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sábado, 25 de agosto de 2012

Entrevista a Joana Neto Lima

Blogger desde 2005 e uma das organizadoras da primeira participação portuguesa no Euro Steam Con,   Joana Neto Lima é a prova de que com força de vontade e coragem é possível abraçar projectos que muitos julgam impossível de realizar. Leitora ávida e fã de steampunk, Joana aceitou conversar com o blog "Uma Biblioteca em Construção" sobre o seu relacionamento com a literatura, sobre a sua paixão pela tecnologia a vapor e sobre o inédito evento que a cidade do Porto vai receber nos dias 29 e 30 de Setembro.

 

Uma Biblioteca em Construção (U.B.C.) - Olá Joana e obrigada pela tua disponibilidade. Como surgiu a tua experiência enquanto blogger? 

Joana Neto Lima (J. N. L.) - Antes de mais obrigada pelo convite, e pela simpatia ;) 

Ora bem, segundo as más línguas a minha experiência como Blogger começou no longínquo ano de 2005, com um blog de fotografia, Fotograficamente Sentindo. Depois em 2009, após uns anos de ausência nasceu o Cantos Quebrados, um espaço de partilha pessoal das minhas experiências.


U. B. C. - Neste momento tens dois espaços, certo? O que os distingue?
J. N. L. - Sim, tenho dois espaços: o Cantos Quebrados e a Clockwork Portugal.
O Cantos Quebrados, neste momento está um bocadinho em suspenso, mas é um espaço mais pessoal, de partilha das minhas leituras, dos filmes que vejo, das minhas experiências (a compra do meu kindle, opiniões quanto a alguns assuntos que acho que preciso de partilhar umas quantas palavras, como os downloads ilegais, as compras online, etc).

A Clockwork Portugal, é primeiro e mais que tudo, a principal culpada por o Cantos Quebrados estar mais parado. ;) É a comunidade portuguesa de Steampunk que está a organizar a Euro Steam Con no Porto e gostei bastante de ter a oportunidade de juntamente com a Sofia Romualdo pegar neste projecto e criar algo tão original como a Clockwork Portugal.

U. B. C. - Como selecionas a informação que queres publicar?
J. N. L. - No Cantos Quebrados, como é um espaço mais pessoal, publico e falo das coisas que mais prazer me dão ou das coisas que mais me interessam.

Na Clockwork Portugal, a selecção de conteúdos é gerida com os restantes elementos da equipa (no início éramos apenas duas, eu e a Sofia Romualdo, recentemente juntou-se à equipa o André Nóbrega). Cada um fala daquilo que acha interessante, com um único critério - É steampunk? Se é, nem se pensa muito mais. :) - Por vezes gerimos a publicação dos artigos entre os três, para não repetir conteúdos nem publicar no mesmo dia, por exemplo. Já tinha colaborado para outros blogs colectivos e acho que uma colaboração activa entre todos os elementos é sem dúvida enriquecedor.

U. B. C. - Quais são os maiores prazeres que os teus espaços te dão?
J. N. L. - Ahh... Pergunta complicada :)
Um dos maiores prazeres de ser Blogger é sem dúvida o contacto com outros Bloggers, poder trocar ideias e conhecer pessoas com interesses idênticos aos nossos.
Ao longo destes anos de Blogger, tenho tido a oportunidade de travar conhecimento com pessoas interessantíssimas e que me ajudaram a aumentar os meus conhecimentos, a descobrir paixões (o meu amor pelo Steampunk cresceu exponencialmente depois de uma iniciativa entre Bloggers).

Uma das coisas que adoro, são iniciativas como esta por exemplo em que os Bloggers em vez de ficarem nos seus cantinhos, se juntam e interagem. Nos últimos tempos tenho assistido a iniciativas que promovem a colaboração entre-bloggers (debates, entrevistas, colaborações, Posts de Bloggers convidados, etc) que simplesmente adoro.

U. B. C. - Existem problemas significantes que já te tenham levado a pensar em desistir destas lides?
J. N. L. - Pois. Como em tudo, existe o lado bom e o lado menos bom.
Na minha experiência de Blogger, já me deparei com algumas experiências menos boas, mas que me ajudaram a crescer e a perceber algumas coisas que são feitas de forma menos correcta. Nunca pensei em desistir da Blogosfera, pois como já referi na questão anterior, encontrei demasiadas coisas positivas para, devido a este ou aquele problema, desistir.

Acredito que as minhas experiências me ajudaram a perceber a melhor forma de gerir e colaborar para trazer à vida o meu projecto mais recente, a Clockwork Portugal. O modelo colaborativo que nós temos na Comunidade, deriva directamente de uma experiência menos positiva na blogosfera. Como blog colectivo tem uma identidade própria, diferente das partes que o compõem, todas as ideias dos seus elementos são válidas, ponderadas e respeitadas e claro todos têm direito à validação do seu trabalho e esforço. Ahh, acima de tudo todos têm que se divertir. :)

U. B. C. - Achas que a internet veio alterar a relação das pessoas com os livros?
J. N. L. - Acho que sim. Acho que a internet e as redes sociais, como o Twitter, Facebook e o Goodreads, veio facilitar o acesso dos leitores à informação.
Falo por experiência própria quando afirmo que a internet e as redes sociais ajudam a aumentar os níveis de leitura e de desgraça económica. :)

Depois de uns anos afastada das lides cibernáuticas, e afastada mesmo das leituras (por causa da faculdade e também porque o dinheiro não é muito para quem é estudante), conheci primeiro o blog Estante de Livros, que me mostrou que existiam espaços totalmente dedicados às leituras e aos livros que se liam e publicavam por Portugal. A partir daí, sempre que precisava comprar um livro ou me dava vontade de ler mais qualquer coisa, consultava sempre esses espaços à procura de sugestões ou opiniões. Acredito que como eu, muitas pessoas já se aperceberam do potencial destes espaços (leitores e editores também), o que alterou algumas formas de publicitar livros e escolher a próxima leitura.

U. B. C. - Estás a ajudar a trazer o Euro Steam Con a Portugal. Como te envolveste nesse projeto?
J. N. L. - No final do ano passado eu, a White_lady do Este Meu Cantinho e a Telma Teixeira do Ler e Reflectir fizemos uma leitura temática dedicada ao Steampunk, foi um Outono Steampunk que rapidamente se estendeu ao Inverno, terminando com uma távola redonda no blog Ler e Reflectir - Só Ler Não Basta.
Em Fevereiro no Twitter uma pessoa partilhou o link da página da Euro Steam Con e perguntou o que eu achava. Como eu adoro meter as mãos ao trabalho, juntar pessoas e claro promover a cidade do Porto, nem pensei duas vezes.

U. B. C. -Quais são as tuas expectativas para o evento?
J. N. L. - No início quando enviei o email de intenções, pensei em fazer apenas um encontro nos dias da Convenção (29 e 30 de Setembro), algo muito simples com chá e escritores.

Mas rapidamente, a Euro Steam Con - Porto ganhou vapor e nunca mais a conseguimos parar. Como não existia uma plataforma activa para o Steampunk em Portugal, e como tal lacuna iria dificultar a divulgação do evento, eu e a Sofia decidimos criar a Comunidade Portuguesa de Steampunk, Clockwork Portugal para servir de apoio e plataforma de lançamento da primeiríssima convenção steampunk em terras lusas.

Apesar de ser um movimento emergente, sentimos que desde que pegamos neste projecto a comunidade se organizou e dinamizou. Temos tido muitas surpresas agradáveis e contamos com a casa cheia em Setembro.
Esperámos que se torne uma tradição e possamos repetir a ESC todos os anos. :)

U. B. C. -Está também a ser elaborado um Almanaque Steampunk para ser lançado durante o evento. Está a ser fácil levar este projeto adiante?
J. N. L. - O Almanaque é daquelas surpresas agradáveis que a Euro Steam Con e a Clockwork Portugal proporcionaram.
Fácil não digo, mas tem sido divertidíssimo trabalhar no Almanaque. :)

Devido ao facto, de ser algo diferente (geralmente vemos, revistas e antologias disto ou daquilo) nós receamos um pouco quanto ao número de submissões e de interessados, receios que foram rapidamente rebatidos pela onda de mobilização de vimos surgir pouco tempo depois da Call for Arms : Almanaque Steampunk.
Por isso, apesar dos nossos receios iniciais, o Almanaque Steampunk segue a todo o vapor para ser uma publicação que se distingue das outras, pela variedade de conteúdos e pelo conceito que procura explorar e divulgar.

U. B. C. -O que mais te fascina no Steampunk?
J. N. L. - Adoro a quase ausência de fronteiras, pois o steampunk é um bocado a exploração de tecnologias que já o foram com o twist que queremos, mas com steam. Claro que é um conceito inserido dentro dos géneros especulativos que todos conhecem melhor (fantástico e ficção-científica), mas aquele toque retro-futurista de máquinas e sociedades que nunca existiram puxa-me mesmo para dentro da história, para o meio da acção. Simplesmente adoro. :)

Fascina-me o visual de tudo o que é steampunk e nos últimos anos apareceram artistas que fazem trabalhos surpreendentes.

U. B. C. -Quais são as tuas referências do género?
J. N. L. - Hmmm, poderia dizer os nomes de autores “clássicos” mas não seria verdade! :)
Como a maioria das pessoas que aprecia o conceito steampunk, também eu comecei por gostar do aspecto de certos filmes e, sim, animes com que me cruzava (entre eles Fullmetal Alchemist, Last Exile, etc). Comecei a pesquisar e como sou uma leitora ávida, em pouco tempo chegaram-me às mãos livros steampunk que me agarraram rapidamente. Posso dizer que as minha referências são Meljean Brook(livros da série The Iron Seas), Hiromu Arakawa(Fullmetal Alchemist), Hayao Myiazaki (Nausicäa, Howl’s Moving Castle), Cherie Priest (Boneshaker) e mais recentemente comecei a explorar as antologias organizadas pelos Vandermeer.

1U. B. C. -A leitura sempre esteve muito presente na tua vida?
J. N. L. - Sim, desde pequenina. Eu desde muito cedo que manifestei um apego imenso aos livros. No Cantos Quebrados, e seguindo uma ideia da White_lady do Blog Este Meu Cantinho, publiquei um artigo em que de uma forma muito franca exponho a minha relação com os livros ao longo do tempo → http://cantosquebrados.blogspot.pt/2011/11/eu-e-os-livros.html

U. B. C. -Quais são as obras literárias que mais te marcaram?
J. N. L. - Os primeiros livros que tenho memória de ler, foram os livros da Enid Blyton dos Cinco e um livro de contos e fábulas que a minha avó tinha guardado da infância do meu pai. Foram marcantes, no sentido de terem sido esses os meus guias e mentores de uma paixão que molda um bocadinho toda a minha vida. :)

Tenho alguns livros que me marcaram muito e que me levaram a conhecer os meus géneros de eleição: Dune de Frank Herbert, O Sillmarillion de Tolkien, Trilogia de Sevenwaters de Juliet Marillier, O Principezinho de Saint-Exupéry, Alice no País das Maravilhas de Carroll e claro Harry Potter de JK Rowling :)

U. B. C. -Que livros gostavas de ver publicados em Portugal?
J. N. L. - A lista que práqui tenho :)
Vou-me cingir a alguns trabalhos steampunk que, devido às minhas explorações nesse campo tenho descoberto verdadeiras pérolas que ficaram por publicar ou se foram publicadas por cá, já foi há muito e não as encontramos disponíveis.

Adorava ver o trabalho da Meljean Brook publicado por terras lusas, ela é a autora da série The Iron Seas, o primeiro livro é o The Iron Duke (inclusive fizemos um episódio dos Diários Steampunk sobre ele). Gostava de ver também o The Difference Engine, de William Gibson e Bruce Sterling (http://www.goodreads.com/book/show/337116.The_Difference_Engine)(que também fizemos um episódio só dedicado a ele); a Steampunk Trilogy de Paul di Filippo (http://www.goodreads.com/book/show/326917.The_Steampunk_Trilogy) e a série steampunk de Cherie Priest, The Clockwork Century (http://www.goodreads.com/series/43930-the-clockwork-century).

Um conceito que já vemos mais em Portugal, e que adoro (pois possibilita-me conhecer novos autores e experimentar as fronteiras das nossas leituras), que é a Antologia. Gostava de ver algumas antologias que existem lá fora, serem traduzidas e publicadas por cá. Nomeadamente as antologias Steampunk organizadas por Ann Vandermeer (http://www.goodreads.com/book/show/2246092.Steampunk?a=5&origin=related_works).

U. B. C. -Com tantos projetos ambiciosos, que desejas vir a alcançar?
J. N. L. - A felicidade e a resposta à pergunta: O que é o Universo, a Vida e tudo. :)

Sinceramente, quando os comecei não pensei em objectivos definidos. A Clockwork Portugal foi criada para dar apoio e preparar caminho para a Euro Steam Con, dando origem a uma plataforma de apoio e organização para futuros eventos e convergência da Comunidade Steampunk.
De resto, os meus objectivos são muito simples: divertir-me, aprender com as pessoas que conheço e claro crescer como blogger e leitora.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Entrevista: Sandra Carvalho


No dia em que Sandra Carvalho comemora o seu aniversário o blog Uma Biblioteca em Construção publica a entrevista que a autora tão gentilmente nos concedeu. Escritora de high fantasy, Sandra Carvalho tem vindo a afirmar o seu lugar na ficção portuguesa através de “A Saga das Pedras Mágicas”, onde narra as aventuras de três gerações de mulheres de uma família que tem vindo a conquistar leitores. Apaixonada pela escrita, nunca imaginou vir a ter um texto publicado, mas a intervenção de quem a ama fez com que começasse a dar os primeiros passos no mundo editorial na coleção Via Láctea, da Editorial Presença.Um grande agradecimento à Sandra pela simpatia, disponibilidade e pelas respostas tão interessantes. Desejos de um aniversário repleto de alegria e de um futuro de sucessos!

Uma Biblioteca em Construção (U.B.C.) - Sei que, no início, tinha receio de ver o seu trabalho avaliado, tanto que nem conseguiu enviar o primeiro manuscrito a uma editora. Pode falar um bocadinho disso?
Sandra Carvalho (S.C.) - Eu comecei a escrever muito cedo, pela necessidade de partilhar as ideias que pululavam na minha cabeça com a minha família e amigos. Durante anos, enchi cadernos com pequenos contos, devaneios, pedaços de sonhos… Também tive sempre curiosidade em pesquisar sobre os assuntos que me apaixonavam, por isso, as minhas histórias eram uma forma de dar a conhecer a realidade de outras culturas àqueles que me são próximos. Ao longo do tempo, a escrita tornou-se um vício, uma necessidade imperiosa, uma imensa satisfação. No entanto, nunca tive a ambição de publicar. Até dizia que esse era o sonho que eu não me atrevia a sonhar! Comecei a devorar livros muito cedo e tinha noção de como era difícil publicar. Para mais, as minhas histórias tinham “ingredientes” de fantasia e, sempre que procurava pelo género nas livrarias, não encontrava autores portugueses. Daí nunca ter pensado muito no assunto. Além disso, como escrevia por impulso, por paixão, a maior parte das histórias tinham princípio, mas não tinham fim. Quando uma nova paixão surgia, a anterior ficava a aguardar por um estímulo que reacendesse a inspiração. Isso irritava os meus amigos, porque se entusiasmavam pelo enredo e acabavam “suspensos”. A Saga ocupou sempre um lugar especial no meu coração, pois era o universo onde me divertia a explorar o meu interesse de infância pelas culturas Celta e Viquingue. Quando terminei aquela que planeava ser a primeira parte da narrativa, entreguei-a ao meu marido. Depois de lê-la, ele nunca mais me deu tréguas, insistindo que enviasse o manuscrito para uma editora. Recusei-me a fazê-lo durante anos! Estava tão apaixonada pelo enredo, os cenários, as personagens, que era como se “esse mundo” já fizesse parte de mim. Logo, se submetesse “o meu mundo” à avaliação de um profissional e recebesse uma crítica negativa, tudo perderia o sentido; seria o fim da paixão, o fim do sonho. Quando percebeu que eu não tencionava fazer nada, o meu marido decidiu informar-se sobre as editoras. A Editorial Presença já publicava a Colecção Via Láctea, dedicada ao Fantástico, e com um autor português, o Filipe Faria, por isso pareceu-lhe a escolha óbvia. Certo dia, chegou a casa com um envelope, pegou no manuscrito e atirou-me um beijo. E foi assim que esta aventura começou!


U.B.C - Recorda a resposta que obteve da Editorial Presença? Quais foram os sentimentos?
S. C. - Quando atendo o telefone e me dizem que a Editorial Presença está interessada no meu projecto, dou por mim sentada no chão, a rir sem controlo ao mesmo tempo que chorava compulsivamente. Foi uma verdadeira explosão de emoções, de tal forma que tive de pedir que me ligassem mais tarde, porque não conseguia falar. Imagino o quanto isto soa estranho… Porém, existem sensações que são impossíveis de descrever por palavras!!! Foi algo realmente extraordinário, único!


U.B.C - Qual é a importância do contacto com os leitores?
S. C. - Eu comecei a escrever para os meus amigos e é isso que continuo a fazer. Os meus leitores são os meus companheiros de aventura; amigos muito especiais que conhecem intimamente o meu coração e a minha alma através das palavras que escrevo. Adoro trocar experiências e emoções e, se alguém se apaixonou pelo universo que criei ao ponto de estar mais de uma hora à espera de falar comigo, eu vou querer saber tudo o que essa pessoa pensou e sentiu quando mergulhou na história. É uma satisfação ouvir alguém dizer que já leu os livros cinco, seis vezes e que continua a descobrir novas sensações a cada leitura. É maravilhoso ter uma família sentada ao meu lado; três gerações a conversarem com o mesmo entusiasmo sobre o universo que criei: a mãe que leu o livro e o recomendou à filha que, por sua vez, ficou tão entusiasmada que o entregou à avó. É um prazer escutar uma jovem mulher dizer que começou a ler a Saga aos treze anos e cresceu com as minhas palavras. Ao longo destes anos divertimo-nos, comovemo-nos, apaixonámo-nos e sonhámos de mãos dadas. Sem os meus companheiros de aventura seria impossível viver este sonho!

U.B.C - Quem acompanha a saga assiste a uma grande evolução na narrativa, quer seja em termos de escrita quer seja em termos de elementos. O tempo e a experiência fazem com que seja mais fácil escrever sobre este mundo?
S. C. - O tempo é um grande professor e a experiência concede-nos ferramentas para superar mais facilmente os obstáculos que vão surgindo. Não é fácil escrever uma história que cruza três gerações. Se, no início, tinha de escrever a pensar no futuro, agora tenho de planear o futuro e recordar o passado para que tudo se conjugue na perfeição. Fico feliz quando me dizem que reconhecem nos últimos livros as consequências dos incidentes ocorridos nos primeiros. Tudo isso é fruto de anos de planeamento. Muitas cenas da Saga tiveram origem em ideias que foram surgindo na minha adolescência, registadas nos caderninhos de que vos falei. Após tantos anos, histórias dispersas, simples devaneios sem nenhuma ligação entre si, acabaram por se encaixar como peças de puzzle no decorrer da narrativa. Os primeiros livros são mais puros porque foram criados para os meus amigos, sem que me passasse pela cabeça que haveriam de ser publicados. Agora existe, obviamente, maior cuidado na apresentação das ideias e na escolha das palavras. Além disso, se pensarmos que a Saga já tem sete volumes e que, em todos eles, existem encontros e desencontros entre as personagens, rituais, aventuras e batalhas, acresce a responsabilidade de imaginar episódios diferentes, únicos, para que todos os instantes resultem numa experiência nova e surpreendente para o leitor.


U.B.C -  Os livros da saga apresentam o endereço do site dedicado à sua obra. Os leitores aproveitam este espaço para entrarem em contacto consigo?
S. C. - Nesse espaço os leitores têm acesso ao meu e-mail: sandracarvalho29@yahoo.com
Usam-no não só para dar a sua opinião, mas muitas vezes para trocar impressões ou pedir esclarecimentos. Desde o início que tento responder pessoalmente a todas as mensagens. Se alguém gostou tanto de um livro que se deu ao trabalho de procurar o endereço do autor para felicitá-lo, o mínimo que esse autor pode fazer é retribuir com um agradecimento! Nos últimos tempos (e felizmente, porque é sinal de que a Saga tem despertado muitas paixões!), tenho recebido tantas solicitações que tem sido difícil manter o correio em dia. Contudo, mesmo que demore um pouco, os meus companheiros de aventura podem contar com uma resposta.
Os dois primeiros livros têm Catelyn como protagonista


U.B.C - A Saga das Pedras Mágicas não estava pensada, inicialmente, para ter sete volumes? O que aconteceu?
S. C. - Na verdade, a Saga foi pensada para seis volumes, dois para cada geração de personagens. Porém, enquanto escrevia as “Lágrimas do Sol e da Lua”, a minha menina guerreira Thora começou a ganhar uma relevância que não estava prevista. Ao refrescar a pesquisa que tinha feito sobre os rituais de iniciação dos jovens viquingues, para fundi-la com o misticismo e o universo da Saga, a imaginação descontrolou-se. Quando dei por mim, tinha mais cenas escritas do que seria possível publicar em dois livros. E todas me encantavam, por isso cortar estava fora de questão. Foi assim que surgiu “O Círculo do Medo”. Thora ensinou-me que, por mais que se planeie todos os passos, existem sempre surpresas ao longo do caminho que nos desviam da intenção original. Ficou, então, decidido que a Saga teria sete livros… Até que, ao elaborar o enredo de “O Filho do Dragão”, achei importante fazer alguma investigação sobre distúrbios mentais, para melhor compor a personalidade do Halvard. E vi-me novamente tão entusiasmada no desenvolvimento da personagem, que se tornou impossível descrever a sua complexidade em poucas linhas. Por isso, foi acordado com a Presença a publicação do oitavo volume da Saga. Em conclusão, esta é a magia do processo criativo! Assim como não se controlam os sonhos, também é impossível colocar rédeas na imaginação quando se escreve com paixão.


U.B.C - O final da saga já está decidido?
S. C. - Quando escrevi a primeira linha da Saga já sabia como desejava que terminasse. Ao longo dos anos, acabaram por surgir surpresas na evolução de algumas personagens e no brilho que estas deram à história. Porém, a essência da narrativa manteve-se fiel ao projecto original e assim será até ao fim.


U.B.C - Os leitores terão de voltar a esperar três anos pelo próximo volume? O final de “O Filho do Dragão” faz ansiar por continuação.
S. C. - Sei que os meus companheiros de aventura estavam habituados a ter um livro novo todos os anos e que se angustiaram com a espera. Mas creio que todos compreendem que não é fácil tecer uma narrativa tão elaborada, sem muita pesquisa e planeamento. Além disso, para quem possui outros compromissos e responsabilidades para além da escrita, por vezes torna-se difícil atender a todas as solicitações. E quando a exaustão nos vence, instala-se o caos!!! O facto de “O Filho do Dragão” estar a ficar demasiado volumoso, não só levou à decisão de publicar um oitavo livro, como aditou a necessidade de rever o que estava feito, o que contribuiu para que a espera se tornasse maior. A boa notícia é que, em todo esse processo, grande parte do oitavo livro ficou delineada. Por isso, como a escrita está a fluir bem, espero terminá-lo antes do fim do ano, para que a Presença possa publicá-lo no início de 2013.

U.B.C -  É possível escolher entre as tramas de Catelyn, Edwina e Kelda?
S. C. - Cada leitor tem a sua narradora preferida e é engraçado verificar que essa escolha acaba por advir da sua própria personalidade. A Catelyn é doce e pura, a Edwina racional e determinada, a Kelda uma guerreira apaixonada. Para mim, as três são especiais. Fizeram-me crescer e aprender, rir e chorar, ter ataques de fúria e indignação, desfrutar de horas intermináveis de prazer. Todas me acompanharam em fases diferentes da vida e acabaram por deixar marcas no meu coração. Todas representaram um desafio diferente e cativante. Todas têm um pouco de mim.

U.B.C -  Qual é o segredo para a construção das personagens?
S. C. - Na Saga, todas as personagens são pensadas como indivíduos com personalidade. O objetivo é fazer com que o leitor fique com a sensação de que está perante homens e mulheres reais; que veja claramente o brilho dos seus olhos, que os oiça a respirar, que inspire o perfume dos seus cabelos e o odor do seu suor. Depois, que sinta a sua alegria, a sua dor, o ciúme e a inveja, a paixão e a motivação que os impele. Acho que o segredo para consegui-lo está na emoção colocada nas palavras. E o autor adquire esse poder quando entra na pele de cada personagem até escutar os seus pensamentos. Há que deslindar como é que alguém, com aquele perfil, reagiria perante determinada situação. Complicado? Não! Torna-se um pouco cansativo, porque as emoções estão sempre ao rubor. Todavia, quando me confronto com o resultado final é imensamente divertido e compensador. Não é à toa que digo que o Halvard me fez cabelos brancos!!! De todas, sem dúvida foi a personagem mais difícil compor. No entanto, já tive a satisfação de escutar a opinião de leitores com formação na área, que me asseguraram que a personagem está perfeitamente construída, muitíssimo bem enquadrada, com um realismo arrepiante. Isso representa uma grande vitória, atendendo não só à agonia que foi submergir na sua loucura, mas, principalmente, porque estava a desbravar trilhos desconhecidos e pantanosos.  

Edwina é a protagonista destes três livros da Saga


U.B.C - As capas da Saga são feitas especialmente para livro. Gosta desse toque especial que conferem à sua obra?
S. C. - As capas da Saga são feitas por um artista que se chama Samuel Santos. No início, uma das questões que coloquei à Presença foi precisamente se o autor da capa se daria ao trabalho de ler a obra. Como leitora, muitas vezes era atraída pela capa de um livro e, ao acabar de lê-lo, ficava frustrada por não encontrar relação entre a obra e a capa. Não desejava que isso acontecesse com a Saga. No entanto, foi-me garantido que o Samuel lia todos os livros sobre os quais trabalhava. E isso deixou-me bastante satisfeita. Sou fã do seu trabalho e tenho vindo a acompanhar com agrado a sua evolução. Inclusive, nos últimos três livros, o Samuel teve a gentileza de aceitar as minhas sugestões, por isso as capas resultam da magia do seu traço inspirada nas minhas descrições, o que as torna muitíssimo especiais para mim.


U.B.C -  É fácil aceitar as opiniões que surgem sobre a saga?
S. C. - Sem dúvida. Felizmente, de acordo com os contactos que mantenho, acho que os meus companheiros de aventura estão bastante satisfeitos com o meu trabalho e reconhecem o esforço que tenho feito para melhorar. É uma felicidade ouvir dizer que a Saga os ajudou a tomar decisões importantes ou a superar uma fase menos boa da vida; que a história os fez sonhar, sorrir, voltar a ganhar coragem para abrir o coração... Todavia, desse orgulho resulta uma enorme responsabilidade, por isso não me esqueço de manter os pés bem assentes na terra. No fim, tenho perfeita noção de que não se pode agradar a todos! Por vezes surge alguém que critica determinada cena por, na sua opinião, ser demasiado violenta ou sensual, ou que se assume descontente com o rumo que certa personagem tomou… Não escrevo para agradar nem para chocar. Escrevo por instinto, pelo prazer de visualizar uma história dentro da mente e dar-lhe vida através das palavras. Acho que o respeito é um valor fundamental e todas as pessoas têm o direito de emitir a sua opinião, desde que o façam com educação. As críticas não me incomodam de todo, se forem construtivas. Afinal, estamos sempre a aprender e a Saga tem sido uma longa caminhada. Se o meu imaginário tem o poder de conduzir os leitores ao comentário e ao debate, só tenho de me alegrar por isso. Mau seria se, ao fecharem os livros, os arrumassem nas prateleiras e se esquecessem deles.


U.B.C - De onde nasce a inspiração para escrever?
S. C. - Eu tive a sorte de nascer em Sesimbra, entre o mar e a Serra da Arrábida. Sou filha de um pescador e de uma contadora de histórias nata. Tive uma infância maravilhosa, a nadar na praia e a correr na serra. Nunca me faltaram livros e brincadeiras. E, graças a Deus, sempre tive alguém por perto para responder à infinidade de perguntas que colocava. Tenho uma curiosidade insaciável e uma imaginação que nunca dorme. Aliás, muitas cenas da Saga são produto de sonhos! No fim, a minha inspiração nasce de toda a minha vivência: de tudo o que aprendi, das músicas que ouvi, dos livros que li, dos filmes que vi, das pessoas que conheci, das emoções que experimentei. O facto de ser bastante tímida tornou-me observadora. E o mundo à nossa volta é uma inesgotável fonte de inspiração.


U.B.C - O que mais lhe agrada em poder partilhar histórias com outras pessoas?
S. C. - A maior satisfação de contar uma história é saber que, durante o tempo em que a partilha se concretiza, as pessoas esquecem a sua realidade, por vezes a sua identidade, e mergulham num universo de sonho e aventura, que se divertem, que se comovem, que vivem intensamente cada cena como se fizessem parte dela. Este ano, na Feira do Livro de Lisboa, uma senhora que acabara de comprar “O Filho do Dragão” teve a gentileza de partilhar a sua experiência comigo. Contou que demorou anos até se decidir a comprar “A Última Feiticeira”. Tinha medo de que a história fosse demasiado infantil e superficial, por estar enquadrada na literatura Fantástica. Contudo, um dia decidiu arriscar… E três dias depois estava a comprar “O Guerreiro Lobo”. Em menos de um mês já tinha lido os seis livros e sofria à espera do sétimo. Terminou a dizer-me: “Obrigada por me relembrares de como é bom sonhar.” Acho que este testemunho é revelador da verdadeira magia da Saga: a partilha de emoções, o prazer de dar e receber.

Os últimos livros sa Saga são narrados por Kelda


U.B.C - O Fantástico é o género de eleição?
S. C. - Enquanto crescia, fui devorando todos os livros a que conseguia deitar a mão. Por isso, habituei-me a apreciar muitos géneros literários. Ao longo dos anos, as histórias que fui escrevendo afloravam diversos temas. No entanto, depressa percebi que o Fantástico me concedia liberdade para explorar, em simultâneo, os mais variados assuntos, sem ter de assumir compromissos históricos ou geográficos. Só para vos dar um exemplo, do mesmo modo que sucederia se estivesse a ler um romance histórico, o leitor da Saga vai conhecer a realidade das culturas Celta e Viquingue, descobrir como esses povos viviam, o que comiam e bebiam, como se vestiam, como eram as suas aldeias, as suas casas, os seus animais; que deuses adoravam, como navegavam, como guerreavam… Contudo, enquanto que num romance histórico o autor teria de se preocupar em situar no mapa o espaço da sua narrativa, saber quais os reis que governavam na época e que batalhas foram travadas, eu pude criar os meus próprios cenários, dar vida aos meus reis e imaginar as suas batalhas. Em suma, a Saga das Pedras Mágicas resulta na fusão de todas as minhas paixões. É um romance onde a dura vivência de dois povos se cruza com a aventura e a comédia, o crime e o terror, a política e a religião, a história e fantasia. Todavia, não fiquem com a ideia de o Fantástico é mais fácil de compor do que outro género literário. Pelo contrário! No que à Saga se refere, enquanto que um escritor de romance histórico se preocupa com os factos e a beleza das palavras, eu tenho igualmente de me preocupar com os factos e a beleza das palavras, ao mesmo tempo que torno a narrativa credível aos olhos do leitor. O maior desafio está em fazer-vos acreditar, ainda que por um momento, que a magia é algo tão real como o ar que respiramos. É um trabalho árduo que deve parecer fácil e fluído aos olhos do leitor, para que tudo resulte na perfeição. Porém, também é muito divertido! Os únicos limites com que um autor de Fantástico se depara são aqueles que a sua imaginação lhe impõe.


U.B.C - Quais são os autores que não consegue deixar de acompanhar?
S. C. - Infelizmente, e com grande vergonha, tenho de confessar que, desde que comecei a publicar, deixei de ter tempo para ler livros que não estejam relacionados com a pesquisa que necessito de fazer para elaborar a Saga. No entanto, quando me perguntam sobre os meus autores de referência, é impossível não falar de Hans Christian Andersen, Enid Blyton, os irmãos Grimm, Edgar Rice Burroughs, Robert Heinlein, Emilio Salgari, Arthur Conan Doyle, Agatha Christie, Edgar Allan Poe, Anne Rice, Tolkien, Juliet Marillier, entre outros. Destaco Marion Zimmer Bladley pela escrita apaixonante e Michael Crichton que, sendo um autor multifacetado, soube combinar prodigiosamente a fantasia e a ciência nas suas obras.


U.B.C - Já existem ideias para novos livros?
S. C. - Os meus queridos caderninhos guardam muitas ideias que, com pesquisa e ponderação, podem conduzir a boas histórias. No entanto, acho que só vou decidir qual será o próximo projecto a abraçar no instante em que escrever a última linha da Saga. Além disso, também existe a possibilidade de, mais tarde, regressar a este universo que me é tão querido. Os leitores pedem-me insistentemente que desvende a sorte de algumas personagens que se foram desviando da narrativa principal. Da mesma forma que desejam conhecer as origens dos Povos da Terra, da Água, do Ar e do Fogo… Veremos!

U.B.C -Que deseja vir ainda a alcançar enquanto autora?
S. C. - Mal comecei, por isso ainda tenho muito que aprender, imenso terreno para explorar e barreiras para ultrapassar. Realizei um sonho que sempre acreditei ser impossível, mas é preciso trabalhar muito, mesmo muito!!!, para que o sonho não feneça. A luta contra o cansaço e a falta de tempo é colossal. No entanto, a paixão pela escrita supera tudo isso! Desde que haja saúde e continue a desfrutar do apoio dos meus companheiros de aventura, o entusiasmo nunca esmorecerá e existirão sempre histórias para contar.



Opiniões:
A Última Feiticeira (primeiro volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
O Guerreiro e o Lobo (segundo volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
Lágrimas do Sol e da Lua (terceiro volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
O Círculo do Medo (quarto volume de "A Saga das Pedras Mágicas")
Os Três Reinos (quinto volume de "A Saga das Pedras Mágicas")

terça-feira, 19 de junho de 2012

Entrevista a Moranius Sinister, de "Senhores da Noite" (Carla Ribeiro)

"E se pudesse entrevistar personagens?" Este pensamento não me largou e fez-me lançar o desafio a Carla Ribeiro, que aceitou com prontidão e simpatia e concedeu-me uma entrevista a Moranius Sinister. 
Quem já teve a oportunidade de ler o livro "Senhores da Noite" sabe que Lorde Sinister é um imortal sedento de poder e capaz de tudo para atingir o objectivo de ser o último da sua condição no mundo. O blog "Uma Biblioteca em Construção" fez-lhe uma estranha proposta e, felizmente, o ex-carrasco do imperador não se mostrou relutante a responder às questões que lhe foram colocadas de um modo inédito. Termino este texto com um profundo agradecimento a Lorde Sinister pela sua disponibilidade para estes assuntos que lhe são alheios e pelo facto de, em nenhum momento, ter feito a entrevistadora sentir a vida ameaçada (Obrigada Carla!).
Boa tarde, Lorde Sinister. Fico muito agradecida por ter aceite este convite. 
Saudações. Não está nos meus hábitos este tipo de interacção com a tua espécie, mas... Pareceste-me interessante, por isso decidi abrir uma excepção.

Fico grata pela gentileza. Pode falar um pouco sobre o que é ser imortal?
Imune ao envelhecimento, imune à doença, imune a todos os ataques de qualquer outro que não os da minha raça... É um mundo de vantagens... excepto se considerarmos o pequeno detalhe de que temos em cada igual um inimigo. Não foi sempre assim, mas no estado actual das coisas... É basicamente viver para sempre sob a sombra da morte.

Como descobriu esta sua condição?
Para os que são como eu, é uma condição natural. Nasci com a imortalidade nas veias, tal como todos os meus ancestrais. Não foi algo que precisasse de descobrir.

Recorda-se da sua primeira morte?
Vagamente. A primeira foi, em muitos aspectos, igual à segunda, à terceira e às seguintes. Foi uma execução e há um ponto em que todas se tornam iguais. Mas, se isso me perturbasse, não teria sido durante tanto tempo o carrasco do imperador.

Qual é a sensação de receber poder de um outro imortal?
É... inebriante. Como se a magia que te passa pelo corpo se enredasse na tua e, depois, se fundissem num todo maior. Não como uma mudança estrondosa, mas como um toque suave capaz de despertar todas as células de um corpo.

Que visão tem dos mortais?
Não conheci muitos mortais que não estivessem abaixo de mim na hierarquia, por isso não lhes dediquei muita atenção. Imagino que tenham as mesmas complexidades que qualquer raça capaz de pensamento e escolha, mas a verdade é que nunca os vi senão como uma força útil, se controlada.

Quais são os valores pelos quais se rege?
Num tempo diferente, falar-te-ia em lealdade, devoção e coragem. Mas não se pode dizer que me tenham servido bem, não é assim? Quando o objectivo é a supremacia e a pena para o fracasso é a extinção, não podem existir esses valores. Importa viver e conquistar, e é apenas isso que me move.

É de conhecimento geral que tem uma relação de intimidade com a imortal Deletress Aventra. O que os une? 
Inimigos comuns, o mesmo objectivo e o conhecimento de que, enquanto houver outros imortais que defrontar, temos a vida facilitada se lutarmos do mesmo lado. Deletress é poderosa... e eu também. Ambos sabemos que o conflito, quando chegar, não vai ser fácil. Podemos deixá-lo para mais tarde.

Quais considera serem as maiores diferenças entre Deletress e a irmã, Arcania?
Arcania é fraca. Oh, não em poder. Se ela conseguiu chegar onde chegou, é porque tem as capacidades necessárias. Mas perde-se na emoção. Não sabe lidar com as perdas e não consegue aceitar que, nesta guerra, todos são inimigos. Essa ingenuidade já a destruiu e voltará a fazê-lo... se eu não o fizer antes.

De que modo pretende conseguir ser o último imortal e o Senhor da Noite?
Da mesma forma que todos os meus adversários: pelo poder e conhecimento que corre nas veias de cada imortal. E que pretendo tomar para mim.

Depois de ter alcançado esse estatuto, que pretende fazer?
Não é evidente? Tomar posse do mundo.

A imortalidade do corpo não é uma realidade que o assusta?
Suponho que possa ser assustador, se considerarmos a imortalidade por si só. Mas não é só isso que define a minha raça. Não somos apenas imunes à morte... Bem, a quase todos os tipos de morte. Também somos fortes e eternamente saudáveis. Não adoecemos. Não envelhecemos. Talvez a eternidade seja muito tempo para viver, mas, quando se têm os meios para a aproveitar, não há inconvenientes.

O que mais o seduz na vida?
A vida em si. Tudo - ou quase tudo - é possível enquanto existirmos. E quando existimos durante muito tempo, as possibilidades tornam-se infinitamente mais vastas.

Acredita numa realidade pós-morte?
Sou imortal. Nunca senti necessidade de pensar nisso.

Quais são as suas atividades preferidas?
Não tenho tempo para grandes actividades de lazer, nas circunstâncias actuais. Algumas horas de sono e a companhia da Deletress bastam-me como pausa para o ritmo incessante da guerra.

Tem alguma obra literária de eleição?
Tenho vindo a descobrir algumas. Aquela humana que vos contou a minha história fez-me chegar alguns dos preferidos dela e tem sido interessante descobrir que coisas lê a vossa espécie. Mas, como disse, não tenho muito tempo para essas coisas. A supremacia chama.

Que pensa de uma suposta sociedade governada por mortais?
Antes da guerra dos imortais, havia humanos em posições de poder e as relações nunca foram assim tão complicadas. Suponho que seria viável, se não existissem forças superiores.

Existe alguma mensagem que queira deixar?
Estejam atentos. Basta um instante para que tudo mude nas vossas vidas.

Agradeço o seu tempo e disponibilidade, Lorde Sinister.
Nada que agradecer. Como disse, és uma humana... interessante.


Nota:
Opinião ao livro "Senhores da Noite" aqui.
Entrevista a Carla Ribeiro aqui.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Entrevista a Vitor Frazão


Licenciado em Arqueologia, Vítor Frazão sempre apreciou escrever. Leitor compulsivo, decidiu criar as suas próprias tramas, sendo “A Vingança do Lobo” o seu primeiro livro publicado. Para contentamento dos fãs, tem criado contos que possuem ação neste mundo de dark fantasy que apresenta como "Crónicas Obscuras". As novidades do autor podem ser acompanhadas no seu blog, que é atualizado com regularidade.
Agradeço ao Vítor a disponibilidade que demonstrou e a simpatia com que respondeu às questões colocadas.

   
Uma Biblioteca em Construção (U.B.C.) - Como é que o arqueólogo se tornou autor de dark fantasy?
Vitor Frazão (V.F.) - A bem dizer, o autor de dark fantasy (ou, pelo menos, o desejo de o ser) já existia muito antes do arqueólogo, simplesmente foi posto de lado durante uns tempo e ainda bem, porque teve oportunidade de crescer.

U.B.C. - A tua formação académica auxiliou na construção do mundo das “Crónicas Obscuras”?
V.F. - Sim, ajudou-me a aperfeiçoar o método de pesquisa e a ter outra percepção dos mitos como produto cultural de determinados factores sociais e geográficos.

U.B.C. - Como foi começar a escrever o primeiro livro?
V.F. - Foi o regresso a algo divertido e familiar. Na adolescência fiz algumas tentativas, até determinadas circunstâncias me levarem a desistir de escrever, mas não de continuar a imaginar histórias. Quando comecei a escrever “A Vingança do Lobo” foi simplesmente uma questão de materializar uma ideia que já tinha (embora, verdade seja dita, muito mudou entre a ideia original e o produto final).

U.B.C. - Porquê uma trama repleta de mitologia e de seres sobrenaturais?
V.F. - Desde miúdo que gosto de mitologia, em particular dos monstros, que sempre me pareceram muito mais interessantes que os heróis. Escrever sobre eles pareceu-me a escolha mais lógia e agrada-me a ideia de, tendo-os como base, poder alargar a temática.

U.B.C. - Terminado o manuscrito, como foi o processo de encontrar editora?
V.F. - Longo e repleto de muitas negas, como mais tarde aprendi que é a norma. Verdade seja dita, por demorado que tenha sido, hoje acredito que devia ter sido um pouco mais paciente.

U.B.C. - Como te sentiste ao ver o livro à venda?
V.F. - Acredites ou não, já não me lembro muito bem. Suponho que na altura tenha sentido algum orgulho desproporcional. Hoje em dia sei que a publicação está para o livro, como a cerimónia para o casamento, é apenas o início, o verdadeiro valor e durabilidade só se revelará depois.

U.B.C. - Como é lidar com as críticas?
V.F. - Quando são justificadas e apontam questões pertinentes, constituem elementos cruciais para evoluir como escritor e contador de histórias. As restantes, produto de mero ódio ou desprovidas de sentido, ignoro. Claro que sou apenas humano e há dias em que as levo mais a peito, mas a vida é precisamente isso, aprender a lidar com o que nos atiram. Se não for capaz de aguentá-las mais vale deixar de escrever.
(2009)

U.B.C. - A “Vingança do Lobo” sugere ser o primeiro livro de uma saga. Já existem sinais de uma continuação?
V.F. - É o primeiro de uma saga e não é. Uma saga implica continuidade e embora existam alguns livros de “Crónicas Obscuras” que podem ser considerados sequelas de “A Vingança do Lobo”, outros passam-se apenas no mesmo universo, sem qualquer ligação à narrativa inicial. Um exemplo disto são a maioria dos contos que tenho vindo a escrever.
Quando à continuação, sim, já estão escritos os três seguintes.

U.B.C. - Esses três livros que estão escritos vão ser publicados pela mesma editora ou estás a procurar outra?
V.F. - Estou à procura de outra. Aliás, é o único motivo pelo qual ainda não foram publicados.

U.B.C. - Quais consideras serem as tuas principais características enquanto autor?
V.F. - Prefiro deixar esse género de avaliação para terceiros. Em traços gerais poderei mencionar o uso de muitas personagens, mudança de narradores e a diluição das linhas entre Bem e Mal, deixando a moral ao critério do leitor. Outros pontos que poderia mencionar entrariam na categoria das características apontadas por terceiros.

U.B.C. - Quais são as principais influências na tua escrita?
V.F. - Terei de dizer, principalmente: série televisiva “ER”, os autores David Gemmell e Lian Hearn, assim como, claro, todos os mitos e lendas a que foi exposto desde infância. Não quero fazer desta resposta um testamento, por isso, se quiserem saber os “porquês” destas influências podem ir ao meu blog ou desafiarem-me a responder nos comentários.

U.B.C. - Que autores não podes deixar de acompanhar?
V.F. - Existem muitos autores dos quais tive um “cheirinho” e mal posso esperar por ler mais, assim como outros que ainda quero experimentar. Agora, acompanhar, no sentido de estar atento às novidades terei de dizer: Juliet Marillier, Neil Gaiman, Stephen King, Pedro Ventura, Peter V. Brett e Joe Abercrombie.

U.B.C. - O blog “Crónicas Obscuras” tem apenas um papel de divulgação?
V.F. - Essencialmente, sim. Divulgação, ajudar a manter o contacto com os leitores e dar informações extra sobre o universo literário de “Crónicas Obscuras”. Houve uma altura em que pensei alargar a temática do blog, porém, achei que ficaria demasiado dispersa.

U.B.C. - Quais são as vantagens das ferramentas online para um autor?
V.F. - Além de uma excelente ferramenta de divulgação, é crucial para aqueles autores que privilegiam uma relação com os fãs.

U.B.C. - Para além da continuação das “Crónicas Obscuras”, já existem ideias para um projeto distinto?
V.F. - Sim, ocasionalmente vou tendo ideias para outros projectos, essencialmente de high fantasy, contudo, como ainda tenho tantas histórias para narrar dentro de “Crónicas Obscuras” e cenários para explorar, tenho-os deixado de parte.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Entrevista a Fábio Ventura

Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Algarve, Fábio Ventura apostou na escrita e já tem dois livros publicados: "Orbias - As Guerreiras da Deusa" (2009), que foi para o mercado quando tinha 23 anos, e "Orbias - O Demónio Branco" (2010). Fã de cinema, séries de televisão, jogos de vídeo e de livros, a inspiração destas atividades é bem visível no seu processo criativo. Consciente da importância das capacidades tecnologias, Fábio fez um trabalho exemplar na divulgação do seu trabalho, quer seja através do blog oficial do mundo Orbias, quer através da página oficial que criou no Facebook.
Um sincero agradecimento ao Fábio pela simpatia e disponibilidade.

Uma Biblioteca em Construção (U. B. C. ) - Neste momento tens dois livros publicados que estão inseridos dentro de uma mesma saga. É a realização de um sonho?
Fábio Ventura (F.V.) - Confesso que não é propriamente a realização de um sonho. Sonho é uma palavra muito forte, pelo menos para mim. Não foi algo que tivesse desejado desde pequeno, mas também não acordei um dia e pensei “Ah, hoje vou ser escritor”. Foi algo ponderado e planeado durante algum tempo, mas ao mesmo tempo algo de que gosto muito que é criar histórias. Creio que o “sonho” está presente na possibilidade de continuar a criar histórias e personagens, seja em livro, filme, serie ou outro suporte.


U. B. C. - Quando começaste a escrever as primeiras linhas que vieram dar origem ao "Orbias", já tinhas em mente que o resultado final iria ser o teu primeiro livro?
F. V. - Não, nem pensar. Sabia que queria escrever um livro, mas não sabia que ia ser aquele o meu primeiro livro. Parti para a história de "Orbias" com algumas ideias gerais da história e das personagens, mas não sabia como ia correr, se ia conseguir terminar. Foi uma espécie de desafio que numa primeira fase até nem foi muito bem sucedido. Isto porque existe uma primeira versão do "Orbias", muito mais fraca, que decidi voltar a pegar 3 anos mais tarde para transformar tudo com vista a um aumento da sua qualidade.


U. B. C. - Lembras-te quando recebeste a notícia de que o "Orbias – As Guerreiras da Deusa" ia ser publicado? Que memórias tens desse momento?
F. V. - Lembro-me muito vagamente. Tinha enviado o livro para uma série de editoras e aguardava respostas de todas elas. Eu sempre tive os pés bem assentes na terra e sabia que a publicação era algo muito difícil. Acaba por funcionar também como forma de defesa relativamente ao lado negativo da vida. Por isso, quando recebi a notícia por mail por parte da Isabel Garcia, da Casa das Letras, tive uma espécie de paragem mental e, minutos mais tarde, desatei a mandar mensagens e a telefonar a pessoas a contar a novidade. Durante algumas semanas, ainda não conseguia assimilar o que me estava a acontecer.


U. B. C. -Como foi o período desde que soubeste que ias ser publicado até ao momento em que viste o "Orbias" nas prateleiras?
F. V. - Costumo fazer a analogia “Fábio no país das maravilhas”, não por ser tudo fabuloso, mas por ser tudo bizarro. Eu fui atirado para o mercado editorial e tive de aprender e assimilar muita coisa muito depressa. No meio de toda a ansiedade, tive várias reuniões com a editora, a escolha da capa, as revisões e o desenvolvimento de toda a divulgação. Quando o livro surgiu nas prateleiras, foi um alívio e uma felicidade, mas ao mesmo tempo significou o início de mais uma dose de trabalho de divulgação.


U. B. C. - Quais pensas serem as tuas principais características enquanto autor?
F. V. - A nível de escrita, só me apercebi das minhas principais características quando comecei a receber feedback dos leitores. Foi graças a eles que percebi que tenho uma grande facilidade nas descrições e a minha escrita é muito sensorial. Além disso, os toques de humor que adiciono às histórias também são bastante apreciados pelos leitores. Por outro lado, enquanto autor, penso que sou muito dinâmico na divulgação dos livros e aprecio bastante a aproximação com os leitores. É uma forma de retribuir o facto de gostarem das minhas histórias, penso eu.


U. B. C. -Quem são as tuas referências literárias?
F. V. - Eu sempre tive uma queda especial por autores que pensam “fora da caixa” e que, através da sua escrita e histórias, conseguem ir mais além e transportar o leitor para outros mundos ao mesmo tempo que o põem a pensar sobre os mais variados aspectos da vida. Actualmente, as minhas grandes referências são o Haruki Murakami, o Anfoso Cruz, o Scott Westerfeld e o George Orwell.

(2009)
U. B. C. -Quem lê o teu trabalho, vê que existem fortes referências à cultura pop. Quais são as tuas principais inspirações?
F. V. - Não tenho inspirações muito específicas, mas o cinema, as séries televisivas, os videojogos e a música têm diferentes contributos quando escrevo. O cinema a nível do poder das imagens e da criação de mundos; as séries a nível do desenvolvimento das personagens e suas relações; os videojogos na interactividade da história com o jogador/leitor; e a música pelas sensações que transmitem. Não posso deixar de referir 3 nomes importantes a nível de inspiração: Tim Burton, Hayo Miyzaki e Hironobu Sakaguchi.


U. B. C. -Achas que a internet ajudou na tua divulgação enquanto autor?
F. V. - A Internet foi (e é) fundamental em todo o processo de divulgação dos livros. Neste momento, é o meio de comunicação com mais utilizadores e grande parte deles pertencem à mesma faixa etária do meu público-alvo. É uma excelente forma de dar a conhecer o meu trabalho, mas também de contactar com os leitores, de ter acesso a algum feedback relativamente aos livros.

U. B. C. - Como lidas com as críticas ao teu trabalho?
F. V. - Confesso que no início não lidava muito bem. Não estava habituado, era o meu primeiro livro e houve algumas críticas muito duras. Ainda por cima, sou daquelas pessoas que pode ter 100 críticas boas, mas só vou ligar a 1, que foi má. Mais tarde comecei a perceber que algumas dessas críticas poderiam ajudar-me. Era a oportunidade perfeita para identificar as minhas falhas e tentar melhorar em futuros livros. Penso que nenhum autor é perfeito, todos somos potenciais em construção.

U. B. C. -Sei que estás a trabalhar numa livraria. Já aconselhaste os teus livros ou já viste alguém a comprar um por iniciativa própria?
F. V. - Nunca aconselhei nem nunca vendi os meus livros. As minhas colegas costumam tratar disso e muito bem. É uma estupidez, mas tenho alguma vergonha de aconselhar os meus próprios livros no local de trabalho, soa a “gabarolas”. No entanto, já aconteceu alguns leitores descobrirem que lá estou ou reconhecerem-me na livraria e aí voltam mais tarde para lhes autografar os livros, o que é fantástico.

U. B. C. -Anunciaste no blog "Orbias" que tens um projeto literário pendente. Achas que o panorama editorial português está a voltar a fechar-se ao autor nacional?
F. V. - O panorama editorial português é mais grave do que se pensa e as editoras neste momento estão demasiado ocupadas a camuflar todos os problemas causados pela crise. Tem sido um desastre a nível de despedimentos, falências, cortes nas publicações e divulgação. Os primeiros a sofrer são autores nacionais porque estatisticamente são os que menos vendem (salvo algumas excepções). Mas não só. Também os autores estrangeiros, tradutores, revisores e até editoras estão com dificuldades. Devido à crise, o leitor-consumidor mudou os seus hábitos e compra menos livros e apenas aqueles que já conhece e com os quais se sente seguro. Nesse contexto, vi o meu novo livro adiado por tempo indeterminado e é possível que nem seja publicado pela mesma editora.

U. B. C. -Continuas a escrever?
F. V. - Neste momento não estou a escrever um livro, mas tenho uma série de ideias anotadas para novos projectos. Tenho aproveitado este tempo para mudar algumas coisas no novo livro, mas também para me virar para novos horizontes, como é a escrita para cinema e/ou televisão.

U. B. C. -Tens participado em várias iniciativas relacionadas com o incentivo à leitura em escolas do Algarve. Como é a aceitação dos alunos às tuas intervenções?
(2010)
F. V. - O trabalho de divulgação em escolas do Algarve (e algumas do Alentejo) tem sido intenso e cansativo. São muitas escolas e muitas sessões em cada uma delas. No entanto, acaba por ser muito compensador contactar directamente com leitores e potenciais leitores, não só porque estou a divulgar o meu trabalho, mas também porque estou a promover a leitura junto de uma faixa etária que ainda lê muito pouco. Penso que no geral, os alunos têm gostado bastante das minhas sessões. Tento torná-las o mais descontraídas possível, quase como uma conversa, e acabo por explicar muitas coisas relacionadas com o mercado editorial. A prova do sucesso junto das escolas são, não só as vendas directas aos alunos, mas também o carinho com que me recebem e me contactam posteriormente.

U. B. C. - E o que é que os teus leitores e fãs podem contar da tua parte para o futuro?
F. V. - Apesar das dificuldades e obstáculos, podem acreditar que não vou ficar parado. Espero continuar a oferecer-vos histórias no futuro, seja em livro ou noutro suporte.