quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Opinião: Mirror Mirror

Título Original: Mirror Mirror (2017)
Autor: Cara Delevingne e Rowan Coleman
Tradução: Nuno Bombarda de Sá
ISBN: 9789897770081
Editora: Planeta (2017)

Sinopse:

Red, Leo, Rose e Naomi são inadaptados. Red tem uma mãe alcoólica e um pai que nunca está presente. O irmão de Leo arrasta-o para um obscuro e violento caminho. Rose volta-se para os rapazes e o álcool para adormecer a dor do passado.
Naomi foge de casa em busca de uma liberdade que não consegue encontrar. Estão sozinhos contra o mundo até formarem a sua outra família na banda, Mirror Mirror.
O único sítio onde podem ser eles mesmos. Um dia Naomi desaparece, e é encontrada meio morta no Tamisa. Lutando pela vida, a polícia acredita que se tentou suicidar. Os amigos ficam devastados; supostamente devem tomar conta uns dos outros, mas como não viram os sinais de alerta?
Mas quando uma série de pistas leva o grupo a suspeitar que nem tudo é o parece, Red, Leo e Rose deverão enfrentar os seus próprios segredos e medos obscuros. Nada será o mesmo de novo, pois uma vez que o espelho é partido, não pode ser consertado.

Opinião:

Mirror Mirror é o primeiro livro de Cara Delevingne. A conhecida modelo e atriz juntou-se a Rowan Coleman para criar esta história que tem como ponto central um grupo de quatro adolescentes inadaptados. Cada um destes jovens lida com os seus próprios demónios, mas  consegue encontrar nos outros a amizade, a aceitação, o reconhecimento e o apoio necessário para lutar por um futuro melhor. Contudo, o desaparecimento de Naomi provoca um grande choque nos outros três elementos, que tentam, a todo o custo, perceber o que se passou com ela. Isto enquanto lidam com problemas familiares, sociais e amorosos.

Tenho que confessar que não foi fácil ler este livro. Tal não se prendeu pela história, que é fácil de acompanhar e até previsível, nem pela linguagem utilizada, que é atual apesar de conter demasiado calão. A minha dificuldade prendeu-se com a personagem que narra os acontecimentos. Red tanto é apresentado como um rapaz como uma rapariga. Ao início fiquei com a percepção de que me tinha enganado a ler algo, depois fiquei com dúvidas sobre problemas na tradução mas depois fiquei com a ideia de que se podia tratar de uma personagem transsexual, mas nada disso fazia sentido. É que o género com que esta personagem era tratada mudava de um momento para o outro, muitas vezes pela mesma personagem, não havendo distinção entre momentos do passado e do presente. E chega a ser ridículo ver a família e os professores a tratarem esta figura sempre pela alcunha e nunca pelo nome. Como tal, a minha atenção muitas vezes era desviada para esta incerteza, não me permitindo concentrar na história. Quando esta questão é, finalmente, esclarecida, fica a dúvida para tal apenas ter acontecido numa fase tão avançada da trama. Não havia necessidade para tal.

As três personagens que procuram por Naomi vêm de meios familiares desiquilibrados. Isto leva-nos a pensar que a base de uma sociedade é realmente a família, e quando esta falha tudo à nossa volta desmorona. As autoras dão a entender que não existe um padrão de normalidade dentro de uma família, sendo que o mais importante não é corresponder a um modelo mas sim haver amor, respeito, compreensão e diálogo. Quando isto falha, todos se sentem perdidos. E isso é tratado de forma diferente em cada caso. Red dedica-se à irmã e revolta-se contra os pais. Leo não quer perder quem ama e acaba por se envolver em situações que não deseja. Rose refugia-se em relações fugazes e no álcool. Todos procuram ser amados e um equilíbrio difícil de conquistar.

Não fiquei cativada por nenhuma personagem em particular. A indefinição sobre Red acabou por me irritar e por não ajudar na criação de uma ligação mais forte a esta figura. Rose é demasiado dramática e egocêntrica, não sendo propriamente alguém de quem gostaria de ser amiga, apesar de ter pena do que lhe aconteceu. Leo é o esterótipo de rapaz rebelde e sensual que esconde as suas inseguranças. Naomi não permite grande conhecimento e Ash, apesar de intrigante, parece irreal para uma jovem. Todos tentam passar a sensação de que são os miúdos fixes da escola apesar de não se sentirem como tal, o que provoca alguns revirares de olhos ao longo da leitura. Faz lembrar aquelas entrevistas a atrizes e modelos que garantem nunca se terem sentido bonitas. Custa acreditar.

O enredo não transmite a sensação de estarmos a ler algo de novo. Sentimos desde o início para onde tudo se está a encaminhar, apesar de poder existir um ou outra surpresa pelo caminho. Apesar de reconhecermos que os amigos de Naomi podem encontrar informações a que a polícia terá maior dificuldade de acesso, algumas descobertas e revelações parecem demasiado irreais e forçadas para um grupo de adolescentes. Além disso, a forma como certos assuntos são abordados não me agradou de todo. Apresentar como normal e aceitável comportamentos de risco e delinquentes entre adolescentes é uma opção discutível.

Mirror Mirror é um livro destinado a um público mais jovem, que procura abordar questões relacionadas com a adolescência o mesmo tempo apresenta uma mistério que precisa de ser resolvido. Cara Delevingne e Rowan Coleman quiseram falar de perigos que ameaçam os adolescentes e de como a força da amizade e do amor é transformadora e pode salvar. A história e as personagens têm algumas falhas, pontos que precisariam de maior trabalho. Um livro que até entretém, mas que não marca particularmente por não ser credível ou empático.

1 comentário:

Papo Moleca disse...

Estou querendo muito ler esse livro, sua resenha ficou ótima e além de tudo sincera. É muito chato quando um livro não nos prende :/
Parabéns pelo blog, já estou seguindo para poder acompanhar as novidades

www.papomoleca.com.br