quinta-feira, 10 de julho de 2014

Opinião: Os Reinos do Norte (Mundos Paralelos #1)

Autor: Philip Pullman
Título Original: His Dark Materials - Northern Lights (1995)
Tradução: Maria do Rosário Monteiro
ISBN: 9722328263
Editora: Editorial Presença (2001)

Sinopse:

Mundos Paralelos é uma trilogia mágica e poderosa, recheada de aventuras, imaginação e mistério. A sua protagonista é Lyra, uma menina de onze anos que anda sempre na companhia do seu génio. E é justamente com Pantalaimon que ela irá fazer uma perigosíssima viagem até às vastidões longínquas do Norte, para tentar desvendar os seus mistérios… Mas a realidade revela-se assustadora… Lyra irá conhecer criaturas fantásticas, feiticeiras que cruzam os céus gélidos, espectros fatais e ursos blindados numa luta terrífica entre a vida e a morte, o bem e o mal, a sobrevivência ou a aniquilação do mundo…

Opinião:

Li Os Reinos do Norte pela primeira vez quando tinha 15 anos. Lembro-me de ter ficado fascinada com a ideia dos génios, com o conceito de mundos paralelos, de ter adorado Lyra e de ter ficado maravilhada com a aventura exposta nestas páginas. Este ano, decidi voltar a entrar neste universo criado por Philip Pullman.

Foi fácil voltar a encantar-me por este livro. Os novos conceitos são apresentados com uma certa leveza, mas com o desenrolar da trama ganham uma complexidade maior do que seria suposto encontrar num livro destinado a um público tão jovem. O autor explora temáticas que geram controvérsia de uma forma maravilhosa e cativante  e é interessante ver que consegue alcançar jovens e adultos de diferentes formas. Adorei constatar que muitas ideias e reflexões me passaram ao lado durante a primeira leitura deste livro, mas que agora estas tornaram-se instantâneas e forneceram maior profundidade ao livro.

Lyra, a protagonista, é uma menina que encanta com a sua audácia e também ingenuidade. Gosto muito desta protagonista que ao início apenas se preocupa com as brincadeiras típicas da idade, mas que ao longo das páginas do livro enfrenta circunstâncias difíceis e nas quais revela os seus nobres valores. Adoro a relação de Lyra com Pantalaimon. É interessante constatar o quando os dois são diferentes e se completam. Enquanto Lyra é temerária e impulsiva, Pan é ponderado e temeroso.

É claro que também existem algumas momentos ou pormenores que desta vez me causaram algumas dúvidas. O facto de Lyra ser uma criança capaz de executar todos os feitos narrados pode causar algumas estranheza, mas também está aí alguma da beleza do livro. Afinal, revela que o ser mais pequeno e dotado de menos poder pode ser capaz de grandes feitos e, assim, ser uma peça fundamental na roda da vida.

Existem outras figuras que também cativam e demonstram uma construção agradável. Lorde Asriel e a Sr.ª Coulter são duas figuras capazes de provocar sentimentos contrários. Por uma lado, mostram-se poderosos e dotados de grandes conhecimentos, o que atrai, mas por outro provam de que são capazes de qualquer coisa para atingir os seus objetivos, o que causa repulsa e incompreensão. John Faa e Farder Coram são dois homens que simbolizam a proteção e a família, o que é curioso tendo em conta que estão dentro de um grupo discriminado. Iorek Byrnison  mostra que as grandes amizades podem ser encontradas junto dos seres menos prováveis.

Neste volume, é curioso constatar que não existe uma grande reflexão direta sobre ideologias e conceitos religiosos, mas estes estão sempre presentes. É possível tirar conclusões sobre as posições do autor quanto a este tópico, mas isso não faz com que outras ideias sejam colocadas de parte. Gostei bastante das revelações finais e do peso destas. É inevitável transpor as reflexões para a realidade, o que evidencia um trabalho notável.

Foi muito agradável regressar a Os Reinos do Norte. Este é o início de uma trilogia marcante dentro do género fantástico. Apresenta uma aventura estimulante, personagens carismáticas, reflexões que atingem todas as idades e ainda transmite a importância dos valores da amizade e coragem. Um livro que tanto pode ser lido por jovens como por adultos. Recomendo!

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Porto tem Feira do Livro atrasada mas Festival anima!

Este ano, a Feira do Livro do Porto vai chegar uns meses atrasada, mas até lá existem alternativas.  A cooperativa cultural Culture Print organiza a  6.ª edição do Festival dos Livros, que este ano decorre no Mercado do Bom Sucesso, entre os dias 9 e 13 de Julho (sim, começa hoje!). As bancas de venda vão estar espalhadas pelo exterior do mercado es estima-se  que cerca de 40 editoras estejam presentes.

O horário deste festival que une música a literatura será do meio-dia às 20 horas  excepto na sexta-feira e no sábado, dias em que encerra apenas à meia-noite.

Uma boa iniciativa que não substitui a Feira mas que leva livros a preços mais apetecíveis ao Porto.

Está a chegar novo livro da série Freelancer, de Nuno Nepomuceno

As aventuras de André Marques-Smith, protagonista do livro O Espião Português (ver opinião aqui), vão continuar! Nuno Nepomuceno divulgou no seu site oficial (ver aqui) a sinopse do segundo livro da série Freelancer. A capa e o título ainda estão por anunciar, assim como a data da publicação.

Sinopse: Quatro meses volvidos sobre os acontecimentos da última primavera, em Viena, a luta pelo Projeto Lebodin está ao rubro. Uma nova pista sobre o código dos documentos do malogrado cientista russo é descoberta. E, decidida a ganhar vantagem sobre a Cadmo, a Dark Star lança-se na sua perseguição.
Para tal, conta com China Girl. Uma espia implacável, dona de uma beleza sem precedentes. Uma combinação explosiva de traços orientais e ocidentais, com tanto de exótico, quanto mortífero.
Mas que passado terá esta mulher, cujo próprio nome permanece desconhecido? Que segredos esconde? Que planos tem para o futuro? Mais importante, estará ela disposta a tudo em nome do sindicato do crime?
E André Marques-Smith? Que será feito do espião português, agora que descobriu toda a verdade? Será ele capaz de esquecer os fantasmas antigos e derrotar a Dark Star? Ou irá render-se também ele à sedução do submundo do crime e terrorismo internacional? Serão os dois espiões capazes de refutar a inegável atração que os une?


Este é um livro pelo qual tenho grande curiosidade. Gostei bastante de O Espião Português, livro vencedor da 1ª Edição Prémio Literário Book.it, e fico feliz por realmente a série vai continuar. Agora é esperar ansiosamente pela data de publicação, pelo título e pela capa (que não demore muito, que não demore muito, ...)!

Opinião: Dois Anos e uma Eternidade

Autor: Karen Kingsbury
Título Original: The Bridge (2012)
Tradução: Ana Lourenço
ISBN: 9789898626066
Editora: TopSeller (2013)

Sinopse:

Molly Allen vive sozinha em Portland. Na memória guarda os momentos felizes que viveu na livraria A Ponte — a mais antiga livraria no centro histórico de Franklin, com um homem que deixou para trás cinco anos antes. O amor que os uniu era de uma espécie rara, arrebatadora, que ela não voltou a encontrar desde então.
Ryan Kelly é músico e vive em Nashville. Depois de um noivado falhado e de vários anos em digressão, também ele tem dificuldade em reencontrar a felicidade. Por vezes, quando se sente mais solitário, regressa à livraria e recorda as horas que partilhou secretamente com Molly.
Charlie e Donna Barton são os donos da livraria A ponte, e durante quatro décadas partilharam com os clientes o amor pela leitura. Mas quando a cidade é atingida pelas cheias, Charlie entra em desespero. Sente-se prestes a perder as duas paixões da sua vida: a livraria, que construiu e acarinhou ao longo dos anos, e a mulher, Donna, que não mais conseguirá sustentar. Quando a tragédia acontece, leva a um reencontro inesperado entre Molly e Ryan

Opinião:

Quando iniciei a leitura de Dois Anos e uma Eternidade, procurava uma história leve, bonita, que não exigisse muito e que tivesse um final feliz. Encontrei uma grande parte do que procurava. Karen Kingsbury apresenta neste livro uma história simples, básica, previsível e que faz passar um curto espaço de tempo agradável. Contudo, assim que o livro termina, não fica guardado na memória pois não foi suficientemente marcante.

A Ponte é uma livraria cujo proprietário é um homem de bom coração. Charlie é um homem que, apesar da idade, continua a lutar por um sonho, mesmo quando este parece escapar entre os seus dedos. Senti pena pelas dificuldades atravessadas por Charlie, mas sobretudo pelas dúvidas que afetaram o seu casamentos e a sua autoestima. Quando uma desgraça acontece, percebe-se que a partir daí as coisas só podem vir a melhorar.

A autora apresenta ainda Molly e Ryan, duas pessoas que viveram um romance iniciado na Ponte, mas que acabaram separadas pelas circunstâncias da vida. É curioso ver que apesar de tudo, eles não deixam de pensar um no outro, e no quanto o passado foi importante. Percebe-se logo desde o início o que lhes vai acontecer, opor isso a conclusão surge isenta de surpresas.

À excepção de Charles, todas as personagens carecem de desenvolvimento e profundidade. Estão demasiado estereotipadas e, por isso, não é fácil criar empatia, pois elas não convencem de que são reais. As suas histórias não espantam, o que acaba por fazer com que a leitura não se torne memorável.

O desenrolar dos acontecimentos apresenta um momento de estagnação, uma reviravolta e uma superação. A trama é demasiado previsível o que faz com que o final não seja aguardado com expectativa. Para além disso, a forma como os obstáculos foram ultrapassados pareceu-me demasiado conveniente, o que fez com que me custasse a acreditar que tal pudesse acontecer. Confesso que apenas desejei terminar o livro para poder pegar num outro.

O nome da livraria está bem escolhido. Ponte remete para algo que liga duas margens ou duas realidades, e é mesmo isso que esse local faz. A livraria une pessoas, e é interessante ver que, apesar do tempo e da distância, esta ponte continua a ser uma referência e um ponto de união.

Dois Anos e uma Eternidade é um romance simples, sem grandes surpresas, que entretém e que aborda o conceito de amor de uma forma básica e descomplicada. A história não apresenta grande profundidade e alguns acontecimentos parecem demasiado convenientes. Uma leitura rápida que dificilmente será recordada.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Opinião: A Voz (Shadowfell #3)

Título original: The Caller (2014)
Autor: Juliet Marillier
Tradução: Catarina F.  Almeida
ISBN: 9789896575212
Editora: Planeta (2014)

Sinopse:

A surpreendente conclusão da trilogia que começou com Shadowfell, cheia de romance, intriga e magia. Há um ano, Neryn nada tinha a não ser um Dom Iluminado que mal compreendia e o sonho vago de que a mítica base rebelde de Shadowfell pudesse ser real. Agora, é a arma secreta dos Rebeldes e a sua grande esperança de fazerem vingar essa revolta secreta contra o rei Keldec, que terá lugar no dia do Solstício de Verão. O destino de Alban está nas suas mãos. Entretanto, Flint, o homem por quem se apaixonou, está no limite das suas forças enquanto espião na corte do rei e acumulam-se as suspeitas da sua traição. Em jogo, está a liberdade do povo de Alban, a possibilidade de os Boa Gente saírem dos esconderijos e a oportunidade de Flint e Neryn se unirem finalmente.

Opinião:

Finalmente o fim da trilogia Shadowfell! Estava muito curiosa quanto à forma como Juliet Marillier iria encerrar esta história encantadora que incluí um rei tirânico, uma terra antiga, um povo reprimido, seres mágicos, um grupo de rebeldes e ainda dons fantásticos. Confesso que também guardava alguns receios. Afinal, após a leitura dos dois volumes anteriores, tinha ficado com a noção de que neste livro haveria muito por explorar antes da conclusão e perguntava-me como a autora o iria fazer mantendo a coerência e a fluidez da trama. Felizmente, os meus receios foram infundados e a conclusão bastante satisfatória.

O início da leitura apresenta um ritmo lento. Isto acontece por as primeiras páginas possuírem muitas reflexões e pouca acção. É um tempo onde é preciso tomar decisões e onde as personagens necessitam reencontrar a motivação e a coragem necessárias para colocar em prática o plano da rebelião. Não foi uma fase que me tivesse entusiasmado, até porque se prolonga por mais tempo do que o que seria esperado. Contudo, a partir do momento em que Neryn encontra novas personagens, o ritmo começa a aumentar gradualmente, assim como o interesse pela história.

O encadeamento dos acontecimentos está bem conseguido, é coerente e não pareceu em momento algum forçado. Juliet Marillier surpreende com algumas escolhas inesperadas mas bem justificadas. Uma escolha mais arriscada de Neryn leva-a a um local muito interessante e fá-la conhecer e aproximar-se de outras personagens que nos fazem pensar no reino de uma forma diferente. É a partir deste momento que a leitura arranca a um ritmo rápido. A história torna-se cativante e fica cada vez mais difícil largar o livro.

Uma das coisas que muito apreciei neste livro foi a aproximação de Neryn ao lado inimigo. Desta forma, a autora demonstrou que numa batalha, os dois lados são compostos por humanos, o que faz com que os conceitos de bem e mal sejam relativos. É interessante perceber que entre soldados temíveis por todo o povo de Alban é possível encontrar homens possuidores de valores nobres e um bom coração. Até mesmo a percepção que temos do rei de Alban não é linear ao longo da leitura, o que faz pensar sobre as circunstâncias que transformam um homem. Uma lição que deve ser transportada para a realidade.

É interessante verificar a evolução das personagens mais relevantes ao longo da trilogia. Neryn, a protagonista, foi inicialmente apresentada como uma menina assustada e insegura. Agora, ela é uma mulher dona de uma grande coragem, com um coração aberto a todos os que demonstrem bondade e preparada para fazer o que for preciso para o bem comum. Já o Flint do primeiro livro era um homem misterioso, ponderado e que sabia esconder as suas fraquezas. Neste derradeiro volume, ela mostra-se fragilizado devido aos conflitos internos que vive, é um homem que desespera, que tenta a todo o custo continuar a lutar e que, apesar de todo o sofrimento, ainda é capaz de encontrar qualidades onde mais ninguém as vê. Ambos tornaram-se diferentes daquilo que eram no primeiro volume, mas mais completos e fortes.

Apesar de não ter encontrado a carga emotiva desejada ou de ter achado que faltava uma maior noção de perigo, a verdade é que fiquei muito satisfeita com este livro e com a conclusão. As histórias de Juliet Marillier fornecem sempre encantamento e uma sensação de esperança, e A Voz não é excepção. No final, fica a crença de que até as situações mais difíceis podem ser ultrapassadas desde que exista boa vontade e fé. A autora, ao confrontar duas personagens com dons idênticos, mostra ainda que a bondade prevalece ao desejo de poder. Para tal, é necessário ser fiel aos valores inciais.

A Voz encerra bem a trilogia Shadowfell. É um livro que remete para conceitos ligados ao druidismo, que fala de esperança, que apela à bondade entre todos os seres e que mostra que os valores mais humildes podem ser os mais poderosos. Acredito que vai agradar aos fãs de Juliet Marillier. Uma leitura que faz acreditar que após dias negros, chegam sempre tempos de sol.