terça-feira, 7 de abril de 2015

Opinião: A Segunda Vinda de Cristo à Terra

Autor: João Cerqueira
ISBN: 9789898781260
Editora: Estação Imaginária (2015)

Sinopse:

Após regressar à Terra e conhecer a activista Madalena que luta por um mundo melhor, Jesus ver-se-á envolvido em três situações de conflito.
Encontra um grupo ecologista radical, que pretende destruir uma plantação de milho que supõe geneticamente modificada. Assiste à revolta dos habitantes de uma vila contra um empreendimento turístico que vai ser construído numa reserva florestal. Por fim, testemunha um conflito armado entre negros e ciganos.
Neste périplo irá conhecer vários personagens: os referidos ecologistas, um padre que o obriga a confessar-se, um autarca corrupto, empreiteiros sem escrúpulos, um Comandante da GNR obrigado a fazer de Pilatos, os habitantes de um bairro degradado, um bruxo, e um negro e uma cigana apaixonados.
Porém, conquanto se limite a acompanhar Madalena, tentando apenas pacificar os desavindos, nem assim Cristo volta a escapar à fúria dos homens.
E apenas um farsante o irá reconhecer.
Mediante a ironia e o sarcasmo A Segunda Vinda de Cristo à Terra aborda fenómenos de conflitualidade social e política que ocorreram no nosso país.
Mas no fim é Portugal quem acaba posto na cruz.

Opinião:

João Cerqueira inspirou-se no Cristianismo, uma das religiões com maior presença em Portugal. para escrever A Segunda Vinda de Cristo à Terra. Logo na capa é possível confirmar que este livro tem um carácter satírico e que pretende chocar o leitor. Contudo, também é objectivo do autor levar-nos a pensar sobre a sociedade onde estamos integrados através do seu humor tão peculiar. Esta não é uma obra que deve ser levada com seriedade, pois a ironia é constante ao longo da leitura.

Acredito que podemos dividir este livro em três fases. Em ambas, a personagem de Jesus surge em situações rotineiras que encontram paralelo com acontecimentos da Bíblia. No primeiro, podemos ver um grupo de activistas ambientais que partilham os nomes com alguns dos seguidores do Messias mais conhecidos. No segundo, deparamos com uma forma óbvia de corrupção. No terceiro  vemos Cristo a entrar num bairro degradado pelos problemas sociais e rivalidades entre gangues.

Nas três situações, salta à vista as piores características do ser humano. O egoísmo, interesse, ganância, necessidade de poder, uso do outro em benefício próprio e o desrespeito pelos que o rodeiam e pelo ambiente são alguns dos temas que ganham maior destaque. Uma forma de fazer o leitor pensar sobre se é esta sociedade a que quer pertencer e o que pode fazer para a mudar. Muitas das situações parecem mesmo ridículas, mas é esse mesmo o objectivo: fazer-nos rir de nós próprios e levar-nos a questionar o nosso papel no meio em que vivemos.

Sendo assim, se o livro foi lido com espírito aberto, proporcionará uma leitura divertida e rápida. Contudo, também ficam patentes algumas carências. Penso que a existência de apenas três fases é insuficiente, pois gostaria que o autor tivesse abordado mais algumas situações de modo a tornar esta obra mais completa e rica. No final, fica a sensação de que este livro poderia ser mais forte, se contemplasse mais momentos de sátira. Também fica a ideia de que Jesus é apenas uma figura que está sempre presente mas que pouco ou nada intervém, quando o esperado seria vê-lo a fazer a diferença.

João Cerqueira mostra que possuí uma grande imaginação e um sentido e de humor longe de ser inocente, uma vez que esta não é uma obra com o objectivo único de entreter, mas sim de ridicularizar temas actuais para que o leitor reflicta sobre estes, nomeadamente os contrastes a nível político e a natureza humana.

É uma obra muito interessante por conseguir levar o leitor a meditar durante um momento de lazer divertido. Aconselhável a todos os que apreciam uma boa sátira e que não são susceptíveis a questões  religiosas, sociais ou políticas.

2 comentários:

Arttemizza Lia disse...

Estou a ler este livro!! Está a ser uma boa sátira!

Cláudia disse...

Ainda bem Arttemizza! :)*