sexta-feira, 19 de julho de 2013

Opinião: Angelópolis

Título original: Angelopolis (2013)
Autor: Danielle Trussoni
Tradução: Marta Mendonça
ISBN: 9789722351027
Editora: Editorial Presença (2013)

Sinopse:

Angelópolis é a sequela de Angelologia, um sucesso à escala global e também um bestseller do New York Times. Voltamos a entrar num mundo onde se cruzam história, mitologia e os universos bíblico e fantástico. A batalha entre os humanos e os Nefilins atinge proporções aterradoras. Verlaine é agora um caçador de anjos de elite que se empenha a fundo em capturá-los e eliminá-los. E quando Evangeline, a mulher que ama, é raptada diante dos seus olhos por uma das criaturas mais procuradas pela Sociedade, tem início uma perseguição que leva Verlaine até aos palácios de São Petersburgo, à Sibéria e às costas do Mar Negro, onde o aguardam a verdade sobre as origens de Evangeline e forças terríficas, capazes de ameaçar o futuro de toda a humanidade.

Opinião:

Angelópolis relata o que aconteceu 10 anos após a história narrada em Angelologia, o primeiro volume desta saga.

Danielle Trussoni apresenta desta forma o que aconteceu à mestiça Evangeline e ao caçador Verlaine após o desfecho inconclusivo do primeiro volume. Sendo estas as personagens mais conhecidas, acabam também por ser aquelas a que o leitor estabelece maior ligação. Ao longo da narrativa, a autora introduz outras figuras, dotadas de um papel secundário mas com grande importância para o desenrolar dos acontecimentos. Á semelhança do que aconteceu ao início com Angelologia, a empatia com estas personagens pode não ser fácil, devido às atitudes frias e até calculistas.

O grande ponto forte deste volume acaba por ser a maior exploração do misticismo e religiosidade, assim como o cruzamento entre estes aspectos com acontecimentos históricos. Destaco o papel da dinastia Romanov, nomeadamente da última geração, e de alguns elementos culturais característicos, como os ovos Fabergé. Contudo, com o decorrer da leitura, surge a percepção de que este volume está centrado numa descoberta do passado. Os momentos de acção são escassos, sendo o mais relevante o que surge no final. Toda a narrativa está direccionada para a colecta de informações, que regra geral é conseguida junto de uma nova personagem que inicia relatos de outros tempos. Fica a dúvida de se não teria sido melhor a autora ter apostado numa prequela antes de conduzir os protagonistas de Angelologia para o seu desafio e final.

A leitura, no geral, é agradável, mas existem algumas incongruências que acabam por afectá-la. A autora continua a não ser consistente em detalhes, como acontece, por exemplo com a cor dos olhos das personagens. Existem ainda outros detalhes que são facilmente detectados, como acontece quando, a certo momento, um espaço é descrito como simples e sem cama para que na página seguinte exista uma personagem que vai buscar um objecto debaixo de uma cama nesse mesmo local.

No final, o leitor sente-se satisfeito por saber mais sobre o mundo criado por Danielle Trussoni que tanto o encantou em Angelologia, mas fica a sensação de que a história pouco avançou. Fica a vontade de saber o que a autora está a preparar para o próximo volume, ainda sem data de publicação, e o desejo de que as falhas encontradas sejam corrigidas.

Ver opiniões a outros livros de Danielle Trussoni:
Angelologia

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Opinião: A Família Radley

Título original: The Radleys (2010)
Autor: Matt Haig
Tradutor: José Luís Luna
ISBN:  9789722522779
Editora: Bertrand Editora (2011)

Sinopse:

A Família Radley é uma família como tantas outras: mais ou menos disfuncional, mais ou menos satisfeita. Até aqui, tudo bem. Só que os pais, Peter e Helen, têm escondido de Clara e Rowan, os filhos, um segredo arrasador, mas que explica muitas coisas…
Um livro divertido, envolvente e emocionante que nos oferece o retrato de uma família invulgar. A Família Radley faz-nos pensar em que será que nos tornamos quando crescemos e o que será que ganhamos (e perdemos) quando negamos os nossos apetites.
E tu, consegues controlar os teus instintos?

Opinião:
A família Radley aparenta ser comum. Habitantes da aldeia de Bishopthorpe, estão bem integrados naquela comunidade: o pai, Peter, é um prestigiado médico, a mãe, Helen, uma dona de casa empenhada e os filhos, Rowan e Clara frequentam a escola local. Como todas as famílias, têm os seus pontos altos e os seus problemas, mas enquanto os seus vizinhos guardam segredos comuns, os Radley escondem uma natureza que nunca pode ser revelada, nem mesmo aos seus filhos, de forma a garantir a segurança geral. Peter e Helen são um casal de vampiros que teve… filhos vampiros.

De forma a levarem uma vida normal e abstinente de sangue, escolheram aquela pitoresca aldeia para viver e educar Rowan e Clara. Os dois jovens vivem os problemas comuns da adolescência: Rowan quer ser aceite pelos seus pares, defrontar os rufias que lhe fazem a vida negra e conquistar a bela Eve, apesar de nunca conseguir dizer-lhe mais do que meia dúzia de palavras; Clara quer marcar a diferença, salvar o mundo mas sem nunca sair da sua zona de conforto. Como todos os jovens, sentem-se diferentes dos outros, mas o que eles não sabem é que realmente o são.

Peter e Helen são um casal conformado com a sua situação e com uma relação desgastada. Um casal que renegou os seus desejos para proteger os que amam. Helen é uma mulher que precisa de seguir um plano para se sentir segura, enquanto Peter sente-se infeliz com aquela relação e com o seu trabalho na clínica. Fizeram sempre de tudo para colmatar a falta de sangue nos sistemas dos seus filhos, com dietas à base de carnes frescas que, apesar de tudo, os deixam meio atordoados e com um aspecto adoentado.

Quando Clara é atacada numa festa, segue os instintos que nunca pensou ter e solta a sua verdadeira natureza. Os pais, em pânico, sabem que não podem mais esconder quem são e, num acto de desespero, pedem ajuda à última pessoa que deviam contactar.

A Família Radley é um delicioso drama doméstico. O leitor acompanha os quatro elementos da família e ainda alguns dos vizinhos mais relevantes para a trama, de forma a conhecer todos os seus passos e conflitos. Desta forma, o autor apresenta uma visão completa de uma estrutura familiar, que, apesar de ser composta por vampiros, não deixa de ser tão semelhante a tantas outras. É importante ter em conta que aqui, os vampiros são seres mortais com capacidades de reprodução, cuja única diferença é a alimentação e os poderes que surgem através de uma dieta à base de sangue.

A leitura é fluída, rápida, inteligente e consegue agarrar o leitor desde o início, com elementos fantásticos, uma boa carga de acção, horror e pitadas de romance e humor. Os diálogos estão bem conseguidos e adaptam-se à faixa etária e educação das personagens em questão. Os comentários entre irmãos conseguem fazer o leitor sorrir ao rever a tão comum relação de amor/ódio.

O livro fica enriquecido com as passagens do “Manual do Abstinente” (criado pelo autor), que revela de forma mais concreta as dificuldades que os vampiros que não se alimentam com sangue passam, a fazer lembrar um livro contra as dependências de humanas. Contudo, aqui não se trata de um simples vício, mas de um instinto mais forte do que a própria vontade que provém da própria natureza.

Mais do que um livro sobre vampiros, é um livro sobre uma família, constituída por pessoas reais, com problemas normais, mas que, apesar de tudo, são capazes de qualquer coisa para se protegerem e manterem unidos. Uma boa leitura.

Matt Haig é um escritor e jornalista britânico que colaborou com publicações de renome, como The Guardian, The Sunday Times e The Independent. Entrou no mundo da literatura em 2005, com The Last Family in England, sendo A Família Radley a sua última obra publicada, até à data.

Nota: Já foi anunciada a adaptação cinematográfica desta obra pelas mãos de Alfonso Cuarón, o realizador de Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Opinião: O Espião Português

Autor: Nuno Nepomuceno
ISBN: 9789892321462
Editora: Asa (2012)

Sinopse:

André Marques-Smith é um bom rapaz. Dedicado à família e aos amigos, é o mais jovem funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros português a assumir a tão desejada direção do Gabinete de Informação e Imprensa. Uma dedicação profissional que esconde um coração partido.
Freelancer é o nome de código de um espião da Cadmo, uma organização semigovernamental internacional. A par do MI6 e da CIA, a Cadmo age nos bastidores da política mundial, moldando o mundo tal como o conhecemos. Freelancer é metódico e implacável, um dos seus operacionais mais cotados.
André e Freelancer são uma e a mesma pessoa. De Lisboa a Estocolmo, Londres, Roma ou Viena, as suas muitas faces desdobram-se, as missões sucedem-se. Uma delas reserva-lhe uma surpresa. Nas suas mãos, está uma descoberta que pode mudar o mundo e pôr em causa toda a sua vida.
Mas, para o melhor e para o pior, ele não está sozinho...

Opinião:

Vencedor do prémio Literário Book.it, O Espião Português revelou-se uma boa surpresa. Entrei na história com facilidade, muito devido à componente de acção que surge logo ao início e à forma como André Marques-Smith, a personagem principal, foi sendo apresentada.

Este volume, que me foi-me gentilmente cedido por Nuno Nepomuceno, revela-se mais do que uma história policial repleta de enigmas e aventuras. Com esta leitura, ficamos não só a conhecer os limites da conspiração europeia como também assistimos a uma jornada de auto descoberta do protagonista. Esta dualidade fornece um carácter mais completo à obra e impulsiona a leitura.

André Marques-Smith é uma personagem que cativa. Jovem, belo, inteligente, profissional e atormentado é com interesse que seguimos o seu percurso e com curiosidade que desvendamos o seu passado. Numa história de espionagem, é bom poder contar com um protagonista que se revele humano e tal acontece nesta obra. Neste campo, ficamos a par da relação de André com a família, com os amigos, com o trabalho e consigo mesmo. É curioso ver que um jovem tão bem sucedido sofre de um mal tão comum, tendo mesmo desvalorizado a sua própria vida.

Este lado pessoal está em perfeito equilíbrio com o lado da espionagem, o que fomenta a leitura. Neste último campo, observamos um André meticuloso, corajoso e disposto a tudo para cumprir as suas missões. As dores da sua vida pessoal estão presentes, mesmo que de forma muito subtil. É também durante estes exercícios que ficamos a conhecer outras personagens muito interessantes e imprevisíveis. A ideia de formar uma organização de espionagem com elementos de diferentes Ministérios europeus revela-se bastante curiosa.

E se ao início parece que percebemos o rumo que o autor quer seguir, mais tarde percebemos que Nuno Nepomuceno esteve sempre preparado para nos surpreender. Com o decorrer das páginas, a história vai ganhando complexidade e as personagens revelam lados até então ocultos e inesperados. A leitura torna-se viciante e a necessidade de saber cada vez mais apenas aumenta. Por isso mesmo, chegada a última página, surge a sensação de frustração de que ficou muito por explicar e descobrir, afinal, O Espião Português é o primeiro volume da trilogia Freelancer. Percebe-se, apesar de tudo, que o próximo livro trará um protagonista com objectivos alterado.

O estilo de escrita de Nuno Nepomuceno é fácil de acompanhar. O autor exprime sem dificuldade as angústias e pensamentos do seu protagonista, ao mesmo tempo que fornece cenas de ação bastante visuais e cinematográficas, sendo simples imaginar e entrar nas mesmas. Os diálogos estão bem conseguidos ao adequarem-se a cada situação e personagem. Contudo, existem certas características que podem causar alguma estranheza, nomeadamente a utilização de frases curtas em quase toda a narrativa. Se por um lado esta opção permite uma transmissão de ideias mais clara e como menos propensão ao erro, por outro esta escolha pode ser vista como demasiado simplista.

Este livro é uma verdadeira caixinha de surpresas. Um livro surpreendente e com revelações que, apesar de inesperadas e difíceis, acarretam novos e estimulantes desafios. Fica o desejo para que o próximo volume seja rapidamente publicado, afinal ainda há muito para descobrir sobre este espião português.

Atenção!
Passatempo a este livro a decorrer aqui.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Opinião: A Rapariga de Papel

Título original: La Fille de Papier (2010)
Autor: Guillaume Musso
Tradução: Sérgio Coelho
ISBN: 9789722526388
Editora: Bertrand Editora (2013)

Sinopse:

Há apenas alguns meses, Tom Boyd era um escritor famoso em Los Angeles, apaixonado por uma célebre pianista. Mas na sequência de uma separação demasiado pública, fechou-se em casa, sofrendo de bloqueio artístico e tendo como única companhia o álcool e as drogas. Certa noite, uma desconhecida aparece em sua casa, uma mulher linda e completamente nua. Diz ser Billie, uma personagem dos romances dele, que veio parar ao mundo real devido a um erro de impressão do seu livro mais recente.
A história é uma loucura, mas Tom acaba por acreditar que aquela deve ser de facto a verdadeira Billie. E ela quer fazer um acordo com ele: se ele escrever o seu próximo romance, ela poderá regressar ao mundo da ficção. Em troca, ele ajuda-a a reconquistar a sua amada Aurore. O que tem ele a perder?

Opinião:

A Rapariga de Papel é um romance onde Guillaume Musso que leva o leitor a reflectir sobre as diversas facetas do amor, o valor da amizade, o poder da imaginação, a dureza da vida e a forma como todos os seres humanos estão interligados e podem fazer a diferença mesmo em quem não conhecem.

Tom Boyd é o protagonista desta trama. Escritor norte-americano famoso, viveu uma intensa paixão com uma pianista mediática e conhecida pela sua beleza e pelos seus relacionamentos fugazes. A inevitável separação foi dura para Tom, que depois de uma humilhação pública refugiou-se no álcool e nas drogas. A dor levou-o ainda a sofrer um bloqueio artístico, precisamente na altura em que se preparava para iniciar o tão esperado derradeiro livro da sua trilogia.

O leitor depara-se, inicialmente, com um Tom sofredor de depressivo. A história da relação é contada através de recortes de jornais, o que promove a ideia do poder dos meios de comunicação na vida das celebridades. Pode não ser fácil gostar deste Tom que desistiu de tudo o que tinha de bom por uma mulher. Contudo, este sentimento começa a ser alterado graças ao aparecimento de Billie.

Billie não é nada mais, nada menos do que uma das personagens da trilogia de sucesso de Tom. O protagonista vai ter dificuldade em aceitar este facto e, tal como o leitor, vai suspeitar do desenvolvimento de loucura. Afinal, Billie acaba por provar que é fruto da imaginação de Tom e o seu aparecimento é fruto de um erro de impressão. Esta personagem quer a todo a custo voltar para o seu mundo e, para tal, precisa que o autor ultrapasse a depressão e termine o livro que tem para escrever.

Tom começa, aos poucos, a tomar as rédeas da sua vida, graças à improvável Billie. Juntos vivem uma aventura que consegue agarrar o leitor. Os momentos divertidos são deliciosos, enquanto os mais pesados fazem recordar as principais dificuldades da vida. Com a recuperação de Tom surgem também revelações impressionantes sobre este protagonista e os seus amigos. Exemplos de que a mudança é possível e de que as pessoas podem sempre almejar uma vida melhor, servem de exemplo para quem sofre. Paralelamente, o autor expõe ainda o poder dos livros como escape para um mundo mais belo, onde é possível encontrar forças para continuar a lutar e resistir. Com o virar das páginas, sente-se cada vez mais empatia pode este Tom refeito.

A existência de pequenas histórias paralelas que estão ligadas de forma indirecta proporcionam momentos doces e que fazem reflectir em como a humanidade se encontra unida, mesmo sem ter a percepção de tal. O final não é bem o esperado e pode desiludir os fãs de tramas mais fantásticas.

Guillaume Musso apresenta um estilo de escrita cuidado, em certos momentos quase lírico, mas sempre simples de acompanhar. É interessante ver as preocupações do próprio autor reflectidas na personagem de Tom, nomeadamente quanto ao poder das descrições. Existem apenas algumas incongruências quanto à tradução – algumas expressões inglesas que não foram traduzidas, sendo que nem todas possuem nota de rodapé.

Terminada a leitura, fica-se com a sensação que se esteve perante uma leitura leve mas inspiradora. Mesmo que não seja um livro prodígio, faz o leitor relembrar as leituras que mais o marcaram e a forma como estas o alteraram. A Rapariga de Papel é escrita por um amante de livros para amantes de livros, prova dada pelas belas citações de outras obras que iniciam cada capítulo. Um doce.