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terça-feira, 19 de junho de 2012

Entrevista a Moranius Sinister, de "Senhores da Noite" (Carla Ribeiro)

"E se pudesse entrevistar personagens?" Este pensamento não me largou e fez-me lançar o desafio a Carla Ribeiro, que aceitou com prontidão e simpatia e concedeu-me uma entrevista a Moranius Sinister. 
Quem já teve a oportunidade de ler o livro "Senhores da Noite" sabe que Lorde Sinister é um imortal sedento de poder e capaz de tudo para atingir o objectivo de ser o último da sua condição no mundo. O blog "Uma Biblioteca em Construção" fez-lhe uma estranha proposta e, felizmente, o ex-carrasco do imperador não se mostrou relutante a responder às questões que lhe foram colocadas de um modo inédito. Termino este texto com um profundo agradecimento a Lorde Sinister pela sua disponibilidade para estes assuntos que lhe são alheios e pelo facto de, em nenhum momento, ter feito a entrevistadora sentir a vida ameaçada (Obrigada Carla!).
Boa tarde, Lorde Sinister. Fico muito agradecida por ter aceite este convite. 
Saudações. Não está nos meus hábitos este tipo de interacção com a tua espécie, mas... Pareceste-me interessante, por isso decidi abrir uma excepção.

Fico grata pela gentileza. Pode falar um pouco sobre o que é ser imortal?
Imune ao envelhecimento, imune à doença, imune a todos os ataques de qualquer outro que não os da minha raça... É um mundo de vantagens... excepto se considerarmos o pequeno detalhe de que temos em cada igual um inimigo. Não foi sempre assim, mas no estado actual das coisas... É basicamente viver para sempre sob a sombra da morte.

Como descobriu esta sua condição?
Para os que são como eu, é uma condição natural. Nasci com a imortalidade nas veias, tal como todos os meus ancestrais. Não foi algo que precisasse de descobrir.

Recorda-se da sua primeira morte?
Vagamente. A primeira foi, em muitos aspectos, igual à segunda, à terceira e às seguintes. Foi uma execução e há um ponto em que todas se tornam iguais. Mas, se isso me perturbasse, não teria sido durante tanto tempo o carrasco do imperador.

Qual é a sensação de receber poder de um outro imortal?
É... inebriante. Como se a magia que te passa pelo corpo se enredasse na tua e, depois, se fundissem num todo maior. Não como uma mudança estrondosa, mas como um toque suave capaz de despertar todas as células de um corpo.

Que visão tem dos mortais?
Não conheci muitos mortais que não estivessem abaixo de mim na hierarquia, por isso não lhes dediquei muita atenção. Imagino que tenham as mesmas complexidades que qualquer raça capaz de pensamento e escolha, mas a verdade é que nunca os vi senão como uma força útil, se controlada.

Quais são os valores pelos quais se rege?
Num tempo diferente, falar-te-ia em lealdade, devoção e coragem. Mas não se pode dizer que me tenham servido bem, não é assim? Quando o objectivo é a supremacia e a pena para o fracasso é a extinção, não podem existir esses valores. Importa viver e conquistar, e é apenas isso que me move.

É de conhecimento geral que tem uma relação de intimidade com a imortal Deletress Aventra. O que os une? 
Inimigos comuns, o mesmo objectivo e o conhecimento de que, enquanto houver outros imortais que defrontar, temos a vida facilitada se lutarmos do mesmo lado. Deletress é poderosa... e eu também. Ambos sabemos que o conflito, quando chegar, não vai ser fácil. Podemos deixá-lo para mais tarde.

Quais considera serem as maiores diferenças entre Deletress e a irmã, Arcania?
Arcania é fraca. Oh, não em poder. Se ela conseguiu chegar onde chegou, é porque tem as capacidades necessárias. Mas perde-se na emoção. Não sabe lidar com as perdas e não consegue aceitar que, nesta guerra, todos são inimigos. Essa ingenuidade já a destruiu e voltará a fazê-lo... se eu não o fizer antes.

De que modo pretende conseguir ser o último imortal e o Senhor da Noite?
Da mesma forma que todos os meus adversários: pelo poder e conhecimento que corre nas veias de cada imortal. E que pretendo tomar para mim.

Depois de ter alcançado esse estatuto, que pretende fazer?
Não é evidente? Tomar posse do mundo.

A imortalidade do corpo não é uma realidade que o assusta?
Suponho que possa ser assustador, se considerarmos a imortalidade por si só. Mas não é só isso que define a minha raça. Não somos apenas imunes à morte... Bem, a quase todos os tipos de morte. Também somos fortes e eternamente saudáveis. Não adoecemos. Não envelhecemos. Talvez a eternidade seja muito tempo para viver, mas, quando se têm os meios para a aproveitar, não há inconvenientes.

O que mais o seduz na vida?
A vida em si. Tudo - ou quase tudo - é possível enquanto existirmos. E quando existimos durante muito tempo, as possibilidades tornam-se infinitamente mais vastas.

Acredita numa realidade pós-morte?
Sou imortal. Nunca senti necessidade de pensar nisso.

Quais são as suas atividades preferidas?
Não tenho tempo para grandes actividades de lazer, nas circunstâncias actuais. Algumas horas de sono e a companhia da Deletress bastam-me como pausa para o ritmo incessante da guerra.

Tem alguma obra literária de eleição?
Tenho vindo a descobrir algumas. Aquela humana que vos contou a minha história fez-me chegar alguns dos preferidos dela e tem sido interessante descobrir que coisas lê a vossa espécie. Mas, como disse, não tenho muito tempo para essas coisas. A supremacia chama.

Que pensa de uma suposta sociedade governada por mortais?
Antes da guerra dos imortais, havia humanos em posições de poder e as relações nunca foram assim tão complicadas. Suponho que seria viável, se não existissem forças superiores.

Existe alguma mensagem que queira deixar?
Estejam atentos. Basta um instante para que tudo mude nas vossas vidas.

Agradeço o seu tempo e disponibilidade, Lorde Sinister.
Nada que agradecer. Como disse, és uma humana... interessante.


Nota:
Opinião ao livro "Senhores da Noite" aqui.
Entrevista a Carla Ribeiro aqui.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Opinião: Senhores da Noite


Autor: Carla Ribeiro
ISBN: 9789898070470
Editora: Fronteira do Caos Editores (2010)


“Possuem o dom da imortalidade. Controlam as forças da magia com o poder da sua vontade e, com base na imunidade à morte, subjugaram a humanidade. Têm, contudo, uma fraqueza: vivem em guerra constante.”

Sinopse:

Carla Ribeiro revela um mundo governado por imortais, seres superiores e dotados de capacidades mágicas que usam os humanos consoante os seus desejos. Num ambiente negro, governado pelo terror, os imortais podem ser destruídos pelos seus iguais e. quando tal acontece, o poder do vencido é absorvido pelo vencedor. Segundo uma lenda antiga, o último imortal vivo terá acesso ao poder absoluto que o tornará Senhor da Noite.

Anos de guerra fazem com que existam poucos destes seres superiores. A história foca-se em Moranius Sinister, o mais antigo da sua raça, na sua amante, Deletress Aventra, e na irmã desta, Arcánia Aventra.

Opinião:

Estas personagens, que felizmente são ficcionais, estão muito bem conseguidas, com personalidades cruéis mas distintas e histórias que justificam, de certa forma, as suas cruéis ações. Aliás, um dos pontos fortes do livro é a revelação do passado de cada personagem feito em paralelo à ação principal, o que dá maior profundidade à história e aumenta, gradualmente, o mistério e o interesse do leitor.

SPOILER

Achei, contudo, que existiram alguns aspetos menos conseguidos, no final da história, nomeadamente a facilidade com que Deletress se aproximou da irmã e, sobretudo, da sobrinha. Depois de todas as desconfianças e artimanhas entre os imortais, as atitudes de Deletress e Arcánia foram um pouco desenquadradas, uma por estar a contar com as facilidades e a outra por acabar por demonstrar ingenuidade.

FIM DO SPOILER

A escrita de Carla Ribeiro é poética, mas fácil de acompanhar. A autora embrenha o leitor no seu mundo negro, sádico mas cativante. A sequência dos acontecimentos está bem conseguida, na medida em que desvenda aspetos importantes nos momentos certos, o que faz com que o leitor mantenha a leitura, na ânsia de descobrir mais acerca destas personagens e deste mundo.

No fim, fica a moral de que o mais poderoso nem sempre é aquele que o aparenta ser e que o grande inimigo pode estar escondido da pele de qualquer um. O final é surpreendente e consegue colmatar as falhas anteriormente apontadas. Uma leitura aconselhada aos fãs de dark fantasy.

Nota: Entrevista a Carla Ribeiro ao blog Uma Biblioteca em Construção aqui.

domingo, 13 de maio de 2012

Entrevista a Carla Ribeiro


É com prazer que inauguro o espaço de entrevistas com a ajuda de Carla Ribeiro. Autora portuguesa de Resende, licenciada em Medicina Veterinária, é a mente que deu origem a obras como Senhores da Noite (2010) e Pela Sombra Morrerão (2010), para além de já ter colaborado em diversas publicações, tais como a revista Dagon (2009) ou a antologia de contos Vollüspa (2012).
Leitora ávida, Carla procura ler um pouco de tudos, apesar de confessar ter preferência pelo género fantástico. As suas opiniões literárias podem sem acompanhadas no blog As Leituras do Corvo.
Desde já, fica aqui um agradecimento à Carla por ter aceite esta entrevista com simpatia.


Uma Biblioteca em Construção (U.B.C.): O que é que a escrita significa para ti?
Carla Ribeiro (C.R.): Gosto de pensar que vive num lugar muito especial dentro de mim. Muitas vezes, é um refúgio e uma forma de viver outras vidas quando a realidade se torna demasiado pesada. Quase sempre é um caminho para conhecer cenários e personalidades que não existem no mundo real. De todos os sonhos que tenho ou tive, diria que a escrita é provavelmente o mais querido e o mais especial. Mesmo quando as coisas se complicam, quando quase apetece seguir outro rumo, acabo sempre por descobrir que é algo que preciso de fazer, mesmo quando os resultados acabam por ficar na gaveta.

U.B.C.: Qual é para ti a maior dificuldade neste processo?
C.R.: Tenho uma relação muito próxima com as minhas histórias e com as minhas personagens. Quando estou a escrever, é como se estivesse a viver a vida deles, mas também sei que cada leitor fará uma interpretação diferente da história e que aquilo que eu gosto e com que me identifico não terá o mesmo efeito em todos os leitores. Às vezes, esse conhecimento de que aquela história muito especial e muito amada pode ser mal recebida por quem a lê é um pouco assustador. E a insegurança que isso causa é uma das grandes dificuldades com o meu processo criativo.

U.B.C.: E o que te dá mais prazer na escrita?
C.R.: Perder-me na história e nas personagens que nela habitam. Encontrar-me nos valores que os definem, identificar-me com as fragilidades, rir, chorar e viver com eles e criar-lhes um caminho e um mundo para descobrir. Construir com a imaginação, é esse o lado mais maravilhoso da escrita.

U.B.C.: Quais são as tuas referências literárias?
C.R.: É difícil responder a essa pergunta, principalmente porque escrevo muitas coisas diferentes e houve diferentes descobertas a empurrar-me para esses géneros. Na poesia, a descoberta dos sonetos de Florbela Espanca foi provavelmente a primeira referência a empurrar-me para a escrita. Na prosa os nomes multiplicam-se, mas, se tivesse de apontar os grandes marcos a nível de descobertas literárias, teria de destacar os contos de Edgar Allan Poe, algumas das obras de Marion Zimmer Bradley e, mais tarde, a descoberta da obra de Anne Bishop.
Senhores da Noite (2010)

U.B.C.: As tuas obras têm características muito negras. Porquê este registo?
C.R.: Nem sempre o lado negro e cruel é o elemento que se destaca nas minhas obras (ainda que o seja nas mais recentes), mas há quase sempre algo de sombrio ao longo da história. Isto deve-se, em parte, à percepção que tenho de que todos têm um lado negro escondido algures, que pode ser potenciado ou atenuado pelas circunstâncias da vida, mas também porque, por vezes, é nas situações mais extremas que se revela o melhor e o pior de uma personalidade. Nas minhas histórias, este lado negro pode reflectir-se de uma forma mais global, em que, por razões de sobrevivência ou pela própria natureza do indivíduo, é necessário que sejam as características negativas a sobressair, ou de uma forma mais pessoal, ditada pelas marcas do passado ou por um conflito interior.

U.B.C.: O que fazes quando a musa decide tirar férias?
C.R.: Às vezes, desespero, principalmente naquelas alturas em que as férias se prolongam durante meses. Além disso, a minha musa é uma criatura frágil, às vezes esconde-se por razões tão simples como as inseguranças que falei numa das perguntas mais lá para trás. Uma forma que encontrei para lidar com os amuos da musa é reler o que já escrevi do projecto em mãos. Às vezes, ver o trabalho feito faz despertar uma ideia para o que deve acontecer a seguir e o bloqueio desaparece. Até acontece, por vezes, surgir uma ideia para outro projecto (tenho sempre mais que uma história em curso). Quando isto não resulta... Espero. Há quase sempre uma razão por detrás do bloqueio e, mais cedo ou mais tarde, essa razão acaba por desaparecer ou por perder alguns dos efeitos negativos.

U.B.C.: E como lidas com as críticas ao teu trabalho (quer sejam negativas ou positivas)?
C.R.: Tentei lidar com elas da forma mais construtiva possível. Há qualquer coisa de maravilhoso em ler uma opinião de alguém que gostou muito de uma história e, mesmo nas negativas, é possível encontrar alguns pontos com que aprender e com que melhorar. Mas as coisas nunca são assim tão simples e houve um ponto em que me apercebi de que acompanhar o que se dizia (ou escrevia) sobre o meu trabalho acabava por afectar negativamente o meu processo de escrita, por isso, actualmente, leio muito poucas opiniões.

U.B.C.: Podes contar-nos como foi a tua experiência no mundo editorial?
C.R.: É... complicado. Tem sido um caminho atribulado, isso é certo. Houve rejeições e grandes silêncios, mas também houve respostas muito positivas e a oportunidade de fazer a história chegar aos leitores - e o grande objectivo era esse. Também houve expectativas que se revelaram muito longe da realidade e a percepção de que as coisas nem sempre se tornam mais fáceis com o tempo. Mas também foi um caminho feito de bons momentos e de objectivos cumpridos, e, até agora, esses compensam amplamente as dificuldades e os obstáculos.

U.B.C.: E qual a sensação de ter um livro próprio publicado em mãos?
C.R.: É maravilhoso. Saber que a história tomou forma, que vai encontrar quem a leia e que, com sorte, talvez possa ser para esses leitores uma parte do que foi para mim durante o processo de escrita... É simplesmente isso. Maravilhoso.

Pela Sombra Morrerão (2010)

U.B.C.: A escrita e a medicina veterinária são compatíveis?
C.R.: Boa pergunta. A verdade é que ainda não exerci a minha profissão durante tempo suficiente para responder a isso. Mas quero acreditar que sim, que, num futuro em que esteja a trabalhar, como médica veterinária ou em qualquer outra profissão, continuarei a encontrar tempo para me dedicar à escrita.

U.B.C.: Estás a trabalhar em algum projeto?
C.R.: Estou sempre. Mesmo nas alturas em que estou semanas (ou meses) sem escrever, há sempre uma história (ou várias) a dar voltas na minha cabeça. Neste momento, para além do romance que está na minha gaveta à espera da oportunidade de sair, tenho um novo projecto a crescer, aos poucos. Pretendo que seja um romance em cinco partes, ou cinco histórias que se cruzam, com protagonistas diferentes, mas com um objecto em comum. Não é a única ideia que estou a desenvolver, mas é principalmente neste projecto que tenho trabalhado nos últimos tempos.

U.B.C.: Quem acompanha o teu blog ou te segue no Goodreads facilmente vê que não só lês em quantidade como em variedade. Achas que isso é fundamental para o teu crescimento enquanto escritora ou é apenas uma atividade que aprecias?
C.R.: É um pouco de ambas. Quem me conhece sabe que sou uma leitora compulsiva e consigo encontrar pontos de interesse nos mais diferentes géneros literários. Além disso, tenho com a leitura uma relação parecida com a que tenho com a escrita: consigo perder-me num livro e, durante algum tempo, viver aquela história como se fosse a minha. Mas também é uma forma de aprendizagem e julgo que também isso molda o que sou e o que faço.

U.B.C.: Tens ideia de quantos livros tens?
C.R.: Ao certo? Teria de os contar. Mas penso que, neste momento, a minha biblioteca pessoal rondará os 2500 livros.

U.B.C.: E quando não estás a ler, o que te podemos encontrar a fazer?
C.R.: Nas circunstâncias actuais, poderiam encontrar-me muito tempo a ler. Com a questão do desemprego, tenho um sério problema de excesso de tempo livre. Quando não estou a ler, é possível que esteja agarrada ao caderninho a escrever alguma coisa, a ouvir música e a organizar alguma ideia que traga na cabeça ou a divagar pelo campo (uma das vantagens de se viver num lugar pequeno). Ah, ou então na net, entre os anúncios de emprego e a procura de coisas interessantes.

Vollüspa (2012)
U.B.C.: Pensas que a internet tem um papel importante na divulgação do teu trabalho?
C.R.: Sim, penso que sim. Mesmo não explorando todas as suas potencialidades, em parte porque o meu lado introvertido tem medo de se estar a impor e de exagerar na divulgação, penso que a internet permite chegar mais facilmente até aos possíveis leitores. Abre também algumas boas hipóteses de interacção, quer entre autores e leitores, quer entre vários autores, o que é particularmente importante quando se está num lugar relativamente isolado.

U.B.C.: Como imaginas o teu trabalho como autora no futuro?
C.R.: A verdade é que não sei. As coisas podem mudar muito depressa e também é certo que nem tudo está nas minhas mãos. No que depende de mim, o plano é continuar a escrever enquanto tiver ideias para desenvolver e histórias para contar. Quanto ao resto... o futuro dirá.