados na sinopse apenas surgirem na segunda metade do livro. O início é chocante e justifica a personalidade de Blachthorn e Grim. Ao mesmo tempo, cria no leitor a necessidade de que os vilões sejam castigados, uma revolta que se mantém ao longo de toda a leitura. Os elementos mágicos são muito semelhantes aos que surgem noutras obras da autora, uma vez que parecem não ter limites com o que é natural. Podem surgir dúvidas sobre como a história de Blachthorn e Grim se vai intercalar com a de Oran, uma vez que tal demora a acontecer.~

Nesta trama, penso que não existe um grande vilão a ser derrotado, mas sim várias forças que representam a corrupção da humanidade. De todas as formas, a mentira e o engano está sempre subjacente, sendo ainda que na maioria das ocasiões existe o uso da força e do poder para subjugar aqueles que são mais fracos. Acredito que a autora queria mostrar que estas maldades e atrocidades também existem nos nossos dias e, assim, sensibilizar os leitores a serem mais atentos com o que os rodeia.

Relativamente ao mistério que envolve esta trama, está bem conseguido, apesar de Juliet Marillier fornecer muitas pistas sobre o que poderá estar verdadeiramente acontecer. Sendo assim, não é difícil adivinhar qual será a resolução, mas quando tal acontece parece algo saído de um verdadeiro conto de fadas.

O Lago dos Sonhos revela ser um ponto de viragem no trabalho de Juliet Marillier. A trama adquiriu um teor mais adulto e interventivo mas sem nunca perder a ideia de sonho e esperança tão características da autora. Eu fiquei muito bem impressionada e estou ansiosa pela chegada do próximo volume desta série, que tem tudo para estar entre as melhores desta verdadeira contadora de histórias.

Outras opiniões a livros de Juliet Marillier:
A Filha da Floresta (Sevenwaters #1)
O Filho das Sombras (Sevenwaters #2) 
A Filha da Profecia (Sevenwaters #3)
A Vidente de Sevenwaters (Sevenwaters #5)
A Chama de Sevenwaters (Sevenwaters #6)
Sangue-do-Coração
Shadowfell (Shadowfell #1)
O Voo do Corvo (Shadowfell #2)
A Voz (Shadowfell #3)

terça-feira, 8 de julho de 2014

Opinião: A Voz (Shadowfell #3)

Título original: The Caller (2014)
Autor: Juliet Marillier
Tradução: Catarina F.  Almeida
ISBN: 9789896575212
Editora: Planeta (2014)

Sinopse:

A surpreendente conclusão da trilogia que começou com Shadowfell, cheia de romance, intriga e magia. Há um ano, Neryn nada tinha a não ser um Dom Iluminado que mal compreendia e o sonho vago de que a mítica base rebelde de Shadowfell pudesse ser real. Agora, é a arma secreta dos Rebeldes e a sua grande esperança de fazerem vingar essa revolta secreta contra o rei Keldec, que terá lugar no dia do Solstício de Verão. O destino de Alban está nas suas mãos. Entretanto, Flint, o homem por quem se apaixonou, está no limite das suas forças enquanto espião na corte do rei e acumulam-se as suspeitas da sua traição. Em jogo, está a liberdade do povo de Alban, a possibilidade de os Boa Gente saírem dos esconderijos e a oportunidade de Flint e Neryn se unirem finalmente.

Opinião:

Finalmente o fim da trilogia Shadowfell! Estava muito curiosa quanto à forma como Juliet Marillier iria encerrar esta história encantadora que incluí um rei tirânico, uma terra antiga, um povo reprimido, seres mágicos, um grupo de rebeldes e ainda dons fantásticos. Confesso que também guardava alguns receios. Afinal, após a leitura dos dois volumes anteriores, tinha ficado com a noção de que neste livro haveria muito por explorar antes da conclusão e perguntava-me como a autora o iria fazer mantendo a coerência e a fluidez da trama. Felizmente, os meus receios foram infundados e a conclusão bastante satisfatória.

O início da leitura apresenta um ritmo lento. Isto acontece por as primeiras páginas possuírem muitas reflexões e pouca acção. É um tempo onde é preciso tomar decisões e onde as personagens necessitam reencontrar a motivação e a coragem necessárias para colocar em prática o plano da rebelião. Não foi uma fase que me tivesse entusiasmado, até porque se prolonga por mais tempo do que o que seria esperado. Contudo, a partir do momento em que Neryn encontra novas personagens, o ritmo começa a aumentar gradualmente, assim como o interesse pela história.

O encadeamento dos acontecimentos está bem conseguido, é coerente e não pareceu em momento algum forçado. Juliet Marillier surpreende com algumas escolhas inesperadas mas bem justificadas. Uma escolha mais arriscada de Neryn leva-a a um local muito interessante e fá-la conhecer e aproximar-se de outras personagens que nos fazem pensar no reino de uma forma diferente. É a partir deste momento que a leitura arranca a um ritmo rápido. A história torna-se cativante e fica cada vez mais difícil largar o livro.

Uma das coisas que muito apreciei neste livro foi a aproximação de Neryn ao lado inimigo. Desta forma, a autora demonstrou que numa batalha, os dois lados são compostos por humanos, o que faz com que os conceitos de bem e mal sejam relativos. É interessante perceber que entre soldados temíveis por todo o povo de Alban é possível encontrar homens possuidores de valores nobres e um bom coração. Até mesmo a percepção que temos do rei de Alban não é linear ao longo da leitura, o que faz pensar sobre as circunstâncias que transformam um homem. Uma lição que deve ser transportada para a realidade.

É interessante verificar a evolução das personagens mais relevantes ao longo da trilogia. Neryn, a protagonista, foi inicialmente apresentada como uma menina assustada e insegura. Agora, ela é uma mulher dona de uma grande coragem, com um coração aberto a todos os que demonstrem bondade e preparada para fazer o que for preciso para o bem comum. Já o Flint do primeiro livro era um homem misterioso, ponderado e que sabia esconder as suas fraquezas. Neste derradeiro volume, ela mostra-se fragilizado devido aos conflitos internos que vive, é um homem que desespera, que tenta a todo o custo continuar a lutar e que, apesar de todo o sofrimento, ainda é capaz de encontrar qualidades onde mais ninguém as vê. Ambos tornaram-se diferentes daquilo que eram no primeiro volume, mas mais completos e fortes.

Apesar de não ter encontrado a carga emotiva desejada ou de ter achado que faltava uma maior noção de perigo, a verdade é que fiquei muito satisfeita com este livro e com a conclusão. As histórias de Juliet Marillier fornecem sempre encantamento e uma sensação de esperança, e A Voz não é excepção. No final, fica a crença de que até as situações mais difíceis podem ser ultrapassadas desde que exista boa vontade e fé. A autora, ao confrontar duas personagens com dons idênticos, mostra ainda que a bondade prevalece ao desejo de poder. Para tal, é necessário ser fiel aos valores inciais.

A Voz encerra bem a trilogia Shadowfell. É um livro que remete para conceitos ligados ao druidismo, que fala de esperança, que apela à bondade entre todos os seres e que mostra que os valores mais humildes podem ser os mais poderosos. Acredito que vai agradar aos fãs de Juliet Marillier. Uma leitura que faz acreditar que após dias negros, chegam sempre tempos de sol.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Opinião: O Voo do Corvo (Shadowfell #2)

Título original: Raven Flight (2013)
Autor: Juliet Marillier
Tradução: Catarina F. Almeida
ISBN: 9789896574505
Editora: Planeta (2013)

Sinopse:

Depois de concluir a sua longa e árdua viagem até à base dos Rebeldes em Shadowfell, Neryn tornou-se uma parte vital da rebelião contra o tirânico rei Keldec. Cada passo que dá no sentido de aperfeiçoar os seus dons e afirmar-se como uma Voz poderosa e única na sua geração leva-os mais perto da meta pretendida. Mas, primeiro, Neryn terá de procurar os Guardiães das quatro Vigias para completar o seu treino e o tempo escasseia. Entretanto, Flint, o espião rebelde por quem se apaixonou, foi de novo chamado à corte de Keldec. O laço que os une é tão forte que, mesmo à distância, se procuram em sonhos, partilhando momentos preciosos - ainda que inquietantes - da vida um do outro.
Os Rebeldes vêem com desconfiança este novo amor. Permitir que a emoção se sobreponha à lógica fria do movimento pode pôr tudo em risco. No fim, o amor poderá revelar-se a força motriz da esperança ou a brecha traiçoeira na armadura da rebelião.

Opinião:

O Voo do Corvo segue a jornada de Neryn que pretende aperfeiçoar o dom de Voz e assim ser uma peça de grande relevância na luta contra um regime absoluto e tirânico que rege este reino de inspirações medievais, encantado e misterioso.

Neryn continua a provar que é muito mais do que uma jovem perdida e agraciada com um poder incomum. Ao longo da narrativa, é possível verificar que os dons da protagonista são constantemente colocados à prova. Juliet Marillier criou situações que fazem o leitor questionar-se sobre o que faria se estivesse naquele lugar, e surpreende ao mostrar como Neryn ultrapassa cada obstáculo. Muitas das resoluções não são aquelas que inicialmente poderiam ser esperadas e isso é agradável de constatar.

Com o início de trama, é possível ficar a conhecer melhor as personagens que compõe o grupo de Rebeldes assim como a sua forma de organização. O primeiro aspecto que salta à vista é a união que existe entre todos, apesar de sugerirem passados distintos mas sempre marcados pelo sofrimento da opressão. É ainda interessante observar que todos os membros possuem um papel fulcral para o bom funcionamento deste grupo, não havendo grandes diferenciações entre géneros. Talli é um bom exemplo de uma mulher que desafia as convenções esperadas para uma sociedade da época e acaba por ser também uma das personagens secundárias mais interessantes. Afinal, ela revela diversas dimensões, tornando-se bastante humana e cativando de forma lenta mas gradual.

Apesar de Neryn e Flint não estarem tão próximos fisicamente como no volume anterior, assiste-se a um desenvolvimento nesta relação. A força do sentimento que os une não deixa margens para dúvidas e, cada vez mais, se percebe que a atracão inicial transformou-se em amor. As formas de demonstração deste sentimento são diferentes, afinal, o casal principal continua a ter como prioridade a missão Rebelde. 

É com curiosidade que se assistem aos momentos dedicados directamente a Flint, que nos levam a conhecer melhor a corte e o temível rei Keldec. Observar o comportamento deste agente infiltrado na corte e a forma como ele garante a confiança do monarca podem incomodar mas também propiciam momentos de grandes revelações. Nota-se claramente que este rebelde não se sente inteiramente confortável na sua missão, no entanto, está disposto, até mesmo a manchar o seu nome, para que os seus amigos tenham sucesso. Ainda sobre o rei Keldec, fica a ideia de que nem sempre é ele o responsável pelo regime tirânico, o que, sem dúvida, traz uma nova visão sobre tudo e faz pensar sobre o poder de vozes conselheiras.

O desenrolar dos acontecimentos deste livro acaba, no entanto, por ser o esperado desde o início. A nova jornada de Neryn tem objectivos muito concretos e é estimulante, mas o leitor desde cedo percebe até onde ela vai chegar ao longo destas páginas, para além de que o seu sucesso é inquestionável. Tudo isto faz com que a história não perca a ideia de que com esforço e dedicação tudo é possível, mas faz também perder a sensação de imprevisto e de quebrar um pouco a emoção da leitura. Contudo, mais perto do final, revelo que existe uma reviravolta que muito me agradou.

Com o decorrer da narrativa, é inevitável constatar que Juliet Marillier foi inspirada na tradição druida. A ligação de Neryn com a natureza, o respeito por todos os seres, desde os mais fortes aos mais frágeis e as atitudes que demonstra perante cada provação remetem para o druidismo de uma forma mais realista do que fantástica e fazem transparecer os valores da autora.

O estilo de escrita utilizado pela autora continua a ser muito característico da autora. As palavras possuem uma beleza e mistério particular, o leitor é embalado para uma história que faz lembrar os contos tradicionais mais belos. É fácil entrar neste mundo e mais ainda de perceber as motivações e sentimentos das personagens. A autora, que gosta de se apresentar como contadora de histórias, continua a dar provas de que este género é a sua casa, e nós, leitores, somos sempre bem acolhidos neste espaço tão familiar e, curiosamente, irresistível.

A trilogia Shadowfell continua a dar provas do talento de Juliet Marillier. História mais simples do que aquelas que são constantemente exaltadas como as mais bem conseguidas da autora, é, no entanto, eficaz em transportar o leitor para um mundo de onde não apetece sair. Leitura muito agradável, com muitas revelações, momentos de encantar e perigos, que faz ansiar pela conclusão desta saga.

Outras opiniões a livros de Juliet Marillier:
A Filha da Floresta (Sevenwaters #1)
O Filho das Sombras (Sevenwaters #2) 
A Filha da Profecia (Sevenwaters #3)
A Vidente de Sevenwaters (Sevenwaters #5)
A Chama de Sevenwaters (Sevenwaters #6)
Sangue-do-Coração
Shadowfell (Shadowfell #1)

sábado, 7 de setembro de 2013

Opinião: A Filha da Profecia (Sevenwaters #3)

Título original: Child of the Prophecy (2000)
Autor: Juliet Marillier
Tradutor: Irene Daun e Lorena e Nuno Daun e Lorena
ISBN: 9722512714
Editora: Bertrand Editora (2006)

Sinopse:

Fainne foi criada numa enseada isolada da costa de Kerry, com uma infância dominada pela solidão. Mas o pai, filho exilado de Sevenwaters, ensina-lhe tudo o que sabe sobre artes mágicas. Esta existência pacífica é ameaçada pelo surgimento da avó da rapariga, a terrível lady Oonagh, que se impõe na vida na neta. Com a perversidade que a caracteriza, a feiticeira informa Fainne do legado que traz dentro de si: o sangue de uma linhagem maldita de feiticeiros, incutindo na jovem um sentimento de ódio profundo e, ao mesmo tempo, incumbindo-a de uma tarefa que a deixará aterrorizada. Enviada para Sevenwaters com o objectivo de destruí-la, Fainne irá usar todos os seus poderes mágicos para impedir o cumprimento de uma profecia.

Opinião:

Depois de ter relido os dois volumes anteriores da trilogia Sevenwaters, fiquei com vontade de também pegar no terceiro. A oportunidade chegou agora e eu aproveitei. Lembro-me que quando li estes livros pela primeira vez, A Filha da Profecia foi aquele que menos me cativou. Não me lembrava ao certo das razões, mas ao reler, claro que recordei. Curiosamente, aqueles que tinham sido apontados como pontos fracos foram agora vistos com outros olhos (parece que ao reler conseguimos mesmo descobrir coisas diferentes).

A protagonista deste volume é Fainne, uma jovem muito diferente das duas heroínas anteriores e que só desta vez me prendeu da mesma forma que Sorcha ou Liadam. Percebo agora que ela travou uma luta muito diferente. Fainne acredita que é maligna., contudo tem um coração bom. Assim, torna-se numa rapariga com medo de si própria e pouco confiante nas suas capacidades. É curioso e interessante ver que a sua personalidade possui traços de Ciarán e Niamh. Realmente Juliet Marillier é uma contadora de histórias atenta aos detalhes.

A jornada de Fainne é também diferente. Primeiro porque não se inicia em Sevenwaters e porque ela aparenta não ter ligação a esse local. Depois porque tem um objectivo primário de vingança. Ao longo do seu percurso assiste-se a lutas internas, o que deixa transparecer a capacidade crítica desta personagem. É curioso ver personagens que já encantaram em volumes anteriores do ponto de vista de estranhos. Nós conhecemos aquelas figuras, sabemos quais são as suas intenções, mas Fainne não. Isso gera algumas situações que o leitor não deseja, mas que fazem sentido. Fainne acaba assim por gerar sentimentos contraditórios, mas também volta a por em evidência a capacidade da autora surpreender.

As personagens secundárias voltam a ter papéis fucrais e continuam fortes, tal como Juliet nos habituou. Confesso que gostei do lutador e persistente Darragh e Johnny cativou tal como as filhas de Sean avisaram (foi interessante ver estas meninas depois de ter lido os livros que protagonizam). Quanto às figuras que já eram conhecidas, destaco Ciarán e Eamonn. Ciarán sempre foi uma personagem envolta em mistérios, sofredora e que me prende. Quero sempre saber mais sobre ele e quando surge nota-se um ambiente diferente na leitura. Eamonn é uma figura que está muito bem conseguida, que consegue fazer-me sentir pena e aversão. É impossível ficar-lhe indiferente.

A escrita de Juliet encanta. A autora tem a capacidade de embalar o leitor com as suas palavras, aventuras, dilemas. Contudo, o trabalho de tradução não esteve ao nível que este autora merecia. Foram muitas as gralhas encontradas, sendo que a maior falha ocorreu mesmo ao nível da tradução do título e ao ser ocultada uma parte do texto original.

Percebo que a editora quis dar seguimento à palavra "filho/a" no título desta obra, de forma a que o leitor criasse uma ligação entre todos os volumes, contudo viu-se que esta foi uma escolha feita sem se ter em consideração a história. O título original pode ser livremente traduzido para "A Criança da Profecia". A opção da Bertrand desvenda rapidamente um dos maiores enigmas desta trama e o leitor perde com isso. Quanto à parte do texto, trata-se de uma canção presente num momento de redenção, sendo especialmente emotiva. Não percebo a decisão de não a incluírem na versão portuguesa da obra, e sinto que, infelizmente, tenho um livro incompleto.  Na caixa de spoiler podem ler o texto original.



Esta ser uma releitura que muito me agradou, Penso que a realização dos acontecimentos descritos na profecia estão curiosos, contudo existem alguns que parecem surgir de uma forma demasiado repentina. Juliet Marillier sempre disse que escreve para inspirar e procura sempre um final feliz, mas este pareceu-me ser um pouco forçado.

A Filha da Profecia fecha este primeiro ciclo de Sevenwaters. Muitos dos enigmas que eram levantados nos dois volumes anteriores estão agora desvendados e o equilíbrio retomado de uma forma inesperada. Uma leitura marcante e que encerra uma das trilogias que mais acarinho. Claro que recomendo.

Outras opiniões a livros de Juliet Marillier:
A Filha da Floresta (Sevenwaters #1)
O Filho das Sombras (Sevenwaters #2)
A Vidente de Sevenwaters (Sevenwaters #5)
A Chama de Sevenwaters (Sevenwaters #6)
Sangue-do-Coração
Shadowfell (Shadowfell #1)

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Opinião: A Chama de Sevenwaters (Sevenwaters #6)

Título original: Flame of Sevenwaters (2012)
Autor: Juliet Marillier 
Tradução: Catarina F. Almeida 
ISBN: 9789896574154
Editora: Planeta (2013)

Sinopse:

Dez anos depois do terrível incêndio que quase lhe custou a vida, Maeve, filha de Lorde Sean de Sevenwaters, regressa a casa. Traz nas mãos disformes as marcas desse acidente e dentro de si a coragem férrea de Liadan e Bran, os pais adoptivos, e um dom muito especial para lidar com os animais mais difíceis. Embora as cicatrizes se tenham fechado, Maeve ainda teme as sombras do passado — e o regresso a casa não se faz sem dificuldades. Até porque Sevenwaters está à beira do caos.

Opinião:

Juliet Marillier conquistou uma legião de fãs ao apresentar heroínas inspiradoras que vivem jornadas intensas onde a bondade, coragem e abnegação são essenciais. Assim, sendo, a história de Maeve, a protagonista deste novo livro dedicado à amada série Sevenwaters não é excepção.

Jovem marcada no corpo e na alma por um terrível acidente que ocorreu há 10 anos, Maeve refugiou-se na casa dos tios Liadan e Bran. Nesse local pequeno e familiar, aprendeu a aceitar as suas limitações e a tornar-se independente. Contudo, chegou o dia de voltar à casa dos pais, Sean, o senhor de Sevenwaters.

As dificuldades físicas desta protagonista fazem com que a empatia seja imediata. O leitor sente a dor desta jovem com a face marcada e as mãos incapazes, percebe as suas dificuldades em questões quotidianas e as suas dificuldades sociais. É com interesse que se descortina a máscara criada por Maeve com o intuito de protecção, o que acaba por lhe fornecer uma maior complexidade. Por um lado, existe uma jovem que já aceitou a sua condição e o seu destino, por outro há uma sonhadora que quer mais da vida.

Desde o início da leitura, é possível constatar que esta é uma personagem dotada de um dom especial relacionado com os animais. Maeve tem a capacidade única de domar animais selvagens com simples palavras ou gestos. Apesar de esta ser uma boa ideia da autora que tanto ama animais, poderá ser considerada demasiado forçada em certas circunstâncias.

Com o desenrolar da ação, o leitor fica também a conhecer melhor Finbar. É de recordar que esta personagem foi fundamental para a acção do livro O Herdeiro de Sevenwaters, apesar de nesse volume surgir enquanto bebé. Agora, já mais velho, revela-se uma criança peculiar, que vai fazer as delícias de quem ficou cativado com o seu homónimo e tio-avô.

Ainda relativamente às personagens, destaco o papel de Ciarán. O druida misterioso cuja história foi possível acompanhar nos volumes anteriores, finalmente encontra um propósito concreto. Esta é sem dúvida uma das personagens mais interessantes de Juliet Marillier, e é com um misto de alegria e tristeza que se descobre o fim que lhe foi reservado.

Relativamente à inevitável história de amor, esta não é convincente. O leitor atento e já conhecedor das artimanhas da autora perceberá desde o início o destino que Juliet reserva para Maeve. Quando tal acontece, a relação vai parecer evoluir de uma forma demasiado rápida e forçada, não satisfazendo quem anseia um romance intenso e mais consistente.

Ao longo da leitura é interessante verificar a forma como as limitações de Maeve vão ficando subtilmente menos evidentes. A autora começa a destacar as potencialidades desta protagonista, transmitindo a ideia de que para se ser útil e capaz só é preciso ter força de vontade.

A Chama de Sevenwaters é um livro inspirador, que volta a focar a temática da superação e da consequência das boas ações. Apesar de este volume ficar aquém dos três primeiros livros de Sevenwaters (A Filha da Floresta, O Filho das Sombras e A Filha da Profecia), é de salientar que está superior aos dois que lhe antecedem (O Herdeiro de Sevenwaters e A Vidente de Sevenwaters). Uma boa leitura. 

Outras opiniões a livros de Juliet Marillier: 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Opinião: Shadowfell (Shadowfell#1)

Título original: Shadowfell
Autor: Juliet Marillier
Tradução: Catarina Almeida
ISBN: 9789896573324
Editora: Planeta (2012)

Sinopse:

 Na terra de Alban, onde o jugo tirânico de Keldec reduziu o mundo a cinzas e terror, a esperança tem um nome que só os mais corajosos se atrevem a murmurar: Shadowfell. Diz a lenda que aí se refugia uma força rebelde que lutará para libertar o povo das trevas e da opressão.

E é para lá que se dirige Neryn, uma jovem de dezasseis anos que detém um perigoso Dom Iluminado: o poder de comunicar com os Boa Gente e com as criaturas que vivem nas profundezas do Outro Mundo. Será Neryn forçada a fazer esta perigosa viagem sozinha? Ou deverá antes confiar na ajuda de um misterioso desconhecido cujos verdadeiros desígnios permanecem por esclarecer?

Perseguida por um império decidido a esmagá-la e sem saber em quem pode confiar, Neryn acabará por descobrir que a sua viagem é um teste e a chave para a salvação do reino de Alban pode estar nas suas próprias mãos.


Opinião: 

Juliet Marillier apresenta o início de uma nova saga com Shadowfell. Apesar de ser uma trama destina a um público jovem adulto, a autora não descura de algumas características às quais os seus fãs já estão habituados: uma heroína forte, uma tarefa arriscada, um amor difícil e a presença de seres místicos.

Com o início da leitura, percebe-se que a população de Alban vive num clima de terror, especialmente aqueles que, à semelhança de Neryn, possuem uma capacidade especial. A protagonista é jovem e sente-se abandonada por todos. Desorientada, acaba por se agarrar a uma ideia que nem sabe se é inteiramente verdade, iniciando, assim, uma difícil jornada onde será colocada à prova.

Shadowfell relata, quase por inteiro, uma viagem. Existem momentos que podem parecer mais parados, mas é muito interessante ver como esta demanda modifica Neryn e as personagens que esta acaba por encontrar. Juliet dá a entender que o caminho a ser percorrido não é difícil apenas pelas questões naturais e pela longa distância, mas sobretudo pelas provações que proporcionam o desenvolvimento.

Neryn, inicialmente, pode ser vista como uma rapariga jovem, perdida e possuidora de uma réstia de esperança, mas, com o tempo, acaba por se revelar uma mulher corajosa, capaz de passar por grandes períodos de privações e sofrimento, assim como de ultrapassar os seus próprios limites. Penso que não é uma protagonista com quem se simpatize facilmente, mas que acaba por conquistar. Gostei especialmente, de que, apesar de ser evidente o teor romântico da obra, Neryn ser uma mulher capaz de colocar os seus valores à frente do seu coração.

A grande reviravolta desta obra acontece quase no fim, sendo também nesta fase em que se registam cenas de maior ação. É nesse momento que Neryn percebe a verdadeira dimensão do seu dom, o que leva a entender que fina linha que separa o bem do mal.

O envolvente e misterioso Flint faz lembrar outras personagens masculinas da autora que se tornaram marcantes. Ambíguo e possuidor de um passado complexo, é alguém que queremos ver mais explorado. Existem também outras personagens interessantes, nomeadamente algumas das que surgem na recta final da leitura.

A escrita de Juliet mantém as características de sempre, apesar de poder parecer mais simples neste volume. A linguagem poderá ser mais directa e as descrições mais básicas, mas os vestígios de misticismo e de beleza poética estão presentes.

Shadowfell não recupera todo o esplendor a que Juliet Marillier nos habituou com os seus trabalhos iniciais, mas parece estar a caminhar nesse sentido. No final fica a sensação de satisfação, mas também de que alguns pontos poderiam ter sido melhor expostos, ao mesmo tempo que se sente que o próximo volume desta nova saga terá todos os ingredientes para ser ainda mais envolvente do que este. Um livro escrito para um público jovem mas que pode agradar os mais maduros.

Outras opiniões a livros de Juliet Marillier:
A Filha da Floresta (Sevenwaters #1) 
O Filho das Sombras (Sevenwaters #2) 
A Filha da Profecia (Sevenwaters #3) 
A Vidente de Sevenwaters (Sevenwaters #5)
A Chama de Sevenwaters (Sevenwaters #6)
Sangue-do-Coração

domingo, 23 de dezembro de 2012

Comprar o livro pela capa 15: O Filho das Sombras

Com saudades da rubrica "Comprar o livro pela capa"? Eu estava!
Como tal, decidi apresentar-vos as duas imagens que O Filho das Sombras, de autoria de Juliet Marillier, já apresentou. Apesar de esta publicação da Bertrand Editora usar a mesma imagem de fundo nas duas capas, a verdade é que existem diferenças bastante significativas.

A adaptação da pintura de John William Waterhouse, marcada pelos tons dourados e verdes foi a primeira aposta da Bertrand Editora. Os elementos de enquadramento são idênticos ao primeiro volume da saga, A Filha da Floresta, e, a lombada apresenta o título da obra e o nome da autora numa letra muito pequena.

A segunda capa volta a ter os mesmos tons em destaque, mas a imagem central consiste num pormenor da anterior. Os elementos de enquadramento são mais elegantes, assim como o tipo de letra utilizado.

Apesar de este ser o meu volume preferido da trilogia Sevenwaters, a verdade é que também é aquele cuja capa menos me agrada. Digo isto porque penso que a imagem utilizada não é facilmente associada ao conteúdo da história. E mesmo que se faça uma ligação da figura feminina a Liada, a verdade é que a expressão de dor e sofrimento patentes não ligam à força e coragem da protagonista. Mas isto, claro, é apenas a minha opinião.

Vistas as duas capas, qual é a vossa preferida? Qual gostariam mais de ver nas vossas estantes!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Opinião: O Filho das Sombras (Trilogia Sevenwaters #2)

Título original: Son of the Shadows (2000)
Autor: Juliet Marillier
Tradutor: Irene Daun e Lorena e Nuno Daun e Lorena
ISBN:
9789722512299
Editora: Bertrand Editora (2002)
 
Sinopse:
 
As florestas de Sevenwaters lançaram o seu feitiço sobre Liadan, a filha de Sorcha, que herdou os talentos da mãe para curar e penetrar no mundo espiritual. Os espíritos da floresta avisam-na de que, para que as ilhas sagradas sejam reconquistadas aos Bretões, Liadan deverá permanecer em Sevenwaters.

A Irlanda está agora em guerra, e as suas costas são assoladas por atacantes. Entre os inimigos há um que se destaca: o Homem Pintado, que granjeou uma reputação terrível de mercenário feroz e astuto, e que espalha o terror por onde quer que passe.

Ao regressar a casa, Liadan é capturada pelo Homem Pintado. Porém, este acaba por se revelar bem diferente da lenda, e apesar da antiga profecia que a obrigava a permanecer em Sevenwaters, a jovem sente-se atraída por ele. Mas poderá ela viver o seu amor sem que a maldição recaia sobre Sevenwaters?
 
Opinião:
 
Depois de ter relido A Filha da Floresta, ficou a vontade de pegar na restante trilogia Sevenwaters. O livro que se seguia era este, O Filho das Sombras. Quando li estes volumes pela primeira vez, recordo que o segundo foi o meu preferido. Por isso mesmo, foi com algum receio que lhe peguei, pois tive medo que as minhas conceções mudassem. Tal não aconteceu.

É verdade que uma releitura é sempre diferente. A história já é conhecida, o que faz com que exista a ideia de que já não existem surpresas na trama. Como me enganei!

Quando comecei a ler, depressa percebi que existiam tantos pormenores de que não me recordava. Em primeiro lugar, é interessante ver como Juliet Marillier construiu uma trilogia belíssima, fazendo com que cada volume esteja ligado e, ao mesmo tempo, tenha um rumo muito próprio e independente. A protagonista, desta vez é Liadan, filha de Sorcha e Hugh, o par romântico do livro anterior.

Ao início, percebe-se que o ambiente até aquele momento foi de paz, contudo, os perigos voltam para assombrar a família de Sevenwaters e a testar a resistência e coragem dos seus habitantes. No centro da ação está Liada, uma menina que se faz mulher ao longo da leitura e que é dotada das melhores qualidades dos seus pais. Dotada da Visão, tal como o seu misterioso tio Finbar, Liadan depressa percebe que o destino de todos está nas suas mãos.

A protagonista é uma personagem que cativa. Com sentimentos de proteção relativamente aos seus, Liadan coloca de parte os seus desejos, sendo, em momentos iniciais, uma observadora de feitos maiores. Contudo, o destino coloca-a num lugar central e, se a sua mãe ouviu sem contestar os conselhos das Criaturas Encantadas, é com interesse e receio que vemos esta protagonista a seguir os seus instintos, mesmo quando todos dizem que está a caminhar para um lugar de trevas, dor e morte.

Uma personagem tão forte merecia um par à sua altura. E, assim, surge Bran, o Homem Pintado. Chefe de um grupo clandestino, é também um homem com um passado doloroso. E se as suas ações podem parecer, à primeira vista, condenáveis, depressa percebe-se que ele pode ser um bode expiatório dos males praticados por outros. A relação entre os dois é inspiradora e o leitor deseja que os dois encontrem a paz tão distante e ansiada.

Paralelamente existem outras figuras que despertam o interesse. É o caso de Eamonn que, apesar de ser um homem odiado, é também uma personagem muito bem construída. Seria necessário um grande obstáculo para tornar as peripécias mais intensas, e Eamonn revela-se capaz disso. Ambíguo, é complexo e fica a vontade de conhecer melhor o que realmente o move e o porquê de estar fixado em certas questões. 
 
Também a história de Niamh e Ciarán desperta o interesse. Casal condenado desde o início, o seu sofrimento faz despoletar uma certa antipatia por personagens tão acarinhadas do primeiro livro. Eles demonstram como a falta de esperança pode ser destrutiva, deixando o leitor em suspenso, e com vontade de perceber se o amor realmente sarou as feridas profundas que foram infligidas.
 
Com uma narrativa excecional, digna de uma verdadeira contadora de histórias, o leitor depressa se sente encantado por este volume, repleto de magia, esperança, dor, sacrifício e amor.  Tal como a autora disse uma vez durante uma visita em Portugal, todas as suas histórias têm o intuito de demonstrar que a esperança em dias melhores nunca deve morrer para que o final feliz seja alcançado. Essa é uma das particularidades que tornam os seus livros tão inspiradores e admirados.

No final, pode ficar a dúvida: "mas quem é o filho das sombras?". Afinal, existem pistas que apontam para dois lados diferentes e a verdade apenas será confirmada no terceiro volume, A Filha da Profecia

Vencedor do prémio Aurealis de 2000 para Melhor Romance de Fantasia, O Filho das Sombras é um livro que voltou a impressionar-me nesta releitura. Continua a ser um dos meus preferidos de sempre e recomendo-o, sem hesitações.

Outros livros de Juliet Marillier:


domingo, 4 de novembro de 2012

Comprar o livro pela capa 10: A Filha da Floresta

A imagem de fundo é a mesma, mas as capas possuem designs diferentes. A Bertrand Editora optou por modificar a imagem de A Filha da Floresta, de Juliet Marillier, um livro de sucesso.



A imagem de base faz uma clara ligação com a história do livro, uma vez que apresenta uma rapariga de cabelos negros e cisnes num ambiente natural. Contudo, enquanto a capa utilizada nas primeira edições apresenta tons mais escuros e uma visão mais alargada da imagem, a versão mais recentes tem cores mais claras e faz pormenor da figura feminina e de apenas um cisne.

Os tipos de letra foram também alterados, sendo que na segunda capa estes parecem menos rígidos, para além de que as imagens que rodeiam a capa foram também modificadas.

Não se trata de uma mudança de capa drástica, mas existem alterações significativas. Para mim, as duas têm pontos fortes, mas tudo analisado acabo por preferir a primeira.

E vocês, qual gostam mais?



Opinião a este livro aqui.

domingo, 7 de outubro de 2012

Opinião: A Filha da Floresta (Trilogia Sevenwaters #1)



Título original: Daughter of the Forest (1999)
Autor: Juliet Marillier
Tradutor: Irene Daun e Lorena e Nuno Daun e Lorena
ISBN: 9722511971
Editora: Bertrand Editora (2001)

Sinopse:

Passada no crepúsculo celta da velha Irlanda, quando o mito era Lei e a magia uma força da natureza, esta história de Sorcha, a sétima filha de um sétimo filho, e dos seus seis irmãos.

O domínio Sevenwaters é um lugar remoto, estranho, guardado e preservado por homens silenciosos e Criaturas Encantadas que deslizam pelos bosques. Os invasores de fora da floresta, os salteadores do outro lado do mar, estão todos decididos a destruir este idílico paraíso. Mas o maior perigo está dentro do domínio: Lady Oonagh, uma feiticeira, que casou com o pai de Sorcha, senhor de Sevenwaters. Frustrada por não conseguir separar totalmente a família, Oonagh lança um poderoso feitiço sobre os irmãos da rapariga, que só Sorcha poderá conseguir quebrar. Se falhar, continuarão encantados e morrerão!

Porém, a meio da pesada tarefa de libertar os irmãos, Sorcha é raptada por um grupo de salteadores, e ver-se-á dividida entre o dever de salvar a vida dos irmãos e um amor cada vez maior, proibido, pelo senhor da guerra que a capturou.

Opinião:

Li A Filha da Floresta já há alguns anos e, para mim, este foi o início de uma trilogia que ainda hoje considero uma das minhas preferidas. Contudo, apercebi-me que os livros mais recentes da autora não me encantaram como os primeiros e isso fez-me questionar: será que fui eu como leitora que mudei, ou será que as tramas de Juliet Marillier ficaram realmente mais fracas? Para tirar a dúvida decidi reler o primeiro volume da Trilogia de Sevenwaters.

As incertezas desapareceram logo nos primeiros capítulos. Quando se pega em A Filha da Floresta, é fácil perceber que este é um livro escrito com o carinho de uma talentosa contadora de histórias. É fácil entrar no mundo místico e encantador de Sevenwaters, cheio de segredos, mistérios, mas também dono de uma beleza única e fácil de imaginar.

Sorcha, a protagonista, é uma personagem com quem é fácil criar empatia. A mais nova de seis irmãos é uma menina mimada por todos, sem ser egocêntrica ou egoísta. Alegre, aventureira e bondosa, sente vocação por cuidar dos mais desfavorecidos. O desenrolar dos acontecimentos vai-se revelar uma verdadeira prova de vida e morte, onde a sua paciência, persistência, amor e fé vão ser testados até ao limite. Existem situações mais dolorosas, que arrepiam o leitor e fazem desejar um destino mais bondoso para a heroína.

As provas que Sorcha tem de enfrentar são de grande dificuldade. Quando tudo parece encaminhar-se pelo melhor, existe sempre uma reviravolta que a faz sofrer mas também amadurecer. A protagonista perde a sua inocência e percebe que o mundo não está dividido entre bons e maus. A dor pode ser provocada por aqueles que considera aliados e a salvação pode estar nas mãos de possíveis inimigos, o que faz com que o sofrimento e esperança estejam sempre presentes na narrativa.

É interessante verificar as personalidades tão díspares dos seis irmãos de Sorcha. Através de uma descrição natural e pouco forçada de atitudes e comportamentos, Juliet Marillier deixa transparecer a verdadeira essência de cada um. Existem um que podem cativar mais o leitor em detrimento dos outros, mas a verdade é que todos estão unidos por uma bonita ligação, pelo amor à irmã mais nova e pela devoção à sua terra.

Apreciei o facto de a autora se preocupar em dar justificações relativamente a comportamentos mais questionáveis de certas personagens. Falo, por exemplo, de Lord Collum ou de Lady Anne. Ao início, o leitor cria antipatia por estas figuras, mas, com o decorrer da trama, surge uma justificação para determinadas ações, o que confere uma nova visão, mais humana e compreensiva.

Inerente à trama, existe ainda a reflexão sobre o bem e o mal. A autora preocupou-se em demonstrar que todos os homens têm o poder do bem e do mal, e que está nas suas mãos decidir o que fazer. Assim sendo, a pátria e a fé podem surgir como impedimentos ao convívio, mas tal não significa que sejam justificativas válidas.

Terminada a leitura, fico feliz por verificar que A Filha da Floresta continua a ser a leitura que me recordava: atraente, bela, forte e capaz de fazer sonhar. Fica a vontade de reler os volumes que se seguem, O Filho das Sombras e A Filha da Profecia, e o desejo de que Juliet Marillier volte a encontrar a inspiração que a levou a escrever tramas tão mágicas.

Outros livros de Juliet Marillier: