domingo, 10 de junho de 2012

Opinião: Cobiça (Série dos anjos Caídos #1)


Autor: J. R. Ward
Título Original: Covet (2009)
Tradução: Filipa Aguiar
ISBN: 9789898228604
Editora: Quinta Essência (2011)

Sinopse:

“Cobiça” é o primeiro livro da série Anjos Caídos de J. R. Ward. Em cada volume, são apresentadas sete personagens que são afetadas por cada um dos sete pecados mortais. A cobiça é o primeiro.

Vin diPietro é um homem dedicado ao trabalho. Foi através do seu esforço que conseguiu construir fortuna e ter uma vida que julgava impossível quando criança. Homem frio e calculista, vê os seus planos de vida colocados em causa quando conhece uma mulher que se dedica à prostituição numa casa de alterne. O homem de negócios começa a reconhecer quem nem sempre seguiu pelo melhor caminho e fica parado numa encruzilhada onde o caminho errado poderá colocar em causa a salvação da sua alma eterna.

A seu lado, diPietro pode contar com o inesperado Jim Heron, um homem que foi escolhido pelos anjos e demónios e que tem a salvação ou a danação nas suas mãos.

Opinião:

A premissa dos sete pecados capitais pode ser considerada cativante por muitos e acaba por ser o fator de grande atração desta série de livros. O leitor fica a par de uma nova mitologia onde anjos e demónios deixam o destino da humanidade nas mãos de um humano, que poderá contar com as intervenções de ambos os lados nas suas ações. Contudo, penso que esta grande força da obra acaba por não ser devidamente explorada.

O grande enfoque da autora vai para as personagens de Vin diPietro e de Marie-Terese, o par romântico da narrativa, e, aqui, tudo parece demasiado forçado. A partir do momento em que estes se conhecem, o leitor percebe rapidamente o desfecho da obra. Para além disso, a súbita alteração de diPietro não convence assim como as motivações de Marie-Terese parecem carecer de fundamentos.
  
A trama fica envolvida em clima de romance e sedução, o que pode desiludir quem está à espera de um teor mais místico. A própria resolução do conflito acaba por parecer demasiado simples e básica, tendo em conta que a autora aparentava preparar algo maior.

A escrita é simples de acompanhar, sendo que as descrições são focadas na aparência das personagens, na exposição de sentimentos e emoções e, como não podia deixar de ser, nas relações sexuais. Os diálogos são bem conseguidos na medida em que expressam credibilidade ao utilizarem recursos linguísticos correspondentes a cada personagem.

Uma leitura leve com as características adequadas a quem aprecia uma simples história de amor envolta num cenário possuidor de elementos sobrenaturais. Eu não fiquei convencida.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Opinião: A Paixão de Artemísia


 Autor: Susan Vreeland
Título Original: The Passion of Artemisia (2001)
Tradução: Carla Ferraz
ISBN: 9789898032034
Editora: Edições Saída de Emergência (2007)

Sinopse:

 “A Paixão de Artemísia” é um romance histórico que se baseia na história de coragem de Artemisia Gentileschi, a primeira mulher a entrar na ilustre Academia de Artes de Florença. Susan Vreeland apresenta a sua visão desta personagem histórica que fez a diferença no século XVI, época em que as artes eram apenas dirigidas ao homem.

Filha de um ilustre pintor, Orazio Gentileschi, Artemísia sempre revelou ter um talento inato. Contudo, tudo muda na sua vida quando é violada por Agostino Tassi, assistente do seu pai, aos 18 anos. A acreditar na justiça dos tribunais, a jovem denunciado o homem que abusou do seu corpo, mas acaba por ser humilhada em praça pública e por ver aqueles que mais amava a traírem a sua confiança.

Assim, a jovem Artemísia acaba por ter um casamento por conveniência e parte à conquista do seu lugar no mundo das artes.

Opinião:

Susan Vreeland fornece uma visão incómoda das dificuldades que as mulheres tinham para se fazerem ouvir no século XVI. Consideradas inferiores ao homem e detentoras do pecado capital, são tidas como indignas de exercer trabalhos mais nobres e, muitas vezes, até de sair de casa. A autora apresenta a sua versão dos factos de um modo emocionante, onde o grande ponto de destaque vai para a construção de personagens.

É possível acompanhar a evolução de Artemísia desde uma jovem ingénua a uma mulher madura e forte o que faz dela uma figura a admirar. As personagens que a rodeiam também mantêm o interesse, especialmente a filha da pintora (que parece exatamente alguém que eu conheço) e Galileu, que também sofre por não poder proferir o que realmente acredita.

Ao longo da leitura, torna-se inevitável pesquisar as obras que a autora descrever com grande precisão e até emotividade. Deste modo, o leitor passa a conhecer quadros com temáticas fortes que marcaram a arte barroca para além de ser elucidado sobre as técnicas artísticas utilizadas na época.

A escrita é simples de acompanhar e bastante fluída, podendo apenas haver a sensação que certos momentos passaram de modo demasiado repentino, sem haver qualquer explicação sobre o que se sucedeu. O final, pode não ser o mais agradável, mas é, sem dúvida, um momento que revela crescimento pessoal.

Este é um livro que poderá ser mais apelativo ao público feminino, devido à forma como os temas são retratados, mas não deixa de ser uma boa forma de conhecer uma mulher que marcou o seu tempo e que pode ser considera um exemplo intemporal. Uma leitura agradável.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Opinião: O Ladrão da Eternidade


Autor: Clive Barker
Título Original: The Thief of Always (2005)
Tradução: David Soares
ISBN: 9789896373696
Editora: Edições Saída de Emergência (2011)

Autor, realizador e artista, Clive Barker possui uma carreira consagrada no género do horror. “O Ladrão da Eternidade”, publicado pelas Edições Saída de Emergência, é destinado a um público jovem, mas está recheado de boas surpresas que vão agradar às gerações mais velhas.

Sinopse:

Harvey, o protagonista deste livro, é um jovem de 10 anos que vive aborrecido com a sua rotina diária. Cansado dos deveres da escola e das tarefas domésticas que lhe são incumbidas, o jovem é cativado por um estranho sorridente num dia de inverno. Deste modo, é conduzido à casa de férias do Senhor Hood, um local maravilhoso onde a diversão é garantida e todos os desejos são realizados.

Harvey fica fascinado com este lugar misterioso que, aparentemente, esteve sempre perto da sua casa. Lá, o jovem come os seus pratos preferidos, tem todos os brinquedos que quer e ainda vive aventuras diárias juntamente com as outras duas crianças que estão no local. E o mais fascinante é que, num só dia, vive o que as quatro estações do ano têm de melhor. 

Porém, nem tudo parece perfeito na casa do Senhor Hood. Harvey vai perceber que há um preço a pagar pela estadia e que é melhor ter cuidado com o que deseja. 

Opinião:

Claramente voltado para um público juvenil, “O Ladrão da Eternidade” tem ensinamentos que merecem ser sempre relembrados. Através de personagens jovens, Barker consegue fazer refletir acerca do valor do tempo, sobre a importância de viver uma vida plena, acerca da relevância dos momentos menos bons da vida e até sobre os valores da amizade e da coragem.

Clive Barker sabe seduzir o leitor, quer seja através do enredo quer seja através da escrita simples, fácil de entender, ritmada e possuidora de beleza. A história pode parecer não ser assustadora, mas a verdade é que o autor consegue incomodar ao invocar determinados temas ou através do mistério que envolve a trama.

As personagens apresentadas são interessantes, apesar de, a certo momento, ter estranhado algumas atitudes. O leitor pode também pensar que certos momentos são demasiado precipitados, outros previsíveis, mas a verdade é que existe sempre algo que surpreende e que faz querer continuar a acompanhar o herói.

Esta edição pode ser encontrada com quatro capas distintas, cada uma associada a uma estação do ano: a verde é a da primavera, a amarela do verão, a vermelha do outono e a azul é a do inverno. É uma ideia interessante, tendo em conta a forte relevância que é dada ás quatro estações (e já agora, informo que escolhi a verde).  Mas mais interessante do que a imagem da publicação é a nota de David Soares, o tradutor desta edição, que pode ser lida nas primeiras páginas. São palavras breves que apresentam o trabalho de Baker e que ainda introduzem certos temas que vão ser apresentados, tudo isto com a sensibilidade e inteligência que são características de David Soares, o que, com certeza, é uma mais-valia.

Confesso que, quando peguei neste livro, a minha intenção era apenas a de ler os primeiros capítulos, mas a verdade é que só consegui parar de o fazer quando cheguei à última página. Envolvente e interessante, esta é uma obra para guardar e que merece ser relida.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Opinião: A Rapariga que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo (Millennium 2)


Autor: Stieg Larsson 
Título Original: Flickan Som Lekte Med Elden (2006)
Tradução: Mário Dias Correia
ISBN: 9789892303451
Editora: Oceanos (2011)


O final de “Os Homens Que Odeiam as Mulheres”, primeiro livro da série Millennium, deixou acontecimentos por explicar, e tais começam a ser desvendados em “A Rapariga que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo”, o segundo volume de autoria do falecido jornalista Sieg Larsson.

Sinopse:

“Não há inocentes. Há apenas diferentes graus de responsabilidade”.

Após uma grande desilusão, a estranha e cativante Lisbeth Salander parte numa viagem pelo estrangeiro, onde se envolve em inesperadas aventuras e onde inicia uma nova obsessão: a matemática. Paralelamente, Mikael Blomkvist tenta contactar, sem sucesso, a jovem hacker por quem sente uma genuína amizade. Contudo, quando vê que esta não quer ser encontrada, desiste e volta-se para o trabalho de jornalismo de investigação que desenvolve na revista Millennium.

Enquanto Lisbeth regressa à Suécia com uma nova identidade e aluga um luxuoso apartamento na zona mais nobre de Estocolmo, Mikael envolve-se no trabalho de um novo colaborador da publicação para a qual trabalha. O jornalista Dag Svensson apresenta um documento onde prova o envolvimento de figuras importantes numa rede de tráfico de mulheres para exploração sexual.

Porém, aquela que parecia ser uma notícia explosiva acaba por se revelar fatal para os que conhecem os seus dados, uma vez que Dag e a sua companheira surgem mortos. A investigação policial depressa encontra a sua principal suspeita: Lisbeth Salander.

Opinião:

Enquanto o primeiro volume da série estava relacionado com um caso que não envolvia diretamente os dois protagonistas, “A Rapariga que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo” acaba por revelar um lado mais íntimo, uma vez que os acontecimentos relevantes acabam por estar ligados ao passado da icónica Lisbeth Salander. Assim, o leitor seduzido por esta personagem tem finalmente acesso a mais e importantes informações do seu passado, que permitem compreender alguns traços da sua personalidade assim como algumas das suas atitudes mais extremas. Para além disso, Lisbeth passa por uma série de mudanças pouco previsíveis.

Narrado de forma excecional e com uma trama envolvente, onde o mistério constante faz querer continuar a virar páginas até todos os factos estarem finalmente revelados, o autor surpreende ao fornecer maior profundida às suas personagens, ao mesmo tempo que apresenta um tema de reflexão forte, mais uma vez, associado à posição frágil da mulher numa sociedade onde existem supostos direitos igualitários.

Contudo, existem certos aspetos que podem não ser apreciados. Várias personagens novas com nomes semelhantes são introduzidas na narrativa, o que faz com que seja gerada alguma confusão ao longo da leitura. O facto de os acontecimentos que estão apresentados na sinopse na contracapa apenas surgirem a meio do livro, faz com que o leitor esteja sempre na expetativa, não sendo surpreendido, ao contrário do que parecia ser intenção do autor.

Tal como o primeiro volume da série, este foi um livro que se tornou um vício e que apresentou um final surpreende que faz ter vontade de pegar logo no próximo. Lisbeth, com todo a sua rispidez e fragilidade, é sem dúvida uma personagem que dá vontade de continuar a acompanhar.

sábado, 2 de junho de 2012

Opinião: A Mulher do Viajante no Tempo


Autor: Audrey Niffenegger
Título Original: The Time Traveler’s Wife (2003)
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
ISBN: 9789722332743
Editora: Editorial Presença (2004) 

Audrey Niffenegger, artista plástica e professora de escrita criativa e técnicas de impressão e de encadernação de luxo, nos Estados Unidos da América, apresenta “A Mulher do Viajante no Tempo”, o seu primeiro romance.

Sinopse:

Esta é a história de um amor que nasce entre Claire e Henry. Porém, está longe de ter os contornos tradicionais do romance. É que Claire conheceu Henry quando tinha seis anos, mas a primeira vez que Henry falou com a amada, ela tinha vinte e oito anos. Estranho? Até poderia ser, não fosse o facto de Henry ser um viajante do tempo. O que pode parecer ser uma habilidade extraordinária revela-se uma verdadeira maldição, afinal, ele não consegue controlar quando viaja e qual o destino que vai alcançar, o que faz com que a sua vida não apresente uma linha cronológica regular e com que o perigo de se deparar com uma situação fatal seja um receio de constante.

Devido a esta estranha condição da qual guarda segredo, Henry acaba por viver relações fugazes e por nunca se sentir um homem plenamente realizado. Contudo, quando uma estranha mulher lhe surge e diz saber quem ele é e quais são as suas capacidades, surge a esperança de uma vida mais estável, algo que nunca tinha acreditado ser possível.

Opinião:

“A Mulher do Viajante no Tempo” apresenta uma trama que rapidamente poderia ser considerada confusa devido aos constantes saltos temporais. Todavia, a autora surpreende pela capacidade de criar um enredo consistente que fornece uma linha de acontecimentos lógica quando o esperado seria que esta fosse confusa e pouco credível. O leitor viaja entre passado, presente e futuro sem considerar que a sequência de eventos está desordenada.

Escrito com mestria e dotado de mistério que agarra a leitura, este livro retrata uma bela história de amor, longe de ser considerada enfadonha ou cliché. Henry e Claire são duas personagens consistentes e reais, detentoras de características fortes. Apesar dos sentimentos que os unem, existe um questionamento relativo ao sucesso da relação, pois nem por um instante eles consideram que tudo é um dado adquirido.

Nota-se ainda a preocupação da autora em expressar as diversas fases de um relacionamento, pois enquanto numa fase inicial tudo parece ser simples e movido quase por impulso, à medida que o tempo passa começam a surgir as dúvidas e as angústias inerentes ao reconhecimento de que nunca poderão ter uma vida estável e segura.

As personagens vivem um romance real, enfrentam alegrias, tristezas e problemas, o que provoca empatia. Contudo, tal como a própria vida, nem todo acontece como é desejado, e isso pode desagradar quem está à espera de encontrar uma história de amor com um tradicional “e viveram felizes para sempre”.

Um livro que surpreende pela positiva e que revela ser uma leitura emocionante, que agarra desde a primeira página.