quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Opinião: O Núcleo (Ciclo a Noite dos Demónios #5)

Título Original: The Core (2017)
Autor: Peter V. Brett
Tradução: Renato Carreira
ISBN: 9789892342214
Editora: Asa (2018)

Sinopse:

Demónios sedentos de sangue rondam a noite.
A raça humana está reduzida a uma resistência dispersa e dependente de magias antiquadas.
De entre os resistentes, surgem dois heróis. Tão próximos como irmãos, e, no entanto, divididos por uma amarga traição.
Arlen Bales, o Homem Pintado, está coberto de tatuagens de poderosos símbolos mágicos que lhe permitem combater - e vencer - os demónios.

Ahmann Jardir, possuidor de armas mágicas, autoproclamou-se o Libertador, uma figura que as profecias dizem ser capaz de unir a humanidade e conduzi-la ao triunfo na Sharak Ka - a derradeira guerra contra os demónios. Mas, nos seus esforços para derrotar os demónios, Arlen e Jardir desencadearam uma força que poderá pôr fim a tudo: um Enxame. A guerra está à porta, e a única esperança da humanidade reside em Arlen e Jardir. Com a ajuda de Renna, mulher de Arlen, tentam subjugar um príncipe dos demónios, obrigando-o a indicar-lhes o caminho até ao Núcleo, onde a Mãe dos Demónios está a formar um exército invencível.

Enquanto os leais Leesha, Inevera, Ragen, e Elissa guiam o turbulento povo das Cidades Livres na batalha contra o Enxame, Arlen, Renna e Jardir lançam-se numa perseguição desesperada nas profundezas mais escuras do mal - de onde nenhum deles espera regressar com vida…

Com O Núcleo, chega ao fim o épico Ciclo da Noite dos Demónios, uma das mais aclamadas sagas de fantasia dos nossos tempos…

Opinião:

Foi com um misto de sentimentos que iniciei a leitura de O Núcleo. Por um lado, este era um livro muito desejado. Desde a publicação de O Trono dos Crânios, em 2016, que esperava pelo derradeiro volume da saga de Peter V. Brett "Ciclo a Noite dos Demónios", por isso foi bom finalmente ter esta história nas mãos. Contudo, sabia que esta também seria uma despedida de personagens que me têm conquistado desde 2009, quando O Homem Pintado surgiu nas livrarias.

Este volume começa no ponto em que o anterior terminou, havendo assim uma sensação de continuidade sem que nada tivesse sido perdido. Em capítulos intercalados com os pontos de vista de diversas personagens mais relevantes desta aventura, vamos avançando para o culminar da obra de Peter V. Brett. O facto de haver muitas personagens a oferecerem ao leitor as suas perspetivas pode dar a ideia de que a narrativa avança lentamente, mas tal é necessário para que exista uma visão mais completa dos acontecimentos. É isto que justifica as mais de 800 páginas deste livro, apesar de, confesso, achar que foi dada demasiada importância a certos momentos que poderiam ter sido resumidos.

Entre estes pontos de vista, admito que alguns ficaram entre os meus preferidos enquanto outros, apesar da sua importância, me pareceram menos interessantes. Destaque claro para os momentos com Arlen, Jardin ou Renna. Estas três personagens estão no centro da ação principal desta obra, dando-nos a conhecer uma realidade até então ocultado: o núcleo e o caminho para chegar até lá. Gostei muito de como conseguiram conciliar as suas divergências por um objetivo comum e da forma como transmitiram o ambiente vivido nos locais hostis em que se encontravam. Neste âmbito ainda, fiquei muito bem impressionada pela quase inversão de ideologias entre Arlen e Jardir e pelas reflexões que este caminho provocou em cada um deles.

Leesha Papel sempre foi uma das personagens que mais gostei de acompanhar, mas nesta fase o ponto mais forte dela foi mesmo o novo papel de líder e de mãe. Inevera, por outro lado, despediu-se ao fazer-nos recordar toda a sua força, provando, mais uma vez, que uma mulher pode fazer toda a diferença mesmo nas sociedades mais patriarcais. Briar volta a sobressair e a ser uma figura que é bom reencontrar, a sua ingenuidade, pureza de coração e singularidade colocam-no provocam momentos de reflexão muito curiosos, ao mesmo tempo que o levam para situações que nos prendem o interesse.

Inicialmente, os capítulos dedicados a Elisa and Ragen não foram os que mais se destacaram, mas a situação em que este casal acabou por se encontrar foi muito relevante. Foi através deles que o autor nos levou a refletir sobre as prioridades dos governantes em tempos de crise e sobre o verdadeiro valor que é dado à vida humana. Por outro lado, a situação de crise de Abban mostrou-nos os limites que somos capazes de ultrapassar para sobreviver, mesmo que seja em detrimento da segurança de outros. É impossível não admirar a contrução desta personagem, mesmo que nem sempre consigamos concordar com todas as suas ações ou valores.

Apreciei muito o final que Peter V. Brett nos reservou com esta sua obra. Admito que foi algo que me tivesse passado pela cabeça, uma vez que o sacrifício por um bem maior foi algo cujo tom foi aumentado ao longo dos livros. Percebo que possa ser algo controverso entre os fãs da saga, mas faz sentido. Não posso deixar de falar ainda sobre uma sentida homenagem que acontece nas últimas páginas e que me arrancou um sorriso por ser um exemplo de redenção e respeito.

Contudo, fiquei com a sensação que ficou muito por explicar no que toca ao rescaldo. Teria preferido que o autor tivesse dedicado mais páginas para nos dar a conhecer as consequências do desfecho desta batalha para o mundo que construiu, cortando noutros momentos que acabaram por se revelar mais extensos ao longo da obra. Desta forma, talvez a narrativa tivesse um avanço mais rápido e o leitor ficaria com mais informações no final.

O Núcleo apresentou-me uma conclusão que, no geral, deixou-me satisfeita. Reconheço que este pode muito bem ser o livro mais complexo da saga, uma vez que nos apresenta muitas perspetivas diferentes. Isto também faz que a narrativa seja algo lenta, havendo uma sensação de que o tempo não avança por estarmos sempre a saltar entre pontos de vista que estão a acontecer em simultâneo. Além disso, há muita informação para ser assimilada. Porém, tal não causará grande incómodo aos leitores que apreciaram o trabalho anterior de Peter V. Brett, que, acredito, também vão compreender as escolhas do autor para este desfecho. Para mim, fez todo o sentido.


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