quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Opinião: O Trono dos Crânios (Ciclo a Noite dos Demónios #4)

Título Original: The Skull Throne (2015)
Autor: Peter V. Brett
Tradução: Renato Carreira
ISBN: 9789892334516
Editora: Asa (2016)

Sinopse:

O Trono dos Crânios de Krasia está vazio.
Construído com crânios de generais caídos e de príncipes demónios, é um lugar de honra e de magia antiga e poderosa, que mantém afastados os demónios nuclitas. Do alto do trono, Ahmann Jardir estava destinado a conquistar o mundo conhecido, reunindo os seus povos isolados num exército unificado capaz de pôr fim à guerra com os demónios de uma vez por todas. Mas Arlen Bales, o Homem Pintado, foi contra este destino, desafiando Jardir para um duelo que ele não podia recusar. Em vez de arriscar a derrota, Arlen lançou ambos de um precipício, deixando o mundo sem um salvador, e dando origem a uma luta pela sucessão que ameaça destruir as Cidades Livres de Thesa. No Sul, Inevera, a primeira mulher de Jardir, tem de arranjar forma de impedir que os filhos se matem e mergulhem o povo numa guerra civil, enquanto se esforçam por atingir glória suficiente que lhes permita reclamar o trono. No Norte, Leesha Papel e Rojer tentam forjar uma aliança entre os ducados de Angiers e Miln contra os Krasianos antes que seja demasiado tarde.
Apanhado no fogo cruzado encontra-se o ducado de Lakton - rico e desprotegido, pronto a ser conquistado.
Enquanto isso, os nuclitas têm-se tornado mais fortes, e sem Arlen e Jardir talvez não haja ninguém suficientemente poderoso para detê-los.
Apenas Renna Bales pode saber mais sobre o destino dos homens desaparecidos, mas também ela desapareceu...

Opinião:

Mais uma vez, Peter V. Brett fez esperar. E mais uma vez conseguiu manter-me agarradas às (muitas) páginas de um livro. O Trono dos Crânios, o quarto volume do Ciclo a Noite dos Demónios, faz-nos reencontrar personagens que já consideramos amigas, expande ainda mais este universo que foi apresentado em O Homem Pintado, dá novas perspectivas sobre muitas figuras que foram surgindo à medida que a saga foi avançando, e ainda surpreende em muitos, muitos momentos. Porém, ainda não é desta que ficamos a conhecer o desfecho da história.

A narrativa tem início no momento em que A Guerra Diurna termina. Se bem se recordam, as últimas páginas do terceiro volume desta saga apresentaram uma grande reviravolta, algo que, durante estes cerca de dois anos e meio de espera, muitas dúvidas levantaram. Felizmente, a resposta a estas questões surge agora nas primeiras páginas. Confesso que a resolução do autor não era bem aquela que estava à espera. Ainda faltam alguns passos para ficarmos, finalmente, a conhecer o núcleo e a assistir a uma batalha (espero eu) nesse local de onde surgem tantos pesadelos.

Tal como acontece nos livros anteriores, a trama volta a ser contada através da visão de diferentes personagens e sempre na terceira pessoa. Desta forma, ficamos com uma visão mais ampla do que está a acontecer em diversos pontos deste universo. É possível perceber como cada lado pensa e quais os planos que tem. É interessante verificar que existem vários pontos de disputa, sendo o mais evidente a que existe entre humanos e nuclitas. Mas além disso, existem os conflitos entre povos de inspiração ocidental e os de inspiração oriental e ainda assistimos a estratégias de poder dentro de cada um destes grupos. Estas relações são muito complexas e justificam o tamanho do livro (mais de 700 páginas). E como se tal não bastasse, estas intrigas fazem com que dificilmente surjam momentos mais parados.

Os capítulos que mais me cativaram acabaram por ser os que estão relacionados com Leesha e Roger. Penso que tal aconteceu, além do conteúdo, pelo facto de se tratarem de personagens pelas quais nutro um grande carinho deste o início da saga. A empatia é imediata e isso levou-me a ficar sempre do lado deles. Queria que fossem felizes, mesmo que para tal tivesse de aceitar as mudanças de rumo que encontraram e os fizeram desviar daquilo que inicialmente esperava para ambos. Como tal, senti com maior intensidade o sofrimento pelo qual passaram. Peter V. Brett mostra que as guerras e as intrigas prejudicam até as figuras que julgávamos mais protegidas.

Porém, existem outras figuras que, apesar de não concordar com os seus ideais e de não desejar que sejam considerados vencedoras, que me atraem e que provam que o autor consegue criar personagens complexas. É o caso de Inevera, que me continua a surpreender, apesar de achar que merecia ter surgido mais vezes nesta obra. Também fiquei muito bem impressionada com a dicotomia criada entre os irmãos Jayan e Asome, sendo que um representa o guerreiro líder e o outro o estratega dissimulado. Apesar das diferenças, ambos causaram-me repulsa, apesar de um deles ainda ter conseguido manipular, ainda, a minha opinião sobre ele.

A visão de Ashia também me deixou entusiasmada, pois voltou a abordar a questão do papel das mulheres da Krasia e da sua luta por um papel mais útil na sociedade. Porém, também é verdade que existem outras personagens cuja perspectiva parece afastar-se da narrativa principal, o que faz pensar na sua relevância para a história e se não teria sido melhor o autor ter-se debruçado mais sobre questões mais centrais e que ficaram aquém das expetativas.

Curiosamente, Arlen e Jardir, os suspostos grandes heróis desta trama, os homens que pareciam disputar o título de "Libertador", não me entusiasmaram tanto quanto outras figuras. Pareceu-me que, neste livro, o autor deu-lhes um papel de reflexão e preparação, deixando adivinhar que grandes feitos estão a ser preparados para o derradeiro volume. Porém, não deixa de ser curioso perceber que estas das figuras, que nós, leitores, entendemos como humanas dotadas de uma percepção diferente e de uma coragem sem igual, são vistas pelas outras quase como divinas. Isso faz pensar sobre as origens das lendas e até dos mitos.

O Trono dos Crânios é uma leitura cujo início pode custar pois existem muitos nomes, figuras, locais e conceitos a recordar. Mas assim que a memória é avivada, torna-se difícil parar de ler. É impressionante pensar em como a história de um rapazinho se tornou nesta intriga tão densa e complexa. É verdade que ainda ficam muitas respostas por dar, e é ainda mais verdade que custa ficar conhecer o destino cruel que o autor reservou para algumas destas personagens, mas este não deixa de ser um livro intenso e que faz as delícias dos fãs que o autor já conquistou. Agora, é espera pelo quinto e último volume da saga e desejar que não demore tanto tempo a chegar às nossas mãos quanto este levou.

Outras opiniões a livros de Peter V. Brett:
A Guerra Diurna (Ciclo a Noite dos Demónios #3)
O Grande Bazar e Outras Histórias

4 comentários:

Patricia A. disse...

Também gosto muito dos três primeiros livros desta saga. Obrigada pela opinião, deu vontade de ir a correr comprar este livro (que ainda não tenho).

Cláudia disse...

Olá Patrícia! Se gostaste dos três primeiros então não vais querer perder este ;) Beijinho!*

Sobrevivente disse...

Ola Claudia, Um otimo review da obra, porém não concordo em alguns aspectos, achei que ele poderia se quisesse ter feito uma trilogia com o material que já apresentou até o momento, e como em outras conversas com amigos acho a lança do deserto a sua melhor obra pois foi nela que ele desenvolveu em profundidade a civilização krasiana.
Mas voltando ao quarto livro, Briar me pareceu um personagem despropositado jogado no livro para conseguir o objetivo dos capitulos seguintes com mais facilidade, (estou tentanto evitar spoilers), o aprofundamento dos tramas paralelas é demasiado, apesar de entender que a Guerra diurna ainda permanece e o foco desse livro seria a politica Krasiana nao me agradou a trama principal ser posta tanto de lado, e confesso que meras 3, 4 paginas para o desfecho do livro foi mesmo pra me deixar mais revoltado com esse fim do que com o fim do guerra diurna. Pra mim foi o livro mais fraco dos 4 mesmo com a historia se tornando mais pesada e violenta.

Cláudia disse...

Olá Sobrevivente!

Obrigada pelo parecer :) Realmente, falar deste livro sem spoilers é muito complicado. Percebo alguns dos pontos que frisou (até porque alguns deles estão contemplados na opinião) e recordo que nunca referi qual foi é o meu livro preferido da série.

Cumprimentos e boas leituras!