sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Opinião: Vox

Título Original: Vox (2018)
Autor: Christina Dalcher
Tradução: Renato Carreira
ISBN: 9789898917584
Editora: TopSeller (2019)

Sinopse:

Estados Unidos da América. Um país orgulhoso de ser a pátria da liberdade e que faz disso bandeira. É por isso que tantas mulheres, como a Dra. Jean McClellan, nunca acreditaram que essas liberdades lhes pudessem ser retiradas. Nem as palavras dos políticos nem os avisos dos críticos as preparavam para isso. Pensavam: «Não. Isso aqui não pode acontecer.»
Mas aconteceu. Os americanos foram às urnas e escolheram um demagogo. Um homem que, à frente do governo, decretou que as mulheres não podem dizer mais do que 100 palavras por dia. Até as crianças. Até a filha de Jean, Sonia. Cada palavra a mais é recompensada com um choque elétrico, cortesia de uma pulseira obrigatória.
E isto é apenas o início.

Opinião:

Fiquei com vontade de ler este livro assim que vi a capa. "E se cada mulher só tivesse direito a 100 palavras por dia?" Esta questão incomoda. Perturba. Enquanto mulher, estou grata pelo trabalho das que vieram antes de mim e lutaram pelos direitos que atualmente tenho. Também eu luto e preocupo-me com a igualdade de género, sabendo que, apesar de diferentes, homens e mulhres têm de ter em mãos as mesmas possibilidades e oportunidades para fazerem das suas vidas o que bem entenderem. Contudo, o mundo em que vivemos está a passar por mudanças. Apesar de vivermos de forma aparentemente tranquila, percebemos que existem movimentos com visões extremistas a ganharem força. É inevitável pensar nos perigos que podem surgir enquanto todos temos por garantindo que nada poderá piorar. Mas, e se houver um retrocesso? E se as mulheres passarem a ser vistas como figuras submissas à vontade dos homens? E se lhes tirarem a voz? E se cada uma apenas tiver direito a 100 palavras por dia?

Christina Dalcher faz-nos pensar e temer, ao mesmo tempo que lança o aviso para estarmos atentos e não permitirmos que o retrocesso aconteça. Através de Vox, a autora apresenta uma sociedade em que os primeiros sinais de mudança foram ignorados pela maior parte da população, sendo que a ameaça apenas se tornou real quando era impossível contorná-la. Através da protagonista desta história, Jean, somos levados a entender o que uma mulher educada e formada sentiu quando a sua voz lhe foi tirada. É que, aqui, a voz não é apenas o som que cada um produz para comunicar. É fundamentalmente a própria pessoa, com todos os seus sonhos, esperanças, desejos, ambições e pensamentos.

Jean passa de um extremo para o outro. A mulher que conciliava família e carreira passou a ser relegada para um papel submisso em que não é valorizada. Apesar de não ter simpatizado com esta personagem, devido à sua personalidade, a verdade é que consegui sentir empatia devido à situação em que se encontra. Percebi a revolta contra o marido e a linha ténue que existe entre amor e ódio. Entendi a forma como encarava cada filho, sendo mais protetora com a  filha e tendo um certo ressentimento pelo mais velho. Compreendi o desprezo sentido pelas mulheres que se entregaram completamente a esta condição e o ressentimento por não ter tido a coragem de ter lutado mais pelos seus direitos.

Se esta vivência perturbada, é ainda mais chocante perceber como as mulheres são capazes de prejudicar as suas congénres. Estes momentos fazem pensar no que é a maldade pura. Além disso, ao longo da história, ficava impressionada pela forma como os homens viviam este novo modelo de sociedade, uma vez que uns o faziam pela crença cega de estarem a seguir o que acreditavam ser certo, enquanto outros o faziam pelo poder. Ao mesmo tempo, é com esperança que percebemos leves sinais de rebeldia sugeridos por diferentes figuras. É nestes momentos que somos levados a acreditar na bondade e na possibilidade de mudança e melhoria.

Ao longo desta narrativa, somos levados por situações diferentes que vão culminar num momento crucial. O facto de haver sempre algo a acontecer faz com que a leitura seja rápida e feita com vontade. Fiquei mais impressionada pela forma como a protagonista nos dava a conhecer a sua experiência nesta sociedade do que com a história de amor que acaba por se desenrolar. Percebo o que a motivou, mas pareceu-me algo fraca, até pela forma como a autora decidiu concluir o assunto. Esta componente faz distrair da força da mensagem que pretende ser transmitida.

Vox é um livro pertinente hoje e sempre. Tem uma mensagem que deve ser sempre recordada, mesmo quando damos por garantido que estamos numa situação de igualdade. A autora faz-nos dar valor pelos direitos conquistados ao longo dos anos, fazendo-nos estar atentos às ameaças que podem surgir. Mais do que entretenimento, é uma verdadeira chamada de atenção. Recomendo.

Sem comentários: