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domingo, 18 de junho de 2017

Opinião: O Grito do Corvo (Crónicas da Terra e do Mar #3)

Autor: Sandra Carvalho
ISBN: 9789722357901
Editora: Editorial  Presença (2017)

Sinopse:

Os piratas do Rouxinol veem-se cada vez mais longe de saquear o ouro da galé castelhana Niña del Mar devido aos estragos causados pela violenta tempestade que se abateu sobre o barinel, A descoberta da identidade de Leonor faz com que Corvo queira regressar de imediato aos Açores, para entregá-la à guarda do pai, Porém, a tripulação discorda e o caos instala-se a bordo, O que Leonor mais deseja é lutar ao lado dos companheiros e recuperar a confiança de Corvo, No entanto, Tomás Rebelo continua a precisar dela para alcançar o propósito funesto que o levou a assenhorear-se de Águas Santas, Conseguirá Leonor chegar incólume à misteriosa ilha das Flores, conhecer o Açor e abraçar a irmã, ou acabará abandonada por Corvo, à mercê dos caprichos do abominável Tomás Rebelo?

Opinião:

Que bom que é chegar ao fim de uma história que nos encantou. E é tão nostálgico fechar um livro de que tanto se gostou. Terminei a leitura e O Grito do Corvo com a sensação de ter vivido uma grande aventura, de ter estado ao lado de um grupo de piratas muito divertido e companheiro, de ter vivido uma grande história de amor e ainda de ter desvendado mistérios familiares e outros ainda repletos de magia. Fica então aquela sensação agradável de conhecer o desfecho desta narrativa, mas também a vontade de continuar lado a lado com estas personagens.

Ainda bem que as "Crónicas da Terra e do Mar" tiveram um terceiro volume. Esta história não estava pensada para ser uma trilogia, mas Sandra Carvalho, percebeu, a meio do processo criativo, que a história de Leonor precisava de mais desenvolvimentos e explicações. Surgiu então a necessidade de escrever este terceiro livro, que nos apresenta uma conclusão consistente e ponderada. O final não chegada de forma abrupta e com muito por explicar. Existem pontos que podem vir a ser desenvolvidos em narrativas paralelas, é verdade, mas a linha geral desta aventura fica aqui encerrada.

Leonor apresentou uma grande evolução ao longo dos três livros. Neste último assistimos ao ponto em que ela aceita quem realmente é, depois de ter passado tanto tempo com dúvidas e em negação. Assim sendo, esta protagonista consegue tornar-se ainda mais corajosa e alcançar um potencial maior. Podemos não concordar com todas as suas decisões ou ideias, mas compreendemos as suas motivações e queremos vê-la a ter o seu final feliz.

Corvo também passa por uma transformação ao longo desta aventura. A sua mudança poderá ter parecido mais abrupta, especialmente num certo momento da obra. Contudo, esta sensação pode surgir por não lhe conhecermos os pensamentos, ao contrário do que acontece com Leonor. Apesar disso, é fácil perceber os conflitos interiores que vive e o esforço que faz para colocar sempre a razão à frente do coração. O que o move faz sentido, e daí ser fácil perceber que a mudança aconteça lentamente.

O aparecimento de personagens inesperadas enriqueceu a narrativa e levou-nos para contextos históricos, tanto de conquistas como de costumes sociais. Gostei também que Leonor encontra-se mais do que um inimigo durante este seu caminho, apesar de haver um vilão maior a ser confrontado. Relativamente a esta figura, gostei que as suas motivações fossem expostas, uma vez que é isso que justifica muito do que aconteceu desde o início do primeiro livro. Aqui a fantasia volta a misturar-se com o que é mais factual, o que se revela delicioso para quem gosta do género.

É curioso ver como os factos e a ficção ficaram tão bem entrelaçados, levando-nos a acreditar que, afinal, esta grande aventura poderia muito bem ter acontecido, mas não sendo estudada nos livros de História. Os Açores acabam por serem apresentados ainda com mais magia e encanto, se é que tal poderia parecer impossível. É maravilhoso ver como a nossa História e País podem inspirar narrativas tão envolventes e cativantes.

Um aplauso para Sandra Carvalho. Mais uma vez, a autora conseguiu deixar-me rendida a uma saga. Fico muito feliz por, desta vez, ter apresentado uma história que se passa dentro de um período histórico português. A liberdade da escrita leva-nos por uma aventura daquelas que fazem suspirar, ao mesmo tempo que nos fazem recordar os grandes feitos nacionais e os homens e mulheres que viveram antes de nós e tiveram a coragem de arriscarm enfrentar o desconhecido e dominar o mar.

Outras opiniões a livros de Sandra Carvalho:
A Última Feiticeira (A Saga das Pedras Mágicas #1)
O Guerreiro e o Lobo (A Saga das Pedras Mágicas #2)
Lágrimas do Sol e da Lua (A Saga das Pedras Mágicas #3)
O Círculo do Medo (A Saga das Pedras Mágicas #4)
Os Três Reinos (A Saga das Pedras Mágicas #5)
A Sacerdotisa dos Penhascos (A Saga das Pedras Mágicas #6)
O Filho do Dragão (A Saga das Pedras Mágicas #7)
Sombras da Noite Branca (A Saga das Pedras Mágicas #8)
O Olhar do Açor (Crónicas da Terra e do Mar #1)
Filhos do Vento e do Mar (Crónicas da Terra e do Mar #2)

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Opinião: Filhos do Vento e do Mar (Crónicas da Terra e do Mar #2)

Autor: Sandra Carvalho
ISBN: 9789722359924
Editora: Editorial Presença (2017)

Sinopse:

Forçadas a fugir de Águas Santas para escapar à fúria de Tomás Rebelo, Leonor e Guida chegam ao porto de Lisboa e confrontam-se com Corvo, o famoso pirata sobre o qual se contam tantas lendas. Horrorizada com a descoberta de que é filha de Diogo, o Açor, Leonor decide disfarçar-se de rapaz quando Corvo a obriga a embarcar no seu navio, protegendo-se assim dos impulsos masculinos. Inconformada com o seu destino, Leonor resolve fazer tudo para escapar aos piratas. Porém, com o passar do tempo, sente a herança do Açor a despertar dentro dela. O segredo que ensombra o passado de Corvo começa a inflamar a curiosidade, enquanto estabelece amizade com os homens que tanto temia. Conseguirá ela regressar a Águas Santas e desmascarar a perversidade de Tomás Rebelo, ou o apelo da liberdade e aventura, conjugado com a vontade de conhecer o verdadeiro pai, tornar-se-á irresistível

Opinião:

Já disse noutras opiniões, mas repito: Sandra Carvalho é uma verdadeira contadora de histórias. Depois de um longo período de espera, finalmente chegou a continuação de O Olhar do Açor (opinião aqui). Filhos do Vento e do Mar começa no momento em que o primeiro volume terminou, e é curioso que, apesar de ter esperado mais de dois anos por este livro, consegui recordar bem a história e as suas personagens.

Assim que comecei esta leitura, recordei por que motivo gosto tanto de ler livros desta autora. Existe uma sensação de familiaridade e conforto. Não sei se é por o estilo de escrita me fazer recordar contos de fadas ou pela forte presença da história e cultura portuguesa, mas a verdade é que esta sensação está presente em cada página. Isto já é algo que marca pela diferença.

Leonor, a protagonista que no livro anterior tanto me tinha cativado, surge de forma um pouco diferente neste volume. Ao início, consegui perceber o motivo de algumas das suas decisões, mas não as aceitei bem. Isso aconteceu devido à forma como ela agiu perante as novas circunstâncias que encontrou. Contudo, tudo faz sentido no enquadramento da história. Só que, como eu sabia o que estava do outro lado, custou-me um pouco mais vê-la a ir por certos caminhos.

A figura de maior destaque desta obra acaba por ser Corvo. Adorei a construção deste homem do mar que aparenta uma imagem para depois se desvendar alguém com bom fundo. A forma como ele equilibrava a sua força de chefe com o carinho que nutre pelos que ama fazem com que seja difícil adivinhar a forma como ele vai reagir a cada momento. O grupo que ele comanda consegue ser diversificado e divertido. Já Guida, a grande companheira de Leonor, acaba por ficar um pouco aquém do que lhe era esperado, o que faz pensar sobre até onde pode ir a amizade.

Conhecer mais do que uma percepção acabou por ser tanto importante como até frustrante. Mas atenção, não digo isto em sentido depreciativo, pois esta sensação é gerada pela vontade de que segredos sejam descobertos e mal-entendidos sejam desfeitos. Desta forma, dei por mim a querer sempre saber o que acontecia a seguir e a deliciar-me com certas ocasiões em que quase tudo era colocado em causa.

A narrativa avança a um bom ritmo e é sempre apelativa. Li o livro com rapidez e vontade. A direcção da trama faz sentido, proporciona conhecimento sobre eventos passados e que são relevantes, e ainda revela um novo vilão que promete dar que falar. Não senti aborrecimento em nenhum momento e foi difícil largar o livro.

A maior parte da acção acontece a bordo de um navio. Confesso que, quando isto acontece, costumo sentir-me um pouco intimidada, pois sei que vou encontrar com uma série de conceitos que não domino. Contudo, a autora preocupou-se não só com a pesquisa sobre esta área como também em explicar cada termo de uma forma directa e fácil de ser entendida. Assim sendo, a meio da leitura dei por mim a entender tudo o que estava a ser descrito.

Terminada a leitura, fica a vontade de que o verão chegue depressa. Afinal, a autora já revelou que o último volume desta história poderá ser publicado em Junho. Eu continuo bem impressionada com esta saga e estou muito curiosa para conhecer o seu desfecho. Se gostam de livros que fazem sonhar e de aventuras que misturam magia com história, então não vão querer perder este.

Outras opiniões a livros de Sandra Carvalho:
A Última Feiticeira (A Saga das Pedras Mágicas #1)
O Guerreiro e o Lobo (A Saga das Pedras Mágicas #2)
Lágrimas do Sol e da Lua (A Saga das Pedras Mágicas #3)
O Círculo do Medo (A Saga das Pedras Mágicas #4)
Os Três Reinos (A Saga das Pedras Mágicas #5)
A Sacerdotisa dos Penhascos (A Saga das Pedras Mágicas #6)
O Filho do Dragão (A Saga das Pedras Mágicas #7)
Sombras da Noite Branca (A Saga das Pedras Mágicas #8)
O Olhar do Açor (Crónicas da Terra e do Mar #1)

domingo, 8 de junho de 2014

Opinião: O Olhar do Açor (Crónicas da Terra e do Mar #1)

Autor: Sandra Carvalho
ISBN: 9789722353212
Editora: Editorial Presença (2014)

Sinopse:

A descoberta dos Açores, e todo o mistério e aventura que a envolveu, foi o mote para esta obra em dois volumes de Sandra Carvalho. É uma narrativa que entretece com mestria verdade histórica e ficção, a realidade da sociedade portuguesa do século XV e a fantasia das personagens e dos cenários imaginados pela autora. Neste primeiro volume, que se centra nas histórias de vida dos fidalgos, ganham principal relevância as figuras de Constance, uma nobre inglesa enviada para Portugal para se casar com Gonçalves Vaz, senhor da valiosa herdade de Águas Santas; Nuno Garcia, um corsário implacável; Leonor, fruto ilegítimo da paixão de Constance e de Diogo, o jovem corajoso, protegido de Nuno Garcia e que Constance conhece durante a viagem, Guida, a escrava negra que cresceu com Leonor, e Tomás Rebelo, o fidalgo malévolo que deseja assenhorear-se de Águas Santas. Intriga, ganância, amor, paixão, e uma aura de misticismo, num romance extraordinário.

Opinião:

Foi com grande entusiasmo que soube que Sandra Carvalho ia publicar as "Crónicas da Terra e do Mar". Depois de ter assistido à evolução da autora em "A Saga das Pedras Mágicas", acreditei que nesta nova aventura Sandra iria continuar a cativar os leitores e a marcar o seu lugar na literatura fantástica nacional.

O Olhar do Açor é o primeiro volume das "Crónicas da Terra e do Mar", coleção que deverá contar com dois volumes. O primeiro aspecto que me atraiu neste livro, foi o facto de misturar um período da história de Portugal com fantasia. Assim, é-nos dada a possibilidade de entrar na sociedade portuguesa do século XV, época marcada pelos Descobrimentos. Ao início, a magia parece não existir, mas aos poucos e poucos ela fica mais evidente até preencher ser um elemento que está sempre presente, mesmo quando não é enunciado.

As personagens são cativantes. Ao início, sente-se empatia por Constance, uma mulher que nega os desejos do seu coração em detrimento do dever e da honra. Nuno Garcia surge como figura misteriosa, de boas intenções apesar de estas serem questionadas por muitos. Guida é uma jovem de temperamento forte e leal que consegue cativar rapidamente. Tomás Rebelo é um verdadeiro demónio, o grande vilão que é capaz das maiores atrocidades para obter o que deseja. E se todas as figuras anteriormente mencionadas parecem ser arquétipos do bom ou do mal, eis que surgem os piratas, personagens curiosas por não se enquadrarem nestes conceitos tão lineares.

Guardei a minha opinião da protagonista para o fim da apreciação das personagens. Leonor é uma rapariga que cativa pela capacidade que tem de pensar pela própria cabeça. Afinal, ela é uma jovem que teve a sorte de ser estimulada na aprendizagem, na autodefesa, para além de que os pais têm a sua opinião em conta. Factores pouco comuns para a época, e que podem causar alguma estranheza, mas que fazem de Leonor uma jovem mais sensível, perspicaz, lutadora e inteligente. Uma protagonista que me agradou.

O desenrolar dos acontecimentos está bem encadeado e é rápido. Inicialmente, é-nos dado a conhecer Águas Santas em clima de paz. Porém, percebe-se que um véu negro começa a cobrir esta terra tão amada pelo seu povo. Aos poucos e poucos, começam a surgir problemas. Ao início parecem pequenos contratempos, mas logo estes crescem até a um ponto de total destruição e caos. Perante isto, a aflição das personagens é palpável, e tal como elas desejamos ver as dificuldades ultrapassadas. Mas parece que tal não acontece, pelo contrário, apenas aumentam. Se isso estimula a leitura e torna alguns aspectos imprevisíveis, também é verdade que por vezes gera alguma confusão na medida em que alguns assuntos que antes eram importantes acabam por ser colocados de parte.

Apesar de as soluções parecerem carecer de eficácia, a autora vai deixando algumas pistas que nos deixam adivinhar onde pode estar a ajuda e a salvação. Coincidências ou mensagens que não parecem fazer sentido acabam por servir como esperança em períodos que não parecem ter solução. Os problemas provocam transformações em Leonor, e desta forma é possível assistir à transformação gradual da protagonista.

Apesar de se tratar de um romance que tem como inspiração Portugal do século XV, a autora optou pela utilização de uma linguagem mais atual. É verdade que se podem assistir a palavras ou expressões que não são comuns hoje em dia, mas a escolha do discurso mais moderno faz que com que seja possível acompanhar a trama a um bom ritmo. Os diálogos estão bem conseguidos e adequam-se às respectivas personagens. Os fãs de Sandra Carvalho vão, com certeza, identificar o estilo de escrita a que a autora nos habituou em "A Saga das Pedras Mágicas".

A leitura termina num momento de grande tensão. Se por um lado isso faz ansiar pelo próximo volume, a verdade é que também deixa a sensação de que a história foi abruptamente interrompida. O facto de não se saber quando o livro que se segue estará disponível deixa ainda uma sensação de frustração, pois a vontade de saber o que vai acontecer a Leonor é grande. Afinal, parece que em O Olhar do Açor apenas surgiram problemas atrás de problemas! Desejo imenso saber quais as soluções guardadas, pois acredito que elas existem e que a autora vai conseguir surpreender quando elas finalmente forem expostas.

O Olhar do Açor é um livro estimulante, que apresenta uma grande aventura que faz pensar sobre lealdade, amizade, sacrifício, os limites da esperança e a importância das origens. É bom ver um período da história de Portugal a servir de inspiração para uma trama do género fantástico e é ainda melhor ver isso bem conseguido. Fiquei cativada pelas "Crónicas da Terra e do Mar" e aguardo com ansiedade o próximo volume desta aventura.

Saibam mais sobre o livro O Olhar do Açor aqui!

Nota:
Neste momento, está a decorrer um passatempo no blogue onde está em sorteio um exemplar deste livro. Participem aqui!

Outras opiniões a livros de Sandra Carvalho:
A Última Feiticeira (A Saga das Pedras Mágicas #1)
O Guerreiro e o Lobo (A Saga das Pedras Mágicas #2)
Lágrimas do Sol e da Lua (A Saga das Pedras Mágicas #3)
O Círculo do Medo (A Saga das Pedras Mágicas #4)
Os Três Reinos (A Saga das Pedras Mágicas #5)
A Sacerdotisa dos Penhascos (A Saga das Pedras Mágicas #6)
O Filho do Dragão (A Saga das Pedras Mágicas #7)
Sombras da Noite Branca (A Saga das Pedras Mágicas #8)

domingo, 26 de maio de 2013

Opinião: Sombras da Noite Branca (A Saga das Pedras Mágicas #8)

Autor: Sandra Carvalho
ISBN: 9789722350549
Editora: Editorial Presença (2013)

Sinopse: 

O momento de todas as decisões aproxima-se. Halvard, o Filho do Dragão, espera ansiosamente a chegada da Noite Branca para assimilar o Conhecimento Absoluto. Quase todos os seus inimigos foram destruídos: apenas o rei Ivarr do povo viquingue, os Guardiães das Lágrimas do Sol e da Lua e os Sacerdotes dos Penhascos ainda resistem. Entretanto, a guerreira Kelda da Montanha Sagrada treinou com afinco sob a orientação do feiticeiro Sigarr e está pronta para se tornar mestra da Arte Obscura. Apesar de saber que a celebração desse ritual irá extinguir a luz da sua essência, ela persiste, pois acredita que só assim poderá deter o avanço sanguinário do irmão gémeo. Todavia, a revelação de que o seu destino é concretizar a profecia e não contrariá-la poderá abalar as suas convicções.
Mas terá Kelda a determinação necessária para cumprir a missão que a Pedra do Tempo lhe atribuiu? Ou cederá ela à tentação do poder e abrirá o seu coração às sombras da Noite Branca? Sombras da Noite Branca é o oitavo volume da série de culto Saga das Pedras Mágicas.

Opinião:


Oito anos depois de Sandra Carvalho ter apresentado o primeiro volume de A Saga das Pedras Mágicas, A Última Feiticeira, heis que chega o livro que termina a aventura vivida por três gerações e que ganhou fãs por todo o país.

Sombras da Noite Branca é o título do último volume desta saga e foi com expectativa que iniciei a leitura. Ao longo da saga foi possível verificar uma franca evolução nas capacidades de escrita, de desenvolvimento de história e de construção de personagens por parte de Sandra Carvalho e isso só fez aumentar a vontade de perceber como tudo iria terminar.

Mais uma vez, Kelda é a personagem principal. Catelyn e Edwina, as heroínas anteriores, continuam a ser relevantes para o desenrolar da trama, o que é visto com carinho por quem ficou cativado pelas suas histórias. O que distingue Kelda da avó e mãe é a sua personalidade mais propícia a confrontos, e a sua capacidade de ver as pessoas nas suas mais diferentes dimensões. Na minha opinião, Kelda é a personagem mais interessante criada por Sandra Carvalho. É fácil criar empatia com esta "menina-feiticeira".

A narrativa está escrita na terceira pessoa, e é feita no ponto de vista de Kelda, desta forma,
percebemos com clareza as suas motivações, os seus receios, os seus medos, as suas esperanças. A sua capacidade de abnegação é de louvar e a sua personalidade tanto propícia momento divertidos como outros mais sentimentais e duros. 

Acompanhar esta personagem é observar os acontecimentos de uma forma mais ampla, afinal, Kelda tem a capacidade de nos transmitir a luz e a escuridão das outras personagens, o que acaba por fornecer uma perspectiva diferente da que era feita nos livros narrados por Catelyn ou Edwina. Personagens que anteriormente eram apresentadas como pertencentes ao lado do bem ou ao lado do mal passam a ter uma dimensão mais próxima da natureza humana e mais interessante.

Em Sombras da Noite Branca, a autora leva-nos por uma viagem por diversos locais e situações. Estas passagens adensam o livro, e apesar de em certos momentos parecer que tudo acontece de uma forma rápida, a verdade é que a passagem entre acontecimentos é feita de uma forma consistente. Ao longo da leitura, nota-se que Sandra Carvalho se preocupou em colocar um ponto final em todas as questões relevantes que foram surgindo ao longo da saga e, por isso, este livro revela-se uma verdadeira jornada. Foi com interesse que visitei alguns novos locais, conheci novas personagens, desvendei alguns mistérios e assisti a algumas surpresas.

Relativamente à relação entre Kelda e Halvar, finalmente é possível ter certezas quanto aos desejos do Filho do Dragão quanto à irmã. Apesar de ao longo do livro anterior ter ficado essa percepção, desta vez é possível ter acesso a toda a dimensão de Halvard. Com uma natureza cada vez mais negra, o jovem é obcecado pela realização da profecia que o irá tornar num deus. Alienado e egocêntrico, não consegue distinguir os seus objetivos das metas dos que o rodeiam e confunde o amor com a obsessão doentia. Uma personagem verdadeiramente arrepiante e desequilibrada que representa, com eficácia, o papel de vilão.

Paralelamente à missão, Kelda debatia-se ainda com algumas questões ligadas ao campo romântico.  O coração de Kelda encontra-se dividido, e facilmente percebe-se a razão de assim ser. Por um lado existe Sigarr, o Mestre da Arte Obscura, culpado por todas as maldades sofridas pela família da protagonista mas que se encontra em fase de redenção. A relação amor-ódio que aqui é vivida é aliciante e intensa. Por outro lado, existe Lysander, o galante e misterioso príncipe da Gente Bela que, apesar de ter repudiado a protagonista num momento de engano, continua a ocupar um lugar muito especial no seu coração. Um triângulo bem conseguido e que me colocou diversas dúvidas, contudo, admito que a opção da autora foi a melhor.

O final está bem conseguido e é convincente. Kelda irá estar em provação até à derradeira página, e todas as questões relevantes são fechadas. A escrita não é difícil de acompanhar, apesar de possuir algumas palavras que não são tão habituais de ouvir nos dias de hoje, mas que nem por isso são complicadas. O livro é o mais longo da Saga e percebe-se que a autora ponderou muito na forma como concluir tudo sem ser de uma forma forçada. Uma missão cumprida com sucesso.

Sombras da Noite Branca é a conclusão adequada para A Saga das Pedras Mágicas. Emoções e aventuras são partilhadas ao longo das suas páginas e a conclusão acaba por ser a desejadas por todos os fãs. Este é o fechar de uma obra lindíssima, repleta de mensagens de esperança, dedicação e de amor. Recomendo!

Para mais informações sobre este livro, clique aqui.

Outras opiniões a livros de Sandra Carvalho:
A Última Feiticeira ("A Saga das Pedras Mágicas" #1)
O Guerreiro e o Lobo ("A Saga das Pedras Mágicas" #2)
Lágrimas do Sol e da Lua ("A Saga das Pedras Mágicas" #3)
O Círculo do Medo ("A Saga das Pedras Mágicas" #4)
Os Três Reinos ("A Saga das Pedras Mágicas" #5)
A Sacerdotisa dos Penhascos ("A Saga das Pedras Mágicas" #6)
O Filho do Dragão ("A Saga das Pedras Mágicas" #7)

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Opinião: O Filho do Dragão


Autor: Sandra Carvalho
ISBN: 9789722348188
Editora: Editorial Presença (2012)

Sinopse:

Num verdadeiro teste às suas capacidades de resistência, Kelda colocou-se nas mãos dos inimigos de modo a alterar o rumo dos acontecimentos. Escondida sob a identidade da Sacerdotisa dos Penhascos, a heroína é levada para terras novas que nunca imaginou pisar. Ao contrário do que seria de prever, Kelda encontra aliados onde estes menos são esperados e finalmente consegue reencontrar o irmão, Halvard, à muito perdido nas garras da Magia Obscura.  As convicções da jovem protagonista são colocadas à prova quando se encontra incluída nas estratégias de guerra contra os povos livres que tanto ama e defende. Desesperada, vai ter que colocar a sua confiança em pessoas em que não acredita e vai ver-se ter que se deparar com situações que a fazem preferir a morte.

Opinião:

Se nos dois primeiros volumes de A Saga das Pedras Mágicas são encontradas fortes influências nas obras de Juliet Marillier, e se os três volumes seguintes pecam por possuírem uma heroína pouco convincente, o sexto e o sétimo livro apresentam uma narrativa bastante surpreendente assim como personagens humanas e cativantes. A evolução da obra é evidente.

Kelda continua a dar provas de que é a heroína mais cativante da Saga de Sandra Carvalho. Perspicaz, conflituosa, corajosa e desconfiada, leva o leitor numa viagem onde o bem e o mal se confundem. Nota-se um maior cuidado na construção das restantes personagens, na medida em que possuem personalidades mais completas, capazes de cometer boas e más ações, o que as afasta de estereótipos previsíveis.

O leitor que acompanha a obra de Sandra Carvalho vai, finalmente, entrar no mundo da Magia Obscura e conhecer algumas das personagens que são apenas mencionadas, em clima de terror, nos volumes anteriores. E aqui surge uma boa surpresa. Misteriosas, estas pessoas vão sendo desvendadas ao longo da narrativa, e apresentam, finalmente as suas convicções, que vão para além do mal pelo mal. Destaco Halvard, o irmão gémeo da protagonista, dotado de uma personalidade maníaca e obsessiva que rapidamente se torna um ódio e um foco de interesse. Foi também interessante conhecer mais de perto o temido Sigarr, pois se em obras anteriores ele foi sempre apresentado como alguém sem escrúpulos, agora é possível contemplar as suas motivações de perto.

Os dilemas vividos são interessantes, mas podem levar o leitor sedento de ação a momentos mais aborrecidos. Contudo, estes depressa são ultrapassadas e dão lugar a momentos repletos de tensão, que são bem descritos e fazem com que o leitor se sinta envolvido.

A escrita de Sandra Carvalho mantém-se muito agradável e capaz de prender o leitor. A autora demonstra uma grande sensibilidade no seu processo criativo e consegue transmitir a paixão que sente pela sua obra.
"O Filho do Dragão" é a continuação de uma bela surpresa, mas não coloca um ponto final na saga. Uma leitura agradável que faz desejar que não sejam necessários outros dois anos e meio para termos o oitavo volume desta trama nas mãos.


Entrevista a Sandra Carvalho aqui.


Outras obras de Sandra Carvalho:
A Última Feiticeira (primeiro volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
O Guerreiro e o Lobo (segundo volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
Lágrimas do Sol e da Lua (terceiro volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
O Círculo do Medo (quarto volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
Os Três Reinos (quinto volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
A Sacerdotisa dos Penhascos (sexto volume de "A Saga das Pedras Mágicas")

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Opinião: A Sacerdotisa dos Penhascos


Autor: Sandra Carvalho
ISBN: 9789722342711
Editora:
Editorial Presença (2009)

Sinopse:

Depois de atravessarem os desafios descritos nos três livros anteriores (“Lágrimas do Sol e da Lua”, “O Círculo do Medo” e “Os Três Reinos”), Edwina e Edwin, os guardiões das Lágrimas do Sol e da Lua conseguem paz e estabilidade nas suas vidas. Desta união nascem os gémeos Halvard e Kelda, detentoras de profecias tanto grandiosas como temíveis

Quando Halvard, tal como aconteceu com o seu pai, é raptado pelo temível Sigarr para ser treinado na Arte Obscura, Kelda é enviada, para sua proteção, para a Ilha dos Penhascos, local onde se sente desenquadrada e abandonada pela família. Sem conseguir demonstrar evoluções nas artes mágicas e tendo como único conforto a amizade de Oriana, fica totalmente desamparada quando é acusada pela amiga de sermentirosa e de ter inveja. Contudo, Kelda mantém um segredo incrível: está a treinada por dois anciões nas grandes artes.

Opinião:

Depois de três volumes mais fracos de “A Saga das Pedras Mágicas”, chega-nos a visão de uma nova heroína que cativa facilmente. Mais uma vez contado na primeira pessoa, Sandra Carvalho apresenta Kelda, uma rapariga forte, corajosa, destemida, inconformada, crítica e orgulhosa que sofre com o facto de não compreender o porquê de a sua vida ter tomado o rumo que tomou.

É fácil sentir empatia com a protagonista. Kelda é impetuosa e não aceita cegamente tudo o que lhe é dita. Conforme a história vai avançando, a menina vai crescendo ao mesmo tempo que fica com cada vez mais dificuldade em confiar em alguém.  Paralelamente, sonha com o resgate do irmão, apesar de todos terem perdido a esperança de que tal seja possível.

Neste volume, a autora demonstrou ter a capacidade de expor as personagens consideradas mais honrosas dos seus livros anteriores através de um ponto de vista diferente. Agora, não são só as grandes virtudes destas que estão expostas, mas também os seus pontos mais negativos, nomeadamente a falta de crença e o ceticismo quanto ao que é novo. Esta foi uma novidade que se revelou bastante cativante, afinal, as personagens ganharam um caráter mais humano.

O ritmo da narrativa agarra desde o início, e se, em livros anteriores houve uma ou outra situação que tornou a leitura mais morosa, desta vez a dificuldade é largar o livro. Kelda é entusiasmante e o leitor vai desejar saber o que lhe vai acontecer. A autora consegue transmitir uma grande carga emocional, o que arrebata. As situações por que passa são interessantes e o final surpreendente faz desejar agarrar logo o próximo volume (“O Filho do Dragão”, já publicado).

Este é, até ao momento, um dos melhores volumes da saga. Sandra Carvalho revela uma escrita mais madura e uma maior capacidade de tecer enredos complexos e surpreendentes. Uma leitura aconselhada a todos os que gostam do género fantástico.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Entrevista: Sandra Carvalho


No dia em que Sandra Carvalho comemora o seu aniversário o blog Uma Biblioteca em Construção publica a entrevista que a autora tão gentilmente nos concedeu. Escritora de high fantasy, Sandra Carvalho tem vindo a afirmar o seu lugar na ficção portuguesa através de “A Saga das Pedras Mágicas”, onde narra as aventuras de três gerações de mulheres de uma família que tem vindo a conquistar leitores. Apaixonada pela escrita, nunca imaginou vir a ter um texto publicado, mas a intervenção de quem a ama fez com que começasse a dar os primeiros passos no mundo editorial na coleção Via Láctea, da Editorial Presença.Um grande agradecimento à Sandra pela simpatia, disponibilidade e pelas respostas tão interessantes. Desejos de um aniversário repleto de alegria e de um futuro de sucessos!

Uma Biblioteca em Construção (U.B.C.) - Sei que, no início, tinha receio de ver o seu trabalho avaliado, tanto que nem conseguiu enviar o primeiro manuscrito a uma editora. Pode falar um bocadinho disso?
Sandra Carvalho (S.C.) - Eu comecei a escrever muito cedo, pela necessidade de partilhar as ideias que pululavam na minha cabeça com a minha família e amigos. Durante anos, enchi cadernos com pequenos contos, devaneios, pedaços de sonhos… Também tive sempre curiosidade em pesquisar sobre os assuntos que me apaixonavam, por isso, as minhas histórias eram uma forma de dar a conhecer a realidade de outras culturas àqueles que me são próximos. Ao longo do tempo, a escrita tornou-se um vício, uma necessidade imperiosa, uma imensa satisfação. No entanto, nunca tive a ambição de publicar. Até dizia que esse era o sonho que eu não me atrevia a sonhar! Comecei a devorar livros muito cedo e tinha noção de como era difícil publicar. Para mais, as minhas histórias tinham “ingredientes” de fantasia e, sempre que procurava pelo género nas livrarias, não encontrava autores portugueses. Daí nunca ter pensado muito no assunto. Além disso, como escrevia por impulso, por paixão, a maior parte das histórias tinham princípio, mas não tinham fim. Quando uma nova paixão surgia, a anterior ficava a aguardar por um estímulo que reacendesse a inspiração. Isso irritava os meus amigos, porque se entusiasmavam pelo enredo e acabavam “suspensos”. A Saga ocupou sempre um lugar especial no meu coração, pois era o universo onde me divertia a explorar o meu interesse de infância pelas culturas Celta e Viquingue. Quando terminei aquela que planeava ser a primeira parte da narrativa, entreguei-a ao meu marido. Depois de lê-la, ele nunca mais me deu tréguas, insistindo que enviasse o manuscrito para uma editora. Recusei-me a fazê-lo durante anos! Estava tão apaixonada pelo enredo, os cenários, as personagens, que era como se “esse mundo” já fizesse parte de mim. Logo, se submetesse “o meu mundo” à avaliação de um profissional e recebesse uma crítica negativa, tudo perderia o sentido; seria o fim da paixão, o fim do sonho. Quando percebeu que eu não tencionava fazer nada, o meu marido decidiu informar-se sobre as editoras. A Editorial Presença já publicava a Colecção Via Láctea, dedicada ao Fantástico, e com um autor português, o Filipe Faria, por isso pareceu-lhe a escolha óbvia. Certo dia, chegou a casa com um envelope, pegou no manuscrito e atirou-me um beijo. E foi assim que esta aventura começou!


U.B.C - Recorda a resposta que obteve da Editorial Presença? Quais foram os sentimentos?
S. C. - Quando atendo o telefone e me dizem que a Editorial Presença está interessada no meu projecto, dou por mim sentada no chão, a rir sem controlo ao mesmo tempo que chorava compulsivamente. Foi uma verdadeira explosão de emoções, de tal forma que tive de pedir que me ligassem mais tarde, porque não conseguia falar. Imagino o quanto isto soa estranho… Porém, existem sensações que são impossíveis de descrever por palavras!!! Foi algo realmente extraordinário, único!


U.B.C - Qual é a importância do contacto com os leitores?
S. C. - Eu comecei a escrever para os meus amigos e é isso que continuo a fazer. Os meus leitores são os meus companheiros de aventura; amigos muito especiais que conhecem intimamente o meu coração e a minha alma através das palavras que escrevo. Adoro trocar experiências e emoções e, se alguém se apaixonou pelo universo que criei ao ponto de estar mais de uma hora à espera de falar comigo, eu vou querer saber tudo o que essa pessoa pensou e sentiu quando mergulhou na história. É uma satisfação ouvir alguém dizer que já leu os livros cinco, seis vezes e que continua a descobrir novas sensações a cada leitura. É maravilhoso ter uma família sentada ao meu lado; três gerações a conversarem com o mesmo entusiasmo sobre o universo que criei: a mãe que leu o livro e o recomendou à filha que, por sua vez, ficou tão entusiasmada que o entregou à avó. É um prazer escutar uma jovem mulher dizer que começou a ler a Saga aos treze anos e cresceu com as minhas palavras. Ao longo destes anos divertimo-nos, comovemo-nos, apaixonámo-nos e sonhámos de mãos dadas. Sem os meus companheiros de aventura seria impossível viver este sonho!

U.B.C - Quem acompanha a saga assiste a uma grande evolução na narrativa, quer seja em termos de escrita quer seja em termos de elementos. O tempo e a experiência fazem com que seja mais fácil escrever sobre este mundo?
S. C. - O tempo é um grande professor e a experiência concede-nos ferramentas para superar mais facilmente os obstáculos que vão surgindo. Não é fácil escrever uma história que cruza três gerações. Se, no início, tinha de escrever a pensar no futuro, agora tenho de planear o futuro e recordar o passado para que tudo se conjugue na perfeição. Fico feliz quando me dizem que reconhecem nos últimos livros as consequências dos incidentes ocorridos nos primeiros. Tudo isso é fruto de anos de planeamento. Muitas cenas da Saga tiveram origem em ideias que foram surgindo na minha adolescência, registadas nos caderninhos de que vos falei. Após tantos anos, histórias dispersas, simples devaneios sem nenhuma ligação entre si, acabaram por se encaixar como peças de puzzle no decorrer da narrativa. Os primeiros livros são mais puros porque foram criados para os meus amigos, sem que me passasse pela cabeça que haveriam de ser publicados. Agora existe, obviamente, maior cuidado na apresentação das ideias e na escolha das palavras. Além disso, se pensarmos que a Saga já tem sete volumes e que, em todos eles, existem encontros e desencontros entre as personagens, rituais, aventuras e batalhas, acresce a responsabilidade de imaginar episódios diferentes, únicos, para que todos os instantes resultem numa experiência nova e surpreendente para o leitor.


U.B.C -  Os livros da saga apresentam o endereço do site dedicado à sua obra. Os leitores aproveitam este espaço para entrarem em contacto consigo?
S. C. - Nesse espaço os leitores têm acesso ao meu e-mail: sandracarvalho29@yahoo.com
Usam-no não só para dar a sua opinião, mas muitas vezes para trocar impressões ou pedir esclarecimentos. Desde o início que tento responder pessoalmente a todas as mensagens. Se alguém gostou tanto de um livro que se deu ao trabalho de procurar o endereço do autor para felicitá-lo, o mínimo que esse autor pode fazer é retribuir com um agradecimento! Nos últimos tempos (e felizmente, porque é sinal de que a Saga tem despertado muitas paixões!), tenho recebido tantas solicitações que tem sido difícil manter o correio em dia. Contudo, mesmo que demore um pouco, os meus companheiros de aventura podem contar com uma resposta.
Os dois primeiros livros têm Catelyn como protagonista


U.B.C - A Saga das Pedras Mágicas não estava pensada, inicialmente, para ter sete volumes? O que aconteceu?
S. C. - Na verdade, a Saga foi pensada para seis volumes, dois para cada geração de personagens. Porém, enquanto escrevia as “Lágrimas do Sol e da Lua”, a minha menina guerreira Thora começou a ganhar uma relevância que não estava prevista. Ao refrescar a pesquisa que tinha feito sobre os rituais de iniciação dos jovens viquingues, para fundi-la com o misticismo e o universo da Saga, a imaginação descontrolou-se. Quando dei por mim, tinha mais cenas escritas do que seria possível publicar em dois livros. E todas me encantavam, por isso cortar estava fora de questão. Foi assim que surgiu “O Círculo do Medo”. Thora ensinou-me que, por mais que se planeie todos os passos, existem sempre surpresas ao longo do caminho que nos desviam da intenção original. Ficou, então, decidido que a Saga teria sete livros… Até que, ao elaborar o enredo de “O Filho do Dragão”, achei importante fazer alguma investigação sobre distúrbios mentais, para melhor compor a personalidade do Halvard. E vi-me novamente tão entusiasmada no desenvolvimento da personagem, que se tornou impossível descrever a sua complexidade em poucas linhas. Por isso, foi acordado com a Presença a publicação do oitavo volume da Saga. Em conclusão, esta é a magia do processo criativo! Assim como não se controlam os sonhos, também é impossível colocar rédeas na imaginação quando se escreve com paixão.


U.B.C - O final da saga já está decidido?
S. C. - Quando escrevi a primeira linha da Saga já sabia como desejava que terminasse. Ao longo dos anos, acabaram por surgir surpresas na evolução de algumas personagens e no brilho que estas deram à história. Porém, a essência da narrativa manteve-se fiel ao projecto original e assim será até ao fim.


U.B.C - Os leitores terão de voltar a esperar três anos pelo próximo volume? O final de “O Filho do Dragão” faz ansiar por continuação.
S. C. - Sei que os meus companheiros de aventura estavam habituados a ter um livro novo todos os anos e que se angustiaram com a espera. Mas creio que todos compreendem que não é fácil tecer uma narrativa tão elaborada, sem muita pesquisa e planeamento. Além disso, para quem possui outros compromissos e responsabilidades para além da escrita, por vezes torna-se difícil atender a todas as solicitações. E quando a exaustão nos vence, instala-se o caos!!! O facto de “O Filho do Dragão” estar a ficar demasiado volumoso, não só levou à decisão de publicar um oitavo livro, como aditou a necessidade de rever o que estava feito, o que contribuiu para que a espera se tornasse maior. A boa notícia é que, em todo esse processo, grande parte do oitavo livro ficou delineada. Por isso, como a escrita está a fluir bem, espero terminá-lo antes do fim do ano, para que a Presença possa publicá-lo no início de 2013.

U.B.C -  É possível escolher entre as tramas de Catelyn, Edwina e Kelda?
S. C. - Cada leitor tem a sua narradora preferida e é engraçado verificar que essa escolha acaba por advir da sua própria personalidade. A Catelyn é doce e pura, a Edwina racional e determinada, a Kelda uma guerreira apaixonada. Para mim, as três são especiais. Fizeram-me crescer e aprender, rir e chorar, ter ataques de fúria e indignação, desfrutar de horas intermináveis de prazer. Todas me acompanharam em fases diferentes da vida e acabaram por deixar marcas no meu coração. Todas representaram um desafio diferente e cativante. Todas têm um pouco de mim.

U.B.C -  Qual é o segredo para a construção das personagens?
S. C. - Na Saga, todas as personagens são pensadas como indivíduos com personalidade. O objetivo é fazer com que o leitor fique com a sensação de que está perante homens e mulheres reais; que veja claramente o brilho dos seus olhos, que os oiça a respirar, que inspire o perfume dos seus cabelos e o odor do seu suor. Depois, que sinta a sua alegria, a sua dor, o ciúme e a inveja, a paixão e a motivação que os impele. Acho que o segredo para consegui-lo está na emoção colocada nas palavras. E o autor adquire esse poder quando entra na pele de cada personagem até escutar os seus pensamentos. Há que deslindar como é que alguém, com aquele perfil, reagiria perante determinada situação. Complicado? Não! Torna-se um pouco cansativo, porque as emoções estão sempre ao rubor. Todavia, quando me confronto com o resultado final é imensamente divertido e compensador. Não é à toa que digo que o Halvard me fez cabelos brancos!!! De todas, sem dúvida foi a personagem mais difícil compor. No entanto, já tive a satisfação de escutar a opinião de leitores com formação na área, que me asseguraram que a personagem está perfeitamente construída, muitíssimo bem enquadrada, com um realismo arrepiante. Isso representa uma grande vitória, atendendo não só à agonia que foi submergir na sua loucura, mas, principalmente, porque estava a desbravar trilhos desconhecidos e pantanosos.  

Edwina é a protagonista destes três livros da Saga


U.B.C - As capas da Saga são feitas especialmente para livro. Gosta desse toque especial que conferem à sua obra?
S. C. - As capas da Saga são feitas por um artista que se chama Samuel Santos. No início, uma das questões que coloquei à Presença foi precisamente se o autor da capa se daria ao trabalho de ler a obra. Como leitora, muitas vezes era atraída pela capa de um livro e, ao acabar de lê-lo, ficava frustrada por não encontrar relação entre a obra e a capa. Não desejava que isso acontecesse com a Saga. No entanto, foi-me garantido que o Samuel lia todos os livros sobre os quais trabalhava. E isso deixou-me bastante satisfeita. Sou fã do seu trabalho e tenho vindo a acompanhar com agrado a sua evolução. Inclusive, nos últimos três livros, o Samuel teve a gentileza de aceitar as minhas sugestões, por isso as capas resultam da magia do seu traço inspirada nas minhas descrições, o que as torna muitíssimo especiais para mim.


U.B.C -  É fácil aceitar as opiniões que surgem sobre a saga?
S. C. - Sem dúvida. Felizmente, de acordo com os contactos que mantenho, acho que os meus companheiros de aventura estão bastante satisfeitos com o meu trabalho e reconhecem o esforço que tenho feito para melhorar. É uma felicidade ouvir dizer que a Saga os ajudou a tomar decisões importantes ou a superar uma fase menos boa da vida; que a história os fez sonhar, sorrir, voltar a ganhar coragem para abrir o coração... Todavia, desse orgulho resulta uma enorme responsabilidade, por isso não me esqueço de manter os pés bem assentes na terra. No fim, tenho perfeita noção de que não se pode agradar a todos! Por vezes surge alguém que critica determinada cena por, na sua opinião, ser demasiado violenta ou sensual, ou que se assume descontente com o rumo que certa personagem tomou… Não escrevo para agradar nem para chocar. Escrevo por instinto, pelo prazer de visualizar uma história dentro da mente e dar-lhe vida através das palavras. Acho que o respeito é um valor fundamental e todas as pessoas têm o direito de emitir a sua opinião, desde que o façam com educação. As críticas não me incomodam de todo, se forem construtivas. Afinal, estamos sempre a aprender e a Saga tem sido uma longa caminhada. Se o meu imaginário tem o poder de conduzir os leitores ao comentário e ao debate, só tenho de me alegrar por isso. Mau seria se, ao fecharem os livros, os arrumassem nas prateleiras e se esquecessem deles.


U.B.C - De onde nasce a inspiração para escrever?
S. C. - Eu tive a sorte de nascer em Sesimbra, entre o mar e a Serra da Arrábida. Sou filha de um pescador e de uma contadora de histórias nata. Tive uma infância maravilhosa, a nadar na praia e a correr na serra. Nunca me faltaram livros e brincadeiras. E, graças a Deus, sempre tive alguém por perto para responder à infinidade de perguntas que colocava. Tenho uma curiosidade insaciável e uma imaginação que nunca dorme. Aliás, muitas cenas da Saga são produto de sonhos! No fim, a minha inspiração nasce de toda a minha vivência: de tudo o que aprendi, das músicas que ouvi, dos livros que li, dos filmes que vi, das pessoas que conheci, das emoções que experimentei. O facto de ser bastante tímida tornou-me observadora. E o mundo à nossa volta é uma inesgotável fonte de inspiração.


U.B.C - O que mais lhe agrada em poder partilhar histórias com outras pessoas?
S. C. - A maior satisfação de contar uma história é saber que, durante o tempo em que a partilha se concretiza, as pessoas esquecem a sua realidade, por vezes a sua identidade, e mergulham num universo de sonho e aventura, que se divertem, que se comovem, que vivem intensamente cada cena como se fizessem parte dela. Este ano, na Feira do Livro de Lisboa, uma senhora que acabara de comprar “O Filho do Dragão” teve a gentileza de partilhar a sua experiência comigo. Contou que demorou anos até se decidir a comprar “A Última Feiticeira”. Tinha medo de que a história fosse demasiado infantil e superficial, por estar enquadrada na literatura Fantástica. Contudo, um dia decidiu arriscar… E três dias depois estava a comprar “O Guerreiro Lobo”. Em menos de um mês já tinha lido os seis livros e sofria à espera do sétimo. Terminou a dizer-me: “Obrigada por me relembrares de como é bom sonhar.” Acho que este testemunho é revelador da verdadeira magia da Saga: a partilha de emoções, o prazer de dar e receber.

Os últimos livros sa Saga são narrados por Kelda


U.B.C - O Fantástico é o género de eleição?
S. C. - Enquanto crescia, fui devorando todos os livros a que conseguia deitar a mão. Por isso, habituei-me a apreciar muitos géneros literários. Ao longo dos anos, as histórias que fui escrevendo afloravam diversos temas. No entanto, depressa percebi que o Fantástico me concedia liberdade para explorar, em simultâneo, os mais variados assuntos, sem ter de assumir compromissos históricos ou geográficos. Só para vos dar um exemplo, do mesmo modo que sucederia se estivesse a ler um romance histórico, o leitor da Saga vai conhecer a realidade das culturas Celta e Viquingue, descobrir como esses povos viviam, o que comiam e bebiam, como se vestiam, como eram as suas aldeias, as suas casas, os seus animais; que deuses adoravam, como navegavam, como guerreavam… Contudo, enquanto que num romance histórico o autor teria de se preocupar em situar no mapa o espaço da sua narrativa, saber quais os reis que governavam na época e que batalhas foram travadas, eu pude criar os meus próprios cenários, dar vida aos meus reis e imaginar as suas batalhas. Em suma, a Saga das Pedras Mágicas resulta na fusão de todas as minhas paixões. É um romance onde a dura vivência de dois povos se cruza com a aventura e a comédia, o crime e o terror, a política e a religião, a história e fantasia. Todavia, não fiquem com a ideia de o Fantástico é mais fácil de compor do que outro género literário. Pelo contrário! No que à Saga se refere, enquanto que um escritor de romance histórico se preocupa com os factos e a beleza das palavras, eu tenho igualmente de me preocupar com os factos e a beleza das palavras, ao mesmo tempo que torno a narrativa credível aos olhos do leitor. O maior desafio está em fazer-vos acreditar, ainda que por um momento, que a magia é algo tão real como o ar que respiramos. É um trabalho árduo que deve parecer fácil e fluído aos olhos do leitor, para que tudo resulte na perfeição. Porém, também é muito divertido! Os únicos limites com que um autor de Fantástico se depara são aqueles que a sua imaginação lhe impõe.


U.B.C - Quais são os autores que não consegue deixar de acompanhar?
S. C. - Infelizmente, e com grande vergonha, tenho de confessar que, desde que comecei a publicar, deixei de ter tempo para ler livros que não estejam relacionados com a pesquisa que necessito de fazer para elaborar a Saga. No entanto, quando me perguntam sobre os meus autores de referência, é impossível não falar de Hans Christian Andersen, Enid Blyton, os irmãos Grimm, Edgar Rice Burroughs, Robert Heinlein, Emilio Salgari, Arthur Conan Doyle, Agatha Christie, Edgar Allan Poe, Anne Rice, Tolkien, Juliet Marillier, entre outros. Destaco Marion Zimmer Bladley pela escrita apaixonante e Michael Crichton que, sendo um autor multifacetado, soube combinar prodigiosamente a fantasia e a ciência nas suas obras.


U.B.C - Já existem ideias para novos livros?
S. C. - Os meus queridos caderninhos guardam muitas ideias que, com pesquisa e ponderação, podem conduzir a boas histórias. No entanto, acho que só vou decidir qual será o próximo projecto a abraçar no instante em que escrever a última linha da Saga. Além disso, também existe a possibilidade de, mais tarde, regressar a este universo que me é tão querido. Os leitores pedem-me insistentemente que desvende a sorte de algumas personagens que se foram desviando da narrativa principal. Da mesma forma que desejam conhecer as origens dos Povos da Terra, da Água, do Ar e do Fogo… Veremos!

U.B.C -Que deseja vir ainda a alcançar enquanto autora?
S. C. - Mal comecei, por isso ainda tenho muito que aprender, imenso terreno para explorar e barreiras para ultrapassar. Realizei um sonho que sempre acreditei ser impossível, mas é preciso trabalhar muito, mesmo muito!!!, para que o sonho não feneça. A luta contra o cansaço e a falta de tempo é colossal. No entanto, a paixão pela escrita supera tudo isso! Desde que haja saúde e continue a desfrutar do apoio dos meus companheiros de aventura, o entusiasmo nunca esmorecerá e existirão sempre histórias para contar.



Opiniões:
A Última Feiticeira (primeiro volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
O Guerreiro e o Lobo (segundo volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
Lágrimas do Sol e da Lua (terceiro volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
O Círculo do Medo (quarto volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
Os Três Reinos (quinto volume de "A Saga das Pedras Mágicas")