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sábado, 10 de junho de 2017

Opinião: Os Despojados

Título Original: The Dispossessed (1974)
Autor: Ursula K. Le Guin
Tradução: Fernanda Semedo
ISBN: 9789897730566
Editora: Edições Saída de Emergência (2017)

Sinopse:

A jornada de um homem em busca da reconciliação de dois mundos.
Em Anarres, um planeta conhecido pelas extensas áreas desérticas e habitado por uma comunidade proletária, vive Shevek, um físico brilhante que acaba de fazer uma descoberta científica que vai revolucionar a civilização interplanetária. No entanto, Shevek cedo se apercebe do ódio e desconfiança que isolam o seu povo do resto do universo, em especial, do planeta gémeo, Urras.
Em Urras, um planeta de recursos abundantes, impera um sistema capitalista que atrai Shevek, decidido a encontrar mais liberdade e tolerância. Mas a sua inocência começa a desaparecer perante a realidade amarga de estar a ser usado como peão num jogo político letal.
Que esperança e idealismo restam a Shevek, aprisionado entre dois mundos incapazes de ultrapassar as diferenças? E ao desafiar ambos os regimes políticos, conseguirá ele abrir caminho para os ventos da mudança?

Opinião:

Os Despojados é um daqueles livros que merece e deve ser lido com muita calma e atenção. Ursula K. Le Guin não está apenas a contar uma história de ficção científica, está principalmente a fazer-nos pensar sobre o nosso próprio mundo, sobre a gestão da sociedade, sobre as relações humanas e sobre a relação que temos com nós próprios. Numa primeira vista pode não ser fácil entender todas estas mensagens, mas existem passagens que incomodam no momento em que as lemos, sendo que a narração fica connosco até mesmo quando não estamos a ler.

Somos apresentados a um universos vasto e diverso, com ênfase para dois mundos: um anarquista e outro gerido pelo capitalismo. Ficamos perante dois extremos opostos cuja construção está fascinante. Fiquei bastante impressionada com Anarres, um planeta árido e agressivo. Ursula K. Le Guin faz acreditar que uma anarquia harmoniosa é possível. Ao início, é difícil perceber tal organização social, uma vez que não existe qualquer governo, mas depois somos levados a pesar a questão da pressão dos pares e em como isso afecta as nossas condutas e decisões. A necessidade de ser aceite pelos outros consegue ser mais forte do que as leis.

Shevek é o protagonista desta obra. Ele é produto da sociedade em que nasceu e cresceu, mas também consegue ir para além disso. Shevek representa as pessoas com coragem suficiente para serem quem realmente são, para questionar e querer ir mais além do que é imposto. É curioso que, quando faz isso, é chamado de egoísta, mesmo quando as suas intenções são para o bem comum e não para seu próprio benefício. Prova disso são os riscos que toma e as posições complicadas em que se coloca. O altruísmo e conhecimento não devem ser então confundidos com o ego, nem o ego é algo necessariamente maligno. Quanto mais exploramos o funcionamento desta sociedade mais falhas encontramos, afinal a humanidade não é perfeita.

A criação de um instrumento que permite a comunicação entre diferentes mundos em tempo real é o que faz desenvolver a narrativa. Em capítulos intercalados, somos apresentados à vida de Shevek até ao momento da sua descoberta e, ao mesmo tempo, assistimos à sua entrada num novo mundo, muito diferente daquele em que nasceu e tornou-se homem. Gostei da forma como Shevek analisou o contraste entre Anarres e Urras e das conclusões que tirou. Faz-nos pensar que o belo não equivale ao que é bom e que a comunicação pode ser uma arma, tanto para unir como para criar discórdia e dar poder a quem a gere.

A noção de liberdade e a sua definição é uma das grandes reflexões desta obra. Shevek procura ser livre para seguir o seus estudos e para os transmitir aos outros, tendo em vista o bem comum, mas encontra sempre obstáculos no seu percurso. Num lado, parece existir a utopia final de sociedade livre, mas Shevek percebe que tal não acontece quando tenta dar a conhecer o seu trabalho. São muito poucos aqueles que aceitam a novidade das suas ideias e desafios. No outro, Shevek percebe que lhe é oferecida uma ilusão de liberdade, já que percebe que a maioria da população sobrevive com muitos limites e que a minoria com poder tem intenções secretas quanta ele. Isto faz-nos pensar o que é realmente a liberdade e em que tipo de sociedade esta pode ser encontrada.

Sabemos que estamos perante uma grande obra quando sentimos que a sua mensagem não morre e continua a ser pertinente e actual. É isso mesmo que acontece com Os Despojados. Apesar de ter sido escrito na década de 70 do século XX, como reflexão sobre a realidade da época, é possível fazer analogia com os nossos tempos e continuar a encontrar reflexões que continuam a fazer sentido. Gostei muito de ler esta obra e fico feliz pela oportunidade de ela finalmente ter chegado às minhas mãos. Espero voltar a lê-la daqui a uns anos e descobrir novas mensagens. Acredito que isso vai acontecer.

Outras opiniões a livros de Ursula K. Le Guin:
O Feiticeiro e a Sombra ("O Cliclo de Terramar" #1)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Opinião: O Feiticeiro e a Sombra


Autor: Ursula K. Le Guin
Título Original: The Earthsea Cycle – A Wizard of Earthsea (1968)
Tradução: Carlos Grifo Babo
ISBN: 9722328174
Editora: Editorial Presença (2001)


Sinopse:

“O Feiticeiro e a Sombra” é o primeiro volume da tetralogia “O Ciclo de Terramar”, de Ursula L- Le Guin. Destina a um público jovem, esta obra está inserida na coleção Estrela do Mar da Editorial Presença, mesma coleção que acolhe Harry Potter e a portuguesa Teodora. Neste livro, o leitor fica a conhecer Terramar, um mundo medieval onde a magia é uma realidade.

Gued, um jovem que aparentava ser igual a tantos outros, descobre aos sete anos de idade que tem capacidades que o distinguem. Dá os seus primeiros passos nesta arte com a ajuda de uma bruxa da sua aldeia, mas depressa capta a atenção de um mago poderoso, apesar  de não o deixar transparecer. Deste modo, Gued é desafiado a viajar pelo mundo na companhia de um novo mestre e, com o tempo, começa a obter cada vez mais conhecimentos e também a ter de enfrentar questões que serão cruciais na sua caminhada até ao título de arquimago.

Opinião:

Este foi um livro que li graças ao conselho de algumas pessoas pelas quais tenho grande respeito. Para quem já leu algumas das fantasias épicas mais em voga atualmente poderá achar esta é um livro  mais pobre, mas dizer apenas isto sem ter em conta toda a sua envolvente seria uma análise superficial. “O Feiticeiro e a Sombra” nasceu em 1968 e consiste no primeiro volume de uma obra que é considerada uma referência por muitos dos autores da área do fantástico.

Gued, protagonista da história, não surge como o tradicional herói, e aqui poderá estar uma das grandes novidades desta obra (mais uma vez, relembro a importância de não esquecer o ano de publicação). Tal como qualquer ser humano, Gued balança entre o bem e o mal, toma atitudes precipitadas, falha, aprende com os erros e pode muito bem voltar a errar.

A sombra que persegue Gued durante um longo momento da narrativa constitui num fator de grande interesse, uma vez que poderá ser vista como uma associação ao lado negro de qualquer ser humano. Gued toma duas atitudes diferentes em momentos distintos: a recusa em reconhecer os erros leva a uma constante fuga de quem é, não o permitindo viver em plenitude, enquanto a aceitação de si mesmo enquanto ser dotado de um lado obscuro e de um lado iluminado apenas poderá levar a um estado de evolução constante.

A escrita é simples e a narrativa tem a capacidade de entreter os mais novos e de iniciá-los na literatura ao mesmo tempo que consegue transmitir mensagens interessantes ao leitor mais experiente ou adulto. Contudo, fica a sensação que tudo acontece demasiado rápido e carece de maior desenvolvimento, para além de que o final deste volume não é propriamente imprevisível.

É uma história bonita, que faz lamentar que não tenha sido lida há mais tempo, numa altura em que a idade e a novidade a teria tornado marcante. Contudo, não me arrependo de ter seguido os conselhos que me foram dados. É um livro que se lê num instante e que, sinceramente, faz surgir a vontade de conhecer todo percurso de Gued.