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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Opinião: "1974"

 

Título Original: 1974 (2019)
Autor:
Niklas Natt och Dag
Tradutor:
Ana Pinto Mendes e Teresa Katzenstein
ISBN: 
9789897840524
Editora: Suma de Letras (2020)

Sinopse:

1794, Estocolmo. Uma mãe chora a filha brutalmente assassinada na noite de núpcias. Desesperada, sem ninguém que atenda o seu pedido, acaba por bater à porta do vigia com um só braço e que chora amargamente a morte do amigo. No hospital de Danviken, nos arredores da cidade, um jovem nobre é atormentado pelo crime repugnante que cometeu. A investigação de Cardell leva-o de novo ao abismo de Estocolmo e à descoberta de que a cidade está mais perversa e perigosa do que nunca.

Neste novo episódio, o leitor reúne-se com Mickel Cardell e Anna Stina Knapp no seu mundo barulhento e depravado, onde o que fica do esplendor gustaviano está prestes a entrar em colapso. Estocolmo verá os seus dias tornarem-se mais sombrios e o antigo esplendor dará lugar à escuridão escondida nos cantos e recantos da corrupta cidade.

 Opinião:

1974 é a obra de Niklas Natt och Dag que se segue ao sucesso do autor 1973. Publicado pela Suma de Letras, este livro retoma o ambiente negro da Suécia do século XIX e recupera algumas das personagens que mais marcaram o livro que lhe antecedeu. Por isso, sim, trata-se de uma história que remete para o pior da humanidade e que causa um forte impacto.

O autor decidiu dividir a trama por vários momentos, sendo que esta escolha é justificada na conclusão. Numa primeira fase, conhecemos Erik Drei Rosen um jovem nascido numa família abastada que tem de ser afastado da terra-natal devido a uma paixão que não é aceite pela família. Nesta incursão, Erik depara-se com uma realidade dura, cruel e desumana. Vai parar a uma terra que sobrevive do tráfico de mão de obra escrava. Numa outra fase, retomamos algumas personagens que já foram apresentadas em 1973 e conhecemos novas ao mesmo tempo que se investiga um novo assassinato ocorrido em circunstâncias macabras.

As personagens são um ponto muito forte nesta obra. O autor conseguiu criar figuras bastante credíveis e reais, ainda que nem sempre capazes de ganhar o afeto do leitor. É que se, por um lado, temos figuras que despertam a nossa empatia, tais como Mickel Cardell, Emil Winge ou Anna Stina, por outro temos seres que geram o nosso desprezo. Contudo, é neste conjunto que encontramos os elementos essenciais para desenvolver esta trama. 

A história é cativante e agarra desde o primeiro momento. Contudo, enquanto leitora, não consegui evitar a revolta, agonia, tristeza e vergonha em muitos momentos desta narrativa. É que aquilo que Niklas Natt och Dag apresenta é uma realidade que existiu. Quem sabe se ainda não existirá em algum lugar. A vida humano é completamente desvalorizada, a emparia com o outro praticamente inexistente, o uso do outro é feito a um nível repugnante e quem não tem poses ou poder luta pela sobrevivência de forma quase animalesca. No final, é importante refletir sobre o que devemos fazer para não voltarmos a cair numa existência tão degradante. Em como o respeito, sentido de comunidade e compaixão podem fazer toda a diferença.

Niklas Natt och Dag volta a surpreender com 1794. O realismo e o macrabro voltam a dar mãos para a construção de uma história que deixa marcas. A conclusão foi inesperada e deixa o leitor com uma sensação de aperto. Afinal, as ações têm consequências e, muitas das vezes, os inocentes são apanhados em fogo cruzado. Isto aliado ao que de pior podemos fazer aos outros parecem ser as mensagens fundamentais do autor. Quase que como um alerta para sermos melhores e, assim, fugirmos de uma época de escuridão.

 

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Opinião: 1793

Título Original: 1793 (2017)
Autor: Niklas Natt och Dag
Tradução: Rita Figueiredo
ISBN:  9789896657925
Editora: Suma de Letras (2019)

Sinopse:

1793, Estocolmo. Quatro anos após da tomada da Bastilha e mais de um ano depois da morte de Gustavo III da Suécia, as guerras estrangeiras esvaziaram os tesouros e a nação é governada com mão de ferro pelo senhor do reino. Na esteira do falecimento do velho rei, a confiança transformou-se num bem escasso. A paranóia e as conspirações sussurradas abundam em todos os cantos. Uma promessa de violência estala no ar enquanto os cidadãos comuns se sentem cada vez mais vulneráveis aos caprichos dos que estão no poder.

Quando Mickel Cardell, um ex-soldado aleijado e ex-guarda noturno, encontra um corpo mutilado flutuando no lago malcheiroso da cidade, sente-se compelido a dar ao homem não identificado um enterro condigno. Para Cecil Winge, um brilhante advogado que é também detetive consultor na Polícia de Estocolmo, um corpo sem braços, pernas ou olhos é um enigma formidável e uma última oportunidade de acertar as coisas antes de perder a sua batalha com a morte. Juntos, Winge e Cardell vasculham Estocolmo para descobrir a identidade do corpo, encontrando o lado sórdido da elite da cidade.

1793 retrata a capacidade de se ser cruel em nome da sobrevivência ou da ganância - mas também a capacidade para o amor, a amizade e o desejo de um mundo melhor.

Opinião:

Já há muito tempo que não me deparava com uma leitura que me causasse um impacto tão forte. 1793 é um thriller histórico que nos apresenta uma Estocolmo pouco conhecida e personagens que prometem deixar uma marca no leitor. O aparecimento de um corpo mutilado num rio despoleta a ação e dá-nos a conhecer uma história que se destaca de todas as outras que li até ao momento.

Niklas Natt och Dag, o autor, dividiu a narrativa em vários momentos, sendo que em cada fase da história acompanhamos uma ou mais personagens mais relevantes. Numa primeira fase o leitor é apresentado a Mickel Cardell e Cecil Winge. O primeiro é um guarda que ficou sem um braço numa guerra e que, dentro de uma grande revolta, tenta sobreviver num mundo marcado pela probreza. O segundo é um académico que possui uma mente analítica e coloca a justiça e razão à frente de tudo. Gostei muito destas personagens, especialmente de Winge. Os dois fazem um contraste entre a força bruta e o intelecto, sendo que ambos partilham uma noção de compaixão semelhante e acabam por criar uma ligação forte e, inicialmente, improvável. Uma dupla que funciona bem.

Existem outras fases da obra que remetem para fases anteriores à da ação principal. Aqui, conhecemos outras personagens de relevo e temos acesso a informações cruciais para entender o crime, mas também para melhor entrar nesta sociedade e época. Estes capítulos podem, ao início, parecerem algo deslocados do enredo base, mas a verdade é que acabam por agarrar e revelar-se muitos pertinentes. Esta escolha foi um risco para o autor, mas fez todo o sentido. Mas fica o meu aplauso para a construção de cada uma destas figuras e pela forma como evoluíram ao longo da narrativa.

O desenrolar está bem conseguido, mesmo com a paragem da ação principal para dar espaço a capítulos dedicados a outras personagens e a um outro tempo. A leitura começa com curiosidade, mas com o decorrer das páginas dei por mim cada vez mais curiosa com a história e ansiosa para saber o que vinha a seguir. A forma como este crime foi construído e resolvido faz sentido e faz acreditar que provavelmente poderia ter acontecido. E apesar de ter sido um assassinato muito macabro, devo dizer que aquilo que mais me chocou foi mesmo a apresentação desta sociedade.

O autor focou-se mesmo no que de mais negro podemos encontrar na humanidade para a construção desta história. Percebe-se facilmente que houve uma grande investigação relativa à vida e costumes do século XVIII, sendo tudo apresentado através de uma escrita direta e crua, onde o objetivo era mostrar a realidade, por mais chocante que pudesse parecer. Não foi a pobreza que me perturbou, mas sim o desprezo pelo outro. O autor apresenta esta cidade como uma selva onde os mais poderosos, ricos e oportunistas vencem, sendo que todos os outros são maltratados sem qualquer pingo de compaixão. Existem diferentes cenários que não me saem da cabeça.

Fico impressionada por 1793 ser o livro de estreia de Niklas Natt och Dag. O autor tem um estilo muito próprio, que mistura o realismo com a obscuridade dos temas que mais podem perturbar o leitor. Ao mesmo tempo, apresenta personagens profundas, humanas e empáticas que se encontram numa história cativante e credível. Gostei muito deste livro e fico curiosa para saber que mais poderá vir das mãos deste escritor.